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Décadas de guerra deixaram um rastro de trauma "profundo e abrangente" no Afeganistão

3 de set.
3 min de leitura

Mais de 40 anos de guerra deixaram no Afeganistão mortes, deslocamentos e destruição, com efeitos que continuam atingindo vítimas e familiares. Entre 2009 e 2021, a UNAMA registrou mais de 40 mil civis mortos e 77 mil feridos. Um relatório da missão da ONU aponta que danos físicos, psicológicos, sociais e econômicos permanecem sem reparação para parte das vítimas.


© Hector Retamal/AFP via Getty Images/AFP
© Hector Retamal/AFP via Getty Images/AFP

O levantamento entrevistou quase 200 vítimas do conflito armado e familiares sobre o período encerrado com a tomada do poder pelo Talibã em 2021. A documentação da UNAMA registra que os combates envolvendo forças governamentais apoiadas pela coalizão, o Talibã e outros grupos armados produziram milhares de mortes e ferimentos entre 2009 e 2021.


O relatório mostra que os efeitos do conflito não terminaram com o fim das operações militares e a mudança de poder em 2021. Para pessoas atingidas pela violência, os danos continuam associados à saúde, à educação, ao trabalho, à renda familiar e ao acesso a mecanismos de justiça.


Entre os entrevistados, 95% relataram danos emocionais ou psicológicos. Os depoimentos registraram depressão, ansiedade, perda de memória, flashbacks e outros sintomas relacionados aos traumas provocados pela violência.


Quase 60% das pessoas ouvidas também sofreram danos físicos. Em parte dos casos, as lesões continuaram produzindo efeitos durante meses, anos ou décadas depois dos acontecimentos que as provocaram.


Algumas vítimas permanecem com dores crônicas e deficiências que encontram dificuldades de tratamento por causa de barreiras financeiras e da falta de acesso a serviços de saúde no Afeganistão. Os problemas de saúde também produziram consequências sobre a capacidade de estudar e trabalhar.


O relatório registra casos em que ferimentos impediram vítimas de continuar os estudos ou exercer atividades profissionais. As consequências econômicas atingiram também familiares que precisaram abandonar o trabalho ou a educação para prestar cuidados às pessoas feridas.


Entre as mulheres que ficaram viúvas em decorrência do conflito, a situação econômica apresenta outro obstáculo. As restrições impostas pelas autoridades de facto do Afeganistão limitam o acesso dessas mulheres ao emprego, reduzindo as possibilidades de obtenção de renda após a perda dos responsáveis pelo sustento familiar.


O acesso à justiça permanece limitado. Mais da metade das pessoas entrevistadas, 55%, afirmou nunca ter tentado obter indenização ou outra forma de reparação.


A decisão de não buscar reparação esteve relacionada à percepção de que as reivindicações não seriam levadas a sério e ao temor de possíveis represálias. O dado expõe uma situação em que parte das vítimas permanece afastada dos mecanismos institucionais destinados a reconhecer e reparar os danos sofridos.


Entre as pessoas que tentaram buscar algum tipo de reparação, 64% afirmaram que os esforços não produziram resultados. Os obstáculos mencionados incluíram burocracia, ausência de resposta, percepção de discriminação e falta de transparência nas relações com autoridades ou instituições.


Quando questionadas sobre suas necessidades, 81% das vítimas apontaram a compensação financeira. O acesso à justiça foi citado por 48%, enquanto 47% indicaram garantias de segurança pessoal.


A UNAMA afirmou que os depoimentos revelam a dimensão dos efeitos que permanecem na sociedade afegã. “As entrevistas que realizamos destacam a profundidade e a abrangência do trauma coletivo que persiste na sociedade afegã”, disse Georgette Gagnon, funcionária da missão da ONU.


Gagnon também afirmou que o atendimento às necessidades das vítimas passa pelo reconhecimento dos danos e pela participação delas nas decisões relacionadas aos seus direitos. “A chave para atender às necessidades das vítimas é o reconhecimento do dano causado e um compromisso genuíno em colocar as vozes e os direitos das vítimas no centro das atenções”, declarou.

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