Grupo ultratradicionalista desafia papa e reabre risco de cisma na Igreja Católica
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- 2 de jul.
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A Fraternidade São Pio X decidiu manter a ordenação de novos bispos sem autorização do papa Leão XIV, ampliando um impasse entre a organização e o Vaticano. O pontífice fez um apelo para que a cerimônia fosse cancelada e advertiu que a iniciativa caracteriza um ato de cisma segundo a disciplina da Igreja Católica. A controvérsia retoma uma disputa iniciada há décadas em torno da autoridade papal e das reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II.

A nova crise ganhou força após a Fraternidade São Pio X divulgar, em 14 de maio, uma "declaração de fé católica" dirigida ao papa Leão XIV. No documento, a organização afirma que há mais de cinquenta anos denuncia o que define como "erros que estão destruindo a fé e a moral católicas", reafirmando sua oposição às mudanças adotadas pela Igreja desde a década de 1960.
Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade São Pio X surgiu em resposta às decisões do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. O concílio introduziu mudanças na liturgia e na organização pastoral da Igreja, entre elas a celebração das missas nos idiomas locais, a posição do sacerdote voltada para os fiéis durante a celebração e a ampliação do diálogo com outras tradições religiosas.
O nome da fraternidade faz referência ao papa Pio X, que publicou, no início do século XX, uma encíclica contra o modernismo na Igreja. Inspirado nessa orientação, o grupo defende a preservação das práticas litúrgicas anteriores ao Concílio Vaticano II e rejeita as reformas implementadas posteriormente.
O episódio atual teve origem na decisão da fraternidade de realizar, na quarta-feira, 1º de julho, a consagração de novos bispos sem autorização do papa. Conforme as normas da Igreja Católica, a ordenação episcopal depende de aprovação pontifícia. Quando ocorre sem essa autorização, a legislação canônica prevê a aplicação da pena de excomunhão aos envolvidos.
O confronto entre a Fraternidade São Pio X e o Vaticano já produziu consequências semelhantes. Em 1988, Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II, alegando preocupação com a continuidade da organização após sua morte.
Na ocasião, o Vaticano classificou o ato como cismático e decretou a excomunhão de Lefebvre e dos bispos ordenados. O cisma, na tradição católica, caracteriza a ruptura da comunhão com a autoridade da Igreja mediante desobediência em questões consideradas essenciais para sua estrutura institucional.
Em 2009, o papa Bento XVI revogou as excomunhões dos quatro bispos em uma tentativa de reabrir o diálogo com a fraternidade. A decisão provocou repercussão após declarações de Richard Williamson, um dos beneficiados pela medida, que questionou a existência das câmaras de gás utilizadas pelo regime nazista e minimizou a dimensão do Holocausto.
Durante o pontificado de Francisco, ocorreram novos gestos de aproximação. O papa reconheceu a validade dos casamentos celebrados por sacerdotes ligados à fraternidade e autorizou seus padres a administrar o sacramento da confissão, embora a organização tenha permanecido em situação canônica irregular perante a Santa Sé.
Apesar da repercussão internacional do episódio, pesquisadores ouvidos pela Folha de S.Paulo afirmam que a Fraternidade São Pio X reúne menos de mil sacerdotes e permanece fora das estruturas ordinárias da Igreja Católica. Ainda assim, o grupo passou a exercer influência entre setores tradicionalistas, principalmente nos Estados Unidos e na França, onde cresce o interesse por práticas litúrgicas anteriores ao Concílio Vaticano II.
O antropólogo Rodrigo Toniol afirmou à Folha de S.Paulo que a fraternidade mantém uma relação distinta daquela observada em organizações como Opus Dei e Legionários de Cristo. Segundo ele, enquanto esses grupos permanecem vinculados à autoridade papal, a Fraternidade São Pio X acumula décadas de conflitos institucionais com a Santa Sé.
Rodrigo Coppe Caldeira declarou ao mesmo jornal que as restrições impostas por Francisco, em 2021, à celebração da missa tridentina em latim contribuíram para aproximar parte dos fiéis interessados nesse rito da Fraternidade São Pio X.
Na terça-feira, 30 de junho, Leão XIV voltou a pedir que a organização desistisse das ordenações episcopais sem autorização, advertindo que sua realização representaria um cisma na Igreja Católica. Caso as consagrações ocorram sem aprovação papal, a disciplina canônica prevê a aplicação da pena de excomunhão aos participantes.












































