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Artesãos nigerianos mantêm tradição de tecidos feitos à mão diante da crescente demanda global

Artesãos da cidade de Iseyin, no sudoeste da Nigéria, mantêm a produção manual do tecido aso-oke apesar da crescente demanda internacional. A prática ancestral, ligada ao povo iorubá, segue baseada em técnicas tradicionais transmitidas por gerações. A produção ocorre em oficinas improvisadas, sob árvores e em galpões, a cerca de 200 quilômetros de Lagos. Dados e relatos foram publicados em 12 de abril de 2026 pela agência AFP. O avanço da indústria global e a entrada de insumos estrangeiros expõem tensões entre preservação cultural e pressõartesãos-nigerianos-mantêm-tradição-de-tecidos-feitos-à-mão-diante-da-crescente-demanda-globales do mercado.


Kafat Abdulhakem enrola um feixe de fios usados ​​na confecção do aso-oke. [Toyin Adedokun _ AFP]
Kafat Abdulhakem enrola um feixe de fios usados ​​na confecção do aso-oke. [Toyin Adedokun _ AFP]

Iseyin é reconhecida como o principal centro histórico do aso-oke, tecido cujo nome significa “pano do interior” e que se consolidou como símbolo cultural e identitário na Nigéria. Em meio ao calor intenso, tecelões trabalham em teares de madeira, produzindo tiras estreitas que posteriormente são costuradas para formar peças maiores utilizadas em vestimentas cerimoniais, moda contemporânea e acessórios. A expansão da demanda internacional é impulsionada pela diáspora nigeriana e pela crescente visibilidade global da música e da moda do país, inserindo o aso-oke em circuitos comerciais que vão de Lagos a passarelas em Londres e Paris.


Apesar dessa inserção global, os produtores locais resistem à mecanização, apontando que a industrialização comprometeria a qualidade e a autenticidade do tecido. “Se você usar uma máquina para tecer aso-oke, não ficará tão bom quanto o feito à mão”, afirmou Kareem Adeola, tecelão de 35 anos, à AFP. “As pessoas já tentaram antes, e não funcionou. Ele foi feito por Deus para ser tecido à mão.” A defesa da produção artesanal ocorre em um contexto em que cadeias globais de valor frequentemente absorvem produtos culturais sem preservar suas origens, reproduzindo dinâmicas históricas de exploração e apropriação.

O processo tradicional envolve etapas complexas, como preparação de fibras de algodão ou seda, limpeza, fiação e tingimento manual, antes da montagem nos teares. No entanto, mudanças recentes revelam a influência direta do comércio internacional: muitos artesãos passaram a utilizar fios industrializados, “principalmente importados da China”, segundo o tecelão Abdulhammed Ajasa, de 42 anos. Essa dependência de insumos estrangeiros evidencia como a produção local se insere em uma economia global marcada por assimetrias, onde países periféricos fornecem mão de obra e tradição enquanto cadeias industriais externas dominam insumos e distribuição.


O aso-oke, antes restrito às elites e a ocasiões especiais, hoje circula amplamente no mercado, sendo transformado em roupas casuais, bolsas, sapatos e acessórios. A presença do tecido em eventos internacionais e sua utilização por figuras públicas ampliaram sua visibilidade, mas também intensificaram debates sobre propriedade cultural. “Não há problema em sua cultura ser usada por outras pessoas”, afirmou Ayomitide Okungbaye, diretora criativa da marca Tide Chen, de Lagos. “O problema começa quando há apropriação indevida ou quando pessoas passam a reivindicar propriedade.”


A expansão comercial do aso-oke ocorre paralelamente a ameaças já concretas enfrentadas por outros tecidos iorubás, como o adire, que sofre com falsificações produzidas em larga escala fora do continente africano. Esse padrão reflete um histórico de extração cultural associado ao colonialismo, no qual saberes tradicionais são transformados em mercadorias globais sem controle das comunidades que os originaram.


Mesmo diante dessas pressões, a produção em Iseyin segue baseada em trabalho manual intensivo, que exige longas horas em posições repetitivas, gerando desgaste físico e riscos à saúde. Ainda assim, os artesãos insistem que esse esforço é inseparável da identidade do produto. Jovens, incluindo graduados universitários, têm ingressado na atividade, trazendo novas ideias e colaborando com designers gráficos para inovar nos padrões, ao mesmo tempo em que mantêm as técnicas tradicionais.


“Isso é pelo que Iseyin é conhecida”, afirmou Kareem Adeola. “Herdamos isso de nossos antepassados.”

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