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BBC: Três possíveis desdobramentos da crise em Cuba

O governo estadunidense elevou a pressão contra Cuba após formalizar acusações contra Raúl Castro e ampliar operações militares no Caribe. A movimentação ocorre em meio ao endurecimento do bloqueio econômico imposto por Washington, que provocou apagões, escassez de combustível e redução do acesso a alimentos na ilha. Declarações do presidente estadunidense Donald Trump, de integrantes da Casa Branca e de parlamentares republicanos passaram a alimentar hipóteses sobre intervenção, negociação tutelada ou aprofundamento do colapso econômico cubano.


Muitos exilados cubanos nos EUA esperam a queda do governo de Havana
Muitos exilados cubanos nos EUA esperam a queda do governo de Havana

A acusação formal apresentada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra Raúl Castro, de 94 anos, reacendeu o histórico padrão de intervenção estadunidense na América Latina. Havana passou a ser tratada por setores do governo estadunidense e da imprensa corporativa como possível novo alvo de uma operação de mudança de regime, repetindo métodos utilizados contra governos considerados hostis aos interesses de Washington.


Segundo a acusação, Raúl Castro teria responsabilidade pelo abatimento de duas aeronaves da organização Hermanos al Rescate em 1996, episódio ocorrido quando ocupava o cargo de ministro das Forças Armadas Revolucionárias. O caso deixou quatro mortos. A partir da denúncia, políticos republicanos da Flórida passaram a defender publicamente uma operação para sequestrar o dirigente cubano e levá-lo a território estadunidense.


O senador republicano Rick Scott afirmou que “nenhuma possibilidade” deveria ser descartada. “O mesmo que aconteceu com Maduro deve acontecer com Raúl Castro”, declarou o parlamentar a jornalistas. A fala faz referência direta à operação conduzida por forças estadunidenses na Venezuela em janeiro, quando Nicolás Maduro foi sequestrado e transferido para Nova York sob acusações de narcotráfico e porte de armas.


A comparação também remete à Operação Just Cause, lançada pelos Estados Unidos contra o Panamá em dezembro de 1989. Na ocasião, cerca de 27 mil soldados estadunidenses invadiram o país para derrubar Manuel Noriega, ação que deixou centenas de mortos panamenhos, destruição em bairros populares da Cidade do Panamá e consolidou mais um episódio de ocupação militar direta na América Latina.


Donald Trump evitou responder se prepara uma operação semelhante contra Cuba, mas afirmou nesta semana que “não haverá escalada” porque “o lugar está desmoronando”. A Casa Branca também declarou que não aceitará a existência de um “estado pária” localizado a 144 quilômetros da costa estadunidense, linguagem utilizada historicamente por Washington para justificar intervenções militares, sanções econômicas e operações de desestabilização.


O texto publicado pela BBC aponta três cenários debatidos por autoridades e centros políticos ligados ao governo estadunidense: uma operação para sequestrar Raúl Castro, uma reorganização do governo cubano sob pressão de Washington ou o aprofundamento do colapso econômico da ilha. Nenhum dos cenários considera o fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos desde 1962.


Adam Isacson, integrante do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos, declarou que uma operação para retirar Raúl Castro de Cuba seria “possível”, embora envolvesse riscos. “Seu valor simbólico significa que ele é muito bem protegido, mas certamente é possível”, afirmou. O pesquisador também reconheceu que a retirada de Castro teria impacto limitado sobre a estrutura estatal cubana. “A dinastia da família Castro é influente, mas não central para o que foi construído”, disse.


Michael Shifter, professor da Universidade Georgetown e ex-dirigente do Inter-American Dialogue, afirmou que Washington tenta encontrar em Cuba uma figura equivalente à vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu parte das negociações após o sequestro de Maduro. Segundo ele, o objetivo estadunidense seria manter o aparelho estatal cubano funcionando enquanto impõe reformas econômicas e alinhamento diplomático aos interesses de Washington.


A reportagem informa que Donald Trump declarou em 12 de maio, na rede Truth Social, que “Cuba está pedindo ajuda, e nós vamos conversar”. Dias depois, o diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se com autoridades cubanas, incluindo Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, e o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas.


O secretário de Estado Marco Rubio afirmou a jornalistas na Flórida que o governo estadunidense pretende alcançar um “acordo negociado”. Segundo Rubio, Cuba precisa “tomar uma decisão” porque “o sistema deles simplesmente não funciona”. Entre as exigências discutidas por Washington estariam abertura econômica, entrada de capital estrangeiro ligado a grupos de exilados cubanos e redução da presença de agências russas e chinesas na ilha.


A pressão econômica contra Cuba aumentou nos últimos meses. O texto cita apagões diários de várias horas, escassez de combustível e dificuldades de abastecimento. O governo estadunidense manteve restrições financeiras, limitações comerciais e medidas contra bancos e empresas que operam com Havana, aprofundando o impacto do bloqueio econômico que já dura mais de seis décadas.

Apesar disso, Michael Shifter reconheceu que o Estado cubano continua operando. “É preciso distinguir entre a economia cubana e o Estado cubano”, afirmou. “A economia cubana pode colapsar, e está colapsando, mas o Estado continua funcionando, especialmente no setor de segurança.”


O possível agravamento da crise econômica também preocupa setores do governo estadunidense pelo risco de aumento da migração. Adam Isacson afirmou que um colapso estatal poderia provocar saída em massa de cubanos em direção à Flórida e ao México. “As pessoas provavelmente estão sobrevivendo com 1.000 ou 1.500 calorias por dia e não conseguem acesso básico à saúde”, declarou.


A atual escalada entre Washington e Havana ocorre após anos de endurecimento das sanções econômicas, retomadas durante o primeiro mandato de Donald Trump e ampliadas em 2025. O governo cubano acusa os Estados Unidos de utilizar bloqueio financeiro, isolamento diplomático e campanhas midiáticas para produzir desgaste interno e justificar ingerência externa.


Enquanto setores da extrema-direita cubano-estadunidense em Miami defendem intervenção aberta, o governo cubano denuncia preparação de operações híbridas combinando asfixia econômica, pressão diplomática, guerra informacional e ameaça militar.

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