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Analistas israelenses classificam Netanyahu como um 'fracasso' após rejeição do acordo EUA-Irã

O acordo firmado entre Estados Unidos e Irã sem participação israelense provocou uma onda de críticas contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu na imprensa de Israel. Colunistas e comentaristas políticos classificaram a exclusão de Tel Aviv das negociações como um revés para a estratégia do governo israelense diante das relações entre Washington e Teerã. O episódio ocorreu após o anúncio de um memorando de entendimento negociado entre autoridades estadunidenses e iranianas para encerrar as hostilidades iniciadas em 28 de fevereiro.


Netanyahu I ARQUIVO
Netanyahu I ARQUIVO

Na noite de segunda-feira, Benjamin Netanyahu reconheceu publicamente que desconhecia os termos do memorando negociado entre Washington e Teerã. O primeiro-ministro admitiu que não teve acesso ao conteúdo do documento e confirmou que Israel não participou das negociações que resultaram no acordo.


O memorando foi firmado eletronicamente após negociações conduzidas entre representantes estadunidenses e iranianos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que o acordo já havia sido assinado e afirmou que o Estreito de Ormuz será reaberto integralmente até sexta-feira. Autoridades iranianas informaram que a assinatura formal do documento está prevista para 19 de junho, na Suíça.


O entendimento ocorre após meses de divergências entre Trump e Netanyahu. Nos últimos meses, o presidente estadunidense criticou repetidamente a condução das operações militares israelenses no Líbano e manifestou oposição à continuidade dos ataques conduzidos pelo governo israelense.


Segundo relatos divulgados por veículos de imprensa, Trump descreveu Netanyahu como alguém que “não tem o menor discernimento” ao comentar ataques israelenses realizados durante as negociações com Teerã. Também vieram a público informações sobre uma conversa telefônica realizada em 2 de junho, na qual o presidente estadunidense teria chamado Netanyahu de “completamente louco” e o acusado de ingratidão.


Durante coletiva realizada na segunda-feira, Netanyahu declarou que a ofensiva contra o Irã teria impedido aquilo que definiu como uma ameaça existencial ao Estado israelense. Também admitiu divergências com Trump, afirmando que desacordos políticos “existem até nas melhores famílias”.


As declarações do primeiro-ministro provocaram reações imediatas na imprensa israelense. Em artigo publicado pelo jornal Haaretz, o colunista Yossi Verter atacou a narrativa apresentada por Netanyahu e questionou suas justificativas para a campanha militar contra o Irã.


“Sem vergonha, o arquiteto do fracasso afirmou ter salvado Israel da morte coletiva. Foi mais uma mentira entre muitas”, escreveu Verter.


No texto, o jornalista afirmou que Netanyahu construiu durante décadas um discurso baseado na ameaça nuclear iraniana sem apresentar resultados compatíveis com as promessas feitas à população israelense.


“O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu representa o que qualquer especialista objetivo definiria como um fracasso estratégico colossal para o Estado de Israel, e tudo o que ele tem a dizer aos seus cidadãos é: ‘O Irã nunca terá uma arma nuclear, não enquanto eu for primeiro-ministro’”, escreveu.


Verter destacou ainda que Netanyahu vem repetindo o mesmo argumento há aproximadamente três décadas. Segundo o colunista, a alegação de que Israel esteve próximo de uma “morte em massa” contradiz o discurso sustentado pelo próprio primeiro-ministro ao longo desse período.


O jornalista também chamou atenção para a exclusão de Netanyahu das negociações conduzidas por Washington e Teerã.


“Não tem ideia do que está contido no memorando de entendimento que os EUA e o Irã assinaram digitalmente sem o seu conhecimento. Os iranianos sabem. Os paquistaneses sabem. Presumivelmente, os catarianos sabem. Netanyahu, ao que parece, não sabe.”

Verter contestou ainda declarações do primeiro-ministro sobre o Hezbollah e afirmou que parte dos argumentos utilizados pelo governo israelense não corresponde aos fatos observados durante os confrontos recentes.


Em outro artigo publicado pelo jornal Maariv, o colunista Ben Caspit afirmou que Netanyahu voltou a ser deixado à margem de uma negociação envolvendo diretamente interesses israelenses.


“O show de Netanyahu acabou: Trump o abandonou à própria sorte”, escreveu Caspit no título de sua análise.


O jornalista questionou as declarações do primeiro-ministro sobre o risco de aniquilação e argumentou que o governo israelense tenta utilizar esse discurso para afastar questionamentos sobre sua própria política em relação ao Irã.


“Mais uma vez, Israel ficou de fora”, escreveu.


Caspit também destacou que Netanyahu admitiu desconhecer os termos do acordo firmado eletronicamente entre Washington e Teerã.


“Ele também admitiu que não sabia nada sobre o acordo que foi assinado eletronicamente sem o seu conhecimento”, afirmou o colunista.


Ao abordar o histórico diplomático do primeiro-ministro, Caspit comparou o episódio atual a negociações anteriores conduzidas sem participação israelense e concluiu que Netanyahu termina repetidamente excluído de acordos relacionados ao programa nuclear iraniano.


“Netanyahu sempre acaba na mesma situação. Ele é deixado de lado, jogado aos leões e abandonado no corredor como uma criança repreendida, esperando por um veredicto proferido em sua ausência.”


As críticas também foram reproduzidas pelo comentarista político Barak Seri em análise publicada pelo portal Walla. Segundo ele, o sentimento de vitória cultivado pelo governo israelense após os confrontos transformou-se em preocupação diante do acordo anunciado entre Estados Unidos e Irã.


Seri observou que Netanyahu não concedia entrevistas à imprensa israelense desde março, mesmo após os confrontos envolvendo Irã e Hezbollah e os ataques que atingiram território israelense. Segundo o comentarista, a decisão de convocar uma coletiva ocorreu após a divulgação dos detalhes políticos do entendimento negociado por Washington.


“Mas ontem à noite ele decidiu falar”, escreveu Seri. “O motivo foi o resultado desastroso do acordo com o Irã e a amarga sensação de ansiedade que prevalece em Israel, inclusive entre seus próprios apoiadores.”


O comentarista relatou que integrantes do aparato estatal israelense consideram o acordo prejudicial aos interesses defendidos pelo governo de Tel Aviv. Segundo sua análise, o entendimento foi negociado sem participação israelense e sem incorporar exigências apresentadas pelo gabinete de Netanyahu.


Seri argumentou que os objetivos declarados para a ofensiva contra o Irã não foram alcançados. Entre eles, citou o encerramento do programa nuclear iraniano, a eliminação da capacidade de produção de mísseis balísticos, a mudança de governo em Teerã e o fim do apoio iraniano ao Hezbollah e ao Ansar Allah.


“A dura e humilhante reviravolta de Trump contra Netanyahu e Israel, acompanhada de relatos de conversas difíceis, insultos e ameaças, vazou rapidamente para a mídia”, escreveu.


“Trump submeteu Netanyahu a uma verdadeira humilhação pública.”

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