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MANIFESTO NO PANO / QUEM SOMOS, O QUE FAZEMOS E PARA ONDE VAMOS

há 2 horas
10 min de leitura

I. ANTES DA MARCA, UM PROPÓSITO

A No Pano não nasceu como uma marca convencional de vestuário. Não fomos concebidos para ocupar uma vitrine, para competir por espaço em prateleiras de shopping centers ou para alimentar o ciclo infinito de tendências que a indústria da moda impõe a cada estação. Não somos uma marca que surgiu de um plano de negócios, de uma pesquisa de mercado ou da ambição de construir um império têxtil. A No Pano nasceu de uma necessidade. Nasceu da urgência de construir uma fonte própria de financiamento para outras iniciativas de ativismo político, social, cultural e comunicacional que já desenvolvíamos muito antes de pensar em estampar a primeira camiseta.


Quando criamos a No Pano, em 2023, não estávamos entrando no mercado da moda. Estávamos ampliando um aparelho independente de comunicação e cultura que já existia, que já produzia conteúdo, que já circulava por territórios onde a comunicação hegemônica não chega ou chega distorcida. A No Pano surgiu como extensão do Jornal Clandestino, da nossa editora, das nossas iniciativas de produção cultural e de ativismo. Não somos uma marca que faz ativismo. Somos um projeto de ativismo que encontrou no vestuário uma ferramenta de sustentação e de circulação.


Essa diferença é fundamental. Ela define quem somos, como operamos e por que existimos. Não vendemos roupas para lucrar. Vendemos roupas para sustentar aquilo que fazemos fora delas. Cada peça que sai da nossa produção é instrumento de financiamento, um suporte de comunicação, uma extensão física de um projeto que não negocia seus princípios em troca de visibilidade ou aceitação.


Desde o princípio, portanto, a No Pano foi pensada como uma extensão dessas atividades. O produto é também suporte de comunicação. A camiseta deixa de ser apenas uma peça de roupa e passa a funcionar como uma mídia física, uma plataforma de circulação de ideias e uma forma de comunicação não verbal que ocupa o espaço urbano sem depender dos formatos tradicionais da imprensa, da publicidade ou das redes institucionais.


II. A ROUPA COMO MÍDIA

Vivemos em um tempo em que a comunicação é disputada palmo a palmo. As grandes corporações controlam os veículos, os algoritmos, as narrativas. As redes sociais, que um dia prometeram democratizar a fala, hoje operam como máquinas de silenciamento e homogeneização. O que circula é o que convém. O que viraliza é o que não incomoda. O que permanece é o que se alinha.


Nesse cenário, a No Pano propõe uma inversão. Em vez de depender dos canais tradicionais, transformamos o próprio corpo em canal. Em vez de esperar que nossa mensagem seja veiculada por um veículo que não controlamos, colocamos a mensagem nas ruas, no transporte público, nos espaços culturais, nas universidades, nos becos e nas avenidas. A roupa se torna mídia, tal como, o corpo se torna território de enunciação.


É nesse ponto que a No Pano encontra sua identidade. Nossas peças circulam pelas ruas, pelas periferias brasileiras, pelos centros metropolitanos e por diferentes territórios do país, levando mensagens que podem ser lidas no cotidiano, no transporte público, nos espaços culturais, nas universidades, nas ruas e nos ambientes onde a cultura urbana se manifesta.


Quando alguém veste uma peça da No Pano, está carregando consigo uma mensagem. Está ocupando o espaço público com uma enunciação política, cultural, histórica. Está dizendo algo sem precisar abrir a boca. E essa mensagem circula. Ela é vista no ônibus, na fila do mercado, na sala de aula, no show, na manifestação, no bar da esquina.


Essa é a potência da roupa como mídia não depende de algoritmo nem está sujeita a censura prévia. Ela simplesmente existe, circula, comunica. E ao comunicar, planta sementes. Cria repertório. Provoca perguntas. Instiga debates. A estampa que alguém veste pode ser o início de uma conversa, de uma reflexão, de uma tomada de consciência.


III. A RECONSTRUÇÃO COMO RESISTÊNCIA

O modelo atual da No Pano, entretanto, é resultado de um processo de reconstrução. Nossa primeira operação em print on demand foi retirada da plataforma que utilizávamos anteriormente, sob a justificativa de violação de princípios e políticas internas da empresa. Para nós, o episódio evidenciou uma incompatibilidade entre a natureza política de parte da nossa produção e os limites impostos por uma plataforma comercial privada.


O episódio foi a comprovação de algo que já suspeitávamos: éramos politicos demais para uma plataforma capitalista demais. A liberdade de expressão, quando mediada por empresas que respondem a acionistas e a pressões comerciais, é sempre condicional, sempre frágil, sempre sujeita a revogação.


Em vez de abandonar o projeto, utilizamos esse período para revisar processos, reorganizar o catálogo, redefinir a operação e reconstruir nossa estrutura de comercialização. Durante quase um ano, trabalhamos na reestruturação da plataforma, na reorganização dos produtos e na adequação dos processos necessários para recolocar a marca em funcionamento em outro ambiente.


Não foi um ano perdido. Foi um ano de aprendizado, de amadurecimento, de fortalecimento. Aprendemos que a autonomia não se negocia. Aprendemos que a dependência de estruturas alheias é sempre um risco. Aprendemos que a única forma de garantir que nossa mensagem continue circulando é construir nossos próprios canais, nossas próprias plataformas, nossas próprias infraestruturas.


Essa é uma lição que se aplica não apenas à No Pano, mas a todo projeto independente que se pretenda duradouro. Não basta ter uma mensagem. É preciso ter os meios de fazê-la circular.


A No Pano reconstruída é mais forte do que a No Pano original. Não porque tenha mais recursos ou mais alcance, mas porque tem mais consciência de si mesma, mais clareza sobre sua natureza, mais determinação em não se deixar abater pelas adversidades. A censura que sofremos não nos silenciou.


IV. O PROCESSO CRIATIVO COMO PESQUISA E POSICIONAMENTO

A No Pano também não opera a partir de uma lógica de produção aleatória de estampas. Não somos uma marca que compra designs prontos, que reproduz tendências, que segue modismos. Existe, atualmente, uma equipe interna de criação e design com experiência acumulada em design gráfico, comunicação visual e desenvolvimento de estamparia. O processo criativo parte da pesquisa, da referência histórica, da leitura do contexto social e político e da construção de uma identidade visual coerente com a proposta da marca.


Cada estampa é pensada. Cada peça é fruto de um processo que começa na leitura do mundo, na oservação do contexto, na pesquisa histórica, na análise política, na escuta das ruas, na compreensão das lutas que estão acontecendo agora, neste momento, neste país, neste planeta.


As coleções são desenvolvidas em diálogo com a atualidade e com diferentes manifestações da cultura urbana. Os temas atravessam ativismo político e social, memória histórica, conflitos contemporâneos, direitos coletivos, resistência popular, cultura de rua, preservação ambiental e diferentes formas de interpretação crítica do mundo. A intenção não é produzir apenas uma estética, mas construir repertório visual. Isso significa que nossas estampas não são apenas bonitas. São densas, politizadas e carregam consigo uma camada de significado que vai além do visual. Quem veste uma peça da No Pano está vestindo um posicionamento diante do mundo.


Nossas estampas transitam por marcos históricos e políticos que continuam presentes no debate público. A luta de libertação da Palestina, por exemplo, aparece como parte de uma produção visual voltada à memória, à solidariedade e ao debate sobre autodeterminação. Da mesma forma, olhamos para o território brasileiro e para os povos originários que seguem reivindicando demarcação, proteção territorial e reconhecimento de seus direitos.


Também fazem parte desse universo questões relacionadas à preservação ambiental, à desigualdade social, à consciência coletiva, à memória política, à cultura popular e ao papel que cada indivíduo ocupa dentro da sociedade. A arte, nesse contexto, é utilizada como ferramenta de comunicação, elaboração simbólica e ocupação do espaço público.


Não escolhemos temas porque são fáceis, porque são populares, porque vendem. Escolhemos temas porque são importantes, porque são urgentes, porque precisam ser ditos, porque precisam ser lembrados, porque precisam circular. Se uma estampa incomoda, é porque ela está dizendo algo que precisa ser dito. Se uma peça gera debate, é porque ela está cumprindo sua função. Se uma coleção provoca reflexão, é porque ela está fazendo o que se propôs a fazer.


V. A LINGUAGEM DA RUA

A linguagem da No Pano procura justamente trabalhar nessa fronteira entre moda, comunicação e cultura urbana. O streetwear, para nós, representa uma possibilidade de circulação cultural e de identificação coletiva dentro da cidade.


O streetwear nasceu nas ruas. Ao longo das décadas, o streetwear foi apropriado, comercializado, esvaziado de seu conteúdo político e transformado em mercadoria de luxo. Mas a sua origem permanece. E é essa origem que nos interessa.


A No Pano se apropria do streetwear para devolver à rua sua vocação original. Nossas peças são pensadas para circular nas ruas, nos ônibus, nos metrôs, nas praças, nos becos, nas quebradas. Para serem lidas por pessoas que estão passando, que estão indo trabalhar, que estão voltando para casa, que estão ocupando o espaço público. Cada peça é um pequeno outdoor ambulante, uma mensagem que se move, que atravessa territórios, e, principalmente, que INCOMODA.


VI. A ESTRUTURA HUMANA POR TRÁS DA MARCA

Atualmente, a No Pano é coordenada por Lucas Siqueira, profissional com experiência em comunicação, produção visual e em outros projetos relacionados à moda streetwear e esportiva, incluindo a BJJ Kupim de Tatame. Na direção de arte está Diana Emídio, artista visual com trajetória iniciada em 1996 e experiência consolidada em ilustração, arte gráfica e produção visual independente.


Essa estrutura combina experiência de criação, comunicação e produção para desenvolver coleções que mantenham unidade estética sem abrir mão do conteúdo político e cultural que está na origem da marca.


Somos uma equipe pequena, enxuta, comprometida. Cada pessoa que faz parte da No Pano entende o que está fazendo e por que está fazendo. Não há separação entre criação, produção e propósito. Não há distância entre o que pensamos e o que fazemos. Não há contradição entre o que vestimos e o que defendemos.


VII. O FINANCIAMENTO COMO ATO POLÍTICO

A No Pano também mantém uma lógica financeira diretamente vinculada ao projeto que a criou. Atualmente, 100% dos lucros obtidos pela marca são destinados ao financiamento das nossas atividades independentes de comunicação, cultura, produção editorial, criação artística e ativismo político e social.


Isso significa que cada produto adquirido não representa apenas uma compra de vestuário. Ele contribui para manter uma estrutura independente em funcionamento, ajudando a financiar produção de conteúdo, projetos culturais, iniciativas editoriais e outras ações desenvolvidas fora dos circuitos tradicionais de comunicação e mercado.


Quando alguém compra uma peça da está financiando a produção de um jornal independente, apoiando a publicação de livros que não encontrariam espaço em grandes editoras, sustentando iniciativas culturais que acontecem fora dos circuitos comerciais e contribuindo para que uma voz independente continue existindo em um cenário cada vez mais monopolizado.


VIII. A CIRCULAÇÃO COMO ESTRATÉGIA

A circulação é a nossa estratégia. Não nos interessa produzir em massa, estocar, acumular. Nos interessa circular. Fazer com que cada peça chegue a alguém que a vá usar, que a vá vestir, que a vá levar para as ruas.


Não precisamos de milhões de seguidores. Precisamos de pessoas comprometidas. É isso que nos mantém firmes mesmo diante das adversidades, das censuras, das dificuldades.


IX. A MEMÓRIA COMO MATÉRIA-PRIMA

Nossas estampas transitam por marcos históricos e políticos que continuam presentes no debate público. A memória é a nossa matéria-prima. Não a memória nostálgica, que olha para o passado com saudade e imobilismo. Mas a memória viva, que informa o presente, que ilumina o futuro, que nos conecta com as lutas que nos antecederam e que continuam acontecendo.


A luta de libertação da Palestina, por exemplo, aparece como parte de uma produção visual voltada à memória, à solidariedade e ao debate sobre autodeterminação. Trata-se de reconhecer que há povos que lutam há décadas por direitos fundamentais, e que essa luta nos diz respeito, nos interpela, nos convoca. Da mesma forma, olhamos para o território brasileiro e para os povos originários que seguem reivindicando demarcação, proteção territorial e reconhecimento de seus direitos.


Também fazem parte desse universo questões relacionadas à preservação ambiental, à desigualdade social, à consciência coletiva, à memória política, à cultura popular e ao papel que cada indivíduo ocupa dentro da sociedade. Vestir a No Pano é carregar consigo a memória das lutas que nos constituem.


X. A ESTÉTICA COMO POSICIONAMENTO

Não acreditamos em arte pela arte. Cada decisão visual que tomamos é uma decisão política. A cor que escolhemos, a fonte que usamos, a composição que criamos, o tema que abordamos. Nada é neutro. Nada é inocente. Tudo comunica. Tudo significa. Tudo posiciona. Não queremos agradar a todos ou ser consensuais. Queremos incomodar e sermos transformadores da própria realidade


XI. A INDEPENDÊNCIA COMO PRINCÍPIO

A No Pano é parte de um aparelho independente de comunicação e cultura. A independência é para nós um princípio que orienta todas as nossas decisões, todas as nossas escolhas, todos os nossos caminhos.


Mas a independência tem um preço. E o preço é a necessidade de construir nossas próprias fontes de financiamento. É por isso que a No Pano existe. Para que o Jornal Clandestino possa continuar existindo. Para que nossa editora possa continuar publicando. Para que nossos projetos culturais possam continuar acontecendo.


Cada peça que vendemos é um ato de independência. Cada pessoa que nos apoia é uma aliada na construção dessa independência. Cada compra é um voto de confiança em um projeto que não se curva, que não se vende, que não se cala.


XII. O FUTURO COMO CONSTRUÇÃO COLETIVA

Não sabemos exatamente onde a No Pano vai chegar. Não temos um plano de expansão ou metas de crescimento, nosso futuro não é uma linha reta traçada em um gráfico. É uma construção coletiva, feita dia a dia, peça a peça, pessoa a pessoa.


Sabemos que queremos continuar existindo. Sabemos que queremos continuar produzindo. Sabemos que queremos continuar circulando. Sabemos que queremos continuar sustentando as iniciativas que estão na nossa origem. E sabemos que isso depende de cada pessoa que veste nossas peças, que compartilha nossas ideias, que apoia nosso projeto.


Não queremos ser a mais rica. Queremos ser a mais livre.


XIII. MANIFESTO

Por tudo isso, declaramos:


  1. A No Pano é roupa, mas também é uma plataforma de circulação de discursos que não encontram espaço nos canais hegemônicos.


  2. A No Pano é estética urbana, mas também é memória, posicionamento e comunicação. Não fazemos arte pela arte. Fazemos arte que diz algo, que lembra algo, que reivindica algo. Fazemos arte que ocupa o espaço público com conteúdo, com significado, com propósito.


  3. A No Pano é uma ferramenta construída para sustentar aquilo que fazemos fora dela. Não somos um fim em nós mesmos. Somos um meio. Um meio de financiar comunicação independente. Um meio de sustentar cultura independente. Um meio de manter viva uma voz que não se cala.


  4. A No Pano é independente. Não nos curvamos ao poder. Não negociamos nossos princípios. Não trocamos nossa liberdade por recursos. Construímos nossos próprios caminhos, nossos próprios canais, nossas próprias infraestruturas.


  5. A No Pano é coletiva. Não somos uma marca de um indivíduo. Somos um projeto de muitas mãos, de muitas vozes, de muitas histórias. Cada pessoa que veste nossas peças faz parte dessa coletividade. Cada pessoa que nos apoia é parte dessa construção.


  6. A No Pano é resistência. Existimos porque entendemos que determinadas mensagens precisam continuar circulando. Nas ruas, nas redes, no corpo e na cultura. Existimos porque acreditamos que a comunicação é um direito, não um privilégio. Existimos porque sabemos que enquanto houver vozes silenciadas, haverá necessidade de megafones alternativos.


  7. A No Pano é futuro. Não o futuro distante, utópico, inalcançável. Mas o futuro que construímos agora, a cada peça, a cada venda, a cada pessoa que nos descobre. O futuro que começa no presente e que se constrói com o que temos, com o que somos, com o que acreditamos.



NO PANO

Comunicação independente em forma de roupa.

Desde 2023.

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Teatro e Revolução palestina 
Ghassan Kanafani

LANÇAMENTO DISPONÍVEL SOMENTE IMPRESSO

r$30,

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