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Usando Deus, novamente: Flávio Bolsonaro fala em ‘guerra espiritual’ na Marcha para Jesus

O senador Flávio Bolsonaro participou nesta quinta-feira (4) da Marcha para Jesus, em São Paulo, transformando um dos maiores eventos religiosos do país em vitrine para sua pré-campanha presidencial. O ato ocorreu em meio à queda de seu desempenho eleitoral entre evangélicos e ao aumento das críticas relacionadas às denúncias sobre sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro e à associação de seu nome ao novo pacote tarifário anunciado pelo governo estadunidense contra produtos brasileiros.


Foto: Miguel Schincariol / AFP
Foto: Miguel Schincariol / AFP

Durante o evento organizado pela Igreja Renascer em Cristo, Flávio adotou um discurso religioso voltado para a disputa eleitoral de 2026. Diante de apoiadores, afirmou que o Brasil vive uma “guerra espiritual” e declarou que o “mal” deixará o governo ainda neste ano, em referência à administração do presidente Lula, candidato à reeleição.


“Vamos orar pelo nosso Brasil. Esta guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso do governo deste Brasil este ano”, afirmou o senador.

O parlamentar também utilizou o evento para defender seu pai, Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado. Ao comentar a ausência do ex-presidente, declarou que gostaria de vê-lo presente na marcha e afirmou esperar seu retorno ao evento em 2027.


“Queria muito que ele estivesse com a gente aqui presente, mas vamos lutar por ele para o ano que vem. Se Deus quiser, a gente profetiza que ele vai voltar aqui”, disse.

A participação de Flávio ocorre em um contexto de desgaste político registrado por pesquisas eleitorais. Levantamentos da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg apontam redução contínua de seu apoio entre eleitores evangélicos. Em março, o senador registrava 65,4% das intenções de voto nesse segmento. O índice caiu para 58,6% em abril e chegou a 50,9% em maio. No mesmo período, Lula passou de 14% para 25% entre os evangélicos.


Entre os católicos, o movimento também foi registrado. Flávio aparecia com 35,2% das intenções de voto em março, alcançou 38,1% em abril e recuou para 31,5% em maio. Lula registrou 52,2% das preferências nesse grupo religioso.


No cenário nacional, os números divulgados em maio mostraram Lula com 46,7% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34,2% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual disputa de segundo turno, o presidente manteve vantagem de sete pontos percentuais.


A queda nos indicadores eleitorais coincidiu com a divulgação de reportagens do The Intercept Brasil sobre negociações envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento do filme “Dark Horse”, produção dedicada à trajetória política de Jair Bolsonaro.


De acordo com documentos, mensagens, gravações de áudio e registros obtidos pelo veículo, foram negociados US$ 24 milhões para a realização do projeto, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões. Desse montante, US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido transferidos em seis operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025.


As mensagens divulgadas mostram o senador cobrando repasses financeiros para a continuidade da produção. Em um dos áudios revelados, Flávio demonstra preocupação com atrasos em pagamentos destinados à equipe do filme, incluindo o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh.


As reportagens também apontam a participação do deputado federal Mario Frias, produtor executivo da obra, do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, do empresário Thiago Miranda e de Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Daniel Vorcaro.


Segundo o Intercept, parte dos recursos teria sido direcionada ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no estado do Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.


Outro conjunto de mensagens revelou tentativas de impedir a divulgação pública do projeto. Em agosto de 2025, após reportagem publicada pelo Portal Leo Dias sobre o filme, Vorcaro reclamou da exposição do empreendimento. Horas depois, o então diretor-executivo do portal, Thiago Miranda, informou que solicitariam a retirada da matéria. O conteúdo acabou removido da plataforma.


Além das denúncias relacionadas ao financiamento do filme, Flávio passou a enfrentar críticas após sua visita ao presidente estadunidense Donald Trump. O encontro antecedeu o anúncio de novas tarifas sobre produtos brasileiros, medida interpretada por parte da opinião pública como instrumento de pressão econômica contra o Brasil.


Nas redes sociais, a medida recebeu o apelido de “Tariflávio”, associando o senador ao tarifaço promovido pelo governo estadunidense. A repercussão ampliou o debate sobre o alinhamento internacional do grupo bolsonarista e sobre o papel de atores políticos brasileiros em iniciativas que afetam setores da economia nacional.


A Marcha para Jesus também contou com a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do prefeito Ricardo Nunes, do advogado-geral da União Jorge Messias, do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e do deputado estadual Lucas Bove.


Tarcísio afirmou que o evento representa esperança para o país e declarou que “quando o povo se arrepende, ajoelha e ora, as feridas são saradas”. Ricardo Nunes destacou o crescimento anual da mobilização religiosa. Jorge Messias defendeu a convivência entre diferentes grupos religiosos e afirmou ter participado da marcha para renovar sua fé.


André Mendonça declarou que o encontro reúne milhões de brasileiros em torno da fé cristã e afirmou buscar exercer suas funções públicas com “serenidade e responsabilidade”. Já Lucas Bove destacou a presença de diferentes denominações religiosas e disse participar da marcha pelo quinto ano consecutivo.


Segundo os organizadores, a Marcha para Jesus deverá reunir cerca de 2 milhões de pessoas. A concentração teve início às 10 horas na região da Luz e seguiu até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na zona norte da capital paulista, onde foram realizados shows de música gospel, momentos de oração e pronunciamentos de autoridades políticas e religiosas.

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