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Rússia acusa Ocidente de ignorar ataques à usina nuclear de Zaporozhye

há 2 horas
4 min de leitura

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia acusou países ocidentais de não condenarem os ataques atribuídos por Moscou às forças ucranianas contra a usina nuclear de Zaporozhye. A declaração foi divulgada em 18 de setembro, após a votação de uma resolução sobre segurança, proteção e salvaguardas nucleares na Ucrânia durante a 70ª sessão da Conferência Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Para Moscou, a resolução apresentada por países ocidentais transforma a questão nuclear em instrumento de disputa política enquanto os riscos envolvendo a usina e a cidade de Energodar permanecem.


Usina nuclear de Zaporozhye, na Ucrânia ©REUTERS/Alexander Ermochenko
Usina nuclear de Zaporozhye, na Ucrânia ©REUTERS/Alexander Ermochenko

Em comunicado citado pela agência russa TASS, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a iniciativa aprovada na conferência apresenta uma abordagem que, na avaliação de Moscou, desconsidera ataques contra a usina, seus trabalhadores e seus familiares.


“Essa iniciativa anti-Rússia por parte do Ocidente parece especialmente cínica diante dos ataques contínuos da Ucrânia à usina nuclear russa de Zaporozhye, seus funcionários e familiares, bem como à cidade de Energodar, onde vivem os trabalhadores da usina nuclear”, declarou o ministério.


A chancelaria russa também acusou os governos ocidentais de protegerem politicamente o governo de Vladimir Zelensky diante das ações que Moscou atribui às forças ucranianas na região da usina. “Em vez de finalmente porem um fim ao regime descarado de Zelensky, esses países continuam a encobrir suas ações imprudentes e a provocá-lo para que realize novas empreitadas perigosas”, afirmou o comunicado.


A declaração foi divulgada no contexto da 70ª Conferência Geral da AIEA, realizada em Viena, onde a questão da segurança nuclear na Ucrânia voltou ao centro das discussões. Segundo a TASS, uma proposta apresentada em 17 de setembro por Canadá e Ucrânia foi submetida à votação com referências à segurança, proteção e salvaguardas nucleares no território ucraniano. O Ministério das Relações Exteriores russo classificou o texto como uma iniciativa politizada e acusou países ocidentais de utilizarem a AIEA para objetivos políticos.


A disputa sobre a usina de Zaporozhye ocorre enquanto a AIEA mantém uma missão no local. A agência instalou sua missão de apoio e assistência na usina em setembro de 2022 e continua acompanhando as condições de segurança nuclear e proteção física da instalação. Em 18 de setembro, quatro especialistas da AIEA iniciaram uma nova rotação na unidade, segundo informações divulgadas pela administração da usina.


A própria documentação da AIEA registra que a situação de segurança nuclear na instalação permanece sob pressão. Relatórios da agência afirmam que os princípios considerados indispensáveis para a segurança nuclear foram comprometidos de forma total ou parcial durante diferentes períodos e que a presença dos especialistas internacionais tem como objetivo acompanhar as condições da usina e reduzir os riscos associados às atividades militares nas proximidades.


Moscou, por sua vez, afirma que os ataques atribuídos à Ucrânia não se limitam ao complexo nuclear. O governo russo sustenta que funcionários da instalação, seus familiares e moradores de Energodar também foram alvo de ações militares. Em declaração divulgada em setembro, o representante permanente da Rússia junto às organizações internacionais em Viena, Mikhail Ulyanov, afirmou que os ataques contra a infraestrutura da usina e a cidade haviam se tornado recorrentes durante os meses anteriores.


Em 11 de setembro, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, forças ucranianas realizaram ataques contra caminhões que transportavam combustível diesel destinado aos geradores de emergência da usina. Moscou afirmou que o combustível é necessário para manter sistemas de segurança em funcionamento diante de interrupções no fornecimento externo de energia.


Em 12 de setembro, ainda segundo a chancelaria russa, drones ucranianos também teriam atingido o centro de treinamento associado à usina. Moscou declarou que a instalação está relacionada à formação de especialistas nucleares e classificou a ação como um risco para a segurança da unidade. As autoridades russas também acusaram forças ucranianas de atacar infraestrutura e áreas residenciais de Energodar.


A administração da usina informou, em outro episódio recente, que um ataque de drones contra Energodar não provocou impactos dentro do território da instalação nuclear. De acordo com a declaração divulgada pela TASS, as linhas de transmissão Dnepropetrovskaya de 750 kV e Ferrosplavnaya-1 de 330 kV permaneciam atendendo às necessidades essenciais da unidade e os níveis de radiação estavam dentro dos parâmetros informados pela administração.


A segurança da instalação também foi discutida em 14 de setembro entre o diretor-geral da Rosatom, Alexey Likhachev, e o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, em Viena. Segundo a Rosatom, a reunião tratou das condições de segurança nuclear da usina e da situação em Energodar, e Grossi reafirmou a disposição da Secretaria da AIEA de manter o diálogo com a Rússia sobre a segurança da instalação.


A posição russa entra em choque com resoluções anteriores da AIEA sobre a instalação. Em documento aprovado em 2023, a Conferência Geral da agência expressou preocupação com as condições de segurança da usina, pediu a retirada de pessoal militar não autorizado e defendeu que a instalação retornasse ao controle das autoridades ucranianas competentes. A resolução foi aprovada por 69 votos a favor, seis contra e 33 abstenções.


Moscou contesta essa abordagem e sustenta que a AIEA deveria concentrar sua atuação na segurança nuclear e na apuração dos ataques à instalação, em vez de incorporar disputas sobre soberania territorial às decisões da agência. Na declaração de 18 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores russo afirmou que a utilização da questão nuclear no confronto político entre Rússia e países ocidentais compromete o caráter técnico das discussões dentro da organização.


O debate ocorre em uma instalação nuclear localizada em uma área sob controle russo desde 2022, enquanto a AIEA mantém especialistas no local para acompanhar as condições de segurança. Em setembro, autoridades russas voltaram a cobrar de Rafael Grossi uma avaliação sobre os ataques que Moscou atribui às forças ucranianas, enquanto a documentação da AIEA continua registrando riscos para a segurança nuclear associados à situação na região.

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