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Crônica de Natal - por Camille Borges

Quando eu era criança, não conseguia compreender a tristeza no olhar de minha mãe quando ela esquecia a salada de Natal. Eu via aquele olhar, daquela mulher que deixava um prato na geladeira ou no forno. Saía apressada, com a sacola de presentes, mas faltava a comida.


Quando ela chegava à casa de minha avó, a sensação de derrota surgia: “Como pude esquecer o prato que me comprometi a fazer?” Aquela aflição não me tocava; pra quê tanta preocupação? Já tínhamos uma mesa repleta de guloseimas que todas as minhas tias Marias prepararam.


Mas havia a ausência da salada de uma Maria.


Em algumas cenas da minha vaga lembrança, recordo da minha Maria retornando para buscar aquelas folhas temperadas esquecidas. Em outros eventos, não havia o que pudesse ser feito. Era preciso lidar com a frustração, como o choro de criança que os adultos mandam engolir. A salada ficava para o outro dia.


Só fui capaz de compreender o peso daquele esquecimento quando já era adulta, no dia em que ouvi uma história sobre minha tia Maria. Dias antes de fazer uma cirurgia, Maria saiu para ir ao mercado; precisava deixar a casa pronta, com a geladeira repleta de guloseimas para os netos e um bolo de fubá posto ali na mesa, caso alguém viesse visitá-la em seu pós-operatório. Maria, que não sabia da potência do bisturi atravessando sua carne, estava cuidando de todos antes de cuidar de si.


O peso de esquecer a salada de Natal não representava um prato indispensável naquela mesa; significava a ausência de um elogio, um agradecimento, não ouvir, quem sabe pela única vez no ano: “Que delícia esse prato que você preparou.” Pois, mesmo que Maria cozinhe todos os dias, os elogios ficam só para o Natal.



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