43 versões diferentes: as mentiras de Fl ávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro
Levantamento do Aos Fatos identificou 43 declarações enganosas de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro. A checagem aponta mudanças de versão desde fevereiro de 2026. Mensagens, registros financeiros e documentos da Polícia Federal contradizem parte das negativas apresentadas pelo senador.

O levantamento, publicado pelo Aos Fatos em 24 de setembro, reúne declarações feitas pelo candidato à Presidência pelo PL desde o início das investigações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. A agência identificou cinco estratégias usadas por Flávio para afastar sua imagem do banqueiro: alegar desconhecimento, atribuir o caso ao governo Lula, negar a existência de mensagens, admitir contatos somente após a divulgação dos registros e deslocar o debate para outros personagens do caso.
Antes da segunda prisão de Vorcaro, em março, Flávio já havia tentado associar o escândalo exclusivamente ao governo federal. Em fevereiro, durante entrevista à Jovem Pan, afirmou que as investigações sobre corrupção estavam “causando nojo” e relacionou o caso à administração de Luiz Inácio Lula da Silva. O Aos Fatos registrou, porém, que as apurações alcançavam fatos anteriores ao atual governo e envolviam também servidores do Banco Central indicados durante a gestão de Jair Bolsonaro e integrantes da direção do Banco de Brasília (BRB), nomeados pelo governador Ibaneis Rocha.
A estratégia política ganhou uma fórmula de campanha: “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. O próprio Aos Fatos já havia apontado que a frase não correspondia aos fatos levantados sobre o caso. O escândalo também atingiu governos estaduais, com recursos previdenciários aplicados no Banco Master por administrações do Rio de Janeiro, Amazonas e Amapá, além de outras frentes de investigação relacionadas à instituição.
Em março, após a divulgação de que o número de Flávio aparecia na agenda telefônica de Vorcaro, o senador afirmou que não conhecia o banqueiro. Em maio, entretanto, mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostraram uma relação direta entre os dois. Nos diálogos, Flávio se refere a Vorcaro como “irmão” e “irmãozão”, enquanto outras mensagens registram pedidos e negociações relacionados ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
Em 13 de maio, o Intercept Brasil publicou mensagens e áudios indicando que Flávio havia negociado com Vorcaro um compromisso de repasse de US$ 24 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 134 milhões nas cotações consideradas na negociação, para financiar “Dark Horse”. Antes da publicação, questionado sobre os pagamentos, Flávio riu, chamou o repórter de “militante” e afirmou: “É mentira, pelo amor de Deus, de onde você tirou isso?”.
Horas depois, o senador publicou um vídeo confirmando que as mensagens eram verdadeiras. A partir daí, mudou a formulação: passou a sustentar que havia procurado investimento privado para o filme e que as conversas não demonstravam qualquer irregularidade. O Intercept informou que documentos obtidos pelo veículo indicavam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões nas cotaç ões das respectivas transferências, haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.

A investigação sobre a origem e a destinação dos recursos acrescentou outra frente ao caso. A Polícia Federal apura se parte do dinheiro destinado a “Dark Horse” custeou despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documentos também indicaram que Eduardo atuou como produtor-executivo e tinha responsabilidades sobre a gestão financeira do projeto.
As mensagens também registraram uma relação pessoal que contrariava a tentativa de minimizar os contatos. Em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. A mensagem foi enviada um dia antes da prisão de Vorcaro, segundo o Intercept.
Em 19 de maio, Flávio prometeu apresentar uma prestação de contas dos gastos de “Dark Horse”. O documento apresentado posteriormente pela produtora foi elaborado por um perito contratado e apontou que mais de 70% dos R$ 75 milhões contabilizados na produção foram gastos nos Estados Unidos: R$ 54 milhões, aproximadamente. A perícia foi entregue em junho à Polícia Civil de São Paulo, mas o material não detalhou os investidores responsáveis pelo aporte identificado como origem dos recursos.
A limitação da documentação tornou-se parte da disputa pública sobre a prestação de contas. A maior parcela dos gastos ocorreu nos Estados Unidos, enquanto Flávio passou a utilizar a perícia como elemento para sustentar que não havia dinheiro público no filme. A apuração sobre a origem dos recursos, contudo, permaneceu separada da conclusão contábil apresentada pela produtora.
Nas semanas seguintes, Flávio passou a deslocar o foco para o ministro Alexandre de Moraes. Em declarações e atos políticos, associou o voto em Lula ao apoio ao ministro do Supremo Tribunal Federal, enquanto as investigações sobre Vorcaro continuavam produzindo novos documentos. O Aos Fatos registrou a associação como uma das estratégias utilizadas pelo candidato para afastar o debate de sua relação com o ex-banqueiro.
O discurso também alcançou outros ministros do STF. Flávio passou a mencionar contatos de Vorcaro com integrantes da Corte, entre eles André Mendonça e Nunes Marques, ambos indicados por Jair Bolsonaro. O material divulgado no caso Master também passou a ser utilizado na disputa política em torno de Moraes e de outros integrantes do Supremo.
Outra contradição surgiu em setembro. Flávio criticou Moraes por ter viajado em uma aeronave ligada a Vorcaro, mas documentos e reportagens divulgados em 23 e 24 de setembro mostraram que o próprio senador havia utilizado o mesmo jato em janeiro de 2025, em uma viagem dos Estados Unidos para o Brasil, acompanhado da família e do advogado Willer Tomaz.
A aeronave tinha entre seus cotistas a Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio e que detinha um terço das cotas do avião. Flávio contestou a ligação e afirmou que a aeronave era de Willer Tomaz, mas registros sobre a composição societária do jato apontaram a participação da empresa vinculada ao ex-banqueiro.
Também houve divergência sobre a data do último repasse de Vorcaro para “Dark Horse”. Flávio afirmou que a última transferência havia ocorrido em maio de 2025, mas relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), divulgado pela Revista Piauí, registrou uma transferência em 16 de setembro daquele ano. O dado foi incorporado pelo Aos Fatos ao levantamento das declarações consideradas enganosas.
Outro episódio envolveu uma fotografia de Flávio ao lado de Sicário, apontado em reportagens como mercenário ligado a Vorcaro. Em julho, o senador afirmou que a imagem havia sido produzida por inteligência artificial, sem apresentar evidências que sustentassem essa versão, segundo o Aos Fatos.
Flávio também afirmou em diferentes ocasiões apoiar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master. O levantamento do Aos Fatos apontou, porém, que o senador havia assinado dois dos cinco requerimentos de CPI que poderia subscrever.
Documentos da Polícia Federal divulgados em setembro acrescentaram registros de contatos telefônicos entre Flávio e Vorcaro nos quatro dias anteriores à primeira prisão do banqueiro, reforçando a existência de comunicação entre os dois antes da detenção. O Aos Fatos também informou que a polícia suspeita que a troca de mensagens entre ambos tenha começado em dezembro de 2024.
O levantamento do Aos Fatos foi elaborado a partir de declarações públicas de Flávio, organizadas em ordem cronológica e confrontadas com documentos públicos, mensagens, registros financeiros e reportagens. A agência informou que procurou a assessoria de imprensa do senador em 24 de setembro para obter posicionamento sobre as informações apresentadas.
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