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Lula critica plano de Flávio Bolsonaro inspirado em Milei

há 52 minutos
4 min de leitura

O presidente Lula criticou a proposta econômica apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro e sua inspiração nas reformas do presidente argentino Javier Milei. Em entrevista à Record TV, transmitida na noite de 15 de setembro, Lula questionou a aplicação no Brasil de medidas como redução de gastos públicos, diminuição da estrutura estatal, privatizações e revisão de regras e benefícios tributários. A declaração ocorreu após Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, afirmar que Milei seria uma referência para o programa do candidato.


Presidente Lula ©Dante Fernandez/AFP
Presidente Lula ©Dante Fernandez/AFP

Daniella Marques declarou em 14 de setembro, durante evento do Esfera Brasil, em São Paulo, que a campanha de Flávio Bolsonaro pretende utilizar como inspiração as reformas realizadas pelo governo argentino. “Vamos usar de inspiração no que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina”, afirmou Marques, que também defendeu revisão de gastos públicos, privatizações e a revogação de regras e benefícios tributários.


A proposta inclui uma revisão do conjunto de normas que regulam a atividade econômica. De acordo com Marques, a campanha trabalha com a possibilidade de revogar mais de mil normas infralegais e realizar um “revogaço” de medidas adotadas durante o governo Lula. A coordenadora também vinculou o ajuste das contas públicas à possibilidade de redução dos juros e afirmou que a equipe pretende reduzir a estrutura do Estado sem retirar programas sociais.


Lula questionou durante a entrevista como o modelo argentino poderia ser aplicado à realidade brasileira. Ao abordar os efeitos sociais atribuídos por ele às políticas econômicas de Milei, o presidente elevou o tom da crítica e afirmou: “Se eles ganharem, implementarão as políticas econômicas de Milei no Brasil. Como?”. Na sequência, mencionou cortes em áreas como Previdência e educação e relacionou essas medidas às condições enfrentadas por setores de menor renda.


O presidente também fez referência à situação social argentina para contestar a possibilidade de importar o modelo econômico. Lula afirmou que pessoas estariam recorrendo ao consumo de carne de burro por não conseguirem comprar outros tipos de carne e mencionou aposentados com mais de 80 anos que teriam sido afetados por cortes nas pensões. Também afirmou que a mortalidade infantil teria aumentado no país durante o período de Milei.


“Fico emocionado ao falar sobre isso porque parece uma loucura. É inacreditável que os brasileiros estejam tão cegos pelo ódio a ponto de quererem que seus irmãos comam lixo”, declarou Lula durante a entrevista.


As declarações ocorreram no contexto da disputa presidencial de 2026. Lula pretende buscar um quarto mandato nas eleições de outubro e contrapôs a proposta associada a Milei aos resultados econômicos que atribui ao seu governo desde 2023, citando indicadores de segurança alimentar, inflação, emprego e renda.


Na entrevista, Lula afirmou que, quando assumiu a Presidência, o Brasil acumulava inflação de alimentos superior a 56% nos quatro anos anteriores. Segundo o presidente, o indicador caiu para 13% durante seu governo.


O arroz foi utilizado por Lula como exemplo. O presidente afirmou que o quilo do produto custa atualmente R$ 4,93 e calculou que chegaria a R$ 8,43 caso tivesse acompanhado a inflação registrada no período anterior. Em outra comparação feita durante a entrevista, Lula mencionou R$ 7,96 como preço no fim do governo de Jair Bolsonaro.


Lula também citou a saída do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O relatório SOFI 2025 registrou que a prevalência de subalimentação no Brasil ficou abaixo de 2,5% no triênio 2022-2024, percentual utilizado pela FAO como referência para a classificação do Mapa da Fome.


Os dados mais recentes da FAO, divulgados em julho de 2026 no relatório SOFI 2026, indicam que o Brasil permaneceu fora do Mapa da Fome no triênio 2023-2025. A proporção da população em situação de insegurança alimentar severa caiu para 0,6%, ante 6,6% no triênio 2021-2023 e 3,4% no período 2022-2024. O levantamento também registrou que 16,7 milhões de pessoas deixaram a condição de insegurança alimentar severa no triênio 2023-2025.


O mesmo relatório aponta que a proporção de brasileiros sem condições financeiras de adquirir uma alimentação saudável caiu de 31,2% em 2021 para 21,1% em 2025, passando de 65,3 milhões para 44,8 milhões de pessoas. A FAO também registrou que a inflação média anual dos alimentos no Brasil no triênio 2023-2025 foi de 3,8%, enquanto o IPCA de alimentos de 2025 ficou em 2,95%.


A política de abastecimento também aparece nos dados oficiais como parte do cenário citado pelo governo. Segundo a mensagem do Executivo ao Congresso Nacional, os leilões de contratos de opção de venda de arroz realizados em 2024 resultaram na negociação de 91,7 mil toneladas e, em 2025, o governo adquiriu 223,2 mil toneladas para recompor estoques públicos. A produção de arroz cresceu 17% em 2025 na comparação com o ano anterior, de acordo com o mesmo documento.


Apesar dos indicadores citados por Lula, o próprio presidente reconheceu durante a entrevista que a redução do custo de vida continua sendo uma questão em aberto. “Resolveu tudo? Não, não resolveu tudo porque nós precisamos baratear o preço do feijão e do arroz”, afirmou, ao defender aumento da produção de alimentos, geração de empregos e crescimento dos salários como medidas para ampliar o poder de compra.


Na quarta-feira, 16 de setembro, Lula voltou às declarações da entrevista em suas redes sociais e publicou trechos da conversa. Ao defender a continuidade de sua política econômica, afirmou: “É por isso que continuaremos trabalhando para impulsionar a economia, gerar empregos de qualidade, aumentar a renda e reduzir o custo de vida”.

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