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Alemanha acusa Rússia de sabotagem e amplia retaliações diplomáticas

A Alemanha acusou órgãos estatais russos de estarem por trás de uma tentativa de ataque com drone contra uma aeronave ucraniana no aeroporto de Leipzig/Halle. A acusação, apresentada em 1º de setembro após semanas de investigação, desencadeou novas medidas de Berlim contra instituições russas e uma resposta de Moscou. O episódio passou a ser tratado por governos europeus como parte de uma disputa que envolve sabotagem, espionagem, ciberataques e operações clandestinas atribuídas à Rússia.


Soldado russo ©VOENNOEDELO
Soldado russo ©VOENNOEDELO

O caso teve início em 5 de agosto, quando um drone carregado com explosivos foi encontrado em uma área restrita do aeroporto de Leipzig/Halle, nas proximidades de uma aeronave de carga Antonov ucraniana. O dispositivo não detonou, mas investigadores encontraram posteriormente indícios de que a operação teria envolvido múltiplos drones e que uma aeronave utilizada para logística militar estava entre os alvos.


Durante várias semanas, o governo alemão evitou responsabilizar publicamente Moscou. A posição mudou em 1º de setembro, quando autoridades alemãs afirmaram que investigações e avaliações de inteligência haviam identificado agências estatais russas como responsáveis pela tentativa de ataque.


Berlim afirmou ainda que o lado russo teria fornecido equipamentos, conhecimento técnico e intermediários encarregados de executar a operação. As autoridades alemãs enquadraram o episódio dentro de uma campanha de operações híbridas atribuídas a Moscou em diferentes países europeus.


A acusação elevou o caso de uma suspeita de interferência russa para uma denúncia direta de tentativa de ataque em território alemão por parte de um Estado considerado adversário por Berlim. A Rússia rejeitou a acusação, enquanto o presidente Vladimir Putin afirmou que a Alemanha estaria fabricando provas e Moscou classificou a reação alemã como uma escalada.


O episódio de Leipzig ocorre em meio a acusações europeias sobre uma expansão de operações atribuídas aos serviços russos para além do campo militar convencional. Os governos europeus utilizam a expressão “guerra híbrida” para descrever ações que incluem sabotagem, espionagem, ciberataques, desinformação e outras operações conduzidas abaixo do nível de uma guerra convencional.


Uma avaliação do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) apontou aumento das suspeitas de sabotagem e subversão russas na Europa em 2024. Os setores mencionados no levantamento incluem transporte, infraestrutura, governo e indústria.


Na Alemanha, outros episódios passaram a ser examinados dentro desse contexto. O governo alemão afirmou ter registrado incidentes suspeitos envolvendo, entre outros pontos, interrupções em subestações de energia.


Na quinta-feira, 3 de setembro, autoridades alemãs também investigavam um ataque incendiário ocorrido nas proximidades da sede da empresa de defesa Rohde & Schwarz, em Munique. As autoridades ressaltaram, porém, que nem todos os incidentes podem ser atribuídos automaticamente à Rússia e que cada caso está sendo analisado no contexto das ameaças híbridas apontadas por Berlim.


A resposta alemã ao caso de Leipzig alcançou instituições diplomáticas e culturais russas. Berlim anunciou o fechamento do consulado da Rússia em Bonn e o encerramento do acordo que permitia o funcionamento da Casa Russa da Ciência e da Cultura em Berlim.


O governo alemão também passou a defender novas sanções e restrições da União Europeia contra cidadãos russos. A medida ampliou a disputa para além das acusações relacionadas à segurança e introduziu novos instrumentos de pressão diplomática e institucional contra Moscou.


A Rússia respondeu com medidas contra instituições culturais alemãs. O ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, afirmou que Moscou fechará as unidades do Goethe-Institut em Moscou, São Petersburgo e Ecaterimburgo.


Lavrov apresentou o fechamento das unidades como retaliação às medidas adotadas pela Alemanha contra o centro cultural russo. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia também afirmou que Moscou adotaria novas medidas relacionadas ao consulado russo em Bonn.


O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, classificou na quinta-feira o fechamento das unidades do Goethe-Institut como “muito lamentável” e “injustificado”. Para Wadephul, a decisão russa prejudicaria ainda mais as relações entre os dois países.


“O Goethe-Institut contribui diariamente de forma valiosa para as relações culturais frutíferas e o intercâmbio social entre a Rússia e a Alemanha”, declarou Wadephul à imprensa local durante um encontro com seus homólogos da França e da Polônia em Weimar.


A disputa envolvendo Alemanha e Rússia também mobilizou outros governos europeus. Para esses países, o episódio de Leipzig passou a ser tratado como uma questão relacionada à segurança europeia, e não apenas como uma controvérsia bilateral entre Berlim e Moscou.


Os ministros das Relações Exteriores da Alemanha, França e Polônia se reuniram nesta semana em Weimar no âmbito do Triângulo de Weimar, mecanismo de cooperação entre os três países criado há 35 anos. Segurança, apoio à Ucrânia e cooperação europeia estão entre os temas das discussões.


A Polônia adotou uma posição de apoio à Alemanha. Varsóvia convocou o embaixador russo na quinta-feira para protestar contra o que classificou como escalada das “ações agressivas” de Moscou, após manifestar solidariedade a Berlim em relação ao episódio de Leipzig.


O governo alemão agradeceu publicamente à França e à Polônia pelo apoio. Berlim passou a apresentar a reação conjunta como uma forma de impedir que Moscou pressione governos europeus individualmente e leve cada país a responder de maneira isolada.


O presidente da República Tcheca, Petr Pavel, também acusou a Rússia de utilizar sabotagem e desinformação para estimular desconfiança entre os Estados europeus e enfraquecer instituições da União Europeia.


O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido convocou o diplomata russo de mais alto escalão no país para protestar contra o que um porta-voz classificou como um “ataque flagrante e imprudente” realizado por um drone no aeroporto de Leipzig no mês anterior.


A Dinamarca também apresentou uma acusação relacionada a possíveis operações de sabotagem. O Serviço Dinamarquês de Segurança e Inteligência (PET) afirmou na quinta-feira que serviços de inteligência russos estariam preparando operações de sabotagem contra a indústria de defesa dinamarquesa.


De acordo com o PET, serviços russos teriam tentado recrutar cidadãos comuns pela internet para fotografar instalações e coletar informações que poderiam ser utilizadas em operações de sabotagem. A agência dinamarquesa apontou de forma específica empresas de defesa envolvidas no apoio à Ucrânia como possíveis alvos.

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