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Israel avança com plano para confiscar propriedades palestinas perto da Mesquita de Al-Aqsa

O governo israelense aprovou a criação de um comitê interministerial para executar ordens de desapropriação de imóveis palestinos na Cidade Velha de Jerusalém Oriental ocupada. A medida concentra-se na área do Portão da Corrente, uma das entradas da Mesquita de Al-Aqsa, e atinge entre 15 e 20 casas e estabelecimentos palestinos, segundo a prefeitura de Jerusalém. Lideranças palestinas afirmam que a iniciativa integra uma política de colonização voltada à alteração da composição demográfica e religiosa da cidade sob ocupação desde 1967.


Uma grande bandeira israelense na Praça do Muro das Lamentações, o local de oração mais sagrado do judaísmo, durante o Dia de Jerusalém, na Cidade Velha de Jerusalém, em 14 de maio de 2026 (Ronen Zvulun/Reuters).
Uma grande bandeira israelense na Praça do Muro das Lamentações, o local de oração mais sagrado do judaísmo, durante o Dia de Jerusalém, na Cidade Velha de Jerusalém, em 14 de maio de 2026 (Ronen Zvulun/Reuters).

A decisão foi aprovada no domingo, segundo documentos divulgados por autoridades israelenses e reportagens da imprensa hebraica. O novo comitê terá a tarefa de examinar mecanismos jurídicos e administrativos para implementar ordens históricas de confisco emitidas após a ocupação israelense de Jerusalém Oriental durante a guerra de 1967, quando Israel tomou o controle da Cidade Velha e anexou o território, ato não reconhecido pelas Nações Unidas.


O governo israelense declarou que a iniciativa busca consolidar a “soberania” israelense na Cidade Velha e criar um “espaço urbano contínuo” ligando o Bairro Judeu ao Muro das Lamentações. As autoridades também afirmam que o plano pretende garantir rotas de circulação entre o Portão de Jaffa, o Bairro Judeu e áreas de acesso ao complexo religioso de Al-Aqsa.


A área de Bab al-Silsila, nome árabe do Portão da Corrente, está localizada em um dos setores mais disputados da Cidade Velha. O caminho leva aos portões ocidentais da Mesquita de Al-Aqsa e atravessa regiões compostas por escolas islâmicas, prédios das eras mameluca e otomana, mercados, restaurantes e imóveis ligados ao waqf islâmico, sistema religioso de administração de propriedades muçulmanas em Jerusalém.


O imã da Mesquita de Al-Aqsa, xeique Ekrima Sabri, declarou ao Middle East Eye que os imóveis atingidos fazem parte do patrimônio histórico islâmico da cidade. “Cada medida realizada pela ocupação serve ao projeto de mudar a identidade de Jerusalém”, afirmou. Segundo ele, a iniciativa representa “mais uma tentativa de judaizar a cidade”.


Documentos analisados pela imprensa israelense indicam que o comitê examinará entraves legais que impediram a execução integral das ordens de desapropriação ao longo de décadas. A prefeitura de Jerusalém informou que o plano poderá atingir imóveis residenciais e comerciais pertencentes a famílias palestinas que permanecem na área desde antes da ocupação israelense.


O especialista em assuntos de Jerusalém Khalil Tawfikji afirmou ao Middle East Eye que muitos dos imóveis foram confiscados após 1967 sob o argumento de “benefício público”. Segundo ele, o mecanismo jurídico utilizado pelo Estado israelense foi aplicado para transferir propriedades palestinas para controle estatal. “Essas propriedades foram confiscadas em nome do bem público, mas o público a que se referiam era o público israelense”, declarou. “Não o público palestino, muçulmano ou cristão.”


Tawfikji afirmou que parte dos prédios já possui presença de colonos israelenses nos andares superiores, enquanto comerciantes palestinos seguem operando nos pavimentos inferiores. Segundo ele, o objetivo da iniciativa é alterar a estrutura urbana da região próxima à Mesquita de Al-Aqsa e ao Muro das Lamentações. “Trata-se de remodelar a área”, disse. “Quem controla a Cidade Velha controla a narrativa apresentada ao mundo.”


A região possui relevância religiosa para muçulmanos, cristãos e judeus. Bab al-Silsila conecta áreas próximas à Via Dolorosa, rota cristã associada à crucificação de Jesus, além do complexo da Mesquita de Al-Aqsa e do Muro das Lamentações. “A Cidade Velha é onde as três religiões se encontram”, afirmou Tawfikji. “Controlar esse espaço significa controlar a imagem de Jerusalém perante o mundo.”


A aprovação do comitê ocorre durante o genocídio em Gaza e em meio ao aumento das operações israelenses em Jerusalém Oriental ocupada. Organizações palestinas apontam que a atenção internacional concentrada na ofensiva militar israelense em Gaza reduziu o escrutínio sobre políticas de expansão colonial e deslocamento populacional em Jerusalém.


Sabri declarou que autoridades religiosas palestinas e representantes do waqf islâmico mantêm contatos diplomáticos e jurídicos para tentar bloquear a execução das ordens de confisco. Segundo ele, há diálogo com autoridades jordanianas responsáveis pela administração do waqf em Jerusalém. “Há esforços políticos e diplomáticos em curso”, afirmou ao Middle East Eye.


O comitê interministerial israelense deverá apresentar nos próximos meses recomendações sobre a implementação das ordens históricas de desapropriação na Cidade Velha de Jerusalém.


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