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- O assassinato da jornalista palestina Shireen Abu Akleh
Jenin, Cisjordânia, 2022 Entre 2021 e maio de 2023, mais três jornalistas palestinos foram vítimas de assassinato sumários israelenses. Na manhã de 11 de maio de 2022, as forças de ocupação acuaram quatro jornalistas devidamente identificados. As imagens chocantes do cerco, mostram os soldados abrindo fogo contra jornalistas com munição real. No que chamou de Operação “Guardiã dos Muros”, no Campo de Refugiados de Jenin, ao norte da Cisjordânia ocupada, Shatha Hanaysha foi atingida nas costas, enquanto a jornalista palestino-americana Shireen Abu Akleh foi baleada diretamente na cabeça. Seus colegas não puderam prestar socorro devido à intensidade dos disparos que ficaram registradas na memória e vídeos dos jornalistas presentes. “Meus colegas e eu não estávamos longe dos soldados. Estávamos equipados com nossos capacetes e coletes de proteção. Eles abriram fogo e eu disse a todos que éramos os alvos. Eu virei para checar meus colegas e vi Shireen no chão e Shatha com um ferimento de bala. Tentei me proteger detrás de um muro e eles continuaram a disparar contra nós. Tentei ajudar Shireen, mas não consegui. Shatha também não conseguiu alcançá-la, apesar de estarem a centímetros de distância. A ocupação alvejou Shireen mesmo com seu capacete. Ela foi atingida abaixo da orelha. A ocupação queria nos matar, ao atingir de longe. Shireen caiu enquanto vestia um colete de imprensa e quem quer que tentasse ajudá-la seria alvejado. Foi um claro ataque a Shireen e todos nós profissionais de mídia”. Mujahed Al-Saad, jornalista testemunha, 2022. [41] Shireen Abu Akleh, correspondente da Al Jazeera, nasceu em Jerusalém em 1971, em uma família cristã. Ela iniciou sua carreira na Al Jazeera em 1997, apenas um ano após a fundação do canal. Ao longo dos anos, cobriu com coragem e dedicação os conflitos em Gaza nos anos de 2008, 2009, 2012, 2014 e 2021, além da guerra de 2006 no Líbano. Com seu comprometimento, Shireen se tornou a jornalista mais proeminente e respeitada da Palestina. [42] Durante a quinquagésima sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, realizada de 13 de junho a 8 de julho de 2022, foi divulgado um relatório de suma importância para responsabilizar os assassinos da jornalista. Esse relatório deixa claro que “o assassinato de Shireen Abu Akleh pelas forças israelenses constitui de forma inequívoca uma violação do direito internacional e um crime de guerra”, adicionalmente destacando que “violar esta norma representa uma séria infração das Convenções de Genebra e do Protocolo Adicional I”. [42] O ataque contra Shireen continuou mesmo após sua morte. Dois dias após o assassinato, o corpo da jornalista foi transferido do hospital St. Joseph para o local do seu funeral. Milhares de pessoas acompanharam o cortejo em um percurso que durou 45 minutos. O governo israelense reagiu fechando estradas e checkpoints, intensificando a presença policial e mobilizando um grande contingente de soldados como “medida de precaução”. Durante o velório, os militares israelenses não pouparam ações agressivas. Atacaram o carro fúnebre, quebrando suas janelas, e partiram para a violência contra os palestinos que carregavam o caixão. Cada vez que um palestino era derrubado ou agredido com cassetetes, socos e pontapés, outro palestino prontamente ocupava seu lugar; todos, determinados a evitar que a jornalista morta fosse violentada e humilhada mais uma vez pela ocupação. O caixão, contendo o corpo da jornalista, quase caiu, no entanto, a resistência do povo palestino prevaleceu. No decorrer da cena de selvageria, os soldados israelenses ignoraram a presença de centenas de fotógrafos, cinegrafistas e correspondentes de todo o mundo que registravam a violência. As imagens impactantes das forças israelenses atacando os enlutados provocaram reações e protestos internacionais. A agressão resultou em 33 pessoas feridas, incluindo quatro que necessitaram de hospitalização. Os militares visaram diretamente aqueles que carregavam o caixão. O Secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou estar “profundamente perturbado” com a violência. [42] Shireen foi assassinada apenas alguns dias depois que a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), o PJS e o Centro Internacional de Justiça para Palestinos (ICJP) apresentaram uma queixa formal em Haia contra Israel por “ataques sistemáticos a jornalistas palestinos”. O crime cometido contra Shireen teve uma repercussão internacional sem precedentes. Ao completar um ano do assassinato, especialistas da ONU emitiram um alerta, afirmando que a busca por justiça pela morte da jornalista foi negada. “As autoridades israelenses não podem mais fugir de suas responsabilidades” [43], declarou o Secretário-geral da organização Repórteres Sem Fronteira (RSF), Christophe Deloire. “É seu dever liderar e concluir uma investigação digna desse nome para trazer justiça a Shireen Abu Akleh. Chega de má vontade! Chega de desdém pela verdade quando jornalistas são mortos! Eles não podem mais se abrigar decentemente por trás de sua primeira investigação rápida quando sua responsabilidade está em jogo.” Christophe Deloire (RSF), 2023. [43] O direito à vida e à segurança é inerente a todo ser humano e deve ser respeitado de forma absoluta. Até o momento, destaquei os casos de Yasser Murtaja e Shireen Abu Akleh, cujas vidas foram roubadas, violando flagrantemente seu direito à vida e segurança. As violações contra os jornalistas, ou “emissores”, não se limitam apenas a casos extremos de morte. Nesta pesquisa, estou me referindo a qualquer ocasião em que o Estado cometa crimes diretos contra jornalistas com o objetivo de interromper, intimidar ou restringir o processo de comunicação. Dada a enorme proporção de casos em que as Forças de Ocupação de Israel miraram deliberadamente os jornalistas, buscando infligir o máximo de danos, apresento alguns dos casos: Em 19 de julho de 2019, o cinegrafista Sami Jamal Taleb Motran de 34 anos (canal Al-Aqsa), foi baleado e ferido por um disparo de bala de borracha no olho. Em 02 de agosto de 2019, o freelancer Osama Shareef Al-Kahlout, de 35 anos, foi baleado e ferido por munição real na perna esquerda. Ele cobria as manifestações da GMR à 200 metros de distância da linha verde. Em 20 de setembro de 2019, Abed Al-Rahman, de 23 anos, foi baleado por munição real na perna. O cinegrafista, que usava colete e capacete – com as inscrições PRESS – cobria a GMR à 300 metros. Abed passou por uma cirurgia para remover os estilhaços. Em 27 de setembro de 2019, a IOF abriu fogo contra Ramadan Ibrahim Al-Shareef, jornalista freelancer de 30 anos. A bala – munição real – se alojou no colete a prova de balas, qual, continha a inscrição “PRESS”. Em 25 de outubro de 2019, Mahmoud Khaled Khattab, de 26 anos, foi baleado por munição real no ombro esquerdo enquanto cobria os protestos da GMR. Em 02 de fevereiro de 2020, o jornalista Mashhour Hasan Al-Wahwah, de 37 anos, foi atingido por um disparo de bomba de gás lacrimogêneo no peito enquanto cobria manifestações em Hebron, Cisjordânia. O impacto causou asfixia e dores no peito. O jornalista usava colete a prova de balas – com a inscrição PRESS – mas não conseguiu continuar a cobertura. Os crimes mencionados destacam a violência desproporcional e o desrespeito pelo direito à vida e à liberdade de imprensa por parte das forças israelenses. A perseguição e o ataque a jornalistas representam uma clara violação dos princípios estabelecidos pelas leis internacionais que protegem a integridade física e a liberdade de expressão desses profissionais. Porém, como afirma publicamente o Knesset, isso tudo é apenas “limitação a soberania” do Estado.
- Lista de jornalistas assassinados por Israel desde 2000
Segundo o relatório A/HRC/50/NGO/114, divulgado em 2022 pela Assembleia Geral das Nações Unidas “Israel matou mais de 50 jornalistas desde 2000” [42]. Estes números variam conformes as pesquisas e organizações que acompanham os casos; segue abaixo alguns: 2000, Aziz Al-Tineh (agência Wafa) morto em explosão de origem desconhecida. [44] 2001, Muhammad Al-Bishawi (Najah Press Office) morto em bombardeio no Centro Palestino de Estudos e Mídia. [45] 2001, Othman Al-Qatanani (Agência de Notícias do Kuwait) morto em bombardeio ao Centro Palestino de Estudos e Mídia. [45] 2002, Issam Hamza Tillawi (rádio da Voz da Palestina) baleado na cabeça por atirador das IOF durante protesto contra o cerco à sede da Autoridade Nacional Palestina. [46] 2002, Imad Abu Zahra, jornalista (freelance) baleado. [47] 2002, Raffaele Ciriello (freelance) jornalista italiano baleado seis vezes no peito. [48] 2003, James Miller documentarista do País de Gales, baleado no pescoço. [49] 2003, Nazeh Darwazi (freelance) baleado na cabeça. [50] 2003, Rachel Corrie (ativista e jornalista dos EUA, morreu esmagada por escavadeira ao tentar impedir a demolição de uma casa. [51] 2003, Tom Hurndall (fotógrafo) do Reino Unido, baleado pelas IOF, entrou em coma por 9 meses antes de ser declarado morto. [52] 2004, Mohamed Abu Halima (correspondente de rádio e fotógrafo freelance) baleado no estômago. [53] 2004, Khalil Al-Zaben (jornalista e assessor do presidente Yasser Arafat) baleado por homens de origem desconhecida. [54] 2007, Suleiman Al-Ashi (editor e distribuidor do jornal diário da Palestina) espancado e baleado por homens armados. [55] 2008, Fadel Shana'a (cinegrafista da Reuters) morto por projétil durante massacre de Al-Bureij. [56] 2009, Basil Ibrahim Faraj (Palestine Media and Communication Company) morto por ataque aéreo israelense. [57] 2011, Vittorio Arrigoni (ativista e jornalista italiano) sequestrado e assassinado por grupo extremista em Gaza. [58] 2012, Mahmoud Al-Kumi (cinegrafistas da TV Al-Aqsa) morto em carro por ataque de míssil. [59] 2012, Hussam Salama (cinegrafistas da TV Al-Aqsa) morto em carro por ataque de míssil. [60] 2012, Mohammed Abu Eisha (funcionário da Rádio Educacional Al-Quds) morto em carro por ataque de míssil. [61] 2014, Simone Camilli (Associated Press) italiana, morta por bomba lançada em campo de futebol na Faixa de Gaza. [62] 2014, Ali Shehda Abu Afash (Associated Press) morto por bomba lançada pelas IOF em campo de futebol em Gaza. [63] 2014, Mohammed Daher (editor Al-Resalah) gravemente ferido por um ataque em sua casa, morreu 11 dias depois. [64] 2014, Mohammed Nour Al-Deiri (Rede Palestina Imprensa e Mídia) morto em bombardeio a um mercado em Gaza. [65] 2014, Rami Rayan (Rede para Palestina Imprensa e Mídia) morto em bombardeio israelense a um mercado em Gaza. [66] 2014, Sameh Al-Aryan (TV Al-Aqsa) morto em ataque israelense a um mercado em Gaza. [67] 2014, Ahed Zaqout (apresentador de televisão esportivo) morto enquanto dormia em ataque israelense contra seu prédio. [68] 2014, Khaled Hamad (cinegrafista) morto por bombardeio. [69] 2014, Hamid Shibab (motorista da Média 24) morto em seu carro por um ataque aéreo. [69] 2018, Ahmad Abu Hussein, fotógrafo baleado no abdômen. [70] 2018, Yaser Murtaja (freelancer) baleado no abdômen. [40] 2021, Yusef Abu Hussein (locutor) morto em sua casa por ataques de mísseis. [71] 2022, Ghufran Harun Warasneh (Dream Radio) baleada no peito a caminho do trabalho em Hebron. [72] 2022, Shireen Abu Akleh (Al Jazeera) baleada na cabeça. [73] Esta pesquisa identificou, por meio dos números registrados pelo PJS e outras organizações de direitos humanos internacionais, um total de 34 casos fatais. Esses números podem ser ainda maiores se considerarmos datas anteriores a 2000. Vale ressaltar que, quando a pesquisa foi adaptada para este livro, apenas nos 40 dias iniciais do cerco à Gaza (2023), Israel já havia batido o recorde de jornalistas mortos dos últimos vinte anos.
- Princípios e normas internacionais que protegem a liberdade de imprensa
No processo de comunicação, emissor é aquele que desempenha o papel de enviar as mensagens. Ele possui a responsabilidade de criar, organizar e enviar a mensagem de forma clara, objetiva e adequada ao contexto em que está inserido. No jornalismo, os emissores devem estar comprometidos com a verdade dos fatos, segundo Noam Chomsky, “a responsabilidade do escritor como um agente moral é tentar apresentar a verdade sobre assuntos de significância humana para um público que pode fazer alguma coisa a respeito. Isso é parte do que significa ser um agente moral em vez de um monstro” [74]. Seguindo a perspectiva de Noam Chomsky, reconhecemos que os jornalistas têm uma responsabilidade moral de fornecer informações precisas sobre assuntos de relevância humana, permitindo que o público tome ações concretas. No caso dos jornalistas palestinos, o desafio é sobreviver à discrepância entre a realidade que enfrentam no exercício da função e a expectativa idealizada de sua própria nacionalidade palestina, de maneira que o Estado de Israel os vê como combatentes inimigos. Segundo a Quarta Convenção de Genebra (1949), relativa ao tratamento de prisioneiros de guerra, compreende-se que todos os jornalistas são considerados parte integrante da sociedade civil, mesmo os presentes em áreas de conflito; portanto, devem ser protegidos com base no status de não combatentes. [31] “1. Os jornalistas que exerçam missões profissionais perigosas em zonas de conflito armado serão considerados civis na acepção do artigo 50.º, parágrafo1. 2. Eles serão protegidos como tal pelas Convenções e pelo presente Protocolo, desde que não tomem medidas que prejudiquem sua condição de civis, e sem prejuízo do direito dos correspondentes de guerra acreditados nas Forças Armadas ao status previsto no (Artigo 4. A) da Terceira Convenção.3. Podem obter um bilhete de identidade semelhante ao modelo constante do Anexo II do presente Protocolo. Este cartão, que será emitido pelo governo do Estado de que o jornalista seja nacional ou em cujo território resida ou em que o meio noticioso.” artigo 79.º do Protocolo I às Convenções de Genebra (ICRC, 1949). [31] Considerando o histórico de violência contra jornalistas palestinos desde 1948, é evidente que o Estado de Israel não está cumprindo as disposições estabelecidas na Convenção de Genebra. Infelizmente, observa-se um aumento significativo no número de jornalistas palestinos assassinados durante períodos de conflito entre civis palestinos e soldados israelenses, tais como a Segunda Intifada (2000-2005), a Operação Limite Protetor (2014), a Grande Marcha do Retorno (2018-2019) e eventos recentes a partir de 2020. Essas tragédias expõem a grave situação enfrentada pelos jornalistas palestinos em sua busca por relatar a verdade e documentar os eventos em sua comunidade sob ocupação. O governo israelense adotou uma postura seletiva na interpretação das Convenções e Protocolos estabelecidos pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Um exemplo claro ocorreu em 30 de março de 2018, quando dezenas de milhares de palestinos participaram da Grande Marcha do Retorno. Apesar da natureza pacífica, o governo israelense decidiu declarar a área como uma zona militar fechada. Com a prerrogativa de risco à segurança nacional, soldados e todas as armas de destruição foram enviados para violar os direitos humanos e acabar com as manifestações, matando e ferindo o máximo da dignidade e liberdade de pessoas, sem considerar, crianças, mulheres, socorristas ou jornalistas.[1] [1] A liberdade de manifestação é garantida pelo Artigo 20º da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
- O poder das opiniões e a influência do jornalismo na formação das ideias
Neste livro, as palavras “liberdade” e “opinião” são centrais para o significado do Artigo.19 da DUDH. Em nosso cotidiano, essas duas palavras são frequentes, mas raramente consideramos sua verdadeira profundidade e complexidade. Vamos focar exclusivamente em “opinião” neste trecho. Opinião é uma palavra com origem no latim “opinio” que se deriva do verbo “opinari” significando “pensar,” “julgar,” ou “opinar.” Essa palavra poderosa envolve a capacidade de expressar pontos de vista, avaliações, ou julgamentos individuais sobre as mais diversas áreas, como política, arte, religião, ciência e futebol. No entanto, as pessoas nem sempre formulam suas próprias opiniões, e essas opiniões nem sempre se baseiam em conhecimento. As “opiniões” são concebidas por uma série de influências, como educação, cultura, experiência e valores pessoais, ou, tristemente, a falta de todos eles. Embora possa parecer que uma opinião afeta apenas a vida de quem a detém, não é assim que funciona. Considere o seguinte cenário: durante uma pandemia, uma pessoa decide seguir a opinião de um presidente ignorante que afirma, sem conhecimento científico ou evidência, que um medicamento específico pode prevenir a doença no Brasil. Pessoas, ingenuamente ignorantes, adotaram a “opinião” daquele que as representa e começaram a usar um medicamento inadequado, deixando-as vulneráveis a sérios efeitos colaterais alertados por cientistas com conhecimentos verdadeiros. Nesse ponto, poderíamos afirmar que o dano afetaria apenas o indivíduo, mas não. O uso desenfreado desse medicamento levou à escassez onde ele realmente era necessário. Indígenas nas regiões norte e nordeste do país morreram por falta do medicamento que, na verdade, só era eficaz no combate à malária, uma doença praticamente erradicada no Brasil e que voltou com força total. Outra ocasião que afetou a coletividade foi que as mesmas pessoas que estocaram cloroquina decidiram que não precisavam se vacinar porque o mesmo presidente disse que a vacina poderia transformá-las em “jacaré”. Mesmo diante de evidências de milhares de cientistas em todo o mundo, uma manada resolveu colocar em risco toda a sociedade para provar que a alucinação coletiva estava certa. Por mais bizarro que pareça, isso ocorreu no Brasil. Claro, todos sabiam que uma vacina não tem a capacidade de transformar ninguém na Cuca de Monteiro Lobato. No entanto, pessoas sem conhecimento, guiadas por alguém com má fé, possivelmente ainda obtendo alguma vantagem financeira na produção do medicamento, interpretaram que as vacinas contra a Covid poderiam prejudicar sua saúde, especialmente se fossem produzidas por indústrias farmacêuticas da China “comunista” ou pelos xiitas iranianos. Essa sequência absurda de eventos fez com que o Brasil demorasse mais tempo para imunizar a população e frear os índices de contaminação no país, tudo por causa da opinião de um boçal que, no fim das contas, se vacinou e ainda fraudou a própria carteira de vacinação para dizer o contrário. Sabendo que formular opiniões sem conhecimento pode levar à eleição de líderes e influenciar o curso da história, o controle sobre as mensagens é de vital importância para qualquer forma de poder. A questão que surge, seja no Brasil, EUA, Israel ou qualquer outra parte do mundo é a mesma, como podemos determinar quais mensagens são importantes para formar nossas próprias opiniões? – É aí que entra o nosso protagonista desta história, o jornalista.
- A evolução dos códigos, dos símbolos aos algoritmos
No princípio, os seres humanos se comunicavam exclusivamente por meio da linguagem oral. Através da fala, era possível transmitir informações, compartilhar conhecimentos e expressar emoções. Com o tempo, as sociedades começaram a utilizar símbolos e desenhos para expressar todo tipo de ideias. Pinturas rupestres e hieróglifos são exemplos desses novos tipos de códigos, que permitiam registrar a história e transmitir conhecimentos mais detalhados para além dos membros da comunidade. As pinturas em cavernas se aperfeiçoaram; logo, animais com quatro patas foram substituídos pelo código complexo de quatro letras que formavam a palavra caça. Através da escrita, a comunicação ganhou novo alcance, mas, ainda assim, existiam certas restrições quanto àqueles que podiam ou não decifrar os seus códigos, já que o processo de reprodução era lento e seu conteúdo era basicamente burocrático ou de teor religioso, sob a responsabilidade dos monges copistas. No século XV, Gutenberg revolucionou a comunicação com a invenção da prensa, permitindo a disseminação mais rápida e ampla do conhecimento, facilitando a difusão de informação. No século XIX, a comunicação ganhou nova forma e começou a ser impulsionada por avanços tecnológicos, como a telegrafia e o telefone. Essas inovações permitiram codificar e transmitir mensagens para longas distâncias, encurtando ainda mais as fronteiras entre um ser humano e outro. O avanço da mídia impressa, como jornais e revistas, e a introdução de rádio e cinema ampliaram a comunicação não só entre pessoas; a partir dessa fase da história, passamos a nos comunicar em massa. Notícias e entretenimento estavam acessíveis pela primeira vez para a maioria das pessoas, que nessa fase se tornaram o que a indústria da comunicação chamou de audiência. As novas técnicas de comunicação logo foram reconhecidas como fontes de manipulação da opinião pública. Sem demora, aqueles que já controlavam os estados se apropriaram em larga escala dos novos meios de comunicação, tornando-se detentores supremos do poder. A revolução industrial já vinha ganhando terreno, alterando a geografia e a história dos centros urbanos. Porém, faltava ainda encontrar consumidores para absorver as mercadorias produzidas em larga escala pelas fábricas. Foram nos novos meios de comunicação desenvolvidos, como rádio, cinema, revistas e jornais, que a revolução industrial encontrou uma maneira de atingir esse objetivo, transformando cada indivíduo em um potencial consumidor. Porém, a nova estratégia de propaganda versus consumidor também encontrou um novo meio, passando a vender não só produtos, mas também ideias. Da mesma maneira que Henry Ford usava a propaganda para vender carros para os trabalhadores da linha de montagem da Ford Motor Company, Adolf Hitler usava a propaganda nazista para vender ideias chauvinistas para nacionalistas de toda a Europa. Então, chegamos à era digital. O surgimento da internet e das tecnologias digitais revolucionou as mensagens, os emissores, receptores, canais e principalmente os códigos da comunicação. O surgimento do correio eletrônico, das redes sociais, dos blogs e dos aplicativos de mensagens instantâneas permitiu aproximar pessoas de diferentes partes do mundo em milésimos de segundo. Após as eras fordista e toyotista, entramos na era digital da uberização, o que criou a ilusão de autonomia, levando-nos a acreditar que éramos senhores de nossos próprios pensamentos e vontades. Essas forças da comunicação não mudaram de mãos; continuaram a servir àqueles que tinham o poder, e eles aproveitaram para moldar os códigos em seu próprio benefício, colocando o oprimido em defesa de seu próprio opressor. [75] Na nossa era, os jornalistas representam a última barreira entre a sociedade e os detentores do poder. Aqueles que se comprometem com a proteção da democracia e a denúncia de diversos crimes de guerra recebem como prêmio um alvo colado nas costas.
- O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi
Istambul, Turquia, 2018 Jamal Khashoggi e sua noiva, Hatice Cengiz, entraram em um cartório em Istambul com a intenção de se casar. Eles se conheciam há pouco tempo, o que não fazia diferença, já que naquela manhã estavam decididos a se unir perante a lei. Dissidente da Arábia Saudita, Khashoggi foi orientado que não poderia formalizar o casamento até que providenciasse os documentos faltantes, que só poderiam ser requeridos no consulado saudita. No mesmo dia, o casal caminhou até o consulado e o noivo solicitou os documentos, mas o funcionário que o atendeu pediu que voltassem na semana seguinte. Colunista do The Washington Post, ele se tornou o correspondente árabe mais famoso, com quase dois milhões de seguidores nas redes sociais. Khashoggi ficou conhecido por se posicionar em defesa dos direitos humanos, colocando-o em atrito com as políticas do príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman, cujo regime já havia sido denunciado por organizações internacionais por práticas de pena de morte, tortura, tráfico de pessoas e punição corporal judicial, incluindo amputações e açoites[1]. Mohammed Bin Salman vinha realizando reformas no código constitucional e afrouxando as políticas sangrentas. O jornalista acreditava e publicava constantemente que essas ações não passavam de maquiagem para agradar os americanos e mascarar as mesmas políticas radicais, intolerantes e racistas de sempre. A religião e a política sempre estiveram nas pautas de Khashoggi. Como muçulmano, defendia que a Arábia Saudita deveria retomar a própria identidade religiosa como estado islâmico wahhabi[2]. Como progressista liberal, posicionou-se contra a prisão de Loujain al-Hathloul, acusada de “desestabilizar o governo” quando desafiava a proibição de mulheres dirigirem no país. Como profissional de imprensa, criticou as políticas internacionais pró-Israel do presidente americano Donald Trump, estendendo-as também para a comunidade internacional, por não se posicionar contra a demolição de casas palestinas para a construção de assentamentos ilegais. Em 2016, suas críticas tornaram-se um incômodo para o governo saudita, que o censurou e proibiu de participar de programas de televisão. O príncipe Salman acreditava que o trabalho do jornalista estava prejudicando a imagem do governo. Em uma conversa interceptada pelo serviço de inteligência estadunidense, o príncipe falou para um alto assessor que, se o jornalista não voltasse para a Arábia Saudita e parasse com suas acusações, ele o perseguiria “com uma bala”. Diante das ameaças, Khashoggi mudou-se para os Estados Unidos, onde passou a escrever como colunista para o The Washington Post. Em maio de 2018, Khashoggi viajou para a Turquia para participar de uma conferência. Lá, conheceu Hatice Cengiz, no mês seguinte, o casal aguardava os documentos do consulado saudita para prosseguir com o casamento. Hatice esperava no térreo, enquanto Khashoggi foi levado ao escritório do cônsul-geral no segundo andar. Naquela manhã, uma equipe de cinco homens sauditas chegou à Turquia com objetivos sombrios além dos papéis de casamento. Poucos minutos após ser visto entrando no consulado com sua noiva, Khashoggi foi atacado e morto. Os assassinos estavam cientes das câmeras de segurança, para evitar serem identificados, trouxeram um homem com um porte físico semelhante ao do jornalista. O dublê vestiu as roupas da vítima e deixou o local pela porta da frente, garantindo que seu rosto não fosse visível. Como não há crimes perfeitos, um erro foi notado pelos investigadores turcos, o dublê não usava os sapatos de Khashoggi. Hatice aguardava na recepção, enquanto um perito forense esquartejava o corpo do noivo, transportando os pedaços para a residência do cônsul saudita, simultaneamente, o chefe da missão ligava para a capital saudita anunciando “a ação está feita”. [1] Recentemente umas certas jóias que o príncipe “presenteou” o ex-presidente Jair Bossonaro, seguem sendo investigadas. [2] o wahabismo, surgiu no século XVIII na península arábica, enfatizando a adesão estrita às práticas e crenças originais do Islã. Com origens ligadas a Muhammad ibn Abd al-Wahhab e à família Al Saud na Arábia Saudita, o wahabismo influencia principalmente essa região, promovendo uma abordagem austera da religião e uma ênfase na purificação religiosa.
- Pegasus, um cavalo de tróia alado
Ahmed Mansoor, ativista internacional dos direitos humanos, recebeu uma mensagem de texto sugerindo um link com informações confidenciais sobre a tortura de presos nos Emirados Árabes Unidos. Mansoor enviou o link para análise no Citizen Lab. Os pesquisadores identificaram que o link continha um spyware desenvolvido pela empresa de segurança israelense NSO Group. O Pegasus é um software espião que invade aparelhos celulares para copiar dados pessoais e disponibilizá-los para quem estiver disposto em pagar mais. Como sugerido pelo desenvolvedor, é como um “cavalo de Tróia”. Uma vez que invade um celular, o programa permite ao cliente monitorar as ligações, acessar o histórico de navegação, rastrear a localização do aparelho em tempo real e baixar os dados pessoais, mesmo que criptografados. Ultrapassando os limites da privacidade, o spyware permite ao controlador ativar a câmera e o microfone de um aparelho, mesmo quando desligado. A organização Forbidden Stories, em colaboração com o Laboratório de Segurança da Anistia Internacional e outras 17 organizações de mídia em dez países diferentes, formou uma força-tarefa para investigar as consequências do spyware. A investigação resultou em uma lista de países que adquiriram o Pegasus, incluindo Bahrein, Togo, Emirados Árabes Unidos, Hungria, México, Índia, Ruanda, Azerbaijão e Cazaquistão, alguns com longos históricos de violação dos direitos humanos, como a Arábia Saudita, do príncipe Mohammed bin Salman. [76] Inicialmente, a NSO se reservou ao direito de não responder às acusações, mas as denúncias atingiram tais proporções que a empresa e seus diretores logo se viram obrigados a romper o silêncio. A NSO respondeu que o Pegasus só era vendido para agências de segurança e governos que passassem por avaliação primária do Estado de Israel, e que o software foi criado para ajudar agências governamentais a prevenir e investigar crimes como tráfico de drogas e pessoas, redes de pedofilia e principalmente a salvar milhares de vidas contra o terrorismo. A força-tarefa montada para investigar as ações e consequências do Pegasus identificou mais de 50 mil smartphones infectados em 45 países diferentes. Dentre os nomes mais conhecidos estavam Imran Khan, Cyril Ramaphosa, Pedro Sánchez e Emmanuel Macron, respectivos chefes de estado do Paquistão, África do Sul, Espanha e França. Entre outros estavam executivos financeiros, líderes religiosos, acadêmicos, ativistas pelos direitos humanos, sindicalistas, funcionários públicos, advogados e parentes de chefes de Estado. Além dos líderes de estado, a Forbidden Stories também destacou outra característica intrigante dos compradores da NSO. A organização identificou mais de 180 alvos classificados como “terroristas”, que estavam sendo monitorados pelo spyware. Os terroristas internacionais operavam em células do The New York Times, Bloomberg, Le Monde, El País, Wall Street Journal, Al Jazeera, France 24, Radio Free Europe, Mediapart, Associated Press, Agence France-Presse, The Economist, Reuters, The Wire e Voice of America. Entre os indivíduos sob vigilância, estava Khashoggi, o jornalista esquartejado no consulado saudita. Hanan Elatr, primeira-esposa do jornalista, entregou dois celulares para análise. Os analistas descobriram que o spyware foi implantado no aparelho manualmente, provavelmente enquanto ela estava detida por autoridades dos Emirados Árabes Unidos, no aeroporto de Dubai. Eles observaram também que o interesse do cliente estava nas conversas entre Hanan e Khashoggi. A NSO e o governo dos Emirados Árabes negaram o interesse no jornalista e sua esposa, afirmando que a acusação era uma tentativa de desacreditar a empresa por motivos falsos. [77] Mesmo comprovando a infecção de dois aparelhos de Hanan, a Forbidden Stories não pôde comprovar que a infecção tinha como alvo o opositor ao regime saudita, mesmo o país estando na lista de compradores do spyware. Em entrevista concedida para a mídia de comunicação israelense, Yedioth Ahronoth, o CEO da NSO Group afirmou que a empresa conduziu uma investigação abrangente entre todos os seus clientes, e constatou que Khashoggi “não foi alvo de nenhum produto ou tecnologia da NSO, incluindo escuta, monitoramento, rastreamento de localização e coleta de dados” [78]. Embora o jornalista possa não ter sido diretamente monitorado, a empresa não explicou como a esposa, os filhos e outros jornalistas com os quais Khashoggi tinha relações próximas acabaram na lista de alvos rastreados. Mesmo após o assassinato, a noiva que aguardava Khashoggi no consulado e o promotor turco encarregado da investigação também tiveram seus celulares alvo do Pegasus. Quando questionado se o Pegasus foi vendido para a Arábia Saudita, a resposta do CEO foi que “Não comentamos nenhuma questão sobre clientes específicos. Não vamos confirmar nem desmentir”. Em poucos anos, a exportação de tecnologia de espionagem israelense se espalhou por diversos países ao redor do mundo, trazendo consigo consequências imensuráveis que provavelmente teremos que lidar por mais alguns anos. No México, onde foi registrado o maior número de smartphones infectados pelo Pegasus, mais de quinze mil números foram identificados, incluindo o do jornalista Cecilio Pineda, que divulgou um relatório denunciando envolvimento do Governador e elementos da polícia estadual em atividades ilegais. Posteriormente, ele foi assassinado após seu número aparecer na lista de dispositivos infectados pelo Pegasus; seu celular desapareceu da cena do crime. [79] Outros 26 jornalistas mexicanos também foram encontrados na lista de alvos do spyware da empresa de Israel. Xavier Olea, Procurador-geral do estado de Guerrero, relatou em uma entrevista que recebeu a visita de um empresário mexicano acompanhado de um israelense, oferecendo o spyware. Durante a demonstração do produto, o israelense conseguiu hackear o celular da esposa do procurador em questão de minutos. Na época, o estado não possuía os recursos financeiros necessários para adquirir o produto oferecido, mas dois anos depois, o governo mexicano comprou o programa. A NSO admitiu ter vendido vários de seus produtos para o México, incluindo o Pegasus, com o propósito de auxiliar o governo na luta contra os cartéis de drogas. Essas ferramentas, contudo, foram empregadas para monitorar jornalistas e qualquer indivíduo que criticasse o governo. Segundo o Citizen Lab, no México, o spyware foi usado contra 24 alvos associados à oposição do governo. É possível que o Pegasus também tenha sido utilizado para tentar influenciar as eleições e impedir que Manuel López Obrador se tornasse presidente, visto que a lista de infectados incluía familiares e colaboradores próximos, como o gerente de campanha do candidato favorito da esquerda mexicana. As autoridades mexicanas não responderam às acusações da Forbidden Stories, e embora a NSO não tenha respondido às perguntas da organização, afirmou que “continuará a investigar todas as alegações críveis de uso indevido e tomará as medidas adequadas com base nos resultados dessas investigações”. Desde que o caso Project Pegasus se tornou público, houve manifestações em várias partes do mundo, e o governo dos EUA impôs sanções à empresa israelense. Em 2022, o Reino do Marrocos processou o jornalista espanhol Ignacio Cembrero por publicar uma matéria denunciando o governo pelo uso do Pegasus para espionar ele e outros jornalistas. No processo, o Marrocos alegou não ter utilizado o software contra o jornalista e argumentou que a matéria prejudicou a imagem pública do reino. Edward Snowden[1] se manifestou, afirmando que se a empresa israelense é capaz de hackear um iPhone, ela também é capaz de fazer o mesmo com qualquer outro dispositivo. Snowden explicou em uma entrevista que é difícil afirmar com precisão se o Pegasus foi usado contra o jornalista saudita, mas alguém tão experiente como Khashoggi não seria facilmente infectado por um spyware. Portanto, alvos próximos foram provavelmente escolhidos para atingi-lo. Snowden acrescentou que, quando trabalhava na Agência de Segurança Nacional (NSA) do governo estadunidense, era comum dizer que “uma vez é coincidência, duas vezes é coincidência, três vezes é ação inimiga”. No caso de Khashoggi, parece ser um padrão familiar: um governo descontente e fora de controle procurando informações sobre críticos, utilizando poderes que supostamente seriam usados apenas contra os terroristas. Conforme o artigo 17 da DUDH, cada estado tem a obrigação de proteger os direitos à privacidade e intimidade de seus cidadãos. Israel, adota uma postura oposta ao permitir que empresas privadas desenvolvam sistemas que violam esses direitos. O Pegasus, ao contrário do que é propagandeado, não está sendo usado contra traficantes, pedófilos ou terroristas, ele está sendo direcionado contra uma população civil. Essa ferramenta de violação de direitos humanos está sendo empregada contra líderes políticos, advogados, acadêmicos e jornalistas que lutam para responsabilizar os governos por suas violações. O Estado de Israel, como disse o proprietário da empresa dona do software espião, é responsável por autorizar a venda do Pegasus para governos autoritários com históricos conhecidos de desrespeito aos direitos humanos, incluindo privacidade e intimidade. [1] Edward Joseph Snowden é um analista de sistemas, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA que tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA americana.
- Um espião transparente e responsável de Israel
A pressão internacional fez com que a NSO Group divulgasse em 2021 seu primeiro relatório de transparência e responsabilidade. Com 32 páginas, a NSO alegou a eficácia e ética de seus produtos, reforçando que todos os clientes da empresa estão alinhados ao compromisso com a segurança e proteção pública. Outro detalhe notável no relatório é que a NSO utilizou catástrofes no Brasil, Nepal e México para justificar a utilização de seus produtos de espionagem. “Nosso objetivo é ajudar os estados a proteger seus cidadãos e salvar vidas. Nossos produtos de busca e resgate de ponta ajudam os socorristas a determinar rapidamente quem está desaparecido e localizar esses indivíduos, e ajudaram a salvar vidas em várias situações catastróficas, incluindo o colapso da barragem do Brasil em 2019, o terremoto do Nepal em 2015, o terremoto do México em 2017 e o estacionamento de Tel Aviv que desabou em 2016. Nossas ferramentas de análise de dados auxiliam as autoridades a processar grandes quantidades de informações e identificar padrões que permitem a rápida identificação de suspeitos.” NSO Group, 2021 [80] De fato, o rompimento da barragem de Brumadinho foi um dos piores desastres da história brasileira. Em cooperação com o governo de Jair Bolsonaro, o Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu coordenou o envio de uma delegação composta por soldados, oficiais, engenheiros, médicos e especialistas da marinha israelense para oferecer assistência no resgate. Ao todo, foram mobilizados 136 profissionais e mais de 16 toneladas de equipamentos de alta tecnologia com o objetivo de auxiliar na localização, busca e resgate de sobreviventes. Os recursos incluíam também os softwares da NSO Group, usados na operação de busca. A equipe de resgate de Israel encerrou suas atividades junto aos bombeiros brasileiros depois de quatro dias [81]. Apesar dos esforços conjuntos, não foi possível encontrar nenhuma vítima ou sobrevivente, o que difere das informações apresentadas no relatório de transparência da NSO. Na época, o tenente-coronel Eduardo Ângelo, líder das operações de resgate, enfatizou que os tais equipamentos de origem israelense utilizados em Brumadinho “não são efetivos para esse tipo de desastre” [82]. Jornalistas e analistas políticos brasileiros sugeriram que havia “segundas intenções” para Israel ter enviado “ajuda”, principalmente em questões envolvendo tecnologia, urnas eletrônicas e um presidente golpista. Embora a afirmativa, até o momento, não tenha sido confirmada, nossa catástrofe e nossos mortos serviram para a empresa de espionagem israelense mudar o código da comunicação a seu favor e estampar a sua mensagem em folhetos de venda. “O suposto comprometimento da NSO com os direitos humanos parece ser mais uma estratégia de relações-públicas do que uma verdadeira tentativa de mudança de direção. Seu recente relatório de transparência parece mais um folheto de marketing.” ... “Se a NSO está realmente empenhada em promover reformas, por que continua a atacar a sociedade civil e a tentar nos silenciar nos tribunais?” Danna Ingleton, Diretora da Amnistia Tech. [83] Equiparar o relatório da NSO a um panfleto de vendas, não foi nem de longe um equívoco cometido por Danna Ingleton. O documento de transparência e responsabilidade fez uso da expressão “terrorismo” em 36 ocasiões, incluindo o título, e utilizou a palavra “transparência” 17 vezes. O que sugere que o foco do relatório está mais direcionado a fazer acusações de terrorismo do que discutir a transparência de suas vendas e operações. Também não podemos ignorar que o governo israelense e vários de seus políticos rotularam organizações como Médicos Sem Fronteiras, Anistia Internacional, Humans Right Watch, a Defense for Children Palestine e até mesmo a Organização Mundial de Saúde como organizações terroristas. Uma reviravolta no caso de uso de softwares espiões israelenses no Brasil, fez o autor a acrescentar algumas informações durante a edição deste livro. Em outubro de 2023, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento de cinco servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) incluindo a prisão de dois deles, como parte de uma investigação sobre o uso de um programa de monitoramento de celulares utilizado pela agência. A Polícia Federal realizou 25 mandados de busca e apreensão e ouviu depoimentos de 20 servidores. De acordo com a Polícia Federal, a Abin usou o “First Mile” em mais de 30 mil ocasiões e posteriormente deletou as informações. Desse montante, os investigadores detalharam 1.800 usos relacionados a políticos, jornalistas, advogados e opositores do governo. O Spyware possibilitava identificar a “localização da área aproximada de aparelhos que utilizam as redes 2, G e 4G” [84]. A Abin comprou o software de rastreamento desenvolvido pela empresa israelense Cognyte, adquirida por R$ 5,7 milhões em 2018 e usada durante o governo Bolsonaro até meados de 2021. A agência assinou contratos de R$ 34 milhões sem licitação entre 2019 e 2022, sendo R$ 31 milhões sob sigilo. O programa foi operado pela Abin sob justificativa de “segurança de Estado”, uma desculpa nenhum pouco original. A polícia também investiga o uso do spyware para o monitoramento de membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se a NSO decidiu brincar de esconde-esconde, mudando seu nome para Cognyte e o programa espião “Pegasus” para “First Mile” não podemos afirmar, mesmo que ambos funcionem pelo mesmo modus operandi e têm os mesmos alvos na mira. Isso nos deixa com uma preocupação extra. – Será que existe mais de uma empresa israelense oferecendo esse tipo de serviço? Quem sabe até mais de uma delas espionando os brasileiros? É como se estivéssemos assistindo a um thriller de péssimo gosto, do qual somos os próprios protagonistas. O caso de espionagem da Abin e seu envolvimento com as empresas espiãs de Israel, seguem sendo investigadas pelo Ministério Público, conhecendo um pouco desse tipo de operação israelense, me arrisco a dizer que em breve teremos algumas notícias chocantes.
- Facebook e a censura seletiva: violações e manipulação na supressão de vozes palestinas
Feito uma breve explicação dos termos, voltemos as violações contra o “Código”. No ano de 2022, o Facebook, da empresa Meta Platforms Inc, foi o meio de comunicação social que mais registrou práticas repressivas contra profissionais e mídias palestinas [6]; houve casos de censura, restrição e exclusão de contas de jornalistas e outros usuários que reportaram os crimes da ocupação. A justificativa para censura foi a mesma em todos os casos: o combate ao “discurso de ódio”. No ano referente, o conteúdo com maior rejeição pelo Facebook e também Whatsapp, foram as publicações sobre a execução do combatente da resistência Ibrahim Nablusi. Morto aos 18 anos, Nablusi foi tipificado como terrorista enquanto lutava por sua emancipação, uma abordagem que só é utilizada quando convém aos censores. Defensores dos direitos humanos e internautas engajaram-se em um debate acalorado nas redes sociais, questionando o direito dos palestinos à autodefesa, um direito equiparado ao dos ucranianos em face da invasão russa. Mas há uma diferença substancial que precisa ser levada em consideração ao se tratar a relação entre os dois casos que ocorreram simultaneamente. Enquanto os ucranianos que se defenderam foram elogiados como patriotas e até heróis, aqueles palestinos que resistem à ocupação sionista são frequentemente rotulados como terroristas. [89] Legalmente, as leis internacionais estipulam que tanto os ucranianos quanto os palestinos têm o direito de se defender armados contra a agressão de outro estado; isso se aplica a todas as nações. De acordo com a Carta das Nações Unidas, os Estados têm o direito inerente à legítima defesa individual ou coletiva se um ataque armado ocorrer contra eles. O Artigo 51 da Carta da ONU estabelece o direito à legítima defesa: “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa, individual ou coletiva, no caso de ocorrer um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado medidas necessárias para manter a paz e a segurança internacionais.” Dessa forma, o mesmo direito que Israel tem de se defender de outros estados, os palestinos também possuem, mesmo que estejam armados. Mesmo com respaldo internacional ao direito à legítima defesa reconhecido, a META optou por manter as postagens ucranianas e censurar as postagens palestinas, sob justificativa de apologia ao terrorismo e propagação de discurso de ódio. Uma investigação conduzida pela empresa de consultoria Business for Social Responsibility constatou que os procedimentos da META tiveram impacto negativo e significativo nos direitos dos palestinos de se expressarem livremente, bem como em seus direitos à assembleia, à participação política e à não discriminação, comprometendo, portanto, seu direito de partilhar informações e ideias. A META, que possui a WhatsApp Inc como uma de suas subsidiárias, estabeleceu sua primeira sede nos territórios ocupados em 2012. Nesse mesmo período, também adquiriu diversas startups israelenses, incluindo a Snap Two e a Facecom, em um negócio estimado entre US$ 120-130 milhões. Estimativas indicam que a publicidade direcionada ao mercado israelense gera uma receita anual de aproximadamente 300 milhões de dólares, o que mais que duplica o investimento inicial. Enquanto o mercado israelense demonstra um grande potencial, o mercado palestino não tem qualquer relevância financeira para a empresa; assim fica fácil compreender a intenção em proteger o seu mercado. Apesar de os israelenses terem prioridade na promoção de conteúdo, a ênfase está na remoção de conteúdo palestino. Em 2017, o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), um grupo de lobby pró-Israel – com histórico de difamação contra organizações em defesa dos direitos humanos –, estabeleceu um centro de comando no Vale do Silício. Seu objetivo era monitorar as publicações em defesa do direito palestino. A AIPAC iniciou uma campanha massiva contra todo conteúdo digital pró-Palestina, afirmando serem ataques antissemitas e discurso de ódio online. No mesmo ano, o YouTube o designou a AIPAC como uma “organização confiável de denúncias”, dessa maneira, o lobby monopolizou os pedidos de remoção de conteúdo online. A conspiração nas mídias sociais contra o conteúdo palestino em 2022 ultrapassou 1.200 violações, afetando diversas plataformas, como Facebook, YouTube, Instagram, Twitter, WhatsApp, Tik Tok e Zoom. No entanto, outro método de violação ao código tem causado impactos ainda mais devastadores. Em 2017, foi lançado o aplicativo chamado ACT.IL, com o propósito de mobilizar apoiadores pró-Israel. A estratégia por trás era invadir e desativar sites críticos a Israel ou que apoiavam a causa palestina. A iniciativa, apoiada pelo Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel, foi desenvolvida por ex-oficiais de inteligência israelenses. Sima Vaknin Gil, ex-censor israelense que posteriormente assumiu posição no Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel, explicou que o objetivo era “construir uma comunidade de ativistas com a missão de inundar a Internet com propaganda pró-israelense. Segundo The Forward, uma revista judaica semanal dos Estados Unidos, o ACT.IL demonstrou logo após seu lançamento a habilidade de moldar as discussões online sobre Israel de maneira aparentemente independente. “A mídia e sua narrativa são apoiadas e propagadas pelos Estados Unidos e mídias ocidentais. E essa narrativa chega ao Brasil também, desde sempre. Nós vimos os esforços midiáticos e diplomáticos dos EUA em 1948 para persuadir Osvaldo Aranha, que era o Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas a levar os países do mundo a votarem a favor da criação do Estado de Israel. Assim como vimos como Netanyahu, que promoveu o apoio à eleição de Bolsonaro, um amigo de Israel, na eleição e presidente e na tentativa fracassada de reeleição. Além disso, manifestações em favor da Palestina nas redes são alvo de ataques sionistas, como podemos lembrar do caso do ex-parlamentar Milton Temer, processado por criticar Israel.” Ahmad Alzoubi, Diretor do Monitor do Oriente, 2023. [90] A influência da internet como uma ferramenta pró-Israel e contra a emancipação do povo palestino não se limita apenas à censura praticada contra jornalistas palestinos; ela é uma prática comum em todo o Ocidente. Durante o primeiro genocídio televisionado em Gaza em 2023, os internautas se envolveram em uma guerra cibernética para expor e denunciar os crimes de extermínio do povo palestino. Muitas contas foram banidas das redes sociais, e conteúdos foram removidos. Ao mesmo tempo, a grande Indústria da Desinformação perpetuava incessantemente uma série de discursos absurdos sobre o assunto.
- Derrubando os ninhos de pássaros palestinos
Conhecidos como instituições de imprensa, ou mídia, os “canais” são os meios pelos quais as mensagens ou notícias são entregues aos receptores; a eles cabe a garantia da disseminação do conhecimento e da informação. Sem os atuais canais de mídia que conhecemos e usamos diariamente, estaríamos fadados a retornar aos métodos tradicionais do passado. Os textos seriam novamente escritos por monges copistas, em um processo demorado e restrito a poucos privilegiados. A transmissão das histórias dependeria exclusivamente da tradição oral, com o risco de perda de informações importantes ao longo do tempo. E a comunicação não verbal voltaria a ser limitada às pinturas em cavernas, incapazes de alcançar um público amplo e diversificado. Somente com um sistema de mídia plural, independente e comprometido com a verdade, poderemos garantir que a liberdade de informação cumpra seu papel essencial na promoção da democracia e na defesa dos direitos humanos. Neste capítulo, cabe compreender que ataques, mesmo quando lançados contra instalações físicas, são agressões contra a liberdade de opinião e expressão de toda população, podendo ser interpretadas como punição coletiva. A esse efeito, é preciso trazer à luz o art. 48 do Protocolo Adicional I, da Convenção de Genebra, na qual determina que instituições de imprensa são bens civis e não devem ser consideradas alvos ou parte do conflito. A fim de assegurar o respeito e a proteção da população civil e dos bens civis, as Partes em conflito devem sempre distinguir entre a população civil e os combatentes e entre os bens civis e os objetivos militares e, portanto, devem dirigir suas operações apenas contra objetivos militares. Convenção de Genebra [91] Seguindo na Convenção de Genebra, lemos um pouco mais adiante, no artigo 52 do Protocolo Adicional I, sobre proteção geral dos bens de caráter civil: 1.Os bens de caráter civil não serão objeto de ataques nem de represália. São bens de caráter civil todos os bens que não são objetivos militares como definido no parágrafo (2.) 2. Os ataques limitar-se-ão estritamente aos objetivos militares. No que concerne aos bens, os objetivos militares se limitam aqueles objetos que por sua natureza, localização, finalidade ou utilização contribuam eficazmente para a ação militar ou cuja destruição total ou parcial, captura ou neutralização, ofereça nas circunstâncias do caso presente uma vantagem militar definida. 3. Em caso de dúvida a respeito de um bem que normalmente se presta a fins civis, tal como um lugar de culto, uma casa ou outra moradia, ou uma escola, estar sendo utilizado para contribuir eficazmente para ação militar, será presumido que não está sendo utilizado com tal propósito. Convenção de Genebra. [91] A impunidade para com os crimes cometidos pelos soldados sob ordens dos três poderes israelense, mesmo em casos considerados pela lei internacional como crimes de guerra, fez com que a violência contra escritórios de agências de mídia e as residências de jornalistas palestinos tivessem um aumento significativo nos últimos anos. Em 20 de novembro de 2019, as IOF invadiram um edifício na Jerusalém Oriental ocupada que abrigava os escritórios da Al-Arz Tv Productions e do Canal de Satélite da Palestina. Durante a incursão, o jornalista Ayman Abu Al-Romouz foi preso. Os soldados israelenses confiscaram pastas com arquivos pessoais, documentos e computadores da agência. De maneira injustificada, o Ministro de Segurança Interna, Gilad Erdan, decretou o fechamento da agência por 6 meses [9]. No ano seguinte, o Primeiro-ministro Netanyahu nomeou Erdan como embaixador de Israel na ONU e embaixador de Israel nos Estados Unidos; ao longo do cerco à Gaza, fica perceptível o protagonismo e compromisso de Erdan com o extermínio de todo povo palestino. Os direitos civis, políticos e de liberdade de associação das pessoas são frequentemente violados quando ocorrem ações contra agências de notícias. Cada ataque à mídia prejudica tanto o direito à informação quanto a liberdade de informação, mesmo que a repressão seja direcionada contra instituições físicas e não necessariamente contra indivíduos. Netanyahu e Erdan não teriam conseguido autorizar essas violações se não fossem respaldados pela Lei de Combate ao Terrorismo 5776 de 2016, que foi alvo de críticas, considerando-a ilegal em comparação com outras leis internacionais. Uma de suas disposições permite que o Ministro da Defesa designe qualquer associação como “organização terrorista”. As definições fornecidas pela lei são excessivamente amplas e vagas, podendo abranger organizações e atividades legais. “Tais definições amplas resultaram em uma política de execução arbitrária e discriminatória.” [92] “A Lei expande a gama de ofensas percebidas como terrorismo e inclui ofensas relacionadas à expressão explícita (por exemplo, §24). Isso viola o direito constitucional à liberdade de expressão e é usado para amordaçar a expressão política legítima. A Lei também diminui os processos judiciais relacionados, de modo que violem o direito fundamental ao devido processo – Incluindo o uso de provas secretas – e prevê penalidades desproporcionalmente severas para crimes de segurança definidos na Lei.” Adalah. [93] Amparado pela lei de combate ao terrorismo, o Estado continuou a empregar violações arbitrárias nos anos seguintes. Em 4 de maio de 2019, durante a escalada militar na Faixa de Gaza, aviões israelenses despejaram 7 mísseis contra um prédio de 6 andares que continha instalações da Agência Al-Anadol. No ano seguinte, outros três bombardeios de escritórios de mídia palestinas foram registrados na Faixa de Gaza. [9] Em 2022, o número de agressões saltou para 28 ocorrências, o que mais chamou a atenção foi o bombardeio a um prédio de 13 andares que abrigava escritórios da empresa americana Associated Press e da catari Al Jazzera [94] ocorridos durante os 12 dias consecutivos de bombardeio contra Gaza. Wael Al-Dahdouh, chefe do escritório da Al Jazeera em Gaza, um telefonema do Ministério da Defesa de Israel, alertou quanto ao bombardeio, dando um prazo de dez minutos para evacuação completa do prédio. “Dê-nos dez minutos extras”, pediu o proprietário do prédio, mas a voz do outro lado da linha se recusou a prorrogar o limite estipulado [94]. Na evacuação, os jornalistas recolheram o máximo de equipamento possível para poder manter o trabalho. Ao término do prazo concedido, os aviões bombardearam o prédio que desmoronou imediatamente. O ataque foi transmitido ao vivo por ambos os canais, AP e Al Jazeera. Em comunicado oficial, as agências condenaram o ataque e acusaram o governo israelense de um crime que visava unicamente impedir os jornalistas de cumprirem seu dever de informar o mundo e relatar as incursões militares contra a população civil não combatente na Faixa de Gaza. Na mesma noite, em um pronunciamento ao vivo, Netanyahu justificou aos telespectadores que o ataque visava atingir o Hamas, que usava o prédio como base operacional e a imprensa internacional como escudo humano – uma desculpa nem um pouco original. Gary Pruitt, Ceo da Associated Press refutou a acusação. “Posso dizer que estivemos ‘Associated Press’ naquele prédio por cerca de 15 anos e não tínhamos ideia de que o Hamas operava no prédio. Gostaríamos de ver as evidências para ter certeza se o Hamas estava lá ou não.”Gary Pruitt, Associated Press, 2022. [95] A direção do Hamas comunicou que não havia qualquer militante ou mesmo residente do grupo no prédio bombardeado. De fato, após o bombardeio, os jornalistas vasculharam os escombros com ajuda da comunidade local em busca de recuperar o máximo de equipamento possível. Não encontraram qualquer evidência da presença do grupo de resistência palestino. Ao contrário do argumento utilizado por Netanyahu, o edifício que foi alvo de bombardeio não abrigava uma ala militar de nenhum grupo de resistência por trás dos escritórios de imprensa. Em vez disso, abrigava dezenas de famílias palestinas. O relatório da Agência das Nações Unidas (UNRWA), cita durante o período anterior de bombardeios em Gaza que, conhecido como a Operação Margem Protetora, cerca de 15 mil residências sofreram algum grau de danos, sendo que duas mil foram completamente destruídas ou sofreram danos severos. Nesse período, 461 casas, 94 edifícios, 58 escolas, quatro hospitais e 19 instalações médicas foram totais, ou parcialmente destruídos devido aos ataques israelenses, resultando no deslocamento forçado de mais de 113.000 palestinos. No total, 256 palestinos, incluindo 66 crianças, morreram durante as hostilidades. Quase 2.000 palestinos ficaram feridos, dos quais mais de 600 eram crianças e 400 eram mulheres, algumas das quais sofreram ferimentos graves e deficiências a longo prazo, exigindo reabilitação. No mesmo período, houve 13 mortes em Israel, incluindo duas crianças. [96]
- A Lei de Israel trata instituições de mídia (bens da sociedade) como organizações terroristas
A violação contra os canais de mídia, ao contrário de outras violações, envolve todos os poderes do Estado de Israel. Nesse contexto, soldados dispararam balas, pilotos lançaram mísseis e agentes de inteligência fecharam agências de notícias, tudo isso sob a autorização do Primeiro-ministro ou do Ministro da Defesa. Eles se baseiam na Emenda nº 5 da Lei de Manutenção da Segurança Pública, aprovada pelo Knesset em 2016, que ampliou os poderes dos agentes de segurança do Estado. Apoiado pela Lei de Contraterrorismo e pela Lei de Manutenção da Segurança Pública, o Estado de Israel continuou sua política de agressão contra a imprensa em 2022. Soldados confiscaram equipamentos e veículos de agências, prenderam e agrediram jornalistas, e destruíram torres de transmissão. Além disso, persistiram em invadir e fechar agências de notícias, indo além ao declarar organizações de defesa dos Direitos Humanos, como a Defense for Children International Palestine (DCIP), Palestinian Centre for Human Rights (PCHR) e Addameer, como organizações terroristas. O objetivo de declarar agências de notícias ou outras organizações como terroristas é impedir a continuidade do trabalho e impossibilitar que recebam financiamento internacional. A Lei de Financiamento e Transparência para ONGs, em vigor desde 2017, tem como objetivo marcar, assediar e incitar organizações de direitos humanos que expressam um ponto de vista crítico em relação às políticas do governo, especialmente aquelas que discriminam ou prejudicam os palestinos. [97] A função dos canais de mídia na sociedade é manter a população informada, fomentar o debate público e exercer o papel de fiscalização e denúncia em relação aos detentores de poder, sejam eles estatais ou não, desempenhando a missão de disseminar a verdade e promover a diversidade de informações. Na prática, a maioria desses canais é composta por instituições de natureza privada e ainda alguma com concessões estatais, o que implica em influências e interesses específicos, sejam eles privados ou estatais. Essa realidade suscita questionamentos quanto à possibilidade de manter uma total imparcialidade na divulgação das informações. Seria ingênuo acreditar que instituições tão poderosas, capazes de influenciar a opinião pública e até mesmo determinar os resultados de eleições, possam operar de maneira neutra. A mídia, como qualquer outra empresa, possui seus próprios interesses corporativos, sendo improvável que divulgue notícias que possam prejudicar seus investidores. Essa realidade, a imparcialidade se torna um desafio complexo. Tratando da imparcialidade, devo dizer que não existem jornalistas verdadeiramente imparciais. Como seres humanos que fazem parte do contexto que estão cobrindo, cada jornalista traz consigo seus próprios valores e princípios morais, os quais naturalmente influenciam a maneira como codificam e emitem as mensagens. Mesmo que jornalistas imparciais fossem uma realidade, eles ainda dependeriam de veículos de comunicação que possuem suas próprias inclinações. Se a imparcialidade de um jornalista entrar em conflito com os interesses da instituição que o emprega, não há dúvida de que essa instituição optará por contratar um mensageiro que concorde em cruzar qualquer campo de batalha com uma sacola de mensagens sem fazer muitas perguntas. Não estou afirmando que a imprensa ou os jornalistas sejam imorais, embora em muitos casos isso aconteça de forma descarada, o que estou destacando é que o conceito de imparcialidade, embora pareça ético, é, na verdade, um ideal inatingível. Sendo inacessível, o foco não deve ser avaliar a imparcialidade de um canal ou de um emissor, mas sim os princípios éticos e morais que orientam a prática jornalística. A crítica em questão não se concentra na inclinação partidária por parte das mídias, seja vinculada às ideologias de esquerda ou direita. Pelo contrário, reconhece que essa diversidade é saudável e enriquece o debate democrático. O cerne da crítica volta-se para o fato de que os principais meios de comunicação estão nas mãos de detentores do poder, ou seja, agentes internos mais preocupados com indicadores financeiros do que com as necessidades das camadas populares e desfavorecidas, que são ocasionalmente usados de vez em quando de forma melancólica nos telejornais. Outra perspectiva para ser considerada é que os canais de mídia, principalmente aqueles com conceções do governo, estão sujeitos a pressões externas, como interesses políticos, econômicos e corporativos. Ao mesmo tempo, mídias que atendem as demandas populares são geralmente independentes e com recursos limitados. Essa concentração cria um ambiente propício para a manipulação da informação e a imposição de uma agenda política e ideológica específica. Quando um reduzido grupo de entidades controla a maioria dos canais de mídia, ou, pelo menos, os de maior alcance, existe o risco de que a diversidade de opiniões e perspectivas seja suprimida. Para as mídias que priorizam interesses financeiros em detrimento dos princípios éticos, o risco é ainda maior, pois seu foco se concentra unicamente na busca por interações, onde as pessoas são reduzidas a índices de audiência e os likes se convertem em cifrões. Quando o único objetivo é acumular capital, essas mídias entram em uma arena de competição onde não há limites, resultando em um cenário no qual a informação deixa de ser a prioridade. O que é verdadeiramente relevante para a sociedade acaba sendo subjugado pelo que pode ser descrito como uma “Indústria da Desinformação”, um termo derivado que ecoa de a “Indústria Cultural” teorizada há muito tempo pelos pensadores judeus Theodor Adorno e Max Horkheimer. A busca por audiência e lucro frequentemente resulta em sensacionalismo de notícias que atendem aos interesses dos investidores. Programas com propagandas pagas em horários nobres enfatizam conteúdos superficiais, como fofocas de celebridades, novelas e reality shows que nada tem de real. Ao mesmo tempo, questões significativas para a sociedade, como jornalismo investigativo, cultural e de importância social, muitas vezes são tratadas com falta de profundidade e análise crítica, quando abordadas. Um exemplo claro disso é que quando uma criança é ferida em Israel, a matéria ganha destaque em horário nobre e é coberta de forma instantânea. O mesmo não acontece quando uma região como a Faixa de Gaza é bombardeada por 12 dias, todas as vezes que isso aconteceu ao longo das décadas, as notícias raramente recebem mais do que 30 segundos de cobertura no valioso horário nobre. E mesmo quando ocorre a cobertura, a Indústria da Desinformação frequentemente distorce o código e manipula a narrativa, apresentando os eventos de maneira tendenciosa e fora do seu contexto histórico. A realidade capitalista da Industria da Desinformação, não pode nem deve ser tratada de maneira isolada ao contexto de Israel e Palestina. Tragamos esse conceito para a realidade brasileira. Pergunto a você: quantas vezes nesta semana você viu o Jornal Nacional cobrir o assassinato de um jovem negro em nossas periferias? Será que não há muitos jovens morrendo diariamente em nossas favelas? – recentemente na cidade do Guarujá, onde vivo, ocorreu mais uma chacina, deixando 29 corpos pela cidade. Quantos negros precisam ser assassinados para se transformar em notícia? Quantas balas precisam ser disparadas contra o carro de uma família afrodescendente para aparecer no jornal nacional?[1] Será que a vida negra vale menos que um comercial de shampoo? Essa falta de sensibilidade e importância não ocorreria se o jovem assassinado fosse branco e viesse de um bairro nobre. Da mesma forma, vemos o inverso acontecer quando a Indústria da Desinformação opta por omitir informações, uma prática comum que não carece de exemplos. De interesse naquilo que é noticiado e gera lucro ou não, outra preocupação se refere à disseminação de desinformação e notícias falsas, algo amplificado pelas plataformas digitais. Com o advento das redes sociais e das plataformas digitais, qualquer pessoa pode se tornar um “canal” de mídia e divulgar informações sem a devida verificação, colocando em risco a credibilidade da imprensa legítima e dificultando a distinção entre fontes confiáveis e fontes não confiáveis de informação; como aquelas durante a pandemia que eram transmitidas por jornalistas de sofá de dentro do cercadinho do presidente Bolsonaro. Frente aos atuais desafios que a comunicação vem enfrentando para sobreviver em um mar de desinformação, devemos reconhecer os canais de mídia legitimamente comprometidos com a denúncia de injustiças, abusos de poder e corrupção, bem como os jornalistas destemidos e independentes que persistem em investigar e relatar histórias frequentemente ignoradas ou silenciadas pelos detentores do poder corporativo e estatal. Para fortalecer a liberdade de imprensa, é imperativo oferecer maior apoio e proteção aos jornalistas e às organizações de mídia independentes, promover a diversidade na propriedade dos meios de comunicação, estimular a transparência e a responsabilidade editorial e incentivar o desenvolvimento de habilidades críticas de consumo de mídia entre o público. A liberdade de imprensa, indubitavelmente um pilar da democracia, encontra outro apoio nos canais de mídia e jornalistas que desempenham ativamente papeis de contrapeso ao poder governamental e atuam como defensores da sociedade. A integridade da liberdade de imprensa não pode ser comprometida em prol de lucros, interesses partidários ou pressões externas. Os canais de mídia devem adotar a transparência em relação às suas fontes de financiamento, assegurando sua independência editorial. Além disso, a implementação de mecanismos de autorregulação e a adesão a padrões éticos jornalísticos são fundamentais para evitar a propagação de desinformação, bem como para garantir a precisão das informações veiculadas. Precisamos nos atentar que apesar de certa nocividade, os avanços tecnológicos também proporcionam oportunidades para fortalecer a liberdade de imprensa. As plataformas digitais podem ser empregadas como ferramentas para ampliar o acesso à informação, promover o debate público e dar vozes aos grupos marginalizados. Para que isso aconteça, devem ser implementadas medidas eficazes para combater a propagação de desinformação e assegurar a integridade do ambiente informacional. Em última análise, a liberdade de imprensa é um direito fundamental que merece proteção e valorização. Os canais de mídia carregam a responsabilidade de exercer sua função de maneira responsável, ética e voltada para o interesse público. Simultaneamente, os cidadãos têm a obrigação de serem consumidores críticos de mídia, procurando fontes confiáveis e verificando informações antes de formar opiniões, ademais, a história pode conter vários observadores que a narram de maneiras diferentes de acordo com suas opiniões, mas a verdade é uma só e incontestável. “Nós os apoiamos nesta justa luta, mesmo que a mídia internacional esteja relatando esses eventos de forma errada, ignorando o certo. Mas, a verdade prevalecerá, mas devemos continuar a declará-la” ... “Rejeitamos firmemente a pressão para não construir em Jerusalém. Para meu pesar, esta pressão tem aumentado ultimamente”. Benjamin Netanyahu, 11 de maio de 2021, horas depois, um avião foi enviado para bombardear um prédio residencial. [98] [1] Em 7 de abril de 2019, o músico Evaldo dos Santos Rosa foi morto por mais de 80 tiros disparados por militares do Exército no Rio de Janeiro. O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Helder Salomão, solicitou ao governo estadual os fundamentos jurídicos da ação, apurações sobre o crime e as sanções legais para os responsáveis. [204]
- Na comunicação e contra o apartheid somos todos emissores e receptores
Querendo ou não, na comunicação, cada indivíduo assume o papel tanto de receptor quanto de emissor. Recebemos constantemente mensagens, algumas de forma explícita e outras de maneira mais sutil, que interpretamos consciente ou inconscientemente. As mensagens diretas, como os bilhetes deixados em geladeiras ou as notícias impressas em jornais, são exemplos de comunicação explícita, pois são transmitidas com um destinatário específico em mente. Por outro lado, as formas de comunicação indiretas ou subliminares são as mais insidiosas, uma vez que nos influenciam a adquirir produtos e adotar comportamentos sem que tenhamos consciência disso. O marketing sugestivo é uma técnica que utiliza sugestões sutis para moldar o comportamento do consumidor. Em vez de apresentar diretamente um produto ou serviço, ele cria associações positivas por meio de imagens e contextos que evocam emoções e desejos. Essa abordagem visa influenciar as escolhas de consumo de maneira subliminar e subconsciente. Devemos estar atentos às diversas formas de comunicação que nos cercam, a fim de não sermos inadvertidamente manipulados por estratégias ocultas. Para além do aspecto do consumo material, há algo ainda mais perigoso que o consumismo, frequentemente oferecido de forma gratuita. Pior que consumir coisas ou marcas, é consumir as ideias que elas representam. Milhares de exemplos desse marketing sugestivo e outras formas de propagandas de ideia podem ser encontrados na indústria cinematográfica. Quem nunca se emocionou ao assistir ao filme “Sete Anos no Tibete”? A narrativa cuidadosamente elaborada por Hollywood pinta uma imagem cativante de um alpinista austríaco, dos monges tibetanos e do próprio Dalai Lama. O mesmo filme, retrata os comunistas chineses como demônios destruidores de mandalas e assassinos de camponeses inocentes. A realidade por trás dessa história é muito mais complexa. Surpreendentemente, Heinrich Harrer, o personagem interpretado por Brad Pitt, foi um membro ativo do partido nazista na Áustria, mesmo após o partido ser considerado ilegal no país. Harrer chegou a fazer parte da Sturmabteilung (SA) e Schutzstaffel (SS). O filme não apenas omite esses detalhes importantes, mas também manipula nossas emoções para alimentar uma visão preconcebida contra os comunistas chineses. Vale ressaltar que, antes da invasão chinesa, o 14º Dalai Lama liderava um governo feudal que mantinha aproximadamente 90% da população tibetana sob um regime de servidão e escravidão, no qual, muitas vezes, os servos eram punidos com amputações de membros e outras penas bárbaras, isso em pleno século XX. O motivo para essas informações terem sido escondidas pelos roteiristas do filme não foi um mero acaso, será que eles não leram o livro de Harrer? O próprio Harrer descreve muito bem esse tipo de regime. “O Tibet é governado em um sistema feudal segundo o qual homens, animais e a terra pertencem ao Dalai Lama, cujas ordens têm força de lei.” Harrer 1953 [99] “Não existe polícia, pelo menos não no sentido que conhecemos. Os bandidos são sentenciados publicamente. As punições são bem drásticas, mas aparentemente bem aceitas pela população. Contaram-me sobre um homem que roubara uma lamparina de ouro de um dos templos em Gyirong. Foi condenado a uma sentença que, para nós, é desumana. Suas mãos foram decepadas publicamente e ele foi amarrado com um couro molhado de iaque. Depois que o couro secou, foi atirado de um precipício. Nunca tínhamos visto punição tão cruel. Com o passar do tempo, os tibetanos parecem ter se tornado mais brandos em suas sentenças. Lembro de ter testemunhado um açoitamento público que, para mim, não foi suficientemente severo. As pessoas condenadas eram um monge e uma monja pertencentes à Igreja Budista reformada, que obriga ao celibato. A monja morava com o monge e teve um filho com ele, mas matou a criança ao nascer. Ambos foram denunciados e colocados no pelourinho. Sua culpa foi publicamente anunciada e eles foram condenados a cem chicotadas cada um. Durante o açoitamento, os habitantes imploraram às autoridades por clemência, oferecendo presentes e dinheiro. Isso causou uma redução na sentença e suspiros de alívio foram ouvidos da multidão de assistentes. O monge e a monja foram exilados e despojados de sua posição religiosa. A solidariedade demonstrada pela população para com eles era quase inconcebível para nossos padrões. Os pecadores receberam numerosos presentes em dinheiro e provisões e deixaram Gyirong para uma peregrinação com a bagagem cheia.” Harrer 1953 [99] A ocultação dos verdadeiros personagens, Harrer, Dalai Lama e a forma de governo feudal do Tibete encontra explicação nos interesses geopolíticos estadunidenses. Desde o 13º Dalai Lama, os EUA financiaram os líderes budistas do Tibete como parte de uma estratégia anticomunista, estabelecendo uma ligação que vai além da relação direta do líder budista com o imperialismo. Além das questões armamentícias, os Estados Unidos e Israel compartilham laços estratégicos na influência sobre a propaganda cinematográfica, conforme evidenciado no livro "An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood". A obra narra a história de vários produtores de cinema judeus e como a indústria cinematográfica de Hollywood foi utilizada como veículo de propaganda imperialista e sionista. Como uma sociedade da era telespectadora, precisamos exercer olhares críticos sobre as narrativas veiculadas pela mídia e as mensagens ocultas em filmes produzidos pela indústria cultural, a fim de compreender as complexidades das histórias que nos são apresentadas e evitar a manipulação de nossas percepções em prol de agendas políticas e econômicas específicas. Heinrich Harrer e o Dalai Lama, não são exceções à regra da manipulação midiática. George W. Bush, ex-presidente dos EUA, como um dos magnatas do petróleo texano, mantinha relações comerciais com a família de Bin-Laden [100]. Da mesma forma, Obama foi vendido como símbolo na luta antirracista, mas, após ser eleito, se tornou o presidente sob o mandato que mais invadiu territórios e subjugou povos no Oriente Médio [101]. Se todos somos receptores e se as mídias de comunicação e seus profissionais possuem técnicas específicas para influenciar a nossa percepção mediante uma imagem distorcida da realidade, quer dizer que estamos todos sendo violados por estratégias de manipulação? – Sim! Para compreender essas questões, é necessário fazer outras perguntas fundamentais, como: O que define um meio de comunicação? A quem esses meios servem? E qual é o seu poder de influência na formação do pensamento crítico dos cidadãos, ou receptores, em todo o mundo?












