
O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al-Nahyan (MbZ), aceitou um convite dos Estados Unidos para integrar o chamado “Conselho de Paz” do presidente Donald Trump voltado à Faixa de Gaza. O anúncio foi feito em 20 de janeiro pelo Ministério das Relações Exteriores dos Emirados e confirmado pelo primeiro-ministro Abdullah bin Zayed Al-Nahyan. Segundo o governo emiradense, a adesão busca apoiar a implementação integral do plano de 20 pontos apresentado por Washington para o território palestino. A iniciativa é apresentada como um mecanismo de estabilização e reconstrução pós-guerra. Ao mesmo tempo, a decisão ocorre em um contexto de questionamentos internacionais sobre o papel regional dos Emirados em conflitos armados no Oriente Médio e na África. De acordo com o primeiro-ministro Abdullah bin Zayed Al-Nahyan, a participação no conselho reflete a importância de “implementar plenamente” o plano de 20 pontos proposto pelo presidente Donald Trump para Gaza. Em declaração oficial, ele afirmou que a proposta seria “fundamental para a realização dos direitos legítimos do povo palestino”, adotando uma linguagem alinhada à posição de Washington sobre o futuro do enclave. O primeiro-ministro também manifestou confiança na liderança do presidente norte-americano, mencionando como referência os Acordos de Abraão, firmados entre Israel e países árabes com mediação dos EUA. Segundo ele, os Emirados Árabes Unidos estariam “prontos para contribuir ativamente” para a missão do conselho, reforçando o compromisso declarado com iniciativas diplomáticas multilaterais. Em comunicado separado, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados informou que Abu Dhabi atuará no âmbito do conselho para promover “cooperação, estabilidade e prosperidade para todos”. As autoridades não detalharam quais seriam as contribuições práticas do país nem o escopo operacional do conselho anunciado por Washington. Apesar da apresentação oficial como um esforço de paz, analistas e veículos regionais apontam que o novo quadro é liderado pelos Estados Unidos e não inclui, até o momento, mecanismos de responsabilização por ações militares de Israel em Gaza. Essa ausência de referências explícitas a possíveis violações do direito internacional foi mantida nas declarações públicas das autoridades emiradenses. Paralelamente, a adesão dos Emirados ao plano norte-americano ocorre em meio a acusações de que o país segue envolvido, direta ou indiretamente, no apoio a grupos armados em diferentes teatros de conflito. Documentos vazados e imagens citadas por veículos palestinos indicam que os Emirados teriam apoiado gangues armadas na Faixa de Gaza, acusadas de saquear parte da ajuda humanitária que conseguiu entrar no território durante a guerra e a crise alimentar. Entre os grupos mencionados está o Abu Shabab, descrito como tendo recebido armas, veículos com placas emiradenses e suporte midiático coordenado. Segundo fontes citadas pela imprensa palestina, o objetivo dessas ações seria enfraquecer a resistência palestina por meio do fortalecimento de facções armadas rivais dentro do enclave. As críticas à atuação regional de Abu Dhabi também se estendem ao Sudão. O Tribunal Penal Internacional (TPI) alertou que as Forças de Apoio Rápido (RSF), apontadas como apoiadas e armadas pelos Emirados Árabes Unidos, estariam conduzindo uma campanha sistemática de atrocidades em Darfur. Entre os crimes citados pelo TPI estão estupros, execuções, detenções arbitrárias, tortura e assassinatos em massa durante o cerco e a tomada de El-Fasher. Promotores do tribunal informaram que preparam pedidos de mandados de prisão com base em evidências de vídeo, áudio e imagens de satélite. No Iêmen, os Emirados também são associados ao apoio ao Conselho de Transição do Sul (STC). No início de dezembro de 2025, cerca de um mês antes de anunciar sua dissolução, o STC lançou uma ofensiva para consolidar o controle sobre províncias do sul do país, o que provocou ataques aéreos da Arábia Saudita e expôs tensões abertas entre Abu Dhabi e Riade. Posteriormente, os Emirados anunciaram a retirada total de suas forças militares do território iemenita até 2 de janeiro, sob pressão do governo saudita e das autoridades iemenitas. A combinação entre o engajamento diplomático no conselho proposto pelos EUA para Gaza e as acusações envolvendo conflitos em Gaza, Sudão e Iêmen coloca os Emirados Árabes Unidos no centro de um debate internacional sobre coerência entre discurso de paz e práticas de política externa.
