Com laboratório de ponta, Brasil quer ter papel chave na resposta global a epidemias
- www.jornalclandestino.org

- 26 de mai.
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O governo brasileiro iniciou a construção do primeiro laboratório público de biossegurança nível 4 da América Latina em Campinas, interior de São Paulo. O projeto Órion, coordenado pelo Centro Nacional de Pesqcom-laboratório-de-ponta-brasil-quer-ter-papel-chave-na-resposta-global-a-epidemiasuisa em Energia e Materiais, prevê operação até 2028 e integração direta com o acelerador de partículas Sirius. A iniciativa surge após a pandemia de Covid-19 expor a dependência tecnológica do Sul Global diante do controle farmacêutico e científico concentrado em potências europeias e estadunidenses.

O projeto foi apresentado em 26 de maio de 2026 pela ONU News como parte da estratégia brasileira para ampliar a capacidade nacional de resposta a epidemias e pesquisas com agentes biológicos de alta letalidade, como o vírus ebola e o vírus sabiá. O laboratório será instalado no complexo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o Cnpem, em Campinas, e terá nível máximo de contenção biológica, conhecido como NB4.
O diretor do Cnpem, o físico José Roque, afirmou à ONU News que a pandemia de Covid-19 alterou a percepção sobre infraestrutura científica e preparação sanitária. Segundo ele, o país perdeu tempo histórico ao depender de tecnologias externas durante a emergência sanitária iniciada em 2020.
“Há um consenso na comunidade mundial que, mais cedo ou mais tarde, uma pandemia pode de novo eclodir no mundo, ou eventos que podem não se tornar mundiais, mas são localmente importantes. E acho que o mundo aprendeu e o Brasil, em particular, da necessidade de se estar preparado, de você ter infraestruturas e capacidade para atuar quando esses eventos ocorrerem”, declarou.
Roque acrescentou que estruturas desse porte não podem ser improvisadas durante crises sanitárias. “Não adianta no meio do evento você decidir: ‘vou agora construir alguma coisa’. Não dá tempo. ‘Ou vou formar pessoas’. Não dá tempo. Então, a lição da pandemia fez com que o Brasil voltasse a discutir infraestruturas de biossegurança”, afirmou.
Durante a pandemia, o Brasil ampliou laboratórios de nível 3, utilizados para pesquisas com patógenos como o Sars-CoV-2 e o hantavírus. Essas estruturas, porém, não possuem capacidade para manipular vírus classificados no nível máximo de risco biológico. O Órion pretende preencher essa lacuna científica e sanitária na América Latina.
O diferencial do complexo brasileiro está na integração direta com o Sirius, acelerador de partículas instalado no mesmo centro de pesquisas. O Sirius opera como uma fonte de luz síncrotron, tecnologia utilizada para observar estruturas atômicas, moleculares e celulares em escala microscópica. Segundo o Cnpem, nenhum outro laboratório NB4 do mundo possui conexão estrutural com uma instalação desse tipo.
“O objetivo é você poder entender como que esses vírus ocupam as células, controlam as células. Então, trazer uma técnica complementar às técnicas tradicionais, biológicas e que permita que você investigue isso nessa escala celular”, explicou José Roque.
O diretor informou que três linhas de luz do Sirius serão destinadas ao Órion. Uma delas será utilizada para estudar a instalação de vírus dentro das células humanas. Outra examinará impactos em tecidos e órgãos. A terceira será empregada na geração de imagens de alta resolução em animais utilizados em pesquisas biomédicas, incluindo roedores e pequenos primatas.
A estrutura também prevê desenvolvimento de vacinas, medicamentos e cooperação com o Ministério da Saúde na área de vigilância sanitária. O projeto foi apresentado como parte de uma rede internacional de laboratórios de biossegurança, mas também como tentativa de reduzir a dependência tecnológica brasileira diante de monopólios farmacêuticos controlados por conglomerados do Norte Global.
“Essa é uma capacidade que vai colocar o Brasil como uma infraestrutura para pesquisa única, apoiando não somente os cientistas brasileiros, mas como você mencionou, o mundo inteiro. Além disso, Órion vai prever a capacidade de desenvolvimento de fármacos e participação com o Ministério da Saúde na área de vigilância sanitária, vamos poder fazer desenvolvimento de vacinas”, afirmou Roque.
A construção do laboratório ocorre em um cenário internacional marcado pela disputa por patentes farmacêuticas, concentração de tecnologias biomédicas e controle de cadeias globais de insumos por empresas sediadas nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Durante a pandemia de Covid-19, países africanos e latino-americanos enfrentaram barreiras para aquisição de vacinas, equipamentos hospitalares e reagentes laboratoriais, enquanto governos centrais e empresas farmacêuticas acumularam estoques e restringiram transferência tecnológica.
Segundo a ONU News, o Brasil pretende utilizar o Órion para estudar vírus presentes no próprio território nacional, como o vírus sabiá, classificado no nível 4 de biossegurança. O laboratório também deverá participar de pesquisas relacionadas ao ebola, doença hemorrágica identificada em países africanos e historicamente associada a crises sanitárias agravadas por décadas de dependência econômica e desmontes estruturais impostos por programas financeiros internacionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o complexo Sirius durante o avanço das obras do laboratório. Imagens divulgadas pelo governo federal mostram Lula ao lado de José Roque nas instalações do centro científico em Campinas.
A previsão do Cnpem é que o Órion se transforme em polo regional de pesquisa biomédica para a América Latina e opere como centro de referência em vigilância epidemiológica, investigação de agentes biológicos e formulação de respostas sanitárias diante de futuras epidemias.



































