qual é o objetivo final de Israel no Líbano?
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O Líbano voltou a sofrer ataques massivos de Israel. No domingo, uma criança foi morta durante o funeral do pai na vila de Qana, após este ter sido assassinado em um ataque anterior à sua residência. O padrão reiterado de ataques em áreas civis reforça a dinâmica de pressão militar contínua sobre o território libanês, enquanto negociações paralelas seguem sem resultados concretos.
Diante da escalada, Israel aceitou, sob pressão estadunidense, reduzir parcialmente suas operações e participar de negociações diretas com o governo libanês, realizadas na terça-feira. Trata-se das primeiras conversas desse tipo em décadas, mas sem qualquer avanço divulgado ou cronograma definido para novas rodadas. Segundo a mídia israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tentou convencer Donald Trump a não aceitar o acordo de cessar-fogo durante contato telefônico na semana anterior, evidenciando divergências dentro do próprio eixo estadunidense-israelense.
Ainda assim, Israel entrou nas negociações descartando previamente qualquer cessar-fogo no Líbano. David Wood, pesquisador sênior do International Crisis Group, afirmou ao The New Arab que essa postura reflete uma tentativa de “impor uma realidade militar ao Líbano, separada de suas relações com o Irã”. Segundo ele, a participação israelense nas negociações “não representa uma concessão significativa”, já que não inclui compromisso com o fim das hostilidades.

O governo israelense mantém como foco central o desmantelamento do arsenal do Hezbollah e a assinatura de um acordo de paz duradouro. No entanto, essas exigências esbarram na incapacidade estrutural do Estado libanês de implementá-las. O exército do Líbano não possui capacidade militar comparável à do Hezbollah, além de contar com significativa presença de soldados oriundos da comunidade xiita, o que levanta o risco de fragmentação interna em caso de confronto direto.
No plano político, a situação é igualmente limitada. Embora o governo libanês possa formalmente negociar um acordo, não dispõe de meios para impô-lo diante da oposição do Hezbollah e de outros setores políticos contrários à normalização com Israel. O líder do Hezbollah, Naim Qassem, classificou as negociações como “inúteis”, afirmando na segunda-feira que se tratam de uma manobra para forçar o grupo a entregar suas armas.

Segundo Mohammed Al-Basha, fundador da consultoria de risco Basha Report, a crise atual reflete uma divergência estrutural entre o Estado libanês e o Hezbollah. “O Estado libanês está tentando agir como um ator soberano, mas o Hezbollah ainda opera dentro de uma estrutura regional ligada ao Irã”, declarou. Ele acrescentou que “a divisão entre as posições do Estado e do Hezbollah está aumentando”, criando um “risco real” de tensão interna, ainda que não necessariamente uma guerra civil declarada.
No campo militar, Israel tem sinalizado intenção de prolongar sua presença no território libanês. O ministro da Guerra israelense, Israel Katz, declarou que o exército pretende “ocupar o sul do Líbano indefinidamente”. No entanto, a eficácia dessa estratégia é questionável, já que a maioria dos ataques do Hezbollah é lançada ao norte do rio Litani, o que limita o impacto de uma ocupação restrita ao sul.
Autoridades militares israelenses reconhecem que neutralizar completamente a capacidade de lançamento de mísseis do Hezbollah exigiria uma ocupação total do Líbano, cenário considerado politicamente insustentável e militarmente inviável diante da sobrecarga das forças israelenses. Na prática, os objetivos parecem mais limitados: afastar o Hezbollah da fronteira, degradar suas capacidades e estabelecer uma zona de segurança.
Essa limitação ajuda a explicar a tentativa simultânea de Israel de transferir ao Estado libanês a responsabilidade pelo desarmamento do Hezbollah por meio da via diplomática. A estratégia combina pressão militar direta com exigências políticas que o governo libanês não tem condições de cumprir, aprofundando o impasse interno.
O cenário é agravado pelo fracasso das negociações entre Estados Unidos e Irã no Paquistão, que enfraquece qualquer perspectiva de acordo regional mais amplo. Segundo David Wood, “é altamente improvável que as ações israelenses no Líbano cessem sem uma pressão real dos EUA”. Ainda assim, as exigências maximalistas do eixo estadunidense e israelense, somadas à percepção de resistência por parte do Irã e do Hezbollah, tornam distante qualquer solução negociada de escala regional.
Enquanto isso, a população libanesa permanece sob bombardeios contínuos, sem sinais concretos de estabilização ou retorno à normalidade no curto prazo.



































