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Rússia acusa secretário-geral da ONU de abandonar neutralidade no caso Bucha

há 5 horas
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A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, acusou nesta quinta-feira (17) o secretário-geral da ONU, António Guterres, de ter aderido à responsabilização da Rússia pelas mortes registradas em Bucha, na Ucrânia. A declaração foi feita durante uma coletiva de imprensa realizada na agência TASS para apresentar um relatório do chamado Tribunal Público Internacional para Crimes de Neonazistas Ucranianos. Zakharova afirmou que Guterres teria violado o princípio de neutralidade associado ao cargo e classificou sua atuação como participação em uma “provocação” contra a Rússia.


Maria Zakharova ©Reuters
Maria Zakharova ©Reuters

“Guterres, e posso afirmar isso oficialmente, embarcou conscientemente no trem anti-Rússia”, declarou Zakharova durante o evento realizado em Moscou. A diplomata afirmou que o secretário-geral das Nações Unidas teria deixado de questionar conclusões que, segundo ela, responsabilizam a Rússia pelas mortes ocorridas em Bucha.


Zakharova também criticou o trabalho do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e citou um relatório publicado em 7 de dezembro de 2022. Segundo ela, o documento produzido sob a estrutura do Alto Comissariado teria se tornado uma das principais bases para a versão internacional sobre os acontecimentos em Bucha.


A diplomata russa afirmou que o secretário-geral “não só não duvidou de suas conclusões”, mas também não teria realizado uma nova análise das acusações apresentadas contra a Rússia. Para Zakharova, essa postura representaria uma violação do princípio de neutralidade que deveria orientar o chefe administrativo das Nações Unidas.


“Ele desrespeitou esse princípio e se tornou totalmente cúmplice dessa provocação”, afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.


Zakharova declarou ainda que Moscou teria apresentado questionamentos oficiais sobre Bucha ao longo dos anos, mas que Guterres não teria retomado o assunto. “Apesar das exigências da Rússia e das questões levantadas oficialmente, nunca mais voltou a abordar este tema”, disse.


A diplomata acrescentou que existiriam informações disponíveis em fontes abertas que, na avaliação do governo russo, colocariam em dúvida a versão apresentada sobre Bucha. “Ao mesmo tempo, havia ampla evidência em fontes abertas de que o incidente foi uma farsa”, afirmou.


O relatório das Nações Unidas citado na disputa, porém, apresenta conclusões diferentes das atribuídas por Zakharova ao documento. Publicado pelo OHCHR em 7 de dezembro de 2022, o relatório examinou mortes de civis ocorridas entre 24 de fevereiro e 6 de abril de 2022 em partes das regiões de Kyiv, Chernihiv e Sumy, enquanto essas áreas estavam sob controle das forças russas.


Até 31 de outubro de 2022, a missão de direitos humanos da ONU havia documentado 441 mortes de civis nas três regiões, entre elas 341 homens, 72 mulheres, 20 meninos e oito meninas. O relatório registrava que outros 198 casos ainda estavam em processo de verificação.


Em Bucha, a missão documentou 73 mortes de civis até 31 de outubro: 54 homens, 16 mulheres, dois meninos e uma menina. Outros 105 casos de mortes ainda estavam em processo de confirmação naquele momento. A ONU registrou que Bucha esteve sob controle das tropas russas entre 5 e 30 de março de 2022.


Entre os 100 casos examinados em detalhe pelo relatório, 57 foram classificados como execuções sumárias. Trinta ocorreram em locais de detenção e 27 aconteceram no local, após as vítimas terem passado ao controle das forças russas. A missão afirmou que as circunstâncias apresentavam fortes indícios de que os assassinatos poderiam constituir o crime de guerra de homicídio intencional.


O documento também registrou casos em que civis foram mortos enquanto se deslocavam entre localidades, iam ao trabalho, levavam alimentos, visitavam parentes ou tentavam deixar as áreas atingidas pelas operações militares. Em alguns episódios, segundo a ONU, forças russas abriram fogo contra residências civis.


A chefe da Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia à época, Matilda Bogner, declarou em dezembro de 2022 que havia “fortes indícios” de que as execuções sumárias documentadas poderiam constituir o crime de guerra de homicídio intencional. A missão também informou que não havia encontrado indicação de que autoridades russas tivessem iniciado investigações ou processos contra integrantes de suas forças relacionados aos assassinatos documentados.


A controvérsia retomada por Zakharova ocorre em torno de um dos episódios que passaram a ocupar espaço central na disputa de narrativas sobre as operações russas na Ucrânia. Enquanto Moscou sustenta que Bucha foi utilizada para atribuir à Rússia crimes que não teria cometido, os registros publicados pelo órgão de direitos humanos da ONU apresentam documentação sobre mortes ocorridas enquanto tropas russas controlavam a cidade e outras localidades das regiões de Kyiv, Chernihiv e Sumy.

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