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- Ahmad Qatamesh, professor palestino que passou mais de 14 anos detido por Israel sem apresentação de provas. Seu "crime" era resistir à ocupação e ensinar sobre a não-violência.
“Pois como pode um tirano governar os livres e os orgulhosos, a não ser pela tirania de sua própria liberdade e pela vergonha de seu próprio orgulho?” Khalil Gibran 14 de abril de 2016, 3h59 Sete jipes acompanhavam o blindado em alta velocidade enquanto percorria o bairro al-Bireh. Fechando a rua, os veículos posicionaram-se aguardando instruções, e 45 soldados israelenses permaneciam à espera da confirmação. Às 4h, a voz no rádio autorizou o início da operação. Os cães latiam, denunciando a movimentação das botas compassadas que cruzavam a rua. Pouco a pouco, as luzes se acendiam nas casas ao redor, mas ninguém se atrevia a olhar pela janela. Com os fuzis em punho, os soldados flanquearam a porta da frente do suposto "terrorista", enquanto um último segundo de silêncio pairava. A porta foi derrubada, e em questão de segundos, os soldados invadiram a casa, revirando cada cômodo. Os israelenses buscavam por Ahmad Qatamesh, um conhecido comunista que, naquela noite, não se encontrava em casa. Oficiais interrogavam a esposa e as crianças, enquanto os recrutas vasculhavam a residência em busca de qualquer evidência que pudesse incriminar o procurado. A prisão de Qatamesh era a prioridade naquela noite, e as ordens recebidas autorizavam a invasão de todas as casas em Ramallah, com interrogatórios a todos os moradores, até que o alvo fosse localizado. Após a derrubada de várias portas e o terror instaurado pela ação militar, às 4h30, as Forças de Ocupação Israelense (IOF) alcançaram a residência de Khaled Qatamesh, irmão do procurado. Os soldados iniciaram o interrogatório ali mesmo, exigindo respostas sobre o paradeiro do suposto terrorista. "Onde ele está?" questionou um dos oficiais. "Vocês devem saber, pois já o prenderam tantas vezes", respondeu Khaled. Algemado em sua própria casa, Khaled escutava no rádio dos interrogadores a notícia de que seu irmão havia sido encontrado nas proximidades. Assim que localizado, o suspeito foi encapuzado, algemado e lançado na traseira de um dos veículos. A ação foi tão rápida que as IOF não levaram sequer uma folha de papel das casas vasculhadas, incluindo a do próprio terrorista. Qatamesh, preso pela primeira vez na década de 1970 e em várias ocasiões subsequentes, sempre sob a acusação de pertencer à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), é conhecido por ser o palestino que passou mais tempo preso pela chamada Detenção Administrativa. 14 anos encarcerado sem o devido julgamento legal ou apresentação de provas. Nunca tendo empunhado uma arma ou utilizado a violência para fins políticos. Ahmad Qatamesh foi injustamente acusado de representar um risco à segurança nacional israelense, quando, na realidade, seu único "risco" reside no fato de ser um respeitado professor de ciência política na Universidade Al-Quds. O cerco, ou melhor dizendo, "circo", montado para prender o "terrorista" não levou em consideração o fato de que seu único crime era escrever livros e palestrar para jovens, sempre propondo alternativas de paz e governança entre palestinos e israelenses. O estado sionista, ao acusar um professor universitário, utilizou do terror para mais uma vez enviá-lo ao cárcere sem apresentar provas concretas. Não usarei seu Tarbush Em sua segunda detenção, em 1992, o professor foi interrogado e torturado nos primeiros 100 dias, durante os quais escreveu suas memórias do cárcere no livro posteriormente intitulado "Não Usarei seu Tarbush"[1]. As sessões de tortura tinham como objetivo extrair uma falsa confissão de que o prisioneiro era um dos líderes da FPLP. Durante seis anos sem julgamento e sem acesso às provas de sua detenção, Qatamesh afirmava que seu vínculo com a FPLP havia terminado há mais de uma década, sendo um líder político do partido, não do seu braço militar. Incapaz de comprovar essa alegação e sem apresentar as provas, o Shin Bet acusou o professor de perpetrar ataques terroristas contra Israel de dentro da prisão, prolongando repetidamente seu tempo de detenção. As autoridades israelenses têm utilizado a detenção administrativa[2] e a Lei Contraterrorismo[3] como alternativa para evitar que opiniões políticas e ideias baseadas em não violência de ativistas e intelectuais se tornem ainda mais populares como forma de resistência. Nos últimos anos, professores, artistas, poetas e poetisas que propõem mudanças pacíficas e estratégicas no cenário político têm incomodado tanto quanto e até mesmo foram tratados como iguais aos membros das resistências armadas. O Professor Qatamesh chegou a sugerir publicamente o fim das divisões entre o Hamas e a Autoridade Palestina. Em 2011, Qatamesh foi preso por manifestar apoio à campanha de 1300 presos em greve de fome. A Anistia Internacional declarou o professor Qatamesh como prisioneiro de consciência[4], justificando que não havia nenhum indicador que o associasse ao braço armado da FPLP. A organização acrescentou que o professor jamais fez ou declarou algo que fomentasse a violência. A organização, que defende os direitos humanos, entende que muitos dos prisioneiros palestinos são prisioneiros de consciência mantidos apenas pelo exercício pacífico de seu direito à liberdade de expressão e associação. As razões para as contínuas prisões administrativas de Ahmad Qatamesh refletem o alcance de seu ativismo político entre estudantes e ativistas palestinos. Suas visões políticas e métodos de não violência fizeram com que o professor tivesse sua detenção estendida sete vezes consecutivas. No decorrer da prisão do professor, ativistas dos direitos humanos do mundo inteiro, incluindo Israel, protestaram por sua soltura. Em 26 de dezembro de 2013, dois anos e meio após sua detenção, Ahmad Qatamesh foi finalmente libertado. Menos de três anos após sua soltura, o professor estava novamente dentro de um jipe do exército israelense a caminho da prisão, sem provas. “Uma vez mais, Ahmad Qatamesh parece estar sujeito à implacável política de detenção administrativa de Israel. A Anistia Internacional acredita que ele foi detido apenas por suas atividades políticas não violentas e por escrever, além de impedir o ativismo de outros palestinos. Confirmar a ordem de detenção administrativa contra ele seria uma violação flagrante de seu direito à liberdade de expressão”, disse Magdalena Mughrabi, vice-diretora para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional. Relatores Especiais da ONU têm apelado repetidamente para que Israel encerre as práticas de detenção administrativa. O Comitê Contra a Tortura da ONU expressou que tais medidas deixam os prisioneiros vulneráveis à tortura e aos maus-tratos. O uso desse tipo de detenção deve ser voltado para a prevenção e nunca para fins punitivos, como tem sido o caso em Israel. Mesmo esse tipo de detenção está sujeito ao princípio da proporcionalidade, portanto, deve ser empregado somente quando o suposto perigo não puder ser evitado por meio de processo penal ou de medidas administrativas menos prejudiciais aos direitos humanos. Antes de ser preso, Ahmad Qatamesh foi ameaçado para que não falasse mais em público e não escrevesse mais sobre a ocupação. Todas as vezes, ele recusou, declarando à inteligência militar que ele é um escritor e um acadêmico, e falaria e escreveria o que quisesse. Ele tinha 70 anos quando foi novamente preso, sem provas. [1] O tarbush é um tipo de chapéu de origem árabe, também conhecido como fez ou fez marroquino. É caracterizado por sua forma cônica com uma coroa plana e sem aba. O tarbush foi historicamente usado em várias regiões do mundo árabe e do norte da África como parte do traje tradicional masculino. [2] A detenção administrativa é uma prática utilizada por alguns países para deter indivíduos por períodos prolongados sem acusação formal ou julgamento. Essa prática tem sido criticada por organizações de direitos humanos devido ao seu potencial de abuso e violação dos direitos individuais. [3] A Lei de Contraterrorismo é uma legislação usada por Israel para criminalizar palestinos e árabes-israelenses sob o pretexto de combater o terrorismo. Essa lei permite a detenção prolongada sem acusação formal, uso extensivo de provas secretas em tribunal e restrições ao acesso à revisão judicial. Ela amplia as definições de terrorismo e aumenta as penas para crimes de segurança. Essa legislação é criticada por violar os direitos humanos e é usada para intimidar e punir dissidentes políticos e defensores dos direitos humanos. [4] A expressão cunhada pelo advogado e ativista Peter Benenson (de família judaica britânica) é geralmente associada às pessoas presas em consequência da expressão não violenta de suas ideias, convicções, crenças ou ideologia. A expressão foi inicialmente adotada pela organização Anistia Internacional, posteriormente seu conceito foi ampliado, passando a incluir as pessoas encarceradas em razão de sua raça ou etnia, religião ou orientação sexual.
- Leia: Padrões de Manipulação na Grande Imprensa - Perseu Abramo
O livro "Padrões de Manipulação na Grande Imprensa", escrito por Perseu Abramo, é uma obra profunda que adentra o âmago da mídia, expondo os variados mecanismos de manipulação presentes na cobertura jornalística. Além de ser um renomado sociólogo e cientista político, Perseu Abramo foi uma figura proeminente na política brasileira, dedicando-se também ao jornalismo crítico e à análise das estruturas de poder. Publicado originalmente em 2016, o livro mantém sua relevância e provocação até os dias atuais, fornecendo uma análise crítica e perspicaz sobre o papel histórico da mídia na formação da opinião pública brasileira. Abramo inicia sua obra destacando a história da imprensa brasileira, desde os primórdios com a chegada de Dom João VI e da família real em 1808, que trouxe consigo o equipamento para publicações reais, culminando na criação da "Gazeta do Rio de Janeiro". Ele ressalta a importância da imprensa como um pilar da democracia, mas também adverte para os perigos quando esta é manipulada por interesses políticos, econômicos ou ideológicos. O autor argumenta que, desde sua origem, a imprensa brasileira não serviu aos propósitos emancipatórios do povo, mas sim à substituição do regime monárquico e sua imprensa pela instauração de uma imprensa burguesa exploratória, a esse exemplo ele cita a fundação do “Correio Braziliense”, servia apenas aos interesses de uma substituição do regime e imprensa monarca pela instalação de um regime e uma imprensa burguesa, também exploratória. O autor destaca que os moldes dessa imprensa burguesa persistiram ao longo da história brasileira, utilizando métodos de deturpação de informações e notícias para moldar a opinião pública de acordo com os interesses dominantes da classe burguesa. Ao longo do livro, Abramo revela uma série de técnicas de manipulação, desde o viés na seleção de notícias até a distorção de fatos e a omissão seletiva de informações. “Uma das principais características do jornalismo no Brasil hoje, praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação.” (ABRAMO, 2016) A obra é estruturada em distintos capítulos, cada um dedicado à exploração de um aspecto específico da manipulação midiática. O autor habilmente destaca quatro padrões de manipulação da informação, destacando a maneira como eles moldam a percepção da realidade. O primeiro padrão, denominado Padrão de Ocultação, refere-se à prática de esconder da opinião pública assuntos de interesse particular. Segue-se o Padrão de Fragmentação, que desconsidera certos fatos como não relevantes para a narrativa jornalística. O terceiro padrão, o da Inversão, reorganiza a ordem dos eventos para distorcer a compreensão dos fatos, priorizando o que não é do interesse público. Por fim, a Inversão da Opinião pela Informação, onde a manipulação substitui ou mescla parcialmente a "informação" com a "opinião". Para sustentar suas argumentações, Perseu Abramo analisa exemplos específicos de reportagens, editoriais e discursos, revelando como esses padrões de manipulação são aplicados de forma sistemática para influenciar o desenvolvimento dos eventos históricos e suas consequências no presente. O destaque deste livro reside na profundidade da análise, que não apenas identifica os padrões de manipulação, mas também investiga suas origens históricas e contextuais. Sua abordagem é embasada em pesquisa sólida e argumentação coerente, conferindo ainda mais credibilidade às suas conclusões. Além disso, é digno de nota a coragem de Abramo ao expor as práticas questionáveis da grande imprensa. Ele desafia o status quo e encoraja os leitores a questionarem a narrativa predominante, promovendo uma visão crítica sobre a mídia e suas implicações na sociedade. "Padrões de Manipulação na Grande Imprensa" é leitura imprescindível para aqueles interessados em compreender os mecanismos corruptos por trás da cobertura midiática e suas implicações para a democracia. Não apenas isso, é uma leitura obrigatória para profissionais de comunicação e educação, já que a obra oferece uma investigação perspicaz e provocativa, desafiando os leitores a questionarem a credibilidade e a objetividade da imprensa. Permanece como uma referência valiosa para o debate sobre a liberdade de imprensa e a responsabilidade dos meios de comunicação na sociedade contemporânea. Referência ABRAMO, P. Padrões de manipulação na grande imprensa. Editora Fundação Perseu Abramo. São Paulo. 2016.
- A máquina de guerra de Israel virou um grande negócio financiado pelo Brasil
Circulou recentemente pelas mídias sociais, o protesto de um jovem engenheiro de software da Google Cloud, na conferência MindTheTech em Nova York, nos EUA, durante a fala do diretor do Google Israel, Barak Regev, que fazia uma exposição sobre o Projeto Nimbus, uma plataforma baseada na tecnologia de monitoramento. “Eu me recuso a construir tecnologia que alimenta o Apartheid, não a Cloud para o Apartheid. Não a tecnologia para o Apartheid, Palestina livre!” – bradou o engenheiro. Link vídeo https://twitter.com/i/status/1764681078206337434 Momentos depois uma outra engenheira do Google integrante da organização antissionista israelense Shoresh e Jewish Voices for Peace. Ela gritou: “Google é cúmplice do genocídio”, ela acaba sendo logo empurrada e jogada ao chão por seguranças, que a retiraram à força do salão. O Google também é um dos principais patrocinadores da conferência MindTheTech. https://twitter.com/i/status/1764688253192417325 A ação foi organizada pelo coletivo “Não à Tecnologia para o Apartheid”, que inclui trabalhadores do Google e da Amazon. Logo depois foi divulgada uma carta assinada por 600 funcionários do Google que pediram a retirada do patrocínio da conferência. A carta de convocação Dizia: "Por favor, retire-se da Mind the Tech, peça desculpas e apoie os funcionários e clientes do Google que se sentem desamparados diante das perdas em Gaza. Precisamos que o Google faça melhor". O Projeto Nimbus visa fornecer tecnologia de computação em nuvem ao governo e ao exército israelense. A tecnologia foi anunciada pelo Ministério das Finanças de Israel em abril de 2021. Foi relatado que o contrato firmado com Google e Amazon “visa fornecer tecnologia de computação em nuvem “Ao governo, à estrutura de defesa do país e às outras instituições oficiais”. No âmbito do contrato, foi declarado que as empresas estabeleceriam sites de computação em nuvem que "criariam fluxo de informações dentro das fronteiras de Israel no âmbito de instruções estritas de segurança". Assim, Google e Amazon fornecerão serviços de computação em nuvem ao governo israelense, incluindo inteligência abrangente e identificação com inteligência artificial, no âmbito do projeto de 1,2 bilhões de dólares. Pelo acordo, Amazon e Google estão proibidos de interromper seus serviços em caso de pressão de boicote. O acordo também proíbe que as empresas recusem o fornecimento de serviços a qualquer entidade governamental israelense. Segundo informa o site turco Solözel. EUA e Israel, uma parceria carnal A expertise de startups israelenses na área de cibersegurança ganhou fama pelo mundo a partir do conhecimento adquirido pelo processo de ocupação dos territórios palestinos, com toda sua metodologia de violência e controle social sobre as populações da Faixa de Gaza e Cisjordânia, quando jovens que prestaram serviço militar para Israel, empreendem negócios na área de tecnologia da informação. “O setor de tecnologia e inovação para uso civil em Israel surge a partir do desenvolvimento tecnológico para uso militar. A partir dos anos 1980, com a ascensão do neoliberalismo, há o crescimento da influência americana em Israel. E no processo de reformas estruturais, sob pressão dos EUA, com assinatura de acordo de livre-comércio entre os dois países, há uma privatização de empresas militares estatais de diversos setores e com o passar do tempo, a partir dos anos 1990, acontece em Tel Aviv o desenvolvimento do ‘Wadi Valley’, (um similar do Vale do Silício – famoso polo de inovação tecnológica da Califórnia), onde ocorre um boom desse segmento que vai ter uso para diversas aplicações, sendo um dos motores econômicos de Israel. Daí há um entrelaçamento da tecnologia militar com a civil, partindo de empresas e universidades, contando com um forte apoio do capital americano oriundo da Califórnia. Essa relação se retroalimenta, no Vale do Silício há também uma grande quantidade de empresas israelenses, com milhares de programadores e empresários de Israel.”, explica o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Bruno Huberman. O docente disse ainda que Israel possui a segunda maior quantidade de empresas, que integram a bolsa de valores de tecnologia dos EUA, Nasdaq. Segundo dados do Departamento de Estado dos EUA, esse número em 2023 chegou a 135. Segundo o Departamento de Estado foram mensurados mais de 300 centros de investigação e desenvolvimento instalados em Israel, sendo quase 2/3 de empresas multinacionais no país. A incubadora da vigilância global Muita gente não deve saber que alguns aplicativos de geolocalização utilizados no nosso dia a dia das ruas brasileiras, como o Waze, foi criado por um ex-soldado, Uri Levine, um desenvolvedor de programas que atuou no serviço militar na Unit 8200 - SIGINT National Unit (ISNU), a maior unidade dentro das Forças de Ocupação. Essa unidade monitora e coleta informações relacionadas à inteligência militar da televisão, rádio, jornais e internet. Em 2008, depois de se liberar exército, Uri Levine criou, com outros sócios, o aplicativo de trânsito mais utilizado por motoristas. Cinco anos depois, o Waze foi vendido ao Google por mais de 1 bilhão de dólares. A Unidade 8200 é responsável por captar informações e decifrar códigos militares, por meio da interceptação de sinais, conversas telefônicas, correios eletrônicos e outros tipos de mensagens. Ela é conhecida por recrutar os jovens “brilhantes” do país. Segundo o jornalista francês, Baptiste Condominas, em reportagem publicada pela RFI, em março de 2023, entre 2011 e 2021, o número de empresas de segurança cibernética ativas em Israel aumentou de 162 para 459. As exportações israelenses neste setor atingiram US$ 11 bilhões em 2021, segundo a Direção Nacional Cibernética de Israel. Estes números mostram como esse setor se expande. Assim, em poucos anos, Israel se tornou uma "nação cibernética". Empresas como Check Point, Argus, Verint e NSO, para citar apenas alguns, que vendem softwares espiões como FirstMile e Pegasus, entre os mais conhecidos, enquanto algumas startups surgem como "unicórnios cibernéticos", jovens empresas que valem mais de um bilhão de dólares. Cooptação de “mentes brilhantes” em universidades brasileiras Diversas universidades brasileiras desenvolvem parcerias e convênios com instituições de Israel no desenvolvimento de projetos de cibersegurança que têm como base o know how de guerra e perseguição contra os palestinos. Insper na jogada A partir de 2022, o Hub de Inovação Paulo Cunha, um núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), começou a promover o que chama de Learning Journey, uma espécie de intercambio de imersão, que integra o curso MBA Executivo Internacional do Insper. Durante cinco dias, um grupo de alunos, ex-alunos e executivos de empresas parceiras faz uma imersão em lugares-chave do ecossistema de inovação de Israel, em cidades como Tel Aviv, Jerusalém, Haifa e Berseba. Segundo informa o Insper, em seu site, o objetivo é trazer na bagagem ideias e boas práticas para melhorar o ecossistema brasileiro de inovação. Em 2024, o Insper suspendeu a viagem por causa do conflito na região de Israel. Todo cidadão israelense maior de 18 anos, com algumas exceções, deve servir nas Forças de Defesa do país por um período mínimo de 24 meses (mulheres) a 32 meses (homens). Em uma reportagem publicada no site do Insper, em agosto de 2022, Rodrigo Amantea, professor da instituição diz que período de serviço militar obrigatório funciona como um rito de passagem para o amadurecimento dos jovens. “Quando termina o colégio, o jovem israelense vai para o Exército, onde vai conviver com pessoas de classes e etnias diferentes e desenvolver habilidades importantes, como disciplina, liderança e autogestão”, diz. “Depois disso, muita gente ainda tira um ano sabático e viaja pelo mundo como mochileiro. Então, quando essa pessoa chega à universidade, já está calejada e com uma vivência que a gente não vê entre os jovens no Brasil.”, afirma já indicando uma certa “superioridade” dos israelenses em relação aos jovens brasileiros. Ibmec saindo à francesa Outra instituição de ensino superior privado no Brasil, o Ibmec também promovia com instituições israelenses imersões em Israel. Em 2019, o Ibmec ofereceu um programa de sete dias de duração, entre cursos, visitas a empresas e visitas culturais e históricas no valor de 3.600 dólares, não incluindo passagem aérea, acomodação e seguro-viagem. A parceria é com a Universidade de Tel Aviv. Após o 7/10/23, os professores do Ibmec do Rio de Janeiro receberam mensagens da coordenação dos cursos da instituição pedindo para que o corpo docente não se posicione publicamente sobre o conflito entre Palestina e Israel. A instituição tirou do ar páginas do seu site que contenham informações sobre a Jornada para Israel. Em julho de 2019, o site Estudar Fora publicava uma reportagem em que informava que a Universidade de Tel Aviv oferecia bolsas de estudos exclusivas para brasileiros em seus programas de graduação, por meio de um fundo chamado Brazilian Scholarship Fund (BSF), um fundo criado pela organização Amigos Brasileiros da Universidade de Tel Aviv USP mantém parcerias Em março de 2019, o então reitor da USP, Vahan Agopyan, chefiava uma missão acadêmica em Israel. A primeira visita foi realizada ao Instituto Weizmann de Ciências, em Tel Aviv, onde os dirigentes da USP foram recebidos pelo presidente da instituição, Daniel Zajfman. O objetivo do encontro foi discutir estratégias para ampliar a mobilidade acadêmica e os projetos de pesquisa conjuntos. Até 2019, segundo dados da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani) pesquisadores das duas instituições produziram 671 trabalhos em parceria. Ao jornal da USP, Agopyan declarou: “Nossas missões têm como principal propósito reforçar a cooperação acadêmica com instituições estratégicas. No caso específico de Israel, este é um dos países do mundo que mais investem em inovação, e suas universidades e institutos se destacam pelo desenvolvimento de pesquisas na fronteira do conhecimento”. Feirão cancelado em 2023 Em marco de 2023, as Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL) pediu a direção da Unicamp, o cancelamento da “Feira das Universidades Israelenses” porque sua realização no campus da universidade implicaria em sua “adesão ao Apartheid na Palestina”. A feira, com apenas um dia de duração, tinha previsão para ser realizada em 03/04/23, nas dependências da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (COMVESP – UNICAMP), reunindo as universidades Bar Ilan, de Haifa, de Tel Aviv, Hebraica de Jerusalém e Technion. O documento encaminhado citou os trabalhos dos relatores especiais da ONU para a Palestina, Michal Lynk, Richard Falk e John Dugard, que descreveram as práticas de Israel como um sistema de Apartheid, aos relatórios mais recentes da Comissão (das Nações Unidas) Econômica e Social para a Ásia Ocidental e das principais ONGs internacionais de direitos humanos, todos identificando um regime Apartheid sobre o povo palestino A carta enviada pela FEPAL pedia o cancelamento da feira, sob pena de “ficar para a história como uma universidade que um dia apoiou o regime de Apartheid de Israel”. A feira chegou a ser realizada, mas foi suspensa após a realização de uma manifestação em protesto no local. Bolsonaro assina acordos com Israel Em março de 2019, o então presidente da República, Jair Bolsonaro, assinou em visita oficial a Israel, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, uma série de convênios de cooperação. Na ocasião, ambos saudaram a assinatura do Acordo de Cooperação em Ciência e Tecnologia, nesse contexto, celebraram o lançamento de duas chamadas conjuntas da FINEP e da EMBRAPII com a Autoridade Israelense de Inovação. No mês de julho de 2019, é lançado o programa Scale Up in Brazil com o objetivo de acelerar o ingresso das empresas de tecnologia israelense no país, com apoio da Câmara Brasil- Israel de Comércio e Indústria, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity &: Venture Capital) e Israel Trade &: Investment. Para o jornalista e professor de Relações Internacionais, Bruno Beaklini, o que Bolsonaro tentou realizar junto ao gabinete de Netanyahu é “instalar no país um setor de contratos exclusivos, o início de um cluster onde o Estado Sionista provê os softwares espiões, o Brasil opera mirando o inimigo interno e garantindo linhas de financiamentos”. Desta forma, segundo o também cientista político e colunista do Monitor do Oriente Médio, “os altos comandos militares já habituados com a subserviência junto ao Comando Sul dos EUA, seria uma extensão do complexo de segurança militar israelense, com lealdades diretas com os executores do Apartheid, ultrapassando a dependência junto ao trumpismo ou a troca de governo em Washington”. A Apex-Brasil é uma agência do governo federal criada em 2003, que em tese, atua para promover os produtos e serviços brasileiros no exterior e atrair investimentos estrangeiros para setores estratégicos. A Agência apoia atualmente mais de 15.000 empresas em 80 setores da economia brasileira. Também já atendeu mais de 1.300 investidores e mais de 118 projetos no valor de US$ 23 bilhões em investimentos anunciados no Brasil. Já a IsraelTrade & Investiment integra a Administração Estrangeira do Ministério da Economia de Israel – uma rede de mais de 50 escritórios ao redor do mundo. A FINEP em janeiro de 2019 lançou uma Chamada Pública com objetivo específico de selecionar, para apoio com recursos de subvenção econômica, projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação industrial de empresas brasileiras que tenham estabelecido parceria com empresas israelenses no âmbito do Acordo entre Finep e Autoridade Nacional de Inovação Tecnológica do Estado de Israel (IIA). Isso mesmo, o Estado brasileiro financia empresas israelenses em negócios no Brasil. Foram duas empresas que estão recebendo quase 1,7 milhões de reais. A chamada selecionou quatro empresas, duas brasileiras e duas israelenses, que atuam em parceria para os seguintes projetos: O fato é que empresas de Israel estão entrando no Brasil, recebendo recursos públicos, operando sistemas de segurança pública, em áreas estratégicas, fazendo vultosos negócios no país, e sobretudo, regimentando mentes brasileiras. Assim, o país direta e indiretamente acaba por financiar o genocídio na Palestina.
- Por que o Museu Memorial do Holocausto dos EUA foi inaugurado em 1993, enquanto o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana só teve sua fundação em 2016?
A discrepância nas datas de estabelecimento do Museu Memorial do Holocausto e do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana destaca de maneira crônica as prioridades políticas dos Estados Unidos. Enquanto o museu dedicado ao Holocausto foi inaugurado em 1993, simbolizando um compromisso inabalável com a memória dos horrores nazistas, o Museu Nacional Afro-Americano só viu a luz do dia em 2016, sugerindo um notável desinteresse, ainda mais crônico, no sofrimento dos escravizados e todo sofrimento da população afro-americana. Essa disparidade temporal não apenas reflete uma priorização seletiva de narrativas históricas, mas também levanta questões sobre o papel político na promoção de determinadas memórias enquanto outras são relegadas a segundo plano. Tal desequilíbrio molda a percepção pública, mas também destaca as complexidades e desigualdades subjacentes nas prioridades políticas "culturais" dos EUA.
- A Palestina só se libertará com Armas
Eu gostaria de compartilhar uma reflexão sobre a qual venho pensando há alguns dias. Há muitas pessoas em solidariedade à Palestina no atual momento. Exercendo seu apoio em lives, manifestações, palestras, debates, escritos, reportagens, boicotes. Discussões, discussões e mais discussões. Lula denunciou a situação da Palestina enquanto genocídio; as pessoas estão lendo poemas de poetas palestinos, Israel foi denunciado para a Corte de Haia e para o Tribunal Internacional de Justiça, ocorreram derrotas de Israel quanto à narrativa, apesar do braço armado midiático ocidental, o isolamento geopolítico e a mobilização dos povos do mundo que têm peso a favor da resistência do povo palestino. Enquanto Palestina, agradeço todo apoio e reconheço sua importância, mas em verdade, nada mudou de efetivo. Já somos mais de 32 mil seres humanos mortos; as crianças estão morrendo de desnutrição, de fome, de sede, assim como mulheres e homens. Ah, os homens palestinos, excluídos das estatísticas que só destacam mulheres e crianças. Mas os homens também morrem, não esqueçamos, e são seres humanos tanto quanto. E os animais, cães, gatos, cavalos, alguns jogados de abismos pelos soldados, milhares soterrados. E o que vou dizer é algo que geralmente compartilho apenas com homens. Nunca tive a oportunidade de conversar esse tipo de assunto com mulheres. Mas o que vai libertar a Palestina, e esta não é uma opinião pessoal, mas de muitos (homens) é a luta armada ou a intervenção militar. O resto é retórica, é papo, é discurso, que nada mudará. É necessário que países apoiadores da Palestina entrem em guerra contra Israel e forneçam armas, tanques, bombas, soldados. Porque a diplomacia é abjeta, nunca foi a nosso favor, e apenas alterou nossos mapas, permitindo mais roubo e invasão. A diplomacia é uma balela, uma obscenidade, para quem está com as pernas amputadas, com os filhos sob escombros e sofrendo cirurgias sem anestesia. Diálogo, pombinha, rosa branca, o cara*. A diplomacia é para quem tem comida na mesa, não para quem vai catar a farinha que cai de aviões e recebe tiros de fuzil de Assalto Galil. Sei que é difícil, mas não há outro caminho, do contrário lá se vão mais mortes e colonização na nossa história manchada de sangue e dor. E, aí sim, será uma guerra, de igual para igual, onde os dois campos se encontrarão em nível proporcional de luta e de combate. Porque insisto, a burocracia, a solidariedade, a retórica nunca nos foi suficiente para uma efetiva transformação nesses 76 anos de opressão. Quantos mais precisamos?! E especificamente quero falar da Psicologia; minha área de atuação. Existe a Psicologia Decolonial, a Psicologia Política, a Psicologia Social, a Psicologia da Libertação de Martin Baró que trabalhou o contexto de guerra em países colonizados e a libertação dos povos, a psiquiatria de Franz Fanon, e a violência política do colonizado. Mas essas perspectivas, ainda estão num canto empoeirado e esquecido de nossas bibliotecas, computadores e discussões. É importante, mas não suficiente, falarmos, enquanto profissionais de Psicologia, do Sumúd - a capacidade de Resistência e de Resiliência Palestina, falar da nossa Resistência subjetiva. Mas até quando resistiremos? Até quando teremos que resistir? Até quando teremos que olhar o mar com medo de entrar? Esta resistência só nos ajuda a sobreviver em tempos de “paz” colonial, em tempos de “paz” sob ocupação, não em tempos de genocídio. Milhares de resistentes continuam a morrer sob os bombardeios. Não somos super-heróis, nem super-humanos, nem super-homens, nem super-mulheres, nem super-crianças, nem super-idosos, somos de carne e osso, e nossa resistência psíquica, mesmo potente, não é suficiente para confrontar as bombas e escombros sobre nós. Não há subjetividade que supere a materialidade da violência, dos tiros, do fósforo branco. É desonesto fazer uma única leitura psicológica da luta, psicologizar a luta e achar que isso, apenas isso, irá resolve-la. Sejamos dignos. Portanto, discursos de como superar a colonização com algumas dicas e toques, como se fosse uma receita de bolo é risível, se não, absurdo. A Psicologia com seu velho e clássico discurso subjetivo e individual é inoperante para libertar a Causa Palestina. Não colabora com nada. O que mudou na Palestina com as milhões de palavras proferidas nesses últimos meses? Tomada de consciência, manifestações, que bom, mas continuamos morrendo, eis a questão. Já somos 30.200 e nem o cessar-fogo chegou. A Palestina só se libertará quando Israel sentir a dor e morte dos seus, de milhares dos seus. E este dia há de chegar. Ashjan Sadique Adi – doutora em Psicologia Social pela USP e diretora da secretaria de Mulheres da FEPAL – Federação Árabe-Palestina do Brasil.
- A liberdade de opinião e expressão (art. 19) não é, nem deve ser, ilimitada. Porém, para quem?
A liberdade de opinião e expressão (art. 19)[1] deve ser reconhecida, garantida e protegida, a fim de resguardar esse e todos os outros direitos inerentes a todos os seres humanos. Embora "ter opinião" seja algo que não se pode retirar de um indivíduo, por mais que suas opiniões correspondam a um senso comum, racista, preconceituoso ou que incite a violência, não há forma de limitá-lo de ser um lixo. Porém, pode e deve-se limitá-lo de expressar tais absurdos ofensivos em podcasts medíocres ou em atitudes que resultem em atos perigosos a outras pessoas ou à sociedade, como a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Vamos explorar alguns exemplos práticos para ilustrar a situação. Nos Estados Unidos da América, onde a liberdade de opinião e expressão é considerada "irrestrita"[2] – para os brancos –, não é possível prender alguém simplesmente por estar vestido com um lençol branco adornado com uma cruz no peito, proclamando a supremacia branca e incitando o racismo e a violência em locais públicos. Além disso, é permitido que estações de rádio na Flórida promovam propaganda contrária ao governo de Cuba e organizem eventos e atos que resultam em atentados terroristas na ilha caribenha. No entanto, esse mesmo país, que preza pela liberdade de expressão, adota uma postura rigorosa ao perseguir jornalistas até mesmo em escala global, como no caso de Julian Assange[3], quando estes denunciam crimes de guerra e violações internacionais perpetrados pelo governo do Tio Sam. No Brasil, por mais que estejamos longe de ser um exemplo, a Constituição Federal[4] busca estabelecer um equilíbrio entre a liberdade de expressão e a proteção dos direitos individuais e coletivos, ao menos teoricamente. Nossa Carta Magna estabelece dois tipos de limitações, sendo elas a Limitação Legislativa e a Limitação Judicial. Essas restrições têm como objetivo garantir que o exercício da liberdade de expressão não ultrapasse fronteiras éticas e legais, assegurando um ambiente social um pouco menos danoso a nossa saúde. Limitação Legislativa Nossa legislação afirma que "Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística".[5] No entanto, a mesma Constituição estabelece restrições para propagandas que veiculem produtos ou serviços nocivos à saúde e ao meio ambiente[6], como por exemplo: propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias. Limitação Judicial Quanto à Limitação Judicial, caso alguém ou algum meio use de sua liberdade de expressão para violar o direito à intimidade, à honra ou à imagem de outras pessoas, existe legitimidade para, por meio da tutela jurisdicional e do direito de ação, garantir a restrição dessa liberdade.[7] Para exercer essa garantia, a Constituição não impede este ou qualquer autor de se expressar contrário ou, por mais absurdo que pareça, a favor da ideologia nazista, fascista, sionista ou qualquer outra forma de racismo. No entanto, há certas limitações para isso, e a principal é a vedação ao anonimato, exigindo a identificação dos responsáveis pelas manifestações, e a responsabilização por suas palavras, evitando abusos e excessos. Por mais que essa medida possa parecer intimidadora, não é. Considere a seguinte reflexão: se todos os indivíduos com tendências racistas no Brasil tivessem a possibilidade de disseminar a ideia de que “o nazismo deveria ter um partido reconhecido pela lei” e se “o cara quiser ser anti-judeu, ele tem o direito de ser”.[8] percebe-se a potencialização de discursos prejudiciais e intolerantes. Nesse contexto, este autor pode afirmar que as declarações do apresentador Monark, fazem apologia ao nazismo e ao anti-judaísmo. Porém, a Constituição também estabelece que o ofendido – mesmo que seja um nazista – tem o direito de resposta. Adicionalmente, nossa Constituição permite buscar ressarcimento do dano causado por essa violação por meio judicial, garantindo o pagamento de indenização, seja pelo dano material ou moral ocasionado. Podemos ter a opinião que quisermos, mas expressá-las é uma outra história. Limitação ou restrição, quando feitas com ética e conforme a lei, não são, como muitos afirmam, censura. Aqueles que afirmam o contrário são exatamente os mesmos atores que desejam vomitar as suas atrocidades em palanques para que suas opiniões sejam convertidas em votos de outros tão inescrupulosos quanto. Conforme mencionado anteriormente, nossa Constituição está longe de ser perfeita, mas assegura que a Liberdade de Opinião e Expressão não seja utilizada de maneira irresponsável, causando prejuízos injustificados a terceiros. Já é um começo, se apenas for cumprido o que está escrito. [1] AGNU. Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III). Paris. 1948. [2] A Primeira Emenda da Constituição declara que o Congresso não pode fazer leis que restrinjam a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa. No entanto, essa liberdade não é absoluta e pode ter limitações em determinadas circunstâncias. [3] Julian Assange é um jornalista e ativista australiano, fundador do WikiLeaks, organização famosa por vazar documentos confidenciais em 2010. Assange enfrentou acusações na Suécia, buscando asilo na Embaixada do Equador em Londres até sua prisão em 2019. Atualmente, corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos, onde enfrenta processos por violações relacionadas à publicação de informações secretas. [4] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, p. 496. 1988. [5] Art. 220. § 1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, p. 496. 1988. [6] Art. 220. II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. (BRASIL, 1988) [7] Capítulo I, Art. 5º IV, V. (BRASIL, 1988) [8] UOL. Monark defende existência de partido nazista dentro da lei; Tabata rebate. 2022.
- A História de Hussein, Ruayda e as oliveiras palestinas de Kobar
Artigo 15 Direito à nacionalidade. 1.Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade. Declaração Universal dos Direitos Humanos As Oliveiras de Kobar Na época do Império Otomano, a vila palestina de Kobar se estendia por uma colina, cobrindo quase dez mil dunums de oliveiras. Sob o calor escaldante, as árvores ofereciam sombra aos 400 agricultores residentes, enquanto, no inverno, seus troncos largos protegiam dezenas de famílias dos ventos frios do Mediterrâneo. O único sinal da presença humana entre os olivais era o minarete da antiga mesquita dedicada a Sheikh Ahmed. Durante os primeiros anos do domínio britânico, o Avô Rayan, muçulmano devoto, decidiu empreender uma peregrinação até a cidade sagrada de Meca, saindo das sombras das oliveiras. A viagem era árdua e longa, realizada naquela época apenas por meio de caravanas de camelos. [1] Em 1925, o peregrino se despediu da esposa, ainda segurando a filha caçula nos braços, dando as últimas recomendações aos filhos antes de partir. Hussein Rayan, o filho mais novo, correu desesperado pelas 48 casinhas de calcário até a extremidade da vila, tentando alcançar o pai, mas já era tarde demais para dizer adeus. Semanas após a partida, a família recebeu a trágica notícia: o peregrino sucumbira durante a jornada, e seu corpo se perdera nas areias do Deserto. Hussein Ali Mohammad Rayan, órfão aos quatro anos, herdou as oliveiras, as terras e a responsabilidade de cultivá-las. À viúva restou a árdua tarefa de criar os filhos, administrar a casa e os animais, além de arar, plantar e colher o que as oliveiras forneciam, pois, o império britânico havia tomado as terras e os impostos dos otomanos. A Revolta Palestina (1936-1939) A imigração clandestina de judeus europeus, que desrespeitavam as cotas estabelecidas pelo mandato britânico, somada à exploração por parte dos ingleses, incitou um profundo sentimento de revolta entre os palestinos. Iniciando uma greve geral que perdurou seis meses, os palestinos se depararam com uma resposta repressiva da administração e das forças britânicas, que declararam estado de emergência e impuseram severas sanções, detenções e punições. Com o envio de reforços britânicos, os palestinos não tiveram escolha a não ser prosseguir com o levante armado contra a ocupação. [2] A revolta nacionalista, que começou nas áreas urbanas, se estendeu para as regiões agrícolas. Enquanto os palestinos lutavam por sua nação contra os britânicos, os imigrantes judeus europeus continuavam estabelecendo kibutzim. A guerra e a ocupação pareciam se aproximar cada vez mais de Kobar. Hussein Rayan, jovem demais para empunhar armas, desenvolveu sua própria estratégia de resistência. Sendo a única família na vila a possuir cabeças de gado, os britânicos impunham impostos sobre cada uma delas. Sempre que os cobradores de impostos subiam as colinas, Hussein corria para esconder o gado entre as oliveiras. Apesar da sua juventude, ele era incrivelmente astuto e conhecia as colinas muito melhor do que qualquer colonizador. A Revolta Palestina, que teve início em 1936, estendeu-se até 1939, resultando em centenas de mortes entre os judeus e milhares de palestinos mortos. De acordo com dados britânicos, a polícia e o exército foram responsáveis por aproximadamente 20 mil mortes de palestinos e a execução de 108 deles. Durante esse período, um em cada dez homens entre 20 e 60 anos morreu, foi ferido ou exilado. Apátridas Hussein Rayan, responsável por aquilo que cativava, cresceu mais rápido que as oliveiras sob sua custódia. Assim como as árvores, suas raízes penetravam cada vez mais profundamente na terra palestina. Sobrevivente da Revolta Palestina, Nakba e dos avanços cada vez mais intensos do sionismo, entre uma guerra e outra, Hussein se casou. Consciente de que o topo da colina de Kobar e os troncos robustos das oliveiras não eram suficientes para conter a desordem imposta pelo sionismo, que lutava contra os palestinos para tomar e ocupar cada vez mais território, ele conhecia bem a vida de um órfão palestino. Temendo a mesma sina para os filhos que desejava ter, tomou a decisão mais difícil de sua vida: deixar para trás, mesmo que temporariamente, a imprevisibilidade derramada pelo sionismo em suas terras. No verão de 1960, Hussein chegou sozinho ao Brasil. Foram cinco anos de trabalho árduo até conseguir juntar dinheiro suficiente para trazer sua esposa. Em Toledo, no Paraná, o casal finalmente encontrou uma casa para construir sua família, longe da guerra. Hussein frequentava a mesquita durante a semana e aos domingos, bem cedo, acordava os filhos para ajudar nas plantações dos amigos franciscanos, afinal, "O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção." Os filhos cresceram, assim como a saudade de Hussein por seu lar. Poucos anos após sua chegada ao Brasil, a voz no rádio trouxe as péssimas notícias de que uma nova guerra havia eclodido entre Israel e os países vizinhos. Apesar de a guerra durar apenas seis dias, seus efeitos colaterais perseguiram Rayan. Mesmo separado por todo o Atlântico, teve sua nacionalidade roubada, tornando-se mais um apátrida entre os milhões de refugiados palestinos que tentavam encontrar um lugar para se estabelecer pelo mundo. Após a Guerra dos Seis Dias, Israel usurpou todo o território que estava sob controle jordaniano, incluindo a vila de Kobar. Com a tomada dos novos territórios, o governo sionista proibiu o retorno de todos aqueles que foram expulsos ou fugiram da guerra. Hussein e sua família, ausentes e apátridas, agora corriam o risco de perder tudo o que haviam temporariamente deixado na Palestina. Lei de Propriedade dos Ausentes (1950) Em 1950, alguns anos após a assim chamada "independência", Israel promulgou, sem o consentimento ou a participação da sociedade civil, a Lei de Propriedade dos Ausentes. Essa legislação conferiu ao Estado o poder de apropriar-se de todos os bens móveis, imóveis, terras e contas bancárias dos palestinos, incluindo as oliveiras de Hussein Rayan. Este foi o principal instrumento utilizado por Israel para confiscar terras pertencentes aos refugiados, tanto internos quanto externos, sem oferecer qualquer forma de compensação pelos bens que foram roubados. Lei de Aquisição de Terras (1953) Como complemento à Lei de Propriedade dos Ausentes, foi promulgada a Lei de Aquisição de Terras, concedendo ao Estado de Israel o direito de redistribuir e vender terras pertencentes a palestinos ausentes para recém-chegados judeus. Por meio dessas duas leis, Israel confiscou 417 vilas e aldeias palestinas. O confisco – nome para roubo institucional – não era a única ferramenta utilizada. Munya Mardor, ex-oficial da Haganah, descreveria em seu livro: “Mesmo a imigração ilegal e o desrespeito das leis restritivas de Aquisição de Terras não seriam suficientes. A Haganah teria de entrar a sério na luta contra a política do Livro Branco e libertar-se de todo e qualquer escrúpulo quanto ao uso das armas.” (MARDOR, 1980) [3] Lei do Fundo Nacional Judaico (1958) A legislação ainda vigente concede à autoridade governamental o poder de adquirir terras palestinas por meio do Fundo Nacional Judaico (FNJ), uma entidade fundada pela aristocracia judaica europeia com o único e exclusivo propósito de adquirir terras dos palestinos expulsos pelos israelenses. Essa lei proporciona ao FNJ benefícios fiscais na aquisição de terras e propriedades pertencentes aos ausentes. Com a persistência da Lei de Propriedade dos Ausentes, que confisca os bens e terras dos palestinos expulsos, aliada à distribuição e vendas garantidas pela Lei de Aquisição de Terras, e complementada pela Lei do Fundo Nacional Judaico, o Estado de Israel detém atualmente 93% do território originalmente palestino. Não nos esqueceremos Hussein Rayan viveu grande parte de sua vida como um ausente apátrida. Ao longo desses anos, ele meticulosamente anotou todas as informações que sua memória permitia: a extensão de suas terras, o número de oliveiras em seus campos, e até mesmo os nomes de seus vizinhos. Tudo isso era uma estratégia para não ser derrotado pelo tempo e preservar sua identidade. Sua filha, Ruayda, cresceu testemunhando o desejo persistente de seu pai de um dia poder visitar as oliveiras que se tornaram tão significativas ao longo do tempo dedicado a elas. Após 37 anos, Hussein finalmente conseguiu retornar para rever a família, amigos, terras e suas preciosas oliveiras. No entanto, após apenas 37 dias em sua pátria, o coração do palestino, que viveu com saudade por tanto tempo, não suportou e ele faleceu. Como era de sua vontade, Hussein Rayan foi sepultado na Palestina. “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” Antoine de Saint-Exupéry, o Pequeno Príncipe. Em uma mesquita de Maringá, Ruayda, filha de Hussein e neta do peregrino que se perdeu no deserto, encontrou um amigo do seu falecido pai. Ele compartilhou que em uma de suas últimas conversas, Hussein havia expressado a convicção de que um dia sua filha voltaria para cuidar das oliveiras. Em 1999, Ruayda e seu marido decidiram se mudar para a Palestina. Ao partir, sua intenção era reconectar-se com suas raízes e explorar um pouco de sua própria história. Ao chegar na cidade de Kobar, ela descobriu que suas origens de alguma forma sempre a acompanharam. Com base nas memórias compartilhadas por seu pai e em suas anotações, Ruayda tinha um conhecimento profundo de tudo: terras, idioma, cultura, religião e das pessoas ao seu redor. Essa conexão íntima foi construída de tal forma que ela se tornou familiar com cada detalhe, mesmo sem ter conhecido essas pessoas pessoalmente. Em um casamento, Ruayda encontrou um antigo amigo da família que morou no Brasil. O senhor, encantado ao ver a filha de Hussein Rayan, apresentou-a aos convidados dizendo: "Essa é a filha do tio Hussein!" Ruayda, pela primeira vez, deu rostos aos personagens das histórias contadas por seu pai, exceto por um senhor bem idoso que aguçou sua curiosidade. – Esse é o senhor Hessami? – ela perguntou. Espantados, os convidados explicaram que Hessami havia falecido há muito tempo e que, há mais de dez anos, ninguém mencionava seu nome. A memória palestina transcende gerações e permanece arraigada na sociedade refugiada. Todos que celebravam o casamento, após a menção do velho Hessami, compartilharam suas histórias sobre o senhor já falecido. Mesmo Ruayda, que nunca o conheceu e jamais optou por herdar essas histórias, tinha algumas para contar. Uma vez, Ben Gurion declarou que os israelenses deveriam fazer de tudo para garantir que os palestinos nunca retornassem, assegurando aos companheiros sionistas que "os velhos morrerão e os jovens esquecerão" [4] . Essa previsão mostrou-se equivocada. Sim, como em qualquer parte do mundo, os mais velhos faleceram, em grande parte assassinados pelo Estado de Israel. No entanto, isso não significa que o tempo tenha enfraquecido a identidade palestina. Pois, como o essencial é invisível aos olhos, a "palestinidade" dos mais jovens renovou suas forças na luta pelo direito de serem reconhecidos pelo que nunca deixaram de ser: palestinos. "Eu não tinha esse direito, pois esse direito foi usurpado de meu pai e minha mãe." [...] “Pessoas que nasceram na Europa e nunca estiveram aqui, não tinham pais aqui, não tinham avós aqui, não tinham bisavós aqui, tinham o direito de vir para cá e tomar as terras de pessoas que a vida toda viveram aqui e herdaram essas terras de suas bisavós.” Ruayda As memórias herdadas resistiram aos estragos da colonização britânica, à ocupação sionista e às inúmeras guerras. Finalmente, Ruayda as trouxe de volta para onde jamais deveriam ter saído. Assim como muitos outros palestinos, ela reencontrou seus sentimentos de pertencimento, profundamente enraizados no solo da pátria-mãe. Nascida no Brasil como a "filha do tio Hussein", ela é brasileira, mas toda sua identidade, moldada pelas experiências transmitidas por seu pai, assim como suas memórias, está entrelaçada com a Palestina, sua família, sua terra e sua cultura. Ela não precisava residir na Palestina para ser palestina, pois essa identidade sempre a acompanhou, sendo a forma pela qual se enxergava como pessoa, embora a nacionalidade fosse necessária para exercer seus direitos como tal. Após obter sua nacionalidade, Ruayda assumiu a presidência do conselho de cidadãos brasileiros na Palestina, com o objetivo de recuperar para outros descendentes o que lhes havia sido injustamente retirado: sua nacionalidade. [1] SIQUEIRA, L. Entrevista com Ruayda Rabah. Kobar. 2021. [2] REICHERT, R. História da Palestina. São Paulo: Editora Herder (Universidade de São Paulo), 1972. [3] MARDOR, M. Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel. Rio de Janeiro: Portugália, 1980. [4] MEIR, G. Minha Vida. Jerusalém. 1976.
- Faysa Daoud: A Menina Palestina Dos Campos De Refugiados
Artigo 14 “Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.” Declaração Universal dos Direitos Humanos [1] Nos dias quentes a agitação das partidas de futebol no campo de Baqa’a, na Jordânia, levantava a poeira da rua de terra batida. Uma menina madura o suficiente para jogar bola com as outras crianças, mas não tão para usar o hijab, passava direto pelas brincadeiras na volta da escola. Ela preferia bater de casa em casa para oferecer ajuda a outras mulheres e idosas do campo. Apesar de pequena conhecia bem as mazelas compartilhadas por todos ao seu redor, pois, sua família vivia as mesmas. A história da menina, como a de outros milhões de palestinos, começa como refugiada de uma guerra a qual não teve participação. Sua história começa na cidade portuária de al-'Abbasiyya, no distrito de Yaffa, de onde seus pais Ahmad Mohamad Saleh Abou Daoud e Miriam Ibrahim Deib foram expulsos na primavera de 1948. Nakba, Palestina As flores desabrochavam enquanto o exército britânico assistia às milícias do Irgun [2] e Haganah [3] lançarem ataques contra o distrito de Jaffa [4] . Cidades inteiras foram bombardeadas por morteiros durante três dias consecutivos. Menos de um mês após o primeiro disparo, Ahmad e Miriam e outros 25 mil palestinos foram evacuados para as cidades vizinhas de Lydda e Ramle. David Ben-Gurion, comandante do Haganah, considerou a hipótese de retorno dos palestinos, então ordenou a invasão das cidades que acolheram os refugiados e a expulsão de todos dos territórios. Setenta mil palestinos se tornaram refugiados em poucos dias, incluindo o casal Daoud que pela segunda vez foi obrigado ao deslocamento interno forçado. Os israelenses usam da falácia de que os moradores saíram das cidades por vontade própria, mas os fatos descritos por Yitzhak Rabin – na época comandante da milícia Palmach, parte da Haganah – eram bem diferentes. Já no cargo de Primeiro-ministro ele admitiu que os palestinos não saíram das cidades por um cordão humanitário, mas sob a mira de fuzis e tiros de alerta disparados contra a população. Revela ainda que os palestinos foram obrigados a caminhar sem água por quilômetros debaixo do sol, o que levou centenas de idosos e crianças a morrerem de sede durante a marcha forçada. [5] Para intensificar a devastação, Ben-Gurion decretou a demolição das cidades, assegurando que não restassem residências para os deslocados retornarem. Os Daouds e milhares de palestinos buscaram refúgio nos campos da Cisjordânia, mas em 1967, um novo massacre se desdobrou. Em meros seis dias de conflito, os palestinos perceberam que mesmo o que restava de seu território já não oferecia segurança. Decidiram, então, buscar abrigo além do Rio Jordão. Para evitar mais tragédias, concentraram-se em um campo improvisado próximo à capital Amã, na Jordânia, que posteriormente se tornaria o Campo de Baqa’a. Apesar de ser permitido aos palestinos habitar as terras jordanianas, o governo e a comunidade internacional não forneciam qualquer assistência. A única ajuda disponível eram algumas lonas da UNRWA utilizadas como cobertura. Alguns anos após sua chegada ao Campo de Baqa’a, Miriam deu à luz uma menina com olhos cor de avelã, a quem chamaram Faysa Daoud. “Você nasce na Jordânia, mas você não é jordaniano. Seu passaporte vem com a letra ‘P’, de palestino.” Faysa Daoud [6] A vida era extremamente difícil para os palestinos dos campos na Jordânia. Os melhores trabalhos, escolas e outros serviços do governo eram destinados exclusivamente para os jordanianos. Para os médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais palestinos só restavam os trabalhos braçais. A Organização para Libertação da Palestina (OLP) no intuito de suprimir a situação de abandono criou independentes redes de apoio aos refugiados e assistência as famílias dos combatentes. Essas redes consistiam, além de ajuda financeira, a construção de escolas, dispensários, hospitais e centros do Crescente Vermelho [7] . Os serviços prestados pelos fedayins palestinos superavam em todos os quesitos os oferecidos pelo governo Real e pela comunidade internacional, o que colocou a OLP e Arafat em situação de prestígio nunca visto na comunidade palestina, fazendo muitos aderirem às forças fedayins da OLP. “Os filhos refugiados que mendigam à UNRWA um saco de farinha, um punhado de feijões e uma coberta vieram formar as fileiras dos combatentes, e são eles quem escrevem diante do mundo árabe a nova história da Palestina”. Yasser Arafat, 1967. [8] Com dificuldades para encontrar trabalho, o pai Ahmad Daoud se alistou no exército jordaniano, a única oportunidade para oferecer à família uma vida melhor e mais segura. Pouco a pouco as condições melhoravam para os Daoud. A família trocou a tenda de lona por um quarto e cozinha. Os Daouds tiveram o primeiro momento de relativa paz. A menina Faysa ajudava a mãe nos afazeres de casa e nas horas vagas oferecia ajuda aos vizinhos que sobreviviam em condições lamentáveis, no entanto, ela não foi a única a perceber e se incomodar com o sofrimento do seu povo. Os lotados campos de refugiados que se espalhavam por toda Jordânia dependiam quase que exclusivamente das redes de assistência fornecidas pela OLP, o que fez a organização também tomar parte na lei e ordem dentro dos campos, criando leis, tribunais, polícia e até um exército de defesa. Estava criado um Estado palestino independente dentro do Estado jordaniano. O irmão mais velho de Faysa, Mahmud Daoud, também procurou uma maneira de ajudar o próprio povo e se alistou nas forças guerrilheiras da OLP. Guerra Civil, Jordânia O Estado dentro do Estado ampliava continuamente o prestígio da OLP, ao mesmo tempo em que gerava desconforto para o Rei Hussein, que via na crescente popularidade de Arafat uma ameaça ao Reino da Jordânia. Diante dessa situação, o Rei Hussein tomou medidas para restringir a autonomia no território, impondo limitações aos fedayins. Estas incluíam a proibição da circulação de palestinos fardados nas cidades, a sujeição dos guerrilheiros às ordens das forças de segurança nacional e a exigência de entrega de armamento às autoridades jordanianas. Os palestinos, por sua vez, resistiam à ideia de entregar suas armas e líderes, cientes de que o exército jordaniano não seria capaz de protegê-los dos frequentes ataques israelenses que invadiam o território jordaniano para atacar os campos de refugiados. Manifestações populares contra as medidas do rei se espalharam por toda parte, conflitos entre a polícia jordaniana e a resistência palestina agravam a situação. Dentro dos campos de refugiados emerge a Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP). Os comunistas da FPLP preocupavam muito mais o rei Hussein que a própria OLP, visto que proliferavam rapidamente a estratégia de formação de um mundo árabe unido e socialista. Em 9 e 10 de junho de 1970, o rei ordenou a invasão do exército ao campo de refugiados de Wadaf, com intuito de prender e estancar a força popular da FPLP. Centenas de palestinos foram mortos e outras centenas ficaram feridos. Arafat consegue um cessar-fogo entre as partes, aumentando sua credibilidade também com os comunistas da FPLP e estancando-a ainda mais com o Rei Hussein. A constante invasão israelense ao território jordaniano ajudou a propagar a instabilidade política na região, o rei que não conseguia lidar sequer com os palestinos, acabara de herdar também seu inimigo. Dez dias após o cessar-fogo negociado com Arafat, no dia 17 de setembro de 1970, o rei decide expulsar os guerrilheiros da OLP e pôr fim ao Estado palestino em Amã. “Tenho provas incontestáveis de que o rei Hussein tem a intenção de liquidar os resistentes palestinos. Presumo que seus governos não poderão ou não desejarão fazer nada por nós. Mas informo: vocês não podem dizer que não sabiam!” Mensagem que Yasser Arafat enviou a todos os chefes de Estados árabes, 1970. Às 5h da manhã, blindados e tanques atacaram os campos de refugiados; simultaneamente invadem o quartel-general da OLP. Iniciava-se mais um plano de expulsão de refugiados palestinos. A ordem era, acima de tudo, capturar Arafat, vivo ou morto! “Duas vezes o exército jordaniano cercara o local em que eu estava, pedindo que eu me rendesse. Sem sucesso, pois a cumplicidade da população sempre me permitia escapar.” Yasser Arafat, 1979 A Guerra Civil na Jordânia ou Setembro Sangrento, como ficou conhecido, obrigou pai e filho Daoud a tomarem armas em punho e irem para guerra, infelizmente, em lados opostos. Faysa tinha onze anos quando viu pela primeira vez seu pai e seu irmão sendo forçados a se confrontarem. Com a retirada dos fedayins, uma ordem de prisão foi emitida em nome de Mahmud Daoud pelo exército jordaniano. A jovem ouviu dizer que seu irmão havia escapado para as montanhas, mas a polícia o perseguira por todo o território, forçando ele e outros jovens guerrilheiros a cruzarem para o território da Síria. Esse foi o momento mais difícil para os Daouds, pois sua residência foi bombardeada por vinte e quatro bombas do exército na tentativa de capturar o filho guerrilheiro. Após um período como fugitivo e acreditando estar seguro, Mahmud regressou à Jordânia, porém, ao atravessar a fronteira, foi prontamente identificado e detido pelas forças policiais. “Eu tinha 11 anos nessa época, me lembro muito bem de tudo que aconteceu. Meu pai trabalhava no exército da Jordânia e meu irmão era guerrilheiro do Fatah; os dois lutavam contra. Esse foi um período muito marcante para todos nós! O exército queria a condenação do meu irmão, então ele acabou fugindo para as montanhas e depois para Síria, mas acabou sendo preso. Mahmoud passou 40 dias sendo interrogado e torturado na prisão jordaniana. Quando libertado, nós não o reconhecíamos, eu mesmo não conhecia mais meu irmão, ele estava quebrado, todo cortado e desfigurado. Nós sofremos muito por conta do regime jordaniano.” Faysa Daoud O conflito mobilizou tropas por todo Oriente Médio, alguns pró palestinos, outros ao lado do Rei Hussein, incluindo os Estados Unidos e Israel, que se colocaram à disposição para mais um genocídio palestino. No nono dia de combate a rádio Amã anunciou que o rei Hussein e Arafat chegaram a um acordo de cessar-fogo intermediado pelo Rás egípcio Gamal Abdel Nasser. A guerra se estendeu até que Arafat e a OLP concordaram em deixar a Jordânia e partir para o Líbano. O massacre se estendeu até julho de 1971. Os resultados variam de acordo com as fontes: a Jordânia estima 3.500 mortos, já a OLP afirma que esse número excede os 20 mil. Refúgio Brasil Hussein Arman, também da cidade portuária de al-'Abbasiyya, assim como a família Daoud, se tornou um dos milhares de refugiados palestinos ao atravessar o rio Jordão durante a Nakba. Com as perseguições israelenses aos campos jordanianos decidiu partir. Chegou ao Brasil em 1959, na mala apenas o sonho de se tornar piloto de avião e um dia poder voltar voando para seu país livre das guerras e perseguições. Em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Arman passou por todas as dificuldades de um refugiado árabe em um país sul-americano. Seu sonho foi momentaneamente posto de lado, pois a prioridade consistia em aprender o idioma, adaptar-se à cultura e, simultaneamente, garantir o sustento por meio do trabalho que conseguiu como feirante. A única coisa que alçou voo para o palestino foram os anos de árduo trabalho. O sonho de se tornar piloto foi substituído pela saudade e pelo desejo de reunir-se com a família e os amigos deixados na Jordânia. Após quatorze anos, o refugiado palestino de Mogi das Cruzes finalmente conseguiu economizar dinheiro suficiente para realizar sua primeira visita à família no campo de Baqa’a. O cenário já não era o mesmo; as lonas deram lugar a contêineres, todos adornados com estampas da UNRWA. Até mesmo casas de tijolos começavam a surgir, mas os impactos de tiros marcavam as paredes externas, recordando constantemente os habitantes de seu passado. À medida que as ruas eram gradualmente pavimentadas, estudantes e trabalhadores circulavam incessantemente entre os comércios improvisados e a teia de fios elétricos suspensa sobre suas cabeças. As escolas da OLP, agora sob a administração da UNRWA, formavam jovens cheios de esperança, almejando deixar para trás a vida de refugiado. Faysa Daoud era uma das jovens que concluíram seus estudos nessa época. Para Arman, tudo aquilo era notavelmente diferente de suas memórias, mas mesmo assim, ele sentia-se em casa. Na visita, Husein Arman e Faysa Daoud foram apresentados um ao outro, e não demorou muito para decidirem se casar e fixar residência no Brasil. Faysa sentiu-se novamente como uma estranha, agora em uma terra ainda mais desconhecida. Este novo mundo revelou-se imensamente desafiador para a jovem que só conhecia a vida nos campos de refugiados. Desta vez, não eram bombas, tiros ou torturas que a atormentavam, mas sim a solidão. Distante de sua família, a jovem começou a se comunicar e, após tornar-se perita em mímicas, iniciou o aprendizado do português. Arman apresentava à sua esposa todas as pessoas que conhecia e como poderiam auxiliar os outros a se estabelecerem; juntos, o casal palestino formou uma extensa rede de ajuda humanitária. A compaixão intrínseca de Faysa foi aprimorada ao lado de Arman. Cada vez que ela via o marido estender a mão para ajudar o próximo, sua admiração por ele crescia. As dificuldades pelas quais o casal havia passado eram semelhantes às enfrentadas por cada novo refugiado árabe. Por estarem familiarizados com as nuances da burocracia brasileira, as barreiras idiomáticas, a adaptação a uma nova cultura e, principalmente, a distância da família, Arman e Faysa começaram a prestar auxílio aos recém-chegados. As missões de solidariedade do casal tornaram-nos um ponto de referência na ajuda humanitária para os refugiados. Husein Arman repetia incansavelmente: "sirva e sirva sempre com excelência". Como marido, ele compartilhou todo o conhecimento possível com sua esposa, agindo como alguém que buscava auxílio para dar continuidade à sua missão. A cada ensinamento, Husein Arman destacava: "você precisa aprender, pois um dia terá que seguir isso sozinha". Em 2012, Husein Arman faleceu, deixando para Faysa, além da saudade, o legado que construíram juntos. Faysa Daoud não teve tempo para vivenciar plenamente o luto. A guerra na Síria [10] , desencadeada no ano anterior, começou como uma série de grandes manifestações visando depor o presidente Bashar al-Assad [11] e instaurar uma nova liderança democrática, resultando na maior onda migratória de refugiados da história. Assad tentou persuadir a comunidade de refugiados palestinos na Síria a se aliar ao governo contra a oposição, mas os palestinos optaram por permanecer neutros. Enfurecido, o presidente ordenou a abertura da fronteira Síria/Israel para que os refugiados pudessem retornar à Palestina. Diante dos olhares impassíveis dos soldados de Assad, 22 jovens refugiados palestinos foram assassinados e outros 100 foram baleados pelos guardas de fronteira israelenses. A guerra na Síria agravou-se com o tempo, e a maioria das organizações internacionais enfrentou desafios para prestar ajuda devido ao bloqueio imposto pelas forças do regime sírio. Pessoas estavam perdendo a vida em grande escala, tanto devido ao conflito quanto à perseguição por grupos opositores, à falta de assistência médica e à fome resultante do bloqueio. Além disso, destaca-se o fracasso da comunidade internacional em cumprir o dever de proteger os mais vulneráveis e mediar uma solução política e pacífica. Os refugiados inundavam os países da Europa, mas muitos deles se viram diante de fronteiras fechadas e crescentes dificuldades na imigração. Diante desse cenário, o Brasil, conhecido por suas políticas humanitárias de imigração e refúgio desde 2003, emergiu como uma rota de fuga. Os refugiados provenientes do Iraque em 2007, com origens palestinas, foram beneficiados com ajuda financeira da ONU por dois anos, mas após esse período, enfrentaram a jornada por conta própria. A realidade para a maioria dos refugiados é que, devido às barreiras idiomáticas e culturais, muitos acabam interagindo apenas com outros refugiados, o que dificulta a adaptação. Nascida nos campos de Baqa’a, Faysa, em prol de suprir as necessidades de acolhimento, integração e consolidação, uniu-se a outros três amigos para formar uma rede de ajudadores informais. Eles atuavam como intérpretes em consultas médicas, intermediários na burocracia brasileira, e desempenhavam papéis como "corretores de imóveis", dentre outras necessidades básicas. Para Faysa e seu grupo de acolhimento, esse era o momento de dar um passo à frente. “Quando os refugiados chegaram, pensei: ‘chegou meu povo, eles estão sofrendo como eu sofri’. Eles não sabiam se comunicar, não sabiam nem comprar as coisas. Eu sabia que podia ajudar, me sentia na obrigação de ajudar.” Faysa Daoud O árduo trabalho de socorrer aqueles que deixaram suas casas devido à guerra tornou-se ainda mais exaustivo com a crise na Venezuela no ano seguinte. Apesar das notáveis diferenças culturais e do conhecimento limitado da rede de amigos sobre a cultura venezuelana, a comunidade árabe muçulmana uniu esforços e preparou-se para ajudar os milhares que cruzavam a fronteira de Pacaraima, em Roraima. Ao longo de quatro anos, esses auxiliadores tornaram-se a referência para refugiados palestinos, sírios, iraquianos, afegãos, congoleses, haitianos e, agora, venezuelanos. Com a chegada de milhares de refugiados, o trabalho do grupo se multiplicou, levando à necessidade de oficializar as atividades de ajuda humanitária. Em 2016, foi fundada a organização não governamental Refúgio Brasil. Um dos milhares de refugiados venezuelanos que atravessaram a fronteira em busca de refúgio encontrou na Refúgio Brasil aulas de português, auxílio na regularização da documentação e apoio para encontrar emprego. Em seu casamento, que ocorreu algum tempo após a chegada ao Brasil, o venezuelano teve a presença de amigos palestinos, sírios, iraquianos e, é claro, Faysa Daoud, uma palestina-jordaniana. Todos, independentemente de sua nacionalidade, compartilhavam algo em comum: um dia estiveram na mesma condição de refugiado. Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu o desastre humanitário, industrial e ambiental que ceifou a vida de 270 brasileiros: o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. A ONG Refúgio Brasil, presidida por Faysa Daoud e financiada em grande parte pela comunidade árabe-brasileira, mobilizou esforços para arrecadar um caminhão com alimentos, roupas e materiais de limpeza destinados às vítimas dessa catástrofe. Brumadinho não foi o único momento em que Faysa e a Refúgio Brasil desempenharam um papel crucial na ajuda humanitária. Durante a pandemia da COVID-19, quando a maioria da população estava isolada em suas casas, a Refúgio Brasil arrecadou e distribuiu centenas de cestas básicas, beneficiando não só os refugiados estrangeiros, mas também brasileiros em situação de vulnerabilidade. Faysa Daoud passou os primeiros anos de sua vida vivendo como refugiada, até mesmo sua identidade foi carimbada com um “P” extra, denotando sua origem palestina. Atualmente, ela foi homenageada com as chaves da cidade de Mogi das Cruzes, sendo reconhecida como cidadã. Tudo o que Faysa aprendeu com Arman, o jovem que se refugiou no Brasil com o sonho de se tornar piloto, ela coloca em prática para ajudar milhares de pessoas, sem distinção de etnia, cor ou religião. Ela ensina a todos que o amor não conhece fronteiras. Atualmente, com uma vida um pouco mais tranquila, a mulher que cresceu nos campos volta sempre que pode para visitar parentes e amigos no Oriente Médio. Entre um voo e outro, às vezes ela consegue viajar em uma aeronave pilotada por seu próprio filho. “Meu marido se sentiu muito realizado através do filho. Tudo que ele sonhava para ele foi realizado pelo filho. Ele ficou tão emocionado na formatura do menino. Infelizmente ele faleceu pouco tempo antes do meu filho se tornar comandante.” Faysa Daoud, 2022 Enquanto gravávamos as entrevistas (2022), Faysa coordenava simultaneamente campanhas de arrecadação para as vítimas das inundações em Petrópolis e prestava assistência a pessoas em situação de refúgio vindas do Afeganistão e Ucrânia. Atualmente, ela e a ONG Refúgio Brasil são referências para os repatriados brasileiros que foram resgatados do atual massacre israelense em Gaza. [1] AGNU, “Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III),” Paris, 1948. [2] O Irgun ganhou notoriedade após o ataque ao Hotel King David, que resultou em 91 mortes. No ano subsequente, envolvido no tráfico de armas, o Irgun entrou em conflito com o exército israelense, culminando no naufrágio de um navio (Altalena) carregado com armamentos. Posteriormente, as autoridades britânicas classificaram a organização como terrorista. [3] Após a autoproclamação de independência, o Haganah foi dissolvido e se tornou o exército israelense. Oficialmente o exército se chama, Israel Defense Forces (IDF), ao qual palestinos e organizações de direitos humanos preferem chamar de Israel Occupying Forces (IOF). No livro “Haganah”, o autor Munia Mardor, ex-oficial da força escreve, “Um dos principais objetivos da Haganah, tal como movimento sionista em geral, era abrir caminho aos imigrantes que desejavam entrar na Palestina”. [4] M. Mardor, “Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel,” Portugália, Rio de Janeiro, 1980. [5] Rabin forneceu detalhes ao ghostwriter Dov Goldstein sobre a invasão às vilas e o deslocamento interno forçado de milhares de palestinos. Contudo, o comitê governamental encarregado da preservação historiográfica de Israel, por razões de segurança, ordenou a eliminação desse trecho da biografia. De acordo com Goldstein, o chefe do comitê lhe afirmou: “Sim, a história é verdadeira e conhecida, mas não pode ser contada por um dos nossos heróis, alguém que esteve envolvido pessoalmente com ela, que foi Primeiro-ministro de Israel, porque desmentirá nosso argumento de que agimos com humanidade.” Goldstein relata que Rabin ficou contrariado, mas concordou em suprimir o trecho do livro. [6] L. Siqueira, “Entrevista com Faysa Daoud,” Mogi das Cruzes, 2021. [7] Estabelecida em 1968 por Fathi Arafat, irmão de Yasser Arafat, a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino é uma organização humanitária integrante do Movimento Internacional da Cruz Vermelha. [8] A. Kapeliouk, “Arafat: O irredutível,” Editora Planeta do Brasil, 2004. [9] R. Fisk, Pity the Nation: The Abduction of Lebanon, Oxford University Press, 1990. [10] O governo sírio alega combater terroristas armados que visam desestabilizar o país. A partir de 2013, o grupo Estado Islâmico (Daesh) começou a reivindicar territórios na região. Lutando inicialmente ao lado da oposição síria, as forças desta organização passaram a atacar qualquer uma das facções envolvidas no conflito (apoiadores ou opositores ao regime Assad), buscando hegemonia. Segundo informações de ativistas de direitos humanos, o número de mortos no conflito passa das 500 mil pessoas (2022), sendo mais da metade civis, incluindo quatro mil refugiados palestinos neutros ao conflito. Outras 130 mil pessoas teriam sido detidas pelas forças de segurança do governo. Mais de cinco milhões de sírios já teriam buscado refúgio no exterior para fugir dos combates, com a maioria destes tomando abrigo no vizinho Líbano. [11] Bashar Hafez al-Assad é o atual presidente da Síria e Secretário Geral do Partido Baath desde 17 de julho de 2000. Sucedeu a seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos até sua morte. Bibliografia AGNU. Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III). Paris. 1948. FISK, R. Pity the Nation: The Abduction of Lebanon. [S.l.]: Oxford University Press, 1990. KAPELIOUK, A. Arafat: O irredutível. [S.l.]. 2004. KAPELIOUK, A. Arafat: O irredutível. [S.l.]: Editora Planeta do Brasil, 2004. MARDOR, M. Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel. Rio de Janeiro. 1980. SIQUEIRA, L. Entrevista com Faysa Daoud. Mogi das Cruzes. 2021.
- A era dos Pogroms, o massacre de judeus na Europa que proporcionou o surgimento do sionismo
No século XIX, a maioria da população judaica se concentrava no Império Russo. De acordo com o censo de 1897, aproximadamente 5,2 milhões de judeus residiam na região conhecida como Pale of Jewish Settlement, que abrangia partes da atual Letônia, Lituânia, Polônia, Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia. Apesar de constituírem uma minoria de 11,3% da população total, os judeus dominavam as profissões intermediárias do mercado, incluindo comércio, artesanato, indústria, transporte e agiotagem [1] , uma vez que eram proibidos de se estabelecer fora desses territórios e de se envolver na agricultura ou possuir terras aráveis. [2] Após o assassinato do Czar Alexandre II em 1881, o governo dos sucessores Alexandre III (de 1881 a 1894) e Nicolau II (de 1894 a 1917) enfrentaram ondas de piores safras de grãos da história e uma sucessão de derrotas militares. Nicolau II absorveu muitos dos pontos de vista extremistas de seu pai e de Konstantin Pobedonostsev, que foi seu tutor. Ele culpava os judeus, a quem chamava de "assassinos de Cristo", pela violência e agitação social na Rússia. O governo tentou impor o uso da língua russa em todas as escolas e eliminar traços de culturas estrangeiras. O czar procurava fazer com que as pessoas não russas adotassem a religião, língua e cultura dos "Grandes Russos", que eram a maioria étnica do país, mas em relação à população total do império. Esses esforços causaram ressentimento e resistência em áreas como a Polônia, Ucrânia e Cáucaso. [3] Com a fome e a miséria generalizada, eclodiram greves e revoltas populares por todo o império. Famintos e incapazes de comprar grãos dos comerciantes judeus e de pagar suas dívidas com os credores judeus, os camponeses passaram a culpar a comunidade judaica pelos problemas econômicos. Assim, iniciou-se a era dos pogroms, palavra em russo para "causar estragos, destruir violentamente". [4] Em abril de 1903, Kishinev um grave surto antijudaico resultou na morte de 47 judeus, com 92 gravemente e 500 levemente feridos. A violência causou enormes perdas materiais à comunidade judaica, incluindo a destruição de 700 casas e o saque de 600 lojas. O episódio, planejado previamente, foi instigado pelo editor moldavo Pavolachi Krushevan, que, ao longo de seis anos, disseminou falsas acusações e incitou ódio antissemita na população. [5] Incitados por líderes políticos, religiosos e até pelo próprio Czar, os episódios de violência contra os judeus rapidamente se espalharam por todo o território do império. As autoridades czaristas, quando não estavam envolvidas, fechavam os olhos para os ataques, que incluíam estupro e assassinato de vítimas judias, bem como o saque de suas propriedades. Segundo Colin Tatz, que foi diretor do Instituto Australiano de Estudos do Holocausto e Genocídio, entre 1881 e 1920, a Ucrânia testemunhou 1.326 pogroms, resultando na morte de 70.000 a 250.000 judeus civis e deixando meio milhão de desabrigados. A violência dos pogroms na Europa Oriental desencadeou uma migração judaica, totalizando cerca de 2,5 milhões de pessoas. [1] Os judeus constituíam 84% de todos os comerciantes de produtos agrícolas e não agrícolas, 92% de todos os comerciantes de grãos e, 45% no setor de artesanato e indústria, 30% nos serviços de transporte, e 37% de todos os agiotas. Essas profissões juntas absorviam 11% do emprego total de Pale. GROSFELD, I.; SAKALLI, S. O.; ZHURAVSKAYA. Middleman Minorities and Ethnic Violence: Anti-Jewish Pogroms in the Russian Empire. The Review of Economic Studies. London. 2017. [2] Essas restrições territoriais e ocupacionais duraram até a Revolução de Fevereiro de 1917. [3] NOVA CULTURA. Nicolau II. São Paulo. 1988. [4] UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Introduction to the Holocaust, Pogrom. Washington, DC. [5] ROSENTHAL, H.; ROSENTHAL. KISHINEF. Jewish Encyclopedia.
- A mídia brasileira pinga o sangue palestino
A mídia brasileira é escrota! Não mostram 5% do que acontece na Faixa de Gaza. Não abordam a falta de água, luz, comida e suprimentos médicos, nem dão a devida importância às famílias palestinas. Focam excessivamente no ataque do Hamas e minimizam criminosamente o papel de Israel, que é o terrorista mais sanguinário desta história. Não mencionam a colonização israelense que ocorre há 76 anos. Para entender o contexto geral, é necessário abordar como chegamos até aqui. Não divulgam quantos ataques Israel tem realizado ao longo de 76 anos. Fico feliz que existam pessoas questionando a conduta de vocês. Espero que nunca durmam em paz com esse apoio escancarado a Israel. Espero que as pessoas repensem o que assistem e onde dedicam sua audiência, desenvolvendo o senso crítico para não serem escravas dessa mídia porca e vendida.
- Israel está sob intensas críticas da comunidade internacional após o massacre de mais de cem palestinos que esperavam na fila por alimentos
França "Estou profundamente indignado com as imagens vindas de Gaza, onde civis foram alvejados por soldados israelenses." [,,,] "Expresso minha mais veemente condenação desses tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional." Emmanuel Macron na plataforma X. Turquia "Israel adicionou outro crime aos seus crimes contra a humanidade." [...] "O fato de Israel, que condenou os habitantes de Gaza à fome, desta vez ter como alvo civis inocentes em uma fila de ajuda humanitária, é uma prova de que (Israel) pretende, consciente e coletivamente, destruir o povo palestino." Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia Catar "A continuação dos crimes brutais da ocupação como parte de sua guerra brutal na Faixa de Gaza prova, dia após dia, a necessidade premente de uma ação internacional urgente para pôr fim imediatamente a esta agressão sem precedentes na história recente." Ministério das Relações Exteriores do Catar Alemanha "As pessoas estão arriscando suas vidas brigando por pacotes de alimentos que caem do ar porque não há caminhões suficientes chegando a Gaza. As crianças estão coletando ervas daninhas para dar algo para seus irmãos comerem. Os bebês estão morrendo de desidratação e desnutrição em hospitais que mal funcionam." Annalena Baerbock, Ministra das Relações Exteriores da Alemanha China A China condenou veementemente o assassinato de dezenas de palestinos durante a entrega de ajuda, expressando choque e pesar pelas vítimas. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Mao Ning, afirmou que a China condena veementemente o ataque israelense, apelando a uma rápida resolução para a agressão em curso.
- Jornalistas Palestinos Sob Ataque Permanente do Regime de Ocupação Israelense somam 124 martirizados
O regime de ocupação israelense persiste em atacar os jornalistas palestinos utilizando os meios e ferramentas mais cruéis, buscando infligir o máximo de mortes e terror possível. O sindicato, em comunicado emitido coincidindo com o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos (que ocorre hoje, segunda-feira, 26 de fevereiro), informou que, desde 7 de outubro passado, os mísseis e balas da ocupação resultaram na morte de 124 jornalistas e trabalhadores da mídia durante o genocídio na Faixa de Gaza. Isso inclui 16 jornalistas, enquanto o destino de dois colegas permanece desconhecido. O sindicato destacou que a ocupação continua seus ataques às residências dos jornalistas, causando destruição e morte a suas famílias. Esses ataques afetaram dezenas de residências ocupadas por famílias de jornalistas na Faixa de Gaza. Além disso, o sindicato afirmou que 1.500 jornalistas na Faixa de Gaza foram deslocados, muitos trabalhando em instalações temporárias, como hospitais e abrigos, sendo diretamente alvos da ocupação enquanto desempenham suas funções profissionais e humanitárias. O sindicato documentou a destruição de 73 instituições de comunicação social em Gaza, incluindo rádios locais, agências de notícias locais e internacionais, canais de satélite locais e internacionais, jornais locais, torres de transmissão e instituições de assessoria de imprensa. Sobre detenções, o sindicato relatou que aproximadamente 65 jornalistas foram presos desde 7 de outubro, alguns foram libertados, mas 36 continuam detidos, a maioria em "detenção administrativa", e outros 15 jornalistas permanecem em centros de detenção antes dessa data. Enquanto o genocídio israelense em Gaza se prolonga, casos de ataques diretos a jornalistas na Cisjordânia e em Jerusalém têm aumentado, numa tentativa de intimidar aqueles que cobrem a agressão israelense nessas regiões. O sindicato, à medida que se aproxima do quinto mês da guerra israelense, insta ações locais e internacionais, incluindo mídia e organizações de direitos humanos, a pressionarem pelo fim dos assassinatos de jornalistas palestinos, bem como o julgamento dos criminosos de guerra e assassinos de jornalistas. O apelo do sindicato inclui a participação maciça em atividades programadas para o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos, em diversos locais, juntamente com vigílias organizadas por sindicatos árabes e internacionais sob a Federação Internacional de Jornalistas.












