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PF rastreia conexão entre Flávio Bolsonaro, Vorcaro e imóvel de luxo em São Paulo

há 3 horas
5 min de leitura

A Polícia Federal mapeou conexões entre o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e o advogado Willer Tomaz a partir do uso de um apartamento de luxo em São Paulo durante a campanha eleitoral. O imóvel, localizado na Vila Nova Conceição, havia pertencido a Fabiano Campos Zettel, apontado pela PF como operador e laranja de Vorcaro, e foi vendido por R$ 3,5 milhões à empresa de Tomaz. A transferência ocorreu após uma ordem judicial de bloqueio de bens ligados ao grupo do Banco Master e no mesmo dia em que Zettel teve a prisão preventiva decretada.


Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro | Imagem gerada por IA
Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro | Imagem gerada por IA

Na primeira quinzena de agosto, Flávio Bolsonaro utilizou o apartamento de 158,87 metros quadrados, no Edifício l’Adresse, na Avenida República do Líbano, como uma das bases de sua campanha em São Paulo. Do endereço partiram reuniões de estratégia, gravações para o horário eleitoral, podcasts e deslocamentos para compromissos na região da Faria Lima, enquanto o comitê oficial da candidatura ficava a cerca de cinco minutos do prédio.


A utilização do imóvel foi revelada pela revista Piauí e expôs uma sequência de transações que conecta o patrimônio usado pela campanha a pessoas investigadas no caso Banco Master. A presença do candidato também alterou a rotina do condomínio, com agentes da Polícia Legislativa à paisana nas áreas comuns e no hall, além de viaturas estacionadas nas proximidades.


Antes de chegar à empresa de Willer Tomaz, o apartamento pertencia a Fabiano Campos Zettel, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro. Segundo a reportagem do Vermelho baseada nas informações atribuídas à Polícia Federal, Zettel é apontado como operador e laranja do ex-controlador do Banco Master. Ele havia comprado o imóvel em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões.


Em 14 de janeiro de 2026, o ministro Dias Toffoli autorizou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que determinou o sequestro e o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens ligados ao grupo investigado no caso Master. Menos de um mês depois, em 10 de fevereiro, Zettel vendeu o apartamento por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa pertencente ao advogado Willer Tomaz.


A operação imobiliária representou uma diferença nominal de R$ 2 milhões em relação ao valor pago por Zettel dez meses antes, equivalente a uma redução de cerca de 36%. O registro da transferência foi concluído em 4 de março de 2026, mesma data em que Zettel teve a prisão preventiva decretada pelo ministro André Mendonça, na terceira fase da operação, conforme a reportagem publicada pelo Vermelho.


A empresa que adquiriu o imóvel pertence a Willer Tomaz de Souza, advogado que também aparece em investigações da Polícia Federal. A PF investiga Tomaz na Operação Sem Desconto, que apura fraudes contra aposentados do INSS e examina estruturas utilizadas para movimentação patrimonial e cessão de bens.


De acordo com a apuração publicada pelo Vermelho, a Polícia Federal identificou um padrão envolvendo imóveis, aeronaves e veículos registrados em nome de empresas enquanto o uso efetivo seria feito por pessoas que não aparecem formalmente como proprietárias. O apartamento da Vila Nova Conceição seria o quinto episódio documentado envolvendo a utilização, por Flávio Bolsonaro, de estruturas associadas à WT Administração ou a Willer Tomaz.


A relação entre Flávio Bolsonaro e Tomaz também aparece em outros episódios. Em fevereiro de 2026, o senador realizou o aniversário da filha em uma mansão à beira-mar em Angra dos Reis, cuja cota pertence à WT e era administrada pela Prime You, empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual Daniel Vorcaro foi sócio até setembro de 2025. Na ocasião, Tomaz afirmou que havia cedido o imóvel sem receber pagamento.


Tomaz também esteve envolvido em uma disputa judicial pela posse de uma mansão em uma ilha de Angra dos Reis. O imóvel possui cerca de 11 suítes, praia e cachoeira e havia sido ocupado, a partir de 2020, pelo grupo do jogador Richarlison, por meio da empresa Sport 70, que detinha 75% da participação, enquanto Alencar Silveira Júnior possuía os outros 25%. Richarlison declarou ter investido cerca de R$ 10 milhões no local.


A posse do imóvel passou para a WT Administração, de Willer Tomaz, após decisões judiciais favoráveis ao advogado, inclusive no Superior Tribunal de Justiça. Flávio Bolsonaro visitou a propriedade, publicou imagens da casa em 2021 e afirma não ser proprietário nem sócio do empreendimento.


A apuração também aponta Tomaz em episódios envolvendo deslocamentos da família Bolsonaro em jatinhos privados. Entre os trechos citados estão viagens do Ceará a Brasília após um acidente de quadriciclo, o percurso entre Brasília e Rio de Janeiro e uma viagem à Flórida. O advogado também aparece relacionado à indicação de Letícia Caetano dos Reis para administrar a sociedade individual de advocacia de Flávio Bolsonaro e a interlocuções políticas em Brasília.


O vínculo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro aparece em outra investigação conduzida no Supremo Tribunal Federal. Flávio é investigado na Petição 16.369, vinculada ao Inquérito 5.026 e sob relatoria do ministro André Mendonça, enquanto Zettel e Vorcaro são alvos centrais das apurações relacionadas ao Banco Master.


A investigação examina suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Relatórios da Polícia Federal descrevem Flávio Bolsonaro como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas tratativas para obtenção dos recursos destinados à produção.


Dados extraídos do celular de Vorcaro e documentos reunidos pelos investigadores registram reuniões presenciais e cobranças relacionadas às parcelas do projeto. Os aportes negociados chegaram a US$ 24 milhões, enquanto mais de R$ 61 milhões foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025, com participação de Fabiano Zettel na movimentação dos recursos, segundo a apuração publicada pelo Vermelho.


A existência da investigação específica envolvendo Flávio Bolsonaro, Vorcaro e o financiamento de “Dark Horse” veio a público em setembro, quando o STF passou a retirar o sigilo de procedimentos relacionados ao caso Master. A Petição 16.369, aberta após solicitação da Polícia Federal e com aval da Procuradoria-Geral da República, apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento da produção cinematográfica.


Em setembro, a Polícia Federal também entregou ao STF dados completos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, após determinação do ministro Cristiano Zanin. O material havia sido liberado de forma parcial anteriormente e passou a ser analisado por integrantes da Corte no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master e às relações de Vorcaro com agentes públicos e políticos.


Procurada pela Piauí, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que o senador havia se hospedado em hotéis da região durante seus compromissos em São Paulo, mas não respondeu aos questionamentos sobre as atividades realizadas no apartamento da Vila Nova Conceição. Willer Tomaz negou, por telefone, que Flávio tivesse utilizado o imóvel. Em declaração posterior, afirmou que não conhece Fabiano Zettel nem Daniel Vorcaro e sustentou que a aquisição do apartamento ocorreu dentro das regras de mercado, com certidões negativas regulares.

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