“Tenho que protegê-los': O homem que guarda os raros livros islâmicos da Mauritânia
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- 28 de abr.
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A cidade histórica de Chinguetti, na Mauritânia, enfrenta abandono populacional e degradação ambiental acelerada. O antigo centro intelectual islâmico mantém hoje poucas bibliotecas ativas, guardando milhares de manuscritos raros. Em 27 de abril de 2026, relatos locais destacam o esforço de famílias para preservar esse patrimônio sob condições extremas. A crise climática intensifica a desertificação e ameaça diretamente os acervos. O cenário expõe a combinação entre colapso ambiental e marginalização histórica de regiões periféricas do Saara.

Localizada na região de Adrar, no norte da Mauritânia, Chinguetti foi entre os séculos XIII e XVII um dos principais polos de conhecimento do mundo muçulmano, atraindo estudiosos e comerciantes ao longo das rotas transsaarianas. Hoje, a cidade antiga - construída com pedra seca e barro vermelho - encontra-se esvaziada, enquanto a maior parte dos cerca de 4.500 habitantes migrou para áreas periféricas em busca de sobrevivência econômica.
Entre os poucos que permanecem está Muhammad Gholam el-Habot, bibliotecário responsável por cerca de 1.400 manuscritos herdados de sua família. Em sua rotina, ele manuseia cuidadosamente obras raras, algumas com séculos de idade. “Estes livros são muito importantes para mim e para a minha família”, afirmou. “Minha relação com eles é como a de um pai com seu filho.”
Os manuscritos remontam a uma tradição intelectual consolidada por estudiosos como Sidi Mohamed Ould Habot, que viajou entre o Egito e a Andaluzia entre os séculos XVIII e XIX reunindo textos sobre jurisprudência islâmica, hadiths, matemática, medicina e poesia. No auge, Chinguetti chegou a abrigar cerca de 30 bibliotecas abertas a estudiosos de diferentes regiões, consolidando sua reputação como centro de saber - conhecida como “Sorbonne do Saara” e considerada a sétima cidade mais sagrada do Islã.
O declínio começou com a mudança das rotas comerciais globais, quando o eixo econômico foi deslocado para o comércio marítimo impulsionado pela expansão europeia. A perda de centralidade econômica levou ao abandono gradual da cidade, processo agravado nas últimas décadas pela ausência de investimentos estruturais e pela falta de políticas de preservação cultural consistentes.
A crise climática intensifica esse quadro. Segundo dados citados por pesquisadores, a precipitação anual na Mauritânia caiu cerca de 35% desde 1970, comprometendo atividades tradicionais como o pastoreio e a agricultura de subsistência. Ao mesmo tempo, tempestades de areia e variações extremas de temperatura tornaram-se mais frequentes, com períodos prolongados acima de 40°C.
De acordo com Andrew Bishop, pesquisador da Universidade de Wyoming, essas condições representam “um grande problema” para a preservação dos manuscritos. “O calor extremo e os padrões de chuva menos previsíveis fazem com que os textos sejam cada vez mais danificados pela água ou pelo calor, tornando muitos manuscritos irrecuperáveis”, afirmou. Ele também destacou que as bibliotecas tradicionais não foram projetadas para enfrentar mudanças climáticas tão intensas.
Além das ameaças ambientais, a preservação enfrenta limitações materiais. El-Habot relata dificuldades financeiras para manter os livros, incluindo a necessidade de produtos químicos contra insetos e estruturas adequadas de armazenamento. Em períodos de calor extremo, ele improvisa métodos como colocar baldes de água para aumentar a umidade do ambiente e evitar o ressecamento das páginas.
As inundações repentinas também representam risco crescente. A combinação entre chuvas irregulares e infraestrutura precária expõe os manuscritos a danos irreversíveis. Paralelamente, a redução do turismo - agravada por ataques a estrangeiros nos anos 2000 e pela pandemia de COVID-19 - diminuiu uma das poucas fontes de renda local.
Iniciativas internacionais tentam conter o declínio. Em 2024, um projeto da UNESCO, no valor de 100 mil dólares, forneceu equipamentos como ar-condicionado, computadores e materiais de armazenamento para 13 bibliotecas familiares. Ainda assim, grande parte das bibliotecas permanece fechada, com acervos dispersos entre descendentes.
A continuidade dessa tradição também enfrenta um desafio geracional. El-Habot afirma que seus filhos não demonstram interesse em assumir a responsabilidade pela biblioteca. “É algo que temos que fazer; é uma obrigação familiar”, disse. A falta de perspectivas econômicas e educacionais na região impulsiona a migração de jovens para a capital Nouakchott e outros centros urbanos.
Nos arredores da cidade, as ruínas de Abweir - assentamento fundado por volta de 777 d.C. e considerado precursor de Chinguetti - já foram completamente engolidas pela areia, evidenciando o avanço do deserto. A própria cidade atual corre risco semelhante a longo prazo, com estimativas de que uma área de cerca de 500 quilômetros quadrados possa ser soterrada pelas dunas.
Dentro da biblioteca, el-Habot continua seu trabalho diário, revisando páginas que retratam fenômenos astronômicos e cidades sagradas como Meca e Medina. “Tenho que proteger esse patrimônio”, afirmou. “Como meu, e também para toda a humanidade.”



































