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Netanyahu tenta preservar controle sobre Gaza

há 21 horas
4 min de leitura

O governo de Benjamin Netanyahu busca retardar e alterar medidas previstas no plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para Gaza, segundo informações publicadas pelo The New Arab. A disputa envolve a retirada das forças israelenses, o envio de uma força internacional e a transferência da administração civil para uma estrutura palestina. O impasse expõe a recusa do governo israelense em abandonar o controle militar sobre o território palestino, mesmo diante de um plano apoiado por Washington.


Netanyahu
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O roteiro apresentado por Trump e pelo Conselho de Paz liderado pelos Estados Unidos, no final de julho, prevê uma administração palestina em Gaza, a retirada das forças israelenses, o desarmamento do Hamas e de outras facções palestinas e o envio de uma Força Internacional de Estabilização. O plano busca estabelecer uma estrutura política para Gaza após o genocídio imposto por Israel contra a população palestina.


O Hamas, que administrava Gaza antes do genocídio, aceitou o roteiro em princípio. O movimento, porém, sustenta que a passagem para uma segunda fase depende do cumprimento, por Israel, de obrigações previstas no processo, entre elas a abertura das passagens de fronteira e a autorização para a entrada de ajuda humanitária.


Benjamin Netanyahu rejeitou, no mês anterior, o plano de 15 pontos apresentado pelo Conselho de Paz. Posteriormente, o jornal israelense Haaretz informou que autoridades israelenses, com apoio do primeiro-ministro, vinham criando obstáculos à implementação do acordo e recusando cooperação com o Conselho de Paz.


Um dos casos citados envolve a passagem de Erez, no norte de Gaza. A Alemanha forneceu a Israel um sistema de escaneamento destinado a permitir a reabertura da passagem para a entrada de mercadorias e ajuda humanitária.


O projeto, porém, foi interrompido. Netanyahu e o ministro israelense Israel Katz afirmaram posteriormente que não haviam recebido instruções para abrir a passagem para mercadorias, impedindo a utilização do sistema fornecido pela Alemanha.


Para o especialista palestino em assuntos israelenses Firas Yaghi, existe uma “verdadeira luta” em torno de quem exercerá autoridade política e controle de segurança sobre Gaza após o genocídio. Em declaração ao The New Arab, Yaghi afirmou que Netanyahu trabalha para “atrasar e reformular” o plano de Trump de acordo com os interesses do governo israelense.


A disputa ocorre também sob influência da política eleitoral israelense. Israel deverá realizar eleições parlamentares em 27 de outubro, e Netanyahu enfrenta a necessidade de preservar sua base política entre os setores que se opõem à retirada das tropas israelenses de Gaza e à transferência de qualquer parcela do controle territorial para instituições palestinas ou forças internacionais.


Ahmed al-Tanani, especialista palestino em assuntos políticos, afirmou ao The New Arab que Netanyahu tenta evitar concessões que possam ser utilizadas por adversários políticos durante o processo eleitoral. Para ele, a retirada das forças israelenses ou a entrada de uma força internacional poderia reabrir o debate sobre os resultados do genocídio e colocar em questão a promessa de “vitória total” apresentada por Netanyahu.


Al-Tanani afirmou que o governo israelense rejeita a presença de uma força internacional porque ela poderia limitar a liberdade de movimentação das tropas israelenses em Gaza. A presença desse contingente também poderia representar uma etapa para a retirada israelense de determinadas áreas do território palestino.


Na avaliação do especialista, Washington possui instrumentos para exercer pressão sobre Israel, mas ainda não utilizou o que classificou como “pressão esmagadora”. A relação entre os dois governos, marcada pelo apoio político, militar e diplomático estadunidense a Israel, limita a possibilidade de tratar o plano como uma imposição externa independente dos interesses da própria aliança entre Washington e Tel Aviv.


Al-Tanani considera que a divergência entre os dois governos é tática, e não estratégica. Washington busca manter o cessar-fogo e avançar para uma estrutura política em Gaza, enquanto Israel procura conservar a maior parcela possível de liberdade para suas operações militares e para o controle da segurança no território.


A principal disputa envolve o controle da segurança em Gaza. O plano estadunidense prevê a atuação de forças internacionais ao lado de uma administração palestina e de uma força policial palestina.


A coalizão de direita liderada por Netanyahu, entretanto, se opõe à transferência do controle de segurança israelense. A posição coloca elementos previstos no plano de Trump em choque com os objetivos defendidos pelo governo israelense.


Segundo Firas Yaghi, o governo estadunidense pretende avançar para a segunda fase do processo. Essa etapa incluiria o desarmamento, a criação de uma administração palestina, a reconstrução de Gaza, a definição de acordos de segurança e a gestão das passagens de fronteira.


O governo israelense, porém, tenta alterar a forma de execução dessas medidas. Uma das alternativas discutidas seria a criação de “zonas piloto”, inspiradas em mecanismos que vêm sendo debatidos para o sul do Líbano.


O jornal israelense Yedioth Ahronoth informou que Israel considera estabelecer áreas delimitadas dentro de Gaza, mediante entendimento com os Estados Unidos. Nessas áreas, forças internacionais entrariam para localizar armas e infraestrutura militar antes da instalação de uma nova administração civil.


Pessoas vinculadas ao Hamas seriam impedidas de retornar às áreas incluídas nesse sistema. O modelo prevê uma transferência territorial gradual, em vez de uma mudança simultânea no controle de toda a Faixa de Gaza.


A proposta é comparada aos arranjos discutidos para o sul do Líbano, onde o envolvimento de estruturas internacionais seria introduzido por etapas. Mesmo nesse formato, entretanto, seria necessária a presença da Força Internacional de Estabilização, de um comitê administrativo palestino e de uma força policial palestina.


São essas estruturas que Netanyahu e sua coalizão resistem a implementar. A criação de uma administração palestina e a presença de forças internacionais reduziriam a capacidade de Israel de manter controle militar direto sobre Gaza.


Tanto Ahmed al-Tanani quanto Firas Yaghi avaliam que a disputa não representa uma ruptura entre Trump e Netanyahu. O desacordo está relacionado à velocidade e à forma de execução das medidas previstas, enquanto os interesses da aliança entre os Estados Unidos e Israel permanecem presentes nas negociações.


Trump busca apresentar o cessar-fogo como parte de uma conquista política e avançar para uma nova administração em Gaza. Netanyahu procura preservar a liberdade de ação das forças israelenses e evitar decisões que possam enfraquecer sua posição junto à direita israelense antes das eleições de 27 de outubro.


O primeiro-ministro israelense tenta, assim, evitar duas pressões: demonstrar oposição a uma administração estadunidense que sustenta seu governo e, ao mesmo tempo, ser acusado por sua base política de abandonar o controle israelense sobre Gaza. A implementação do plano segue condicionada às disputas entre Washington e Tel Aviv e às decisões do governo Netanyahu sobre a retirada militar, a presença internacional e a administração palestina do território.

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