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Pinguins ajudam cientistas a rastrear poluentes químicos na Patagônia

Pesquisadores identificaram substâncias químicas industriais em mais de 90% dos pinguins-de-magalhães monitorados na Patagônia argentina. O estudo utilizou pulseiras de silicone adaptadas às aves para rastrear compostos PFAS, conhecidos pela permanência no ambiente e pela associação com câncer e alterações reprodutivas. A pesquisa expôs como resíduos produzidos pela indústria global alcançam regiões afastadas dos centros industriais e das cadeias de consumo do capitalismo contemporâneo.


©NATIONAL GEOGRAPHIC
©NATIONAL GEOGRAPHIC

O estudo foi publicado em março de 2026 na revista científica Earth: Environmental Sustainability e reuniu pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis e da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos. A equipe utilizou pulseiras de amostragem passiva de silicone, conhecidas pela sigla SPS, para captar substâncias presentes na água, no ar e em superfícies do ambiente marinho da Patagônia.


Os pesquisadores monitoraram 55 pinguins-de-magalhães ao longo de três temporadas reprodutivas. Das 57 aves que receberam os dispositivos, apenas uma teve a anilha retirada por suspeita de desconforto e apenas uma perdeu o equipamento durante o acompanhamento.


A pesquisa encontrou vestígios de substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, conhecidas como PFAS, em mais de 90% das aves analisadas. Esses compostos sintéticos são utilizados em panelas antiaderentes, espumas contra incêndio, tecidos impermeáveis, produtos farmacêuticos e materiais industriais produzidos em larga escala por corporações químicas.

As PFAS são chamadas de “substâncias químicas eternas” porque resistem à degradação natural. A estrutura química impede decomposição rápida no ambiente e favorece acúmulo em organismos vivos, rios, oceanos e cadeias alimentares.


O veterinário Ralph Vanstreels, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis e coautor do estudo, afirmou que a equipe buscava uma alternativa aos métodos invasivos utilizados no monitoramento ambiental de aves marinhas. “Há muito tempo procuramos alternativas para medir a poluição nessas espécies”, declarou.


Segundo Vanstreels, a ideia surgiu a partir de pulseiras utilizadas por seres humanos para medir exposição a contaminantes químicos. O pesquisador relatou ter procurado Diana Aga, química analítica da Universidade de Buffalo, com o que definiu como uma “ideia maluca”: adaptar pulseiras de silicone para utilização em pinguins.


Os dispositivos tiveram de ser modificados para evitar atrito e interferência na movimentação das aves. A equipe substituiu o formato convencional por uma estrutura adaptada com fio de aço inoxidável ajustado à perna de cada animal. “Fabricar as coleiras sob medida para cada pinguim individualmente nos dá mais confiança de que elas não vão cair e não vão causar desconforto”, afirmou Vanstreels.


A colocação das anilhas levou cerca de três minutos por animal e foi realizada por dois veterinários especializados em fauna silvestre. Após a instalação, os pesquisadores acompanharam o comportamento dos pinguins para observar possíveis alterações locomotoras ou sinais de impacto físico.


As análises químicas ocorreram no laboratório coordenado por Diana Aga em Buffalo, utilizando espectrometria de massa. A equipe concentrou a investigação em 24 compostos PFAS classificados como tradicionais, além de variantes substitutas produzidas após restrições regulatórias impostas em alguns países.


Segundo os pesquisadores, existem mais de 7 milhões de variantes químicas associadas à família PFAS. Parte desses compostos continua sem regulamentação internacional, apesar de estudos científicos relacionarem exposição prolongada a alterações hormonais, câncer e problemas reprodutivos.


“A concentração não é alta, mas a encontramos consistentemente”, declarou Vanstreels. “Isso mostra que, mesmo nesta região muito remota e pouco habitada, esses animais estão sendo expostos de forma constante.”


O estudo aponta que os oceanos funcionam como corredores globais de dispersão química. Compostos produzidos por cadeias industriais localizadas nos países centrais do capitalismo acabam transportados por correntes marítimas e ciclos atmosféricos até regiões distantes da produção industrial.


Os pesquisadores afirmaram que o uso de pinguins permite reduzir custos de monitoramento oceânico. Em vez de depender apenas de embarcações e coletas dispersas, os animais ajudam a identificar áreas marítimas relacionadas à presença de contaminantes. “Os pinguins indicam quais partes do oceano são importantes, para que você não esteja amostrando aleatoriamente todo o oceano”, afirmou Vanstreels.


Diana Aga alertou para o crescimento do uso de PFAS substitutos após a proibição parcial de compostos antigos em alguns países. “Há um aumento nos PFAS substitutos, o que faz sentido, mas também é preocupante”, disse a pesquisadora. “Pensávamos que os produtos químicos substitutos seriam menos persistentes, mas não são — são tão bioacumulativos quanto os PFAS originais e, de acordo com epidemiologistas e toxicologistas, são tão tóxicos quanto os PFAS antigos.”


O químico ambiental David Megson, da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, avaliou que a técnica representa uma alternativa aos métodos que dependem do sacrifício de animais para coleta de tecidos e órgãos. “Quando fazemos pesquisas com animais, a maneira de obter dados da melhor qualidade muitas vezes é sacrificando o animal”, afirmou. “Qualquer técnica que nos afaste do sacrifício de animais e da medição de órgãos é algo muito positivo.”


Megson observou que as pulseiras não permitem medir diretamente o nível de PFAS acumulado nos corpos dos pinguins nem os efeitos fisiológicos produzidos pelos compostos. Ainda assim, avaliou que a técnica pode complementar análises de sangue e estudos sobre alimentação marinha.


“A principal via de exposição a PFAS provavelmente será através dos peixes que eles consomem, e não do ambiente em geral”, declarou. “Se pudéssemos usar a pulseira para monitorar o que está acontecendo ao redor deles, coletar amostras de sangue e dos alimentos que consomem, poderíamos entender muito mais sobre todo o ambiente ao qual estão expostos e de onde vêm os PFAS.”


Os pesquisadores pretendem ampliar a aplicação da técnica para outras aves marinhas, incluindo cormorões. A equipe também pretende acompanhar os pinguins-de-magalhães durante a migração de inverno em direção ao Uruguai e ao Brasil.


O estudo lembrou que 13 das 18 espécies de pinguins reconhecidas no planeta apresentam declínio populacional ou classificação de ameaça.

 
 

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