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Retomada dos combates no Iêmen pode deslocar 230 mil pessoas e levar 10 mil ao Djibuti

há 11 minutos
4 min de leitura

A retomada dos combates no Iêmen pode levar até 10 mil pessoas a atravessar o Mar Vermelho em direção ao Djibuti nos próximos meses, alertou o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Dentro do Iêmen, o número de pessoas deslocadas pelos confrontos pode passar de 130 mil para mais de 230 mil, somando-se aos mais de 5,2 milhões que já estavam deslocados antes da nova escalada. O alerta ocorre enquanto o litoral do Mar Vermelho é palco de novos combates e milhares de famílias deixam suas casas em busca de segurança, pressionando uma resposta humanitária que enfrenta falta de recursos.


©OIM/Alexander Bee
©OIM/Alexander Bee

Babar Baloch, porta-voz do ACNUR, afirmou nesta terça-feira, 22 de setembro, em Genebra, que a intensificação dos combates pode produzir uma nova onda de deslocamentos. “A intensificação dos combates no Iêmen poderá provocar mais deslocamentos em massa”, declarou durante uma entrevista coletiva.


Segundo o ACNUR, mais de 3 mil pessoas atravessaram o Mar Vermelho e chegaram ao Djibuti ao longo de vários dias no início de setembro. A agência informou que está se preparando para receber mais de 10 mil pessoas nos próximos meses, sobretudo a partir de meados de outubro, quando as condições marítimas devem permitir um aumento das travessias.


Baloch afirmou que o ACNUR e organizações parceiras estão “planejando a chegada de mais de 10.000 pessoas ao Djibuti”. A projeção inclui novos deslocamentos provocados pela continuidade dos combates nas áreas costeiras do Iêmen e pela dificuldade de permanência das famílias em regiões atingidas pela ofensiva.


A chegada de refugiados já pressiona a estrutura de acolhimento do Djibuti. Em 18 de setembro, o ACNUR informou que quase 3 mil pessoas haviam chegado ao país em menos de uma semana, atravessando o estreito de Bab el-Mandeb em embarcações de pequeno porte.


Os desembarques ocorreram em pontos como Obock, Khor Angar, Moulhoule e Godoria. O ACNUR relatou que algumas famílias tiveram de deixar parentes para trás e que outras pessoas que tentavam abandonar o Iêmen permaneceram impedidas de partir por causa da insegurança e da falta de combustível para as embarcações.


O governo do Djibuti já havia informado, em 16 de setembro, que mais de 2.500 iemenitas haviam chegado ao país desde a semana anterior. O ministro do Interior, Omar Abdi Said, afirmou na ocasião: “Esperamos que o número de deslocados aumente para cerca de 10.000 nas próximas semanas”.


Dentro do Iêmen, o deslocamento provocado pelos combates também avançou. O ACNUR informou em 15 de setembro que mais de 100 mil pessoas haviam sido deslocadas no país, enquanto os combates atingiam áreas de Al Hodeidah, Taiz, Lahj, Aden, Abyan, Marib, Al Dhaleh e Shabwah.


Na atualização de 22 de setembro, a projeção apresentada pelo ACNUR aponta que o número de deslocados internos pode ultrapassar 230 mil. Baloch afirmou que a quantidade, então superior a 130 mil, poderia aumentar em mais de 100 mil caso a escalada prossiga.


Esse contingente se soma aos mais de 5,2 milhões de pessoas que já estavam deslocadas internamente no Iêmen antes da retomada dos combates. A nova onda de deslocamento ocorre em um país que já depende de operações humanitárias para atender milhões de pessoas afetadas por anos de intervenção externa, disputa territorial e colapso de estruturas civis.


A nova escalada começou após forças de Ansar Allah avançarem sobre áreas do litoral do Mar Vermelho. A ofensiva levou à tomada de Mocha e de áreas costeiras e ilhas próximas ao estreito de Bab el-Mandeb, rota marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao oceano Índico.


Os combates também atingiram as províncias de Taiz e Lahj. Em 22 de setembro, a Al Jazeera informou que forças de Ansar Allah combatiam pelo controle das montanhas de Kahboub, posições que permitem observar o estreito de Bab el-Mandeb e a ilha de Mayyun.


A escalada produziu também vítimas. Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde indicavam, até 22 de setembro, pelo menos 674 mortos e quase 3 mil feridos desde 6 de agosto, incluindo 164 mortes e 516 feridos registrados entre 13 e 18 de setembro.


A Unidade Executiva para a Gestão dos Campos de Deslocados no Iêmen informou que mais de 158 mil pessoas haviam sido deslocadas em setembro, correspondendo a cerca de 23.550 famílias que deixaram suas casas em oito províncias, entre elas Aden, Al Hodeidah e Taiz.


A situação também afeta a segurança alimentar. Segundo dados do Programa Mundial de Alimentos, mais de 18 milhões de pessoas no Iêmen enfrentam insegurança alimentar aguda, enquanto cerca de 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda. O país importa cerca de 90% dos alimentos que consome, tornando o funcionamento de portos e aeroportos um fator direto para o abastecimento da população.


Carl Skau, diretor-executivo interino do Programa Mundial de Alimentos, afirmou que “dezenas de milhares” de pessoas estão chegando aos campos de deslocados “com nada”. Segundo ele, a interrupção das operações portuárias ou aeroportuárias afeta o acesso da população aos alimentos.


O ACNUR também alertou para a falta de financiamento. A operação da agência no Iêmen recebeu apenas 18% dos recursos necessários para 2026, enquanto a agência estima precisar de US$ 25 milhões para fornecer assistência imediata a aproximadamente 231 mil pessoas.


No Djibuti, a situação financeira da operação é ainda mais limitada. O ACNUR informou que suas atividades no país estão financiadas em apenas 15% e solicitou US$ 13,5 milhões para garantir que os recém-chegados tenham acesso a registro, acolhimento, proteção e outros serviços essenciais.


A Organização Internacional para as Migrações também informou que sua capacidade de resposta está sob pressão. Abdusattor Esoev, chefe da missão da OIM no Iêmen, afirmou em 18 de setembro que os recursos disponíveis eram limitados e que os estoques poderiam se esgotar em pouco tempo.


Além dos deslocados iemenitas, mais de 65 mil refugiados e solicitantes de asilo registrados no Iêmen, em sua maioria provenientes da Somália e da Etiópia, também estão expostos aos efeitos da escalada.


No Djibuti, os recém-chegados estão sendo encaminhados para estruturas de acolhimento próximas a Obock. O ACNUR informou que mulheres, crianças e outras pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre os grupos que atravessam o Bab el-Mandeb, enquanto organizações humanitárias tentam ampliar a capacidade de registro, abrigo, alimentação, água, saúde e proteção.

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