Lula defende fim das bets, rejeita classificação de facções como terroristas e propõe mudanças no STF
O presidente Lula defendeu o fechamento das plataformas de apostas on-line, rejeitou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e propôs mudanças na composição do Supremo Tribunal Federal (STF). As declarações foram feitas em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, gravada em 27 de setembro de 2026, no Palácio da Alvorada, em Brasília, uma semana antes do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro. Lula também abordou a política de segurança pública, as relações com o governo de Donald Trump, a Previdência Social, o Bolsa Família e a tributação dos mais ricos.

Em relação às apostas on-line, Lula afirmou que a decisão de encerrar as atividades das plataformas, anunciada em 25 de setembro, decorre do fracasso da tentativa de regulamentar o setor, iniciada no começo de seu terceiro mandato. O presidente explicou que o governo havia estabelecido a regulamentação como primeira medida, mas decidiu proibir as operações diante dos resultados obtidos.
“Desde o começo nós falamos: ‘Nós vamos tentar regulamentar a bet. Agora, se não der certo, eu vou fechar a bet’. Foi regulamentado, mas não deu certo”, declarou.
Lula classificou a dependência em apostas como uma questão de saúde pública e afirmou que a ludopatia é “uma doença provada pelo Ministério da Saúde”. O presidente justificou a decisão de encerrar as atividades das plataformas com os efeitos do endividamento sobre as famílias brasileiras. “Eu não vou permitir que as mulheres e os homens gastem o dinheiro da comida das crianças jogando”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Eu resolvi acabar, porque senão a bet acaba com o Brasil”.
O presidente também informou que o governo já retirou do ar mais de mil sites ilegais de apostas. Segundo ele, algumas operadoras tentam continuar funcionando a partir de Portugal para escapar da fiscalização brasileira, recorrendo a estruturas internacionais para manter suas atividades.
Lula também criticou a dependência financeira dos clubes de futebol em relação aos patrocínios das empresas de apostas. Para o presidente, não cabe à população de baixa renda sustentar financeiramente as equipes por meio do dinheiro destinado às apostas. “Eu não vou permitir que o povo pobre seja responsável por segurar a luxúria dos clubes. O torcedor já compra camisa, já vai ao estádio, ele ainda tem que jogar para a bet financiar o clube?”, questionou. Ele lembrou que a seleção brasileira conquistou cinco títulos mundiais antes da expansão desse mercado: “O futebol foi pentacampeão mundial sem bet”.
Na área de segurança pública, Lula rejeitou a proposta do governo de Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O presidente contestou a aplicação dessa categoria às facções brasileiras e relacionou a iniciativa estadunidense à possibilidade de interferência na política interna do Brasil.
“É o terrorismo do Trump. É o terrorismo de Estado. É o terrorismo do cara que quer derrubar o governo, é o terrorismo do cara que quer derrubar o Estado”, declarou.
Lula distinguiu a violência praticada pelas organizações criminosas do terrorismo de natureza política e descreveu os efeitos da atuação das facções sobre a população. “Não é terrorismo no conceito político. […] O terrorismo que ocupa a favela, que ocupa a rua, que ocupa a escola, que ocupa a padaria, que ocupa o campo de futebol. Que não deixa a sociedade viver livremente”, afirmou.
No início de setembro, Trump declarou que o Brasil falhava no combate ao crime organizado e às facções PCC e CV, que seu governo classificou como organizações terroristas. A iniciativa provocou questionamentos sobre as possíveis consequências da adoção dessa classificação nas relações entre os dois países.
Em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a analista internacional Amanda Harumy afirmou que a iniciativa estadunidense poderia ser utilizada para pressionar o governo brasileiro e abrir espaço para uma intervenção. “Ela busca tensionar o debate no Brasil, reforçando a classificação das facções como terroristas, e abrir caminho para uma possível intervenção mais direta e aí sim militar”, declarou.
Questionado sobre a possibilidade de uma ação estadunidense contra o Brasil semelhante à ocorrida na Venezuela, Lula afirmou manter uma relação pessoal positiva com Trump. O presidente atribuiu os atritos diplomáticos ao secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, e disse que o Brasil poderá recorrer à Lei da Reciprocidade caso as negociações comerciais não avancem.
Ao comentar as tarifas impostas pelos Estados Unidos, Lula afirmou que o Brasil ampliou suas exportações para outros mercados e rejeitou uma postura de submissão diante das medidas comerciais de Washington. “Eu não sou aquele vira-lata que fica chorando”, declarou.
Na segurança pública, o presidente também defendeu uma estratégia de combate às estruturas financeiras das organizações criminosas, com foco nos recursos utilizados para sustentar suas atividades e nas pessoas que financiam esses grupos. Lula afirmou que a atuação do governo deve alcançar tanto os integrantes que operam nas ruas quanto os responsáveis pela movimentação de recursos.
“Nós queremos asfixiar economicamente o crime organizado. […] E depois a gente quer atacar o andar de cima”, afirmou. Ao explicar a estratégia, acrescentou: “Os bacanas estão no andar de cima, estão na cobertura, estão nos condomínios”.
O presidente também criticou as operações policiais com resultado letal, mencionando a atuação das forças de segurança no Rio de Janeiro. Para Lula, a quantidade de mortes em operações não representa, por si só, um resultado efetivo no combate ao crime organizado.
“É muito fácil matar. […] O governador até pega popularidade naquela semana, mas aquilo não dá resultado”, declarou, em referência às ações policiais letais e à repercussão política dessas operações.
Entre as medidas anunciadas, Lula prometeu criar o Ministério da Segurança Pública após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A proposta também inclui a transformação de unidades prisionais em estabelecimentos de segurança máxima e a criação de uma força nacional permanente.
A formação dessa força, conforme explicou o presidente, deverá aproveitar jovens dispensados após o cumprimento do serviço militar temporário, incorporando-os a uma estrutura nacional de atuação na segurança pública.
Ao abordar o déficit da Previdência Social e o equilíbrio das contas públicas, Lula descartou a possibilidade de reduzir os benefícios destinados à população de baixa renda. O presidente defendeu que o ajuste fiscal não seja realizado por meio de cortes nos programas sociais e propôs ampliar a contribuição dos setores mais ricos para financiar as políticas públicas.
“Só não me peçam para cortar benefício do povo pobre, que vai ser mantido”, afirmou. Em seguida, defendeu mudanças na distribuição da carga tributária: “Vai ter que cobrar dos mais ricos, para a gente poder ajudar os mais pobres, gerar empregos, melhorar a qualidade do salário”.
Lula também defendeu a criação de mecanismos de remuneração para mulheres que exercem atividades de cuidado, incluindo mães de pessoas com deficiência e outras mães atípicas. Uma das possibilidades mencionadas pelo presidente é incluir esse público no Benefício de Prestação Continuada (BPC), programa destinado a pessoas que atendem aos critérios legais de acesso.
A entrevista também abordou o reajuste do Bolsa Família, anunciado 17 dias antes do primeiro turno das eleições. Questionado pelos entrevistadores sobre a semelhança entre a medida e o aumento do Auxílio Brasil promovido em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, Lula defendeu a recomposição dos valores dos benefícios diante da inflação.
“Todo e qualquer reajuste que envolve salário e as pessoas mais pobres têm direito à reposição inflacionária. Isso não é aumento. Isso é reposição daquilo que a inflação comeu”, declarou.
O presidente atribuiu o reajuste à disponibilidade de recursos no orçamento federal e mencionou a previsão de superávit de 0,1% nas contas públicas. Lula utilizou essa projeção para justificar a possibilidade de elevar os valores do programa sem recorrer a cortes nos benefícios sociais.
Na entrevista, Lula também defendeu mudanças no processo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo a adoção de mandatos fixos e a criação de um conselho de notáveis para participar da avaliação dos indicados à Corte.
A proposta prevê a participação de instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as centrais sindicais e as organizações empresariais. O colegiado teria a função de participar da avaliação prévia dos nomes indicados para o tribunal, alterando o modelo atual de escolha.
Ao justificar a necessidade de mudanças, Lula criticou a concentração de poder nas mãos dos ministros após a posse e questionou a relação entre o exercício da magistratura e a responsabilização dos integrantes da Corte.
“Uma coisa é quando você indica. Outra coisa é quando bota a toga. Quando o cara coloca a toga, ele vira Deus”, afirmou.
O presidente também defendeu a investigação das denúncias envolvendo integrantes do STF e mencionou nominalmente os ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça e Luiz Fux. Lula afirmou que eventuais irregularidades devem ser apuradas, independentemente do cargo ocupado pelos envolvidos.
“Se for verdade, todo mundo tem que ser apurado, tem que ser punido pelo crime que cometeu”, declarou.
Lula também questionou a compatibilidade entre a remuneração dos ministros e o eventual enriquecimento decorrente de suas atividades. Ao abordar o tema, mencionou o salário mensal de R$ 43 mil e defendeu que a função exercida pelos integrantes da Corte seja acompanhada de mecanismos de responsabilização.
“Um ministro não pode querer ficar rico. É incompatível a função de quem recebe R$ 43 mil e fica rico”, afirmou.
As publicações assinadas por "Clandestino" podem incluir artigos "anônimos", traduções ou repostagens de outros sites, de acordo com as licenças de direitos autorais Creative Commons 4.0.














