
MODO DE NAVEGAÇÃO
No emblemático "Dia da Libertação", em 2 de abril de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu ao palanque para anunciar um novo capítulo de agressão econômica: tarifas recíprocas sobre os maiores parceiros comerciais do planeta. Apresentadas sob o velho disfarce de “proteção da indústria nacional”, as medidas reacendem o espírito protecionista que marcou sua primeira passagem pela Casa Branca.
A iniciativa, embora fantasiada de nacionalismo econômico, encontrou resistência imediata dentro e fora do país. Sob pressão do setor privado e diante da fúria internacional, a aplicação das tarifas foi temporariamente suspensa — um intervalo estratégico, não um recuo. Em 9 de abril, Trump anunciou que as sobretaxas acima de 10% seriam adiadas por 90 dias, com uma exceção: a China, alvo fixo de sua retórica combativa.
A maior parte dessas tarifas jamais saiu do papel — uma marca registrada da gestão Trump, sempre mais barulho do que substância. No entanto, o que realmente importa não é o que foi feito, mas o que foi sinalizado: uma guinada radical na política externa comercial dos EUA. A prioridade agora é clara: forçar a presença de produtos americanos a qualquer custo, mesmo que isso signifique transformar antigos parceiros em alvos.
O continente africano, como sempre, foi arrastado para o jogo sem direito a fala. Embora não esteja no centro do embate entre Washington, Pequim e Bruxelas, a África tornou-se um dano colateral da política de guerra tarifária. Pior: foi jogada à margem sob o pretexto de “reequilibrar” a balança comercial, sendo atingida por medidas voltadas a setores estratégicos como o automotivo e o têxtil — justamente onde algumas economias africanas encontraram respiro nos últimos anos.
Embora os EUA ainda mantenham relações comerciais relevantes com diversos países africanos, o continente mal representa 1% do total do comércio americano. E sua participação no déficit comercial dos EUA — estimado em US$ 1 trilhão — é irrisória. Ainda assim, as tarifas foram lançadas como uma espécie de aviso velado: ninguém está a salvo quando a prioridade é "America First", nem mesmo os economicamente irrelevantes.

A ameaça não foi só retórica. Vinte países africanos foram incluídos na famigerada lista de tarifas, alguns com taxas absurdas — como Lesoto (50%) e Madagascar (47%). A África do Sul, por sua vez, recebeu 30% sobre produtos gerais e mais 25% sobre veículos. Ironia: país onde montadoras como Ford, BMW, Toyota e VW investiram pesado, agora penalizado por fazer exatamente o que os EUA sempre incentivaram — abrir-se ao capital estrangeiro e industrializar-se.
Para pequenos países como Lesoto, cuja economia depende da exportação de têxteis aos EUA, as tarifas são um golpe quase fatal. Já Madagascar, outro polo têxtil, foi igualmente atingido em cheio. Enquanto isso, a África do Sul, mesmo sendo o maior parceiro comercial africano dos EUA, foi deliberadamente escolhida como exemplo — talvez para mostrar que nem os “aliados” estão imunes à lógica de submissão imposta por Washington.
Outros países, como Egito, Marrocos e Quênia, receberam penas mais leves — 10%. Coincidência? Difícil acreditar. São nações com vínculos estratégicos com os EUA e economias em crescimento que Washington ainda tenta manter sob controle. Por ora.
Mas o verdadeiro desastre paira sobre a AGOA (Lei de Crescimento e Oportunidades para a África), que oferecia acesso isento de tarifas para uma ampla gama de exportações africanas. Com validade até setembro de 2025, a lei já vinha perdendo relevância desde que os EUA reduziram sua dependência do petróleo africano. Agora, com a postura agressiva de Trump, a renovação da AGOA se torna praticamente impossível — mais um passo na desconstrução silenciosa da política de parceria com o continente.
Como solução, Trump propôs o que soa como piada de mau gosto: realocar a produção para o território americano. Para a União Europeia ou China, isso pode até fazer sentido. Mas para países africanos que exportam basicamente commodities? Uma demanda que não leva em conta a realidade, apenas reafirma o desprezo pela lógica econômica e pelo equilíbrio internacional.
Na prática, o novo regime tarifário de Trump se baseia em afinidades políticas, alinhamento ideológico e — claro — disposição para abrir as pernas aos interesses americanos. Países que oferecem regalias comerciais e favorecem investidores dos EUA podem receber tratamento “especial”. Um exemplo emblemático é o Zimbábue, cujo presidente correu para oferecer isenção de impostos a produtos americanos em uma tentativa desesperada de escapar da lista negra.
Esse novo jogo é tudo, menos justo. Ele é opaco, partidário e escancaradamente manipulado. E, no fim das contas, destrói as pontes que a AGOA tentou construir nas últimas décadas.
Historicamente, os EUA se apresentaram como defensores do livre comércio com a África, desde a Conferência de Berlim (1884) até a Carta do Atlântico (1941). Mas com o avanço da globalização, os papéis se inverteram: de exportadores, os americanos se tornaram compradores. A AGOA foi a tentativa de equilibrar essa nova dependência. Agora, Trump quer reverter tudo isso à força.
O que isso significa para a África? Um convite à reinvenção. Com os EUA fechando as portas, talvez seja hora de o continente voltar-se para si mesmo, fortalecer mercados regionais, e desenvolver modelos industriais próprios. Ainda assim, os desafios persistem: déficits comerciais entre US$ 70 e 100 bilhões por ano, dívida crescente e escassez de moeda. E o mais cruel — falta de crédito e poder de compra para escapar dessa armadilha.
A ilusão de que a África poderia ser a “nova China” está ruindo. Não há sinal de que o continente vá assumir o papel de oficina do mundo. O que resta, portanto, é a aposta no consumo interno — e em uma política que, pela primeira vez, coloque os africanos no centro de suas próprias prioridades. Porque se depender de Trump, o que virá da América não será prosperidade, e sim pressão.
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10 de abril de 2025

































