Cotada para vice de Flávio Bolsonaro, deputada Clarissa Tércio já protestou para que criança estuprada mantivesse gravidez
- www.jornalclandestino.org

- 20 de abr.
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A deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE) apresentou projeto de lei para obrigar hospitais a exibirem mensagens contra o aborto legal. A iniciativa ocorre enquanto seu nome é cogitado para compor chapa presidencial liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). A parlamentar já esteve envolvida em episódios de pressão contra o direito ao aborto, incluindo protesto em 2020 no Recife. Sua trajetória política está ligada a um conglomerado religioso com forte presença midiática e eleitoral em Pernambuco. O caso expõe a articulação entre fundamentalismo religioso, disputa eleitoral e políticas públicas voltadas ao controle do corpo feminino.

O projeto de lei apresentado por Clarissa Tércio determina que unidades de saúde públicas e privadas afixem cartazes com mensagens destinadas a desestimular mulheres a recorrerem ao aborto legal, procedimento autorizado no Brasil em casos previstos em lei, como estupro e risco de vida. Segundo o texto proposto pela deputada, os avisos devem informar que fetos abortados “serão descartados como resíduo hospitalar” e que o procedimento “pode causar sérias consequências à saúde da mulher”, incluindo infertilidade, depressão e morte. A proposta ignora diretrizes consolidadas do sistema de saúde e se insere em uma agenda política que busca restringir direitos já garantidos.
A atuação da parlamentar nesse campo remonta a episódios anteriores. Em agosto de 2020, ainda como deputada estadual, Clarissa Tércio participou, ao lado de seu marido, o também político Júnior Tércio (PP), de um protesto em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife. A manifestação tentava impedir a realização de um aborto legal em uma criança de 10 anos, vítima de estupros recorrentes cometidos por familiares no Espírito Santo. A gravidez colocava em risco a vida da menina, que teve o procedimento autorizado judicialmente após negativa de hospitais em seu estado de origem.
A mobilização foi impulsionada após a divulgação ilegal do local do procedimento pela influenciadora de extrema-direita Sara Geromini, que convocou grupos religiosos para pressionar a equipe médica. Imagens registraram a presença de Clarissa Tércio no tumulto, que incluiu tentativas de invasão do hospital por políticos e manifestantes. Durante o ato, profissionais de saúde, incluindo o médico Olímpio Bezerra, foram alvo de gritos de “assassinos”, com o objetivo declarado de forçar a interrupção do procedimento e obrigar a criança a manter a gestação.
A atuação legislativa de Tércio reforça essa linha política. Em novembro de 2025, a deputada votou favoravelmente ao projeto apelidado de “PDL da Pedofilia”, que revogou normas do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda) que garantiam atendimento sigiloso e humanizado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A medida foi interpretada como um retrocesso em políticas de proteção a vítimas.
No campo político-eleitoral, o nome de Clarissa Tércio passou a ser considerado pelo senador Flávio Bolsonaro como possível candidata a vice em sua chapa para as eleições presidenciais de 2026. A movimentação ocorre após a recusa da senadora Teresa Cristina (PP-MS), descrita por ele como “sonho de consumo”. A escolha de um nome do Nordeste é estratégica, diante do histórico de derrotas de Jair Bolsonaro na região em 2018 e 2022. No início de abril de 2026, Tércio declarou “alegria e gratidão” ao comentar a possibilidade, afirmando que seu nome foi lembrado por lideranças “que compartilham do mesmo sonho”.
Clarissa Tércio disputou apenas uma eleição majoritária, em 2020, quando concorreu à prefeitura de Jaboatão dos Guararapes (PE) e ficou em segundo lugar, com 20,2% dos votos. O vencedor foi Mano Medeiros, então filiado ao PL e atualmente no PSD, eleito no primeiro turno. A disputa refletiu o embate entre grupos políticos locais ligados a lideranças evangélicas, especialmente as famílias Tércio e Ferreira, que disputam influência sobre o eleitorado conservador no segundo maior município de Pernambuco.
Nascida em Jaboatão dos Guararapes, Clarissa Tércio tem 41 anos e é filha do pastor Francisco Tércio, fundador do ministério Novas de Paz, vinculado à Assembleia de Deus. Criada em 1997 dentro de um quartel da Polícia Militar, a denominação expandiu-se para mais de 150 templos em Pernambuco até 2020, com forte concentração na região metropolitana do Recife. O grupo também administra a Casa de Recuperação Novas de Paz, que acolhe dependentes químicos com base em orientação religiosa.
A família Tércio controla ainda a Rádio Novas de Paz, fundada em 2014, com atuação no Agreste e na Região Metropolitana do Recife. Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, a emissora foi alvo de denúncias ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e ao Ministério Público Federal (MPF) por disseminação de desinformação, ao afirmar em sua programação que a pandemia seria uma “mentira de veículos de comunicação para prejudicar o governo Bolsonaro”.
No mesmo período, Clarissa Tércio realizou ações públicas de distribuição de cloroquina em comunidades periféricas, medicamento promovido politicamente por Jair Bolsonaro apesar da ausência de eficácia comprovada contra a Covid-19. Sua trajetória eleitoral começou em 2018, quando foi eleita deputada estadual pelo PSC com mais de 50 mil votos. Em 2020, seu marido foi eleito vereador do Recife com 12 mil votos. Em 2022, ambos ampliaram sua base eleitoral: Júnior Tércio foi eleito deputado estadual com 183 mil votos, enquanto Clarissa alcançou 240 mil votos para a Câmara dos Deputados.



































