Guerra no Sudão interrompe o fornecimento de medicamentos, alimentando o contrabando
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A guerra no Sudão interrompeu a cadeia de fornecimento de medicamentos e desestruturou o sistema de saúde nacional, enquanto pacientes passam a depender de remédios contrabandeados e de qualidade incerta. Em 1º de junho de 2026, a Al Jazeera reportou que o colapso da produção farmacêutica interna levou à circulação de insulina e outros medicamentos armazenados fora de condições técnicas adequadas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou em 14 de abril de 2026 que 21 milhões de pessoas no país não têm acesso a serviços básicos de saúde.
![Manequins médicos jazem no chão de um hospital danificado pela guerra em Cartum, Sudão, 18 de abril de 2026 [Bernat Armangue/AP]](https://static.wixstatic.com/media/3a76c2_6bad3237e22c4a78ade50c508883cd51~mv2.webp/v1/fill/w_770,h_513,al_c,q_85,enc_avif,quality_auto/3a76c2_6bad3237e22c4a78ade50c508883cd51~mv2.webp)
Em Cartum Norte, na capital sudanesa, Murtada Mohieddin, paciente diabético com mais de 50 anos, relatou à Al Jazeera a dificuldade de acesso à insulina em meio à destruição da infraestrutura médica. Em sua residência atingida pela guerra, ele controla doses limitadas do medicamento e descreve a incerteza sobre a qualidade do produto disponível.
“Às vezes a insulina estraga”, disse Mohieddin. “Você não sabe se está estragada ou vencida. Você pode verificar a data de validade, mas ainda assim pode estar danificada devido ao armazenamento inadequado.”
O conflito armado no Sudão teve início como disputa entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF). Dados citados pela Al Jazeera indicam mais de 50.000 mortos e 14 milhões de deslocados, o que corresponde a quase um quarto da população do país. A destruição de hospitais, centros de saúde e fábricas farmacêuticas interrompeu a produção nacional de medicamentos e eliminou parte das redes formais de distribuição.
Com o fechamento de unidades industriais, o mercado paralelo passou a dominar o fornecimento de medicamentos. O relatório aponta o crescimento de redes de contrabando que introduzem remédios sem regulação sanitária, conhecidos localmente como medicamentos “Boko”, incluindo insumos intravenosos usados no tratamento da malária.
O farmacêutico Mutawakil Hamza, em Omdurman, afirmou à Al Jazeera que a maior parte dos medicamentos antimaláricos chega por rotas de contrabando. Ele declarou que as substâncias são aplicadas por via intravenosa sem controle de refrigeração ou verificação de qualidade, o que amplia riscos clínicos diretos.
A utilização de medicamentos intravenosos sem condições de armazenamento adequadas envolve riscos de infecção sistêmica, choque e morte, conforme descrito no relatório. O sistema de saúde, já fragmentado pela guerra, passou a operar com escassez de insumos básicos e interrupção de cadeias logísticas.
Antes do conflito, o setor farmacêutico sudanês produzia medicamentos para doenças crônicas e tratamentos básicos. Segundo Yasser Ahmed Youssef, especialista da indústria farmacêutica citado pela Al Jazeera, fábricas locais produziam medicamentos para hipertensão, diabetes, infecções respiratórias e cuidados pediátricos.
Com a guerra, essas linhas de produção foram interrompidas. O abastecimento passou a depender de importações irregulares e de redes informais, enquanto o sistema público perdeu capacidade de armazenamento e distribuição.
O Health Resources and Services Availability Monitoring System (HeRAMS), citado em análise da OMS de 6 de janeiro de 2026 com base em dados de outubro de 2025, indicou que 40% das unidades de saúde no Sudão estão fora de operação. Em Cartum, 87% das instalações de saúde estão fechadas, enquanto em North Kordofan o índice chega a 85%.
Em regiões como Gezira, Darfur e Kordofan, as restrições de acesso a medicamentos se somam à destruição de infraestrutura médica. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) relatou em agosto de 2025 que o único hospital materno em funcionamento em el-Fasher enfrenta escassez de medicamentos e risco de fechamento.
El-Fasher, último reduto das SAF na região de Darfur, passou ao controle das RSF no fim de outubro de 2025, com cerca de 700.000 civis retidos na área, segundo o mesmo relatório.
O National Medical Supplies Fund, órgão estatal sudanês, informou que busca manter o fornecimento de medicamentos essenciais. A instituição declarou disponibilidade de 75% de medicamentos oncológicos e abastecimento completo para pacientes renais, mas reconheceu colapso de infraestrutura de armazenamento.
“Os suprimentos médicos foram severamente impactados; houve colapso no nível dos principais armazéns da sede”, disse Abubakar Salouha, diretor do órgão.
A logística internacional também enfrenta restrições. Segundo a análise da OMS de janeiro de 2026, o transporte de insumos médicos a regiões como Darfur pode levar até 90 dias a partir de Douala, em Camarões, via Chade. Durante esse período, ataques a hospitais, farmácias e depósitos de medicamentos foram registrados em diferentes áreas do país.
Em 20 de março de 2026, um ataque com drone ao Hospital de Ensino Al-Daein, no leste de Darfur, matou pelo menos 64 pessoas e deixou 89 feridas, incluindo profissionais de saúde. O grupo Emergency Lawyers afirmou que as Forças Armadas Sudanesas foram responsáveis pelo ataque.
Em 2 de abril de 2026, outro ataque com drone atingiu o Hospital Al-Jabalain, no estado do Nilo Branco, resultando na morte de 10 funcionários, entre eles o diretor da unidade durante uma cirurgia. No mesmo dia, o Family Hospital em el-Daein foi saqueado e pacientes foram expulsos.
Em 25 de março de 2026, um hospital na região de Kurmuk, no estado do Nilo Azul, teve equipamentos destruídos e pacientes retirados após saque. As RSF foram responsabilizadas pelos ataques.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou em 4 de abril de 2026 que o sistema de saúde sudanês enfrenta colapso sob o impacto da guerra.
“Sudan is confronting one of the gravest humanitarian and public health emergencies in the world today. The ongoing conflict has pushed the health system to the edge of complete collapse”, disse Tedros.
“These incidents are stark reminders of the urgent need for renewed international solidarity and decisive political and humanitarian action. Sudan cannot endure this crisis alone.”



































