EUA tentam retomar negociações entre Rússia e Ucrânia
Os Estados Unidos trabalham para organizar uma nova rodada de negociações entre Rússia e Ucrânia, com possível encontro trilateral nos Emirados Árabes Unidos. Kiev e Moscou confirmaram nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, que Washington apresentou a proposta para uma reunião em nível técnico. A iniciativa ocorre enquanto ataques russos e ucranianos continuam e os esforços diplomáticos estadunidenses avançam após meses de impasses.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou que Washington propôs uma reunião em formato trilateral entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia. “O lado americano propôs uma reunião em nível técnico em formato tripartite”, declarou a jornalistas. Zelenskyy acrescentou que Kiev aguarda uma proposta estadunidense sobre a data e informou que os Emirados Árabes Unidos foram indicados como possível sede.
O Kremlin confirmou que uma reunião entre os três países poderá ocorrer em breve. O porta-voz Dmitry Peskov, porém, afirmou que não havia informações adicionais a apresentar naquele momento sobre formato, data ou participantes.
A retomada das negociações ocorre depois de contatos conduzidos por representantes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com autoridades russas e ucranianas. Os enviados estadunidenses Steve Witkoff e Jared Kushner viajaram à Rússia e à Ucrânia no início de setembro para tentar reativar os esforços diplomáticos em torno de um cessar-fogo.
Os contatos haviam começado no início de 2026, mas perderam força enquanto Washington passou a concentrar parte de sua política externa no confronto com o Irã. A nova iniciativa diplomática ocorre, portanto, enquanto as operações militares continuam e Moscou e Kiev mantêm ataques contra alvos em seus respectivos territórios.
A posição estadunidense nas negociações já havia provocado críticas em razão das condições atribuídas a Moscou. A Rússia tem defendido que qualquer acordo envolva concessões territoriais por parte da Ucrânia, desmilitarização do país e abandono da perspectiva de ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Em 24 de setembro, o enviado presidencial russo Kirill Dmitriev teria se reunido nos Estados Unidos com Witkoff e Kushner. De acordo com Peskov, as conversas trataram de uma possível cooperação econômica entre Moscou e Washington.
Enquanto os canais diplomáticos são reabertos, os ataques continuam. Zelenskyy afirmou nesta sexta-feira que oito regiões ucranianas haviam sido atingidas pelas forças russas desde o início do dia, em uma nova sequência de ataques que mantém a pressão sobre a infraestrutura e a defesa aérea de Kiev.
Na noite anterior, ataques russos atingiram diferentes áreas da Ucrânia e deixaram oito mortos, segundo autoridades ucranianas. Na região de Kharkiv, seis pessoas morreram e oito ficaram feridas após um ataque contra uma fazenda, enquanto dois mortos foram registrados em Kiev, incluindo uma vítima em um estacionamento de hospital-maternidade atingido durante os ataques.
A ofensiva registrada em 24 de setembro envolveu, segundo a Força Aérea ucraniana, 282 drones, além de mísseis hipersônicos e balísticos. O Ministério da Defesa russo afirmou que seus ataques tiveram como alvos instalações de defesa, centros logísticos e de telecomunicações e uma embarcação no Mar Negro que, segundo Moscou, transportava combustível e lubrificantes para a Ucrânia.
Zelenskyy também afirmou que Donald Trump lhe comunicou que a Ucrânia receberá autorização para produzir mísseis interceptadores do sistema Patriot. Kiev busca ampliar sua capacidade de defesa aérea diante do aumento dos ataques russos, mas a eventual autorização não produziria novos sistemas de imediato.
Caso a licença seja concedida, a produção e a entrada em operação de novos sistemas Patriot levariam mais de um ano, mantendo a Ucrânia dependente de equipamentos fornecidos por outros países durante esse período. Zelenskyy está nos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas e tem utilizado os encontros diplomáticos em Nova York para solicitar novos recursos militares e financeiros.
“Nos últimos dias, durante nossas reuniões, a Ucrânia informou abertamente aos nossos parceiros: a Rússia só intensificará as hostilidades com a aproximação do inverno, a menos que haja pressão”, escreveu Zelenskyy na sexta-feira. “Para que a diplomacia funcione, as sanções dos EUA devem ser implementadas e as sanções europeias devem ser reforçadas.”
Kiev também mantém conversas com representantes da União Europeia sobre a necessidade de acelerar o financiamento destinado às suas forças armadas. Autoridades ucranianas alertam para o risco de escassez de mísseis e drones no início de 2027, enquanto os ataques aéreos continuam.
Moscou e Kiev também seguem realizando ataques noturnos contra alvos no território adversário. Em Kiev, um ataque atingiu um edifício de 16 andares no distrito de Pechersk, na região central da capital, matando um menino de 14 anos e ferindo pelo menos outras sete pessoas.
Na região de Odessa, o governador Oleh Kiper informou que uma pessoa morreu e outra ficou ferida durante ataques russos contra uma área residencial e instalações logísticas de uma empresa de correios. As autoridades ucranianas classificaram os ataques como uma sequência de bombardeios russos contra a região.
Do lado russo, as autoridades afirmaram que sistemas de defesa aérea destruíram cerca de 50 drones sobre a região de Rostov durante a noite. Um ataque também atingiu a refinaria de petróleo de Novoshakhtinsk, levando à suspensão das operações da instalação, segundo autoridades russas.
A Ucrânia também vem atacando instalações de energia e petróleo em território russo. Zelenskyy afirmou que duas refinarias nas regiões de Moscou e Yaroslavl haviam sido atacadas recentemente e declarou que instalações no Bascortostão e na região de Samara também foram atingidas nas 24 horas anteriores.
Os ataques contra instalações energéticas russas ocorrem em paralelo às ofensivas contra infraestrutura ucraniana. Em 22 de setembro, ataques russos atingiram instalações industriais e de energia em várias regiões da Ucrânia, enquanto autoridades ucranianas relataram interrupções no fornecimento de eletricidade para quase 100 mil consumidores na região de Chernihiv.
Zelenskyy também informou sobre ataques não especificados no Mar Negro. Segundo o presidente ucraniano, Kiev manteve conversas com Índia, Turquia, Egito e outros países do Oriente Médio sobre medidas para preservar a navegação marítima, enquanto autoridades ucranianas continuam denunciando ataques contra embarcações comerciais na região.
A segurança da navegação no Mar Negro já havia sido discutida entre Zelenskyy e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Em 24 de setembro, Ancara informou que Erdogan considerou “inexplicáveis” os ataques contra embarcações comerciais e defendeu medidas para garantir a segurança da navegação.

