Da guerra às passarelas: ex-combatentes promovem a reconciliação na Colômbia
- www.jornalclandestino.org

- 13 de abr.
- 3 min de leitura
A ex-combatente Katerine Avella, signatária do acordo de paz colombiano de 2016, vê seu projeto de reintegração ameaçado pelo retorno da violência em Catatumbo. A marca de moda Ixora, criada após o fim do conflito armado com as FARC, entrou em pausa diante de deslocamentos forçados e assassinatos na região. A oficina de costura que sustentava o projeto foi fechada por questões de segurança. Mesmo assim, a iniciativa havia alcançado reconhecimento nacional e internacional desde 2021. Dados e relatos foram divulgados por participantes do projeto e pela Missão de Verificação da ONU na Colômbia.

A trajetória de Avella sintetiza as contradições do processo de paz colombiano, firmado em 2016 após décadas de guerra interna profundamente marcada por interesses geopolíticos, militarização e ingerência externa. Inserida em um programa de reintegração de ex-combatentes, ela passou a trabalhar em uma oficina de costura em Catatumbo, região historicamente disputada por grupos armados e interesses econômicos ligados ao narcotráfico e à exploração territorial.
O espaço, criado como parte dos compromissos do acordo de paz, funcionava como centro de formação e apoio para mulheres ex-combatentes, oferecendo capacitação profissional e estrutura coletiva para reconstrução de suas vidas. Ali, mulheres aprenderam a costurar, compartilhar experiências e enfrentar a violência de gênero, comum em territórios marcados por conflito armado prolongado. A iniciativa também buscava romper ciclos históricos de exclusão social e econômica.
A partir dessa experiência surgiu o coletivo “Stitches for Peace”, que inicialmente produzia peças simples, como moletons e uniformes. Em 2021, o projeto ganhou novo rumo ao estabelecer contato com Lina Garcés, economista formada pela Universidade Externado e proprietária de uma loja de roupas usadas em Cúcuta. Garcés, cuja família havia sido vítima de sequestro durante o conflito, decidiu participar da iniciativa mesmo diante de memórias traumáticas.
Ao visitar Caño Indio, território onde funcionava a oficina, Garcés encontrou condições precárias, com infraestrutura limitada e isolamento geográfico. Ainda assim, destacou o potencial técnico das participantes. “As mulheres tinham uma habilidade impressionante. Quem costurava fez isso com uma precisão incrível; quem cortava tinha o pulso de um profissional”, afirmou. Muitas das habilidades haviam sido adquiridas durante a guerra, quando ex-combatentes precisavam reparar uniformes e equipamentos.
Durante quinze dias de trabalho intensivo, o grupo desenvolveu uma coleção baseada na flor Ixora, símbolo de resistência em Catatumbo. A marca “Ixora, inclusiva e autônoma” foi oficialmente criada no final de 2021, com lançamento realizado na biblioteca Julio Pérez, em Cúcuta, reunindo vítimas do conflito e ex-combatentes na mesma passarela, em um gesto concreto de reconciliação.
O projeto ganhou visibilidade ao participar de eventos como Colombiamoda, principal feira têxtil da Colômbia, em 2022, 2023 e 2024, além de desfiles em cidades como Tibú, Ocaña e Bogotá. As peças passaram a ser comercializadas na loja de Garcés, ampliando o alcance da iniciativa e consolidando a marca como símbolo de reconstrução social.
Em um evento na Feira do Livro de Cúcuta, Garcés relatou publicamente a história de sua família pela primeira vez. "Para mim, hoje são mulheres sensíveis, que querem seguir em frente. Da minha parte, havia perdão; agora quero apoiá-las e mostrar mais pessoas sobre seu trabalho para que possamos viver em paz”, declarou diante do público, enquanto Avella acompanhava em silêncio.
O avanço do projeto foi interrompido em janeiro de 2025, quando a violência voltou a se intensificar em Catatumbo. A região registrou deslocamentos massivos, assassinatos de líderes sociais e ex-combatentes e a expulsão de milhares de famílias de suas casas, refletindo a fragilidade estrutural do acordo de paz e a permanência de disputas armadas no território.
Diante desse cenário, a oficina de costura foi fechada. “As mulheres não queriam voltar por medo”, afirmou Avella, destacando que a prioridade passou a ser a preservação da vida. No mesmo período, a marca Ixora obteve registro oficial junto à Superintendência da Indústria e Comércio da Colômbia, conquista aguardada por meses, mas que não foi celebrada devido ao contexto de insegurança. “Não era a hora. Havia muita incerteza”, disse.
Atualmente, o projeto permanece suspenso, com equipamentos retidos em Caño Indio e as participantes aguardando condições para retomar as atividades em um local mais seguro, possivelmente em área rural de Cúcuta. Paralelamente, Ixora iniciou parceria com a Agência de Reincorporação e Normalização (ARN) para desenvolver ações voltadas ao autocuidado e apoio psicológico a mulheres afetadas pelo conflito.
“Este projeto é um sonho. Além do lado econômico, significa manter nossa associação viva e mostrar que podemos construir algo diferente”, afirmou Avella, enquanto o grupo aguarda condições mínimas de segurança para reativar as máquinas de costura.



































