jornalista do “Democracy Now!” explica por que a mídia independente é mais necessária do que nunca
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A jornalista investigativa Amy Goodman, apresentadora do “Democracy Now!”, afirmou que o sistema midiático dominante opera por meio do que chamou de “acesso ao mal”, expressão usada para descrever a troca de independência jornalística por proximidade com o poder. A declaração foi feita durante conversa com Akela Lacy no programa The Intercept Briefing, divulgado em 14 de abril de 2026, em meio à continuidade da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e à pressão política do presidente Donald Trump por medidas de bloqueio no Golfo Pérsico. Goodman vinculou o cenário atual ao avanço de conglomerados corporativos sobre redações e à influência direta de setores militares e empresariais na definição da cobertura jornalística.

No centro da entrevista esteve o documentário “Roube esta história, por favor!”, que acompanha a trajetória de Goodman e a consolidação do "Democracy Now!”, programa independente que completou 30 anos de existência. A produção destaca a defesa de uma imprensa fora do controle corporativo e a recusa em restringir reportagens a exclusividades editoriais. Goodman afirmou: “Eu incentivo isso. Roubem essa história, por favor. É um fracasso se for uma exclusiva”, defendendo a ampla circulação de reportagens investigativas como parte do interesse público. Segundo ela, a mídia independente é essencial para a manutenção de qualquer estrutura democrática.
Ao longo da entrevista, Goodman criticou diretamente a influência de fabricantes de armas, empresas de energia fóssil e instituições financeiras sobre grandes veículos de comunicação. Ela afirmou que esses setores, ao financiarem publicidade e investimentos midiáticos, acabam moldando o enquadramento de coberturas sobre guerras, mudanças climáticas e desigualdade econômica. “Não podemos deixar que fabricantes de armas determinem nossa cobertura da guerra”, declarou, acrescentando que o mesmo padrão se repete com empresas de petróleo, gás, carvão e bancos. A jornalista relacionou essa estrutura ao enfraquecimento da capacidade de fiscalização do poder político nos Estados Unidos.
A discussão também recuperou episódios históricos de cobertura jornalística em zonas de conflito, como a invasão do Iraque em 2003, quando a grande mídia estadunidense foi criticada por aceitar versões oficiais sem questionamento. Goodman afirmou que, no presente, a cobertura da guerra contra o Irã repete padrões semelhantes, com pouca atenção às vozes da população iraniana e da diáspora. Ela lembrou ainda o golpe de 1953 contra Mohammad Mossadegh, articulado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, como elemento central para compreender a atual desconfiança iraniana em relação ao Ocidente.
Durante a entrevista, também foram abordadas críticas ao comportamento da imprensa em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descrito por Goodman como um líder que utiliza a mídia para intimidação e controle narrativo. Ela afirmou que jornalistas frequentemente evitam perguntas difíceis por receio de perder acesso a fontes oficiais, caracterizando esse comportamento como parte do mesmo mecanismo de “acesso ao mal”. Segundo ela, esse padrão se repete em diferentes administrações, independentemente de partido político, consolidando uma cultura de concessões editoriais ao poder.
Goodman também criticou decisões recentes envolvendo conglomerados de mídia nos Estados Unidos, citando a redução de redações e a interferência de grandes empresários no conteúdo jornalístico. Ela mencionou a reestruturação do Washington Post sob controle de Jeff Bezos e o impacto disso na cobertura internacional, especialmente em áreas como Oriente Médio e Europa Oriental. Segundo a jornalista, a diminuição de equipes de reportagem e o fechamento de editorias enfraquecem a capacidade de fiscalização de guerras e políticas externas.
A entrevista recuperou ainda experiências pessoais de Goodman em zonas de conflito, incluindo sua cobertura da ocupação de Timor-Leste pela Indonésia, apoiada militarmente pelos Estados Unidos. Ela relatou ter sobrevivido ao massacre de Santa Cruz em 1991, quando forças indonésias abriram fogo contra civis, matando mais de 270 pessoas. Goodman afirmou que episódios como esse evidenciam o papel direto da política externa estadunidense no armamento e sustentação de regimes militares em diferentes regiões do mundo.
Ao discutir o papel da mídia independente, Goodman destacou a importância de iniciativas como o “Democracy Now!” na cobertura de movimentos sociais e conflitos ignorados pela grande imprensa. Ela citou a cobertura do protesto contra o oleoduto Dakota Access, em Standing Rock, como exemplo de jornalismo que rompe com a lógica corporativa ao divulgar imagens amplamente compartilhadas posteriormente por outros veículos. Segundo ela, a independência editorial permite revelar conflitos estruturais que são frequentemente invisibilizados por interesses comerciais.
No encerramento da entrevista, Goodman defendeu que o jornalismo deve permanecer independente de corporações que lucram com guerras e crises globais. Ela afirmou que a democracia depende de uma imprensa capaz de enfrentar governos e empresas sem mediação de interesses financeiros, destacando que plataformas digitais e redes sociais ampliam o alcance da informação, mas também podem ser utilizadas como instrumentos de desinformação em escala global.



































