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Os EUA estão impedindo Israel de ter acesso ao texto do acordo com o Irã antes da assinatura em Genebra

Os Estados Unidos recusaram um pedido de Israel para acessar o texto do memorando de entendimento firmado com o Irã antes de sua assinatura oficial prevista para esta semana em Genebra, na Suíça. A decisão aprofundou divergências entre o presidente estadunidense Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em torno das negociações conduzidas com Teerã e da continuidade das operações militares israelenses no Líbano. O episódio expôs um nível de atrito entre Washington e Tel Aviv em um momento de reconfiguração das relações regionais após meses de confrontos envolvendo Irã, Líbano, Israel e forças militares estadunidenses.


Benjamin Netanyahu, Primeiro-ministro de Israel | ARQUIVO
Benjamin Netanyahu, Primeiro-ministro de Israel | ARQUIVO

A informação foi divulgada pelo Jerusalem Post e confirmada pelo correspondente diplomático da emissora israelense i24NEWS, Guy Azriel. Segundo os relatos, Israel solicitou formalmente acesso ao documento negociado entre Washington e Teerã, mas recebeu uma negativa do governo estadunidense.


“Posso agora confirmar que Israel solicitou formalmente acesso ao memorando de entendimento com o Irã e teve seu pedido negado. Um desenvolvimento notável e altamente incomum entre aliados próximos em uma questão de tamanha importância para a segurança nacional”, escreveu Azriel em suas redes sociais.


O memorando foi mediado pelo Paquistão e assinado eletronicamente pelo presidente estadunidense Donald Trump, pelo vice-presidente JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. O documento estabelece o encerramento do bloqueio naval mantido pelos Estados Unidos e das restrições impostas ao Irã no Estreito de Ormuz em troca do compromisso iraniano de não possuir armas nucleares.


O acordo também abriu um período de 60 dias de negociações sobre o programa nuclear iraniano, mecanismos de redução das tensões regionais e medidas relacionadas ao levantamento de sanções econômicas impostas ao país. A divulgação do entendimento provocou reação dos mercados internacionais. O preço do petróleo caiu para menos de US$ 78 por barril diante da expectativa de ampliação dos fluxos comerciais e energéticos na região.


Governos europeus manifestaram apoio ao entendimento entre Washington e Teerã. Autoridades iranianas declararam que o acordo representa o encerramento das hostilidades entre os dois países. Em contraste, dirigentes israelenses demonstraram preocupação tanto com os termos negociados quanto com a exclusão de Israel das conversações.


As divergências entre Trump e Netanyahu vinham se acumulando nas semanas anteriores ao anúncio do acordo. O principal ponto de atrito envolve a continuidade das operações militares israelenses no Líbano. O governo iraniano condicionou a redução das tensões regionais ao encerramento das ações militares israelenses contra o Hezbollah, organização que mantém presença política e militar no território libanês.


Segundo informações divulgadas por veículos como Axios, Trump e Netanyahu protagonizaram uma conversa telefônica marcada por acusações e confrontos verbais nos dias 1º e 2 de junho, após a intensificação dos bombardeios israelenses no Líbano. De acordo com relatos atribuídos a autoridades estadunidenses que tiveram acesso ao conteúdo da ligação, Trump questionou diretamente as ações conduzidas pelo governo israelense e atribuiu a elas parte do desgaste diplomático enfrentado por Tel Aviv.


Posteriormente, Trump confirmou publicamente seu descontentamento com a situação. Em entrevistas concedidas após o episódio, declarou estar “incomodado” com a continuidade dos confrontos entre Israel e o Líbano e afirmou ter comunicado sua posição a Netanyahu.


Após a conversa, o governo israelense suspendeu ataques previstos para aquele dia. No entanto, uma semana depois, forças israelenses realizaram novos bombardeios contra os subúrbios ao sul de Beirute. A ação foi seguida por disparos de mísseis iranianos contra Israel e por novas críticas públicas do presidente estadunidense dirigidas aos dois lados.


Poucas horas antes da divulgação do memorando entre Estados Unidos e Irã, Israel voltou a realizar ataques contra a capital libanesa. Na ocasião, Trump classificou a resposta do Hezbollah como “pequena e insignificante” e afirmou que ela não justificava novas operações israelenses em meio às negociações conduzidas por Washington.


Durante entrevista coletiva realizada em Jerusalém Ocidental na noite de segunda-feira, Netanyahu admitiu divergências com o presidente estadunidense.


“Ele é o presidente dos Estados Unidos, eu sou o primeiro-ministro de Israel. Muitas vezes concordamos, e há momentos em que concordamos menos. Eu sou responsável pelos interesses de segurança de Israel”, declarou.


Na terça-feira, durante reunião do G7 realizada na França, Trump elevou o tom das críticas ao governo israelense. O presidente estadunidense afirmou que Netanyahu precisava adotar outra postura em relação ao Líbano e declarou não estar satisfeito com a forma como Israel conduziu suas operações contra o Hezbollah.


“Tive um ótimo relacionamento com Bibi, mas agora Bibi precisa ser mais responsável em relação ao Líbano”, afirmou Trump.


“Não estou satisfeito com a forma como Israel lidou com a situação no Líbano e com o Hezbollah. Deveriam ter conseguido resolver a situação mais rapidamente.”


O presidente estadunidense também criticou a destruição provocada pelos bombardeios israelenses.


“Não é preciso demolir um prédio de apartamentos toda vez que se procura alguém, porque há muita gente nesses prédios - e nem todos são do Hezbollah.”


O acordo mediado pelo Paquistão deverá ser formalmente assinado na sexta-feira em Genebra. Embora o texto integral permaneça sob sigilo, autoridades iranianas e paquistanesas informaram que o entendimento prevê o encerramento permanente das hostilidades em todas as frentes envolvidas, incluindo o território libanês.


Apesar disso, Netanyahu declarou que a invasão israelense do sul do Líbano não será interrompida. A posição expõe um ponto de choque entre a estratégia diplomática conduzida por Washington e os objetivos militares defendidos pelo governo israelense.


Em entrevista coletiva realizada na segunda-feira, o primeiro-ministro israelense reconheceu que seu governo não participou das negociações e confirmou não ter acesso ao conteúdo do memorando.


“Não conhecemos os termos.”


“Ainda não sei o que está escrito no acordo.”


Netanyahu acrescentou que Israel foi excluído das negociações, não é signatário do memorando e não está juridicamente vinculado aos compromissos assumidos entre Estados Unidos e Irã.

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