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Documento comprova que Trump tentou condicionar tarifaço à participação de Bolsonaro nas eleições

há 1 dia
3 min de leitura

O documento obtido pelo Estadão integra uma proposta de 21 exigências apresentada pelo governo Trump ao Brasil durante as negociações para reduzir o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. Entre as condições estava o compromisso de realizar eleições presidenciais “livres e justas” e não deter, prender ou limitar “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral de 2026.


Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Divulgação/casa Branca
Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Divulgação/casa Branca

“O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, dizia o texto encaminhado aos negociadores brasileiros.


A minuta não citava Jair Bolsonaro nominalmente. Integrantes do governo brasileiro ouvidos pelo Estadão, porém, associaram a exigência à situação do ex-presidente, que naquele momento buscava manter sua candidatura apesar de já estar inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral e de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão pela tentativa de golpe de Estado.


O documento chegou ao Itamaraty em 16 de outubro de 2025, durante uma viagem de Mauro Vieira a Washington. Pelo menos dois integrantes da comitiva brasileira receberam o material por e-mail antes dos encontros com representantes do governo Trump, e a equipe analisou as exigências na residência oficial da Embaixada do Brasil.


Vieira considerou a proposta “inaceitável” e afirmou que ela “não era base para nada”. O chanceler determinou que o texto fosse retirado das negociações formais e orientou a equipe brasileira a comunicar aos representantes estadunidenses que as condições não seriam discutidas.


Na mesma data, Vieira teve uma conversa reservada com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e participou de uma reunião com o representante comercial estadunidense, Jamieson Greer, além de integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado. As reuniões ocorreram antes do primeiro encontro de trabalho entre Lula e Trump, realizado dez dias depois, em Kuala Lumpur, na Malásia.


Depois dos encontros, Brasil e Estados Unidos divulgaram um comunicado conjunto no qual classificaram as conversas sobre comércio e questões bilaterais como “muito positivas”. A exigência relacionada à participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras não foi incluída no comunicado e permaneceu fora do debate público até a divulgação do documento em 17 de setembro de 2026.


A proposta fazia parte de uma lista com 21 pontos apresentada por Washington como base para negociar as tarifas de 50% aplicadas aos produtos brasileiros. A maior parte das exigências tratava de comércio, mas quatro avançavam sobre questões políticas, judiciais e institucionais brasileiras.


Além da cláusula sobre as eleições, o governo Trump exigiu que o Brasil não aplicasse determinadas punições contra cidadãos, residentes legais ou empresas estadunidenses. “O Brasil não aplicará multas extraterritoriais, não imporá congelamento de ativos, não deterá, prenderá ou punirá de qualquer outra forma cidadãos americanos, residentes legais ou empresas americanas por conduta protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA”, estabelecia o documento.


Outra exigência tratava das plataformas digitais estadunidenses. A proposta previa que o Brasil assegurasse a essas empresas aviso prévio e possibilidade de manifestação ou recurso diante de decisões, penalidades ou multas relacionadas a publicações em redes sociais, além de estabelecer regras para remoção de conteúdo e responsabilidade civil.


O quarto ponto de natureza política e institucional envolvia o sistema financeiro. Washington pretendia que o governo brasileiro não aplicasse punições a instituições financeiras brasileiras que cumprissem sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos.


A proposta foi apresentada poucos meses depois de Trump anunciar, em julho de 2025, o tarifaço de 50% contra produtos brasileiros. Na ocasião, o presidente dos Estados Unidos relacionou publicamente as medidas comerciais ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando o caso como uma “vergonha internacional” e uma “caça às bruxas” que deveria terminar imediatamente.


Trump também acusou o Supremo Tribunal Federal de atacar eleições livres e de censurar empresas dos Estados Unidos. As declarações colocaram o processo contra Bolsonaro, as plataformas digitais estadunidenses e as medidas comerciais dentro do mesmo conjunto de reivindicações apresentadas pelo governo Trump ao Brasil.


Na época da entrega do documento, Bolsonaro e seus filhos ainda tentavam manter sua candidatura presidencial. Flávio Bolsonaro só anunciou em 5 de dezembro de 2025 que havia sido escolhido pelo pai como candidato do bolsonarismo à Presidência, quase dois meses depois da entrega da proposta ao Itamaraty.


A revelação do documento ocorre enquanto o governo Lula volta a denunciar interferências estadunidenses em assuntos internos brasileiros. Nesta semana, Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho, enquanto Brasil e China defenderam a não interferência externa nos assuntos internos de outros países.


O Itamaraty não comentou o conteúdo do documento obtido pelo Estadão. O Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos também não responderam aos pedidos de manifestação feitos pelo jornal.

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