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  • Os véus e o preconceito "velado" do ocidente em relação à cultura, religião e à mulher no oriente

    Mulheres são mulheres em qualquer parte do mundo. Seja no Brasil, Afeganistão ou Austrália, todas carregamos o peso das culturas e costumes de nossas próprias sociedades; isso sem contar o peso de nossas próprias histórias. Antes de vir para Palestina, eu e o Lu conversamos muito sobre a posição da mulher nas sociedades do Oriente Médio e principalmente nas comunidades islâmicas. Eu tinha uma visão muito diferente. Quando estivemos no Egito, vi uma cena muito impactante para mim, uma mulher de burkini na praia e ao lado uma jovem europeia fazendo topless – isso sem falar no camelo. Fiquei pensando o quão a vida daquelas mulheres é diferente da minha. Desde que passei por essa cena, o uso ou não do véu é algo que tem me intrigado. Apesar de Turquia, Egito e Palestina estarem no Oriente Médio e todos serem países predominantemente islâmicos, o uso do véu, hijab, xador, niqab ou burca são bem diferentes: na Palestina usa-se bastante; no Egito bem menos; na Turquia menos ainda. Isso porque em todos esses países cobrir a cabeça é, ou deveria ser uma escolha. Costumamos pensar – eu pensei um dia – que o véu havia sido uma criação islâmica. A religião teve papel fundamental na adoção dessa prática, mas longe de ter sido inventada por ela, menos ainda da maneira como vemos. O uso do véu vem bem antes do surgimento do islã. Você já parou para pensar que Maria, mãe de Jesus, usava véu? Ela não era muçulmana. O véu se originou nos seios de antigas culturas indo-europeias[1]. Em um texto assírio datado do século anterior a Era Comum, a prática do véu é mencionada como reservada às mulheres de famílias ricas e proibido para mulheres pobres. Além de proibidas de usar o véu, se fossem pegas, essas mulheres eram castigadas; e olha que naquela época o apedrejamento estava na moda. – Mas não está fazendo sentido, né! Vou chegar lá. – O véu era destinado somente para as mulheres ricas para evitar que as filhas ou esposas de alguém “importante” fosse molestada, violentada ou sofresse qualquer outro tipo de agressão, “comum” às mulheres de todas as épocas. As mulheres ricas eram vistas como joias preciosas e intocáveis. Por isso as mulheres pobres eram proibidas de usar; essas sim podiam ser estupradas ou agredidas na rua sem ninguém se importar ou apedrejar um homem por isso. Com a revelação da palavra de Deus ao profeta Muhammad, para evitar que as mulheres muçulmanas fossem tocadas pelos homens – principalmente os bizantinos e cruzados cristãos – o véu foi designado para todas as mulheres muçulmanas; ricas, pobres, brancas ou negras, absolutamente todas! Aos olhos do islamismo, e do profeta, todas as mulheres eram intocáveis. Ficou fácil para mulheres cristãs questionar o uso ou proibição de um país com outra cultura e outra religião. Comecei a perceber os olhares das pessoas nas ruas do Brasil quando veem uma mulher de véu ou hijab; eu mesma já usei e uso. Os olhares não são só de curiosidade, são de preconceito e discriminação, dessa maneira me pergunto: – Não seria o preconceito, o machismo, a misoginia, e a discriminação uma prática mais velada e comum de nossa sociedade? [1] Originários das estepes da Ásia central ou dos planaltos iranianos que se expandiram para a Europa, Pérsia e península da Índia. Por volta do II milênio a.C., o grande movimento migratório de leste a oeste dos povos que falavam línguas da família indo-europeia terminou.

  • Conhecendo um irmão no campo de refugiados palestinos de Dheisheh

    A chuva caiu assim que colocamos os pés em Ramallah. O primeiro compromisso do dia foi uma entrevista com Hussam Gush, Diretor do Centro Cultural Sakakini. A entrevista foi ótima, e Abu Khaled é um ótimo tradutor. Quando encerramos, tomamos um café e expliquei para Abu Khaled que iria até o centro de Ramallah conhecer o amigo Muath Amarneh, mas que depois voltaria para nos encontrarmos próximo à academia onde Ayman treina Muay Thai. Acho que se não estivesse tão frio, a Di já teria feito um treino também. Troquei algumas mensagens com Muath pelo caminho. Ele pediu desculpas, atrasaria um pouco devido à chuva. Enquanto esperávamos, a Di resolveu comprar um vestido[1] que vinha namorando desde Hebron. Entramos em uma loja e fomos recebidos por um “buenos dias”, despejados por um senhor muito simpático. O homem parecia muito contente por poder “hablar um poquito con nosotros”; devia estar esperando há um tempo por aquela oportunidade. No passado, aquele senhor optou por morar fora, uma tentativa de fugir da ocupação israelense, assim como tantos outros palestinos. Ele viveu um tempo em Porto Rico até que decidiu voltar para sua casa, sua terra e seus costumes. Desde que comecei a conviver com os palestinos, venho presenciando o que chamam de “palestinidade”. Esse conceito é usado para explicar os vínculos dos palestinos com sua terra e com sua cultura. A “palestinidade” inata, é o que os identifica como indivíduos. Esse fenômeno acontece até mesmo com aqueles que já nascem na diáspora. Por exemplo: quando um palestino nasce na Jordânia, ele não deixa de ser palestino. Seus documentos, sua comunidade, escolas, trabalhos e acesso a todos os serviços públicos são fornecidos de acordo com sua condição de nascimento. Para esses palestinos da diáspora, eles podem ter começado a vida fora do território, mas, geralmente, a maioria da sua família permanece na Palestina, a que eles são proibidos de entrar. Um palestino que nasce filho de um refugiado, cresce ouvindo as histórias de seus pais e seus avós, e tudo em suas vidas se relaciona a “NeverLand” que “nunca” poderão conhecer. Ouvi relatos de várias pessoas que sonham em conhecer os tios e tias, avós, primos e outros parentes que ainda permanecem na Palestina. É como se aquilo tudo os identificassem como o que nasceram para ser, palestinos! — Ah, mais e os israelenses não podem sentir o mesmo? — E a identidade judaica? David Ben-Gurion[2], nasceu na Polônia. Moshe Sharett, nasceu na Ucrânia. Levi Eshkol, nasceu em Kiev, Ucrânia. Yigal Allon, nasceu na Palestina, mas seus pais emigraram da Bielorrússia. Golda Meir, nasceu na Ucrânia; quando criança migrou para os EUA; e quando jovem migrou para Palestina. Yitzhak Rabin, nasceu na Palestina, seus pais nasceram na Ucrânia e Bielorrússia. Menahem Begin, nasceu na Bielorrússia. Yitzhak Shamir, nasceu na Bielorrússia. Shimon Peres, nasceu na Polônia. Benjamin Netanyahu, o primeiro da lista nascido em Israel, seus pais vieram da Polônia. Ehud Barak, nasceu no Estado de Israel, seus pais vieram da Lituânia. Ariel Sharon, nasceu na Palestina durante o Mandato Britânico, seus pais são de Tiblisi, na Geórgia. Ehud Olmert, nasceu na Palestina durante o Mandato Britânico, seus pais são da Ucrânia e Rússia. Naftali Bennett, nasceu em Haifa (Território Palestino Ocupado em 1948), seus pais são dos Estados Unidos e suas avós da Polônia, Alemanha e Holanda. Yair Lapid, nasceu em Tel Aviv; seu pai nasceu na Iugoslávia (atual Sérvia) e seus avós paternos na Hungria; seus avós maternos são originários da Transilvânia (atual Romênia). Todos nesta lista foram primeiros-ministros do Estado de Israel, alguns, mais de uma vez. O que quero dizer é que, se você perguntar para qualquer palestino, onde seus avós, ou dependendo da idade seus pais estão enterrados, ele te dirá Palestina. Se perguntar onde estão seus familiares ou quais histórias cresceu ouvindo ele dirá o mesmo, já que toda a sua vida ainda está entrelaçada com sua terra. Se fizer as mesmas perguntas para um israelense, ele vai contar histórias e mostrar que sua relação é com algum país da Europa, provavelmente um que tenha sido parte do Império Russo, onde o Czar permitia e até incentivava os pogroms contra os judeus. Toda pessoa tem o direito de procurar uma vida melhor em outro lugar, o problema é quando essas pessoas transformam a vida dos nativos um inferno. Os crimes cometidos contra os judeus por toda Europa e em diferentes épocas, são crimes injustificáveis, cruéis e desumanos, porém nenhum desses crimes foi cometido por palestinos. O mundo tem sim uma dívida com o povo judeu que deve ser paga, mas não as custas do povo palestino. – Quando será que a comunidade internacional entenderá que a tentativa de saudar a dívida do holocausto deveria assumir as responsabilidades sobre ela, não jogar nas costas do povo palestino. – Comunidade Internacional, sua dívida agora é com o povo palestino! “Israel não é um Estado de toda a sua cidadania [...] é o Estado do povo judeu e apenas deles”. Postagem publicada pelo Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, 2018. Que os judeus possam se identificar como um grupo unido por sua religião, isso é completamente compreensível, no entanto, eles não podem dizer que estão unidos como grupo étnico; até porque o hebraico[3], idioma oficial em Israel, foi adotado para criar uma identidade nacional fictícia e facilitar a comunicação entre imigrantes que falavam diversos idiomas diferentes. Antes disso, os primeiros-ministros israelenses, seus pais e avós, falavam russo, ucraniano, polonês, alemão e outros idiomas europeus, há pelo menos 2 mil anos. Assim, o sentimento de pertencimento palestino é uma característica étnica e o judaísmo é uma característica religiosa. Por conta dessa mesma “palestinidade”, depois de décadas morando no Caribe, aquele senhor estava de volta à sua terra, e vendendo lindos vestidos de bordados tão originalmente palestinos como ele. “O pedido por um lar nacional para os judeus não me convence. Por quê eles não fazem, como qualquer outro dos povos do planeta, que vivem no país onde nasceram e fizeram dele o seu lar? A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.” Mahatma Gandhi, em 1938. Muath mandou mensagem, fomos encontrá-lo. Ele parecia nervoso, mesmo estando com dois celulares nas mãos, por conta da chuva, nenhum deles tinha sinal; e como também não falava inglês, sentiu-se incomodado por não conseguir se comunicar. Eu escrevi no meu tradutor, mas Muath não podia responder porque meu celular não possui os caracteres para escrever árabe. Como que um lapso, olhei para o Muath e para Di e soltei um “yalla, yalla”. Voltamos até o senhor que falava espanhol para poder traduzir pelo menos cinco minutos de nossa conversa. O senhor, extremamente prestativo, traduziu que o Muath estava nos convidando para ir até sua casa no campo de Dheisheh, em Bethlehem. Pedi para o tradutor dizer que já estava tarde e que não poderíamos ir e voltar a tempo. A Di olhou para mim e quase me bateu “O cara saiu nesse temporal e dirigiu até aqui para te conhecer, você vai mesmo deixar ele ir embora?” Realmente eu nem tinha pensado nisso, estava preocupado com o transporte e com a violência dos soldados e colonos atacando carros palestinos na estrada, mas a Di tinha razão. Antes do tradutor terminar, corrigi dizendo novamente “yalla, yalla”. Tudo que tinha para chover na Palestina parece que choveu hoje, mas o dia começou a mudar assim que entramos no carro. O céu se abriu, o sol apareceu e deu até para tirar uma camada de casaco. Muath parou conosco em algumas partes da estrada, conhecemos uma fonte natural e alguns locais que não estão e nenhum mapa turístico. Em uma das paradas, caminhamos por uma trilha em direção a um riacho, mas como havia chovido, o rio estava transbordado e tivemos que retornar. Mais adiante, o carro parou novamente no acostamento e descemos. Estávamos no alto de uma colina, abaixo de nós se estendia um profundo e longo vale. Apontando para uma cadeia de montanhas que se erguiam no horizonte, nosso amigo nos certificou que aquela era a Jordânia. Tão perto e tão longe. Queríamos muito ter conhecido esse país, principalmente as cidades de Omã e Petra, mas vai ficar para próxima, por hora, nos contentamos em apenas observar o horizonte. Seguimos por mais alguns quilômetros até Muath perceber que estava no horário da oração. Ele nos pediu licença e parou novamente o carro, mas não sem antes escolher a vista mais bela de todas. Ele pegou seu tapete e estendeu no local mais alto, a qual pegava os últimos raios do sol. Olhando para Muath, pensei em todos os outros palestinos, sírios e afegãos que cruzamos pelo caminho, todos religiosos. Fiquei pensando em tudo que essas pessoas haviam passado por suas vidas até o ponto que nossos caminhos se cruzaram. Percebi que apesar de minha arrogância ser tão grande quanto minha descrença, nem se comparava ao tamanho da fé daquelas pessoas. Me senti um ignorante completo, e um idiota por tantas vezes ter descredibilizado as crenças alheias. A Di, minha mãe, e todas as pessoas com quem refutei sobre Deus estavam certas, e eu estava errado. Não que tenha tido uma iluminação espiritual, ou tenha de uma hora para outra acreditado em uma divindade soberana, mas me senti injusto por reclamar tanto da vida enquanto outros (com verdadeiros motivos para reclamar) estavam apenas agradecendo. Compreendi que enquanto eu reclamava, pessoas que sofreram tantas perdas, uma dor que eu não tenho nem como descrever, estavam parando suas vidas no meio da estrada para agradecer por aquele momento do dia; Muath agradecia por nos conhecer e eu me sentia um bosta de não agradecer por tê-lo conhecido. Nunca em minha vida eu senti vontade de orar, algumas vezes, eu cheguei a repetir as palavras na missa, ou mesmo negociar e fazer as minhas exigências para Deus; mas nunca, nunca mesmo, senti vontade de agradecer por mais um dia de vida; mas ali com Muath, achei que não tinha o direito de não o acompanhar. O que senti, falei para Deus ou as palavras que joguei aos ventos, é algo que ainda estou tentando decifrar. Quem sabe um dia, quando tiver uma opinião menos arrogante e deixar de ser um bosta, eu possa colocar em palavras, mas hoje, ainda não estou pronto. Chegamos no Campo de Dheisheh à noite. Este campo foi estabelecido como abrigo temporário para três mil pessoas expulsas de Jerusalém e Hebron durante a Nakba. Como em todos os campos de refugiados dentro da Palestina, ou em outros países limítrofes, essas pessoas nunca puderam voltar, portanto, transformaram o que era temporário em permanente, e o que era três mil pessoas se multiplicou em dezenas de milhares. O Campo de Dheisheh, também se tornou muito importante para a luta de libertação nacional, principalmente durante os eventos da Primeira Intifada, quando a única entrada e saída foi fechada pelo exército israelense com cercas e arames farpados. Toda história, batalhas e mártires, estão estampados em grafites nos muros de Dheisheh. Lendo tudo que já escrevi sobre sua casa, Muath sabia que era importante para mim estar ali. Ele dirigiu um pouco por aquelas ruas estreitas, uma a uma, apontava para as casas e dizia os nomes das pessoas que habitavam ou habitaram um dia, alguns que eu conhecia bem a história. Não fosse pela chuva que voltou a cair, eu teria pedido para descermos para caminhar um pouco. Muath estacionou e nos convidou para entrar, era sua casa. Seus filhos chegaram para nos receber. As crianças estavam muito curiosas, principalmente sua filha de 11 anos. A menina trouxe uns copos pequenos para nos servir, pensei “Será que é álcool?” Não bebemos há pelo menos uns sete anos, e não queria a voltar a beber logo hoje, seria difícil, mas eu teria que recusar; como fazer isso pelo Google tradutor é que é complicado. Peguei o copo, a Di perguntou o que era, cheirei e disse que não sabia. A esposa de Muath entrou na sala e me pegou com o nariz dentro do copo, ela sorriu e, sem menosprezar minha ignorância, disse uma única palavra “Zamzam”. — “Ufa!” Resmunguei baixo para Di. Segundo o islamismo, o anjo Jibril (Gabriel) abriu o Poço para Hagar (serva egípcia de Sara, também esposa de Abraão) e seu filho Ismael não morrerem de sede no deserto. O poço fica próximo à Kaaba[4] na cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita. Milhões de peregrinos que viajam à Meca todos os anos trazem água desse poço, ao qual dizem possuir propriedades medicinais e divinas. Coincidência ou não, ontem havíamos conversado com a Ruayda sobre essa água, e hoje estávamos ali prontos para provar. Fomos servidos da água de Zamzam não uma, mas duas vezes; uma das maiores honras que um visitante estrangeiro pode receber em uma casa de muçulmanos. Conversamos todos pelo celular até que sua esposa nos trouxe um jantar maravilhoso. Comemos todos juntos. Um tio de Muath chegou, um homem muito educado, sua voz ecoava pela sala com toda calma do mundo. Ele estava entusiasmado para saber mais sobre nós, e nós, ainda mais para saber sobre ele, afinal estávamos na presença do Mufti[5] da cidade de Belém, um dos mais queridos da Palestina. Enquanto conversávamos com o Mufti, outro tio de Muath, esse bem mais velho, chegou para ajudar com a comunicação. O velhinho morou um tempo no Brasil e na Argentina. Apesar de estar há mais de 40 anos sem falar português ou espanhol, conseguiu traduzir nossa conversa muito bem. A Di não conseguia disfarçar, ela não tirava o olho daquele senhor e eu sabia exatamente o porquê. Esse segundo tio de Muath tinha todos os trejeitos do seu João, o avô da Di falecido há pouco tempo. O mesmo jeito encolhido na cadeira, jeito de sorrir, coçar a cabeça, andar, se movimentar com dificuldade, falar, absolutamente tudo naquele senhor lembrava o Sir John. Percebi que a Di ficou emocionada e eu sabia que era saudade. Conversamos muito com toda família. A hospitalidade Palestina não tem comparação. Ficamos algumas horas com a família Amarneh, até que pedi, contra vontade, para nosso anfitrião nos deixar no local onde pegaria o transporte para Ramallah, ele insistiu que nos levaria até lá. Insisti um pouco mais que já era tarde e que ele já tinha dirigido muito. Ele insistiu ainda mais. Não tinha como debater se íamos ou não com ele de volta para Ramallah, pedi pelo menos para ajudar com a gasolina, Muath encerrou a assunto. A chuva não deu trégua nem no caminho de volta. A Di pediu para que eu parasse de falar com Muath (pelo celular) porque iria atrapalhar ele a dirigir. Mas eu não conseguia parar de falar e pelo jeito, ele também não. Passamos o dia todo assim, escrevendo e traduzindo pelo celular. Eu escrevi em português e mostrava para ele, que; traduzia a resposta enquanto dirigia e me mostrava de volta. A Di tentou dormir para não ver o momento exato do acidente. Realmente, a estrada de Belém é perigosa, em uma das curvas, Muath puxou o volante com força, jogando o carro de lado e cantando pneu. A Di deu um pulo no banco de trás perguntando o que tinha acontecido. Meio a uma curva fechada, havia um monte de areia derrubado no meio da pista, e Muath conseguiu tirar o carro a tempo. Olhei para Di, ela estava pálida, tentei acalmá-la dizendo: – Israel pode até ter arrancado um olho dele, mas o que sobrou é bom mesmo! A Di não achou graça e ficou ainda mais brava. Traduzi o que tinha dito para Muath, ele sim riu, mas disse: nem tanto, ou você acha que estou usando óculos para o olho que não tenho? – O que sobrou também não funciona muito bem! Ouvir, isso de um motorista que está dirigindo em uma estrada perigosa à noite, com chuva enquanto traduz mensagens no celular não é muito confortável, admito. Muath nos levou até a portaria da universidade de Birzeit, lá, liguei para Abu Khaled que foi nos buscar com Ayman. Abu Khaled chegou rindo de nossa aventura, quanto mais contávamos sobre nosso dia, mais Abu Khaled e Ayman riam. Ayman não conseguia acreditar que fizemos tudo aquilo em um único dia sem saber falar árabe, “tem coisa que não tem explicação pequeno gafanhoto”, disse para Ayman. Ficamos todos ali conversando uns dez minutos na frente da universidade, até que percebemos que Abu Khaled estava com o carro estacionado em fila dupla, e havia uma viatura da polícia atrás, esperando para passar. Muath nos deu um abraço apertado, e foi embora. Já em casa, repassei os áudios gravados da entrevista com o diretor do museu Sakakini com Abu Khaled. A Di, não conseguia disfarçar o cansaço, ela queria apenas um banho quente e a cama, eu também, mas ainda precisava transcrever o material. [1] Os viajantes estrangeiros para a Palestina no final do século XIX e início do século XX frequentemente comentavam sobre a rica variedade de vestidos entre o povo palestino e, em particular, o fellaheen ou as mulheres da aldeia. Até a década de 1940, a maioria das mulheres palestinas podiam decifrar o status econômico de uma mulher, casada ou solteira, e a cidade ou área de onde vieram, pelo tipo de tecidos, cores, cortes e bordados. Vestido é pronunciado “thoub” em árabe. O êxodo palestino de 1948 levou a uma interrupção nos modos tradicionais de vestimenta e costumes, já que muitas mulheres que haviam sido deslocadas não podiam mais ter tempo ou dinheiro para investir em roupas bordadas complexas. [2] David Ben-Gurion, nasceu na Polônia e migrou para a Palestina em 1906. Se tornou um dos líderes do Sionismo Trabalhista, quando em 1938, afirmaria em uma das reuniões ‘Se eu soubesse que seria possível salvar todas as crianças da Alemanha ao trazê-las para a Inglaterra ou apenas metade ao transportá-las para à Terra de Israel, então eu optaria pela segunda alternativa. Pois temos que tomar em consideração não apenas as vidas destas crianças, mas também a história do povo de Israel.’” Ben-Gurion foi um dos maiores genocidas do povo palestino, após a Nakba, tornou-se o primeiro-ministro do autointitulado Estado de Israel. [3] Em 2018, o Knesset aprovou a polêmica Lei do Estado Nação Judeu, dentre tantos itens discriminatórios contra a população palestina, estava declara o hebraico como único idioma oficial em Israel. [4] Kaaba é o edifício no centro da mesquita mais importante do Islã, a Masjid al-Haram em Meca, na Arábia Saudita. É o local mais sagrado do Islã, uma das cinco obrigações dos muçulmanos é a peregrinação (ao menos uma vez na vida) para a Cidade Sagrada. Os muçulmanos acreditam que a Kaaba foi reconstruída várias vezes ao longo da história, principalmente por Abraão e seu filho Ismael, quando ele retornou ao vale de Meca vários anos após deixar sua esposa Hagar e Ismael lá sob o comando de Allah. [5] Um Mufti é um acadêmico islâmico a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a lei islâmica, e qualificado do Alcorão para resolver os pontos controvertidos da lei. Em alguns países, o Mufti é nomeado oficialmente.

  • Como está Betlehem, a cidade ocupada por Israel onde Jesus nasceu?

    Mesmo arriscando ficar mais uma vez presos na estrada, pegamos uma van com destino à cidade onde Maria deu à luz ao menino Jesus. Ficamos mais de 2h na estrada, em um trajeto de apenas 28km, mas chegamos. Bethlehem (nome em árabe) ou Belém como a conhecemos, estava bem tranquila e tão vazia quanto esperávamos, com apenas alguns poucos grupos de turistas. A Igreja da Natividade foi o primeiro ponto a ser visitado. Encomendada por Constantino, começou a ser construída em 300 d.C. Adentramos no salão principal e vislumbramos meticulosamente cada obra de arte que resistiu ao tempo e as mudanças entre um império e outro. Abaixo do altar principal existe uma gruta onde uma estrela de prata marca o local do nascimento de Jesus. Descemos entre os fiéis e vimos diversas manifestações de devoção religiosa. Enquanto a Di fazia suas orações, olhei para Ruayda e perguntei: Será que eles sabem o que aconteceu aqui? Em 2 de abril de 2002, o governo de Israel enviou as Forças de Ocupação Israelense (IOF) para invadir a cidade de Belém na tentativa de capturar fedayins[1] da Organização para Libertação da Palestina (OLP). Os fedayins fugiram para a Igreja da Natividade onde foram acolhidos pelos padres e outros civis que estavam rezando. As autoridades israelenses montaram um cerco ao redor da Igreja com tanques, helicópteros, franco-atiradores e outros soldados de infantaria. O governo israelense reivindicava a imediata libertação dos reféns, no entanto, a ordem franciscana, uma das que administra a igreja[2], se pronunciou dizendo que todos os monges e as outras pessoas – mais de 200 – que estavam presentes na igreja eram voluntários em defesa dos guerrilheiros palestinos. O chefe da Igreja Católica Romana (outra administradora da igreja) na região disse que os homens foram recebidos em um santuário e que “a basílica é um lugar de refúgio para todos, até mesmo para os combatentes. Temos a obrigação de dar refúgio a palestinos e israelenses.” No dia 4 de abril, o palestino Samir Ibrahim Salman, que estava dentro da Natividade, foi baleado várias vezes no peito por um franco-atirador israelense e acabou morrendo; ele não era guerrilheiro, era um sineiro da Igreja. Um porta-voz dos monges católicos na Terra Santa acusou os israelenses de “ato indescritível de barbárie”. O Vaticano também se manifestou dizendo para Israel respeitar o local sagrado; o Papa João Paulo II descreveu a violência como tendo atingido níveis “inimagináveis e intoleráveis”. No dia 10 de abril, outro monge foi baleado, e os israelenses culparam a própria vítima por estar usando roupas civis durante o ataque. O cerco israelense durou semanas. Os monges e as autoridades negociavam a evacuação da Igreja desde que Israel garantisse a vida de todos os combatentes, mas as negociações foram frustradas e fizeram mais fatalidades. Em 2 de maio, dez ativistas estrangeiros do Movimento de Solidariedade Internacional conseguiram driblar os israelenses e adentrar na igreja para proteger os combatentes. Após 39 dias, um acordo foi alcançado, segundo o qual os militantes se entregaram a Israel e foram exilados na Europa e na Faixa de Gaza. O saldo foi de 8 pessoas mortas dentro da Igreja construída para marcar o local de nascimento de Jesus Cristo. Admito que essa Igreja também me emocionou, mais ainda por saber que pessoas, lutadores pela liberdade de seu país, morreram ali enquanto fugiam de soldados colonizadores, os mesmos que agora exploram o turismo religioso em território ocupado. Por isso, enquanto fiéis se curvavam para tirar suas fotos beijando a estrela de prata, preferi fazer a clássica pose dos dedos em “V” e pronunciar um “free Palestine”, algo que incomodou a maioria dos religiosos. No lado de fora da Igreja da Natividade, encontramos mais uma vez com Musa Al-Shaer, o jornalista do PJS. Ele nos levou até a gruta do Leite. Segundo conta a história, esse foi o local onde a Sagrada Família se escondeu de Herodes antes de fugir para o Egito. A gruta se tornou simbólica, sobretudo para casais com dificuldades para engravidar. O simbolismo decorre da lenda de que aqui, uma gota do leite de Maria caiu na rocha, tornando-a e ao seu redor branco. Se verídico ou não, cabe a crença e a fé de cada um. A Gruta do Leite, assim como a Igreja da Natividade, são importantes santuários protegidos por cristãos e muçulmanos, também visitados por eles. Em nosso grupo por exemplo, havia dois muçulmanos, uma devota de São Jorge, e eu. Nosso amigo Musa, nos levou para conhecer a região de Belém onde acontecem os maiores confrontos entre as pedras palestinas e as balas e bombas israelenses. Almoçamos bem em frente ao portão dos confrontos. Pedi para nos sentarmos bem em frente a janela. Olhando para a torre de vigilância queimada, a comida que apesar de maravilhosa, custava descer. Caminhamos um pouco ao redor do muro. Vimos manifestações artísticas em apoio a causa palestina e outras causas que clamam por urgência em todo mundo. Murais enormes, com aproximadamente 8 metros (tamanho do muro neste setor), os rostos estampados eram de Yasser Arafat, Abu Jihad[3], Ahed Tamimi[4], Shireen Abu Akleh[5], Leila Khaled[6] e outros. Neste muro, encontra-se também manifestações artísticas como apoio a outras causas de justiça social, como o rosto de George Floyd[7] e as artes de Banksy[8]. Visitamos também The Walled off Hotel, também um projeto do artista e ativista Banksy. Inaugurado em 2017 esse projeto é parte importante na demonstração e conscientização para os crimes e danos causados pela ocupação sionista. A Di estava tão impactada que não quis entrar. A Ruayda ficou com ela passeando pelo lado de fora. Circulando pelo Museu, passei por uma sala na qual só havia um telefone tocando. Por ser todo interativo, entendi a mensagem e atendi o telefone. A voz do outro lado se identificava como um oficial do governo israelense e notificava que esse prédio seria bombardeado e que eu teria somente cinco minutos para deixar o local. Bati o telefone e corri para o lado de fora, obvio que eu sabia que era uma encenação, no entanto, eu já entrevistei pessoas que passaram por esse momento e me coloquei no lugar delas; senti o desespero que elas sentiram, lógico que em outra proporção, mas senti. Saí dali correndo, sem olhar para trás. Encontrei com a Di e a Ruayda do lado de fora e pedi um copo de chá, precisava tirar aquele nó preso na garganta. Fiquei muito perturbado, eu só queria naquele momento, desabafar. Depois de nossa visita a Belém, Ruayda nos levou até a cidade de Al-Khader, uma cidade próxima, para conhecer a casa de São Jorge. A Igreja estava fechada, mas Ruayda buscou, em uma casa em frente à Igreja, um senhor muito educado que saiu para abrir as portas da igreja e nos guiar por uma visita. Como dito antes, São Jorge nasceu na Capadócia, Turquia, mas foi viver com sua mãe na Palestina. São Jorge doou toda sua fortuna, mas a casa de sua mãe foi preservada pela comunidade cristã da época. Ruayda nos guiava e contava algumas histórias sobre a Igreja e a vida de São Jorge e outras histórias eram contadas pelo palestino que abriu a igreja para nossa visita exclusiva. Alguns pontos da igreja haviam sido restaurados recentemente pelo senhor que nos acompanhava, já em outros anexos ele explicava o que faltava restaurar. Depois de nos mostrar as salas usadas como creche e outras como salas de aulas para crianças, o senhor nos convidou a tomar um café. Claro que aceitamos, iríamos tomar um café na casa da mãe de São Jorge! Sentados à mesa, o palestino nos contou sobre os ataques israelenses no campo de oliveiras nos fundos da igreja; e como uma bomba de gás lançada pelas IOF incendiou o campo, quase destruindo a igreja; ele contou que precisou de dois caminhões de bombeiro para controlar o incêndio e da ajuda de cristãos e muçulmanos. “Como assim cristãos e muçulmanos” perguntei. “Sim”, ele disse, e completou “aqui rezamos e cuidamos da igreja juntos”. Ruayda explicou que a Igreja é frequentada tanto por cristãos como por muçulmanos, mesmo aquele senhor que era como um caseiro, cuidador e restaurador também era muçulmano. Não se sabe exatamente quando a igreja passou a ser cuidada pelos palestinos muçulmanos. Estudiosos acreditam que al-Khadr – mesmo nome da cidade – um servo de Deus mencionado no Alcorão, tenha sido o próprio São Jorge. Mesmo que os detalhes dessa história sejam desconhecidos por uns e rejeitado por outros, os palestinos enxergam São Jorge como protetor da fé e dos necessitados, e por isso seguiram protegendo o monastério ao longo dos séculos, inclusive o protegem agora do exército colonizador de Israel. Tudo o que vimos em um único dia, nos mostrou quanto cristãos e muçulmanos são próximos e convivem harmoniosamente na Palestina, demonstrando que o problema não tem nada a ver com religião e sim com ocupação territorial. Tanto é que pouco antes de nos curvarmos para adentrar pela “porta da humildade” na Igreja da Natividade, Ruayda nos mostrou um entalho discreto, mas com muito simbolismo; um entalho de uma meia lua que representa a religião islâmica na porta da Igreja que guarda o local de nascimento de Jesus e o assassinato de oito mártires palestinos durante o cerco israelense de 2002. O Estado de Israel não se importa se a Igreja de Jorge é ou não importante para cristãos e muçulmanos, pois os judeus que costumavam também frequentar a igreja, já não a frequentam mais. Assim, como não respeitam o local do nascimento de Jesus, a menos que possam lucrar com o turismo religioso, ou usá-lo como desculpa para o seu plano de limpeza étnica e estado de genocídio permanente contra a população palestina. Conhecendo um pouco da história de Jesus Cristo, um palestino que nasceu em Belém, ou melhor Bethlehem, não tenho dúvidas que se o cerco israelense tivesse acontecido hoje, Jesus e São Jorge estariam lá defendendo os seus compatriotas e acabariam sendo os primeiros a serem baleados assim como foi o padre Samir. [1] Fedayin é um termo que se refere aos militantes ou guerrilheiros de orientação nacionalista entre o povo palestino. A maioria dos palestinos considera os fedayin como “guerreiros da liberdade”, enquanto o governo israelense os descreve como “terroristas”. [2] A custódia da Igreja da Natividade é dividida por três denominações cristãs: Ortodoxa Grega, Católica Romana e Armênia. Cada denominação cristã cuida de uma área específica da estrutura, porém todas elas realizam cultos na igreja. [3] Abu Jihad, foi um dos fundadores da Fatah e segundo na linha de comando da OLP. [4] Ahed Tamimi, é uma adolescente ativista palestina que age contra a ocupação dos territórios palestinos. Ficou conhecida por esbofetear soldados israelenses depois de seu primo ser baleado na cabeça. [5] Shireen Abu Akleh foi uma jornalista palestino-estadunidense morta pelo exército israelense em 2022. [6] Uma das guerrilheiras mais admiradas na Palestina, pertencia a Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP). [7] George Floyd foi um afro-americano que morreu sufocado (25 de maio de 2020), após um policial ajoelhar em seu pescoço. Ativistas e organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo Roger Waters (líder da banda Pink Floyd), acusaram o governo americano de exportar a tática do exército israelense, que, frequentemente está associada a treinamento e consultorias as forças de segurança americana. A morte de George Floyd levou a protestos em todo o mundo do movimento ativista antirracista Black Lives Matter, pedindo à reforma da polícia e a legislação para lidar com as desigualdades raciais. [8] Banksy é o pseudônimo de um artista anônimo “britânico”, cujos trabalhos em estêncil são facilmente encontrados nas ruas da cidade de Bristol, Londres e em várias cidades do mundo.

  • Conferência anual do Sindicato de Jornalistas Palestinos

    No Brasil, o dia 29 de janeiro é lembrado como Dia do Jornalista. A data foi escolhida em memória de José do Patrocínio, que morreu neste dia, no ano de 1905. Ainda hoje, José do Patrocínio é considerado um dos maiores jornalistas da abolição. Coincidentemente, fomos convidados pelo amigo Musa Al-Shaer, secretário executivo do Sindicato de Jornalistas Palestinos (PJS), para participar de uma conferência sobre as violações dos direitos humanos cometidas contra os profissionais de imprensa. O evento foi realizado na sede do Crescente Vermelho da Palestina, nas cidades de Ramallah e Gaza simultaneamente. Abu Khaled nos deixou próximo à sede do Crescente, como tínhamos uma hora antes do início da conferência, aproveitamos para conhecer o campo de Refugiados de Al-Amari. Este campo foi estabelecido como provisória para abrigar os palestinos expulsos de suas casas durante à Nakba. Inicialmente os abrigos eram tendas precárias, como o problema dos deslocados internos nunca foi resolvido, os habitantes resolveram trocar suas tendas por casas de alvenaria. Como a maioria dos campos na Cisjordânia, Al-Amari sofre com superlotação, além de precárias redes de água e esgoto. Andando pelo campo, percebemos algumas pichações de líderes da OLP e mártires palestinos, desenhos que mandam um recado muito claro para a ocupação. Vimos também outro símbolo muito comum, na porta de entrada de uma das casas haviam chaves penduradas. Para os palestinos, em especial se refugiados, a chave possui um simbolismo muito forte. Quando foram expulsos, muitas pessoas guardaram as chaves para o dia que pudessem retornar para suas casas. No entanto, não há casas para voltar. Em 1948, Ben-Gurion deu ordem para demolir as casas para anular possibilidade de retorno. As casas ruíram para dar lugar aos assentamentos israelenses, mas as chaves ficaram. Infelizmente, já se passou tanto tempo que muitos daqueles que foram expulsos já morreram enquanto esperavam pelo dia de poderem voltar. Queria muito conversar com algum morador do campo de Al-Amari, saber mais sobre suas histórias, de certa forma, muito que precisava saber já estava marcado nas paredes ou nas portas das casas; e como estava cedo, não tinha ninguém na rua. Voltamos para o local da conferência para esperar. O Crescente Vermelho Palestino é uma organização humanitária que faz parte do Movimento Internacional da Cruz Vermelha. Uma curiosidade é que o centro foi fundado por Fathi Arafat, irmão de Yasser Arafat, em 1968. A organização fornece hospitais, serviços de medicina de emergência e ambulância e centros de cuidados de saúde primários na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Do lado de fora pudemos acompanhar os palestinos carregando um caminhão com colchões e outros artigos humanitários. Musa nos encontrou do lado de fora, mas pediu para outra jornalista do sindicato nos acompanhar. No elevador, um jornalista palestino nos viu conversando. Hanzim Manoly, que havia morado em Madrid falava muito bem espanhol, e acabou se oferecendo para nos guiar. Pegamos os crachás de identificação na recepção e seguimos para o auditório. Esses anos que trabalho escrevendo sobre a Palestina, acabei identificando o incansável esforço do Estado de Israel para combater jornalistas. Dessa maneira, entrevistei muitos profissionais, desde então, venho reportando as violações que esses profissionais enfrentam diariamente no exercício de sua profissão. Me emocionei logo no vídeo de abertura do evento, quando as primeiras imagens a serem exibidas foram as do fotojornalista Muath Amarneh, o primeiro jornalista que entrevistei na Palestina. Após ver o vídeo do resgate de Muath – jornalista que se tornou amigo –, foram apresentadas imagens de Yasser Murtaja, assassinado na Grande Marcha do Retorno (GMR), em 2018. Não tive a honra de conhecer Murtaja; porém, conheço muito bem seu trabalho e sua história. No ano passado, seu irmão, Motassem Murtaja, também me concedeu uma entrevista. Quando comecei a escrever sobre as violações dos direitos humanos na Palestina, percebi que ferir, prender e matar profissionais de imprensa são estratégias do estado colonial sionista para silenciar os “mensageiros da paz” – como Hanzim, nosso tradutor, os chama. Segundo dados fornecidos durante a conferência, somente no ano de 2022, ao menos 900 crimes e violações foram cometidos contra o jornalismo palestino pelo regime de ocupação israelense. O PJS alertou também para escalada de violência no campo de refugiados de Jenin, como o que presenciamos na última semana. O caso mais recente mencionado, o qual emocionou a todos os 1500 presentes na conferência, aproximadamente, foi o assassinato da jornalista Shireen Abu Akleh, baleada na cabeça em 11 de maio de 2022, enquanto cobria uma invasão militar em Jenin. Outros casos de violência contra os profissionais de imprensa palestina foram mencionados durante a conferência. Vale recordar dos relatos de Janna Jihad[1] e Adham Al-Hajjar[2]. Os ataques da ocupação israelense contra jornalistas palestinos se tornaram um caso tão pessoal que, em 2020, iniciei uma pesquisa científica sobre o assunto. Neste entremeio, me deparei com uma situação adversa de reclamações de profissionais sobre a liberdade de imprensa durante a Copa do Mundo do Catar. No entanto, desta vez, os reclamantes eram repórteres israelenses, que decidiram batizar o evento de “Copa do Ódio”. O próprio governo de Israel aconselhou aos jornalistas e torcedores israelenses que não usassem símbolos ou bandeiras do Estado sionista e que evitassem o idioma hebraico em público. Após anos escrevendo sobre as violações contra jornalistas palestinos e conhecendo tão intimamente suas histórias, não pude deixar minha indignação de lado e acabei escrevendo um artigo sobre isso, intitulado Intifada das Chuteiras, no que relato como é desproporcional o que palestinos e israelenses consideram uma violação da liberdade de imprensa. A violência contra os jornalistas palestinos é parte dos esforços israelenses para impedir que os crimes da ocupação sejam reportados ao mundo. Intimidar, prender, agredir e violentar esses profissionais é o modus operandi sionista para calar a voz palestina. Hoje, em um dia tão especial para todos nós, “mensageiros da paz”, convido todos os colegas a refletirem: como podemos ajudar nossos colegas da Palestina ocupada a conquistarem sua própria abolição, como fez José do Patrocínio? Terminado a Conferência, Hanzim nos deixou na garagem onde vans aguardam os passageiros no centro de Ramallah. Mesmo com todos nos dizendo que ir até Jericó àquela hora do dia seria complicado, seguimos assim mesmo, afinal, nossos dias pela Palestina também estão passando e ainda tem muitos lugares para visitar e coisas para ver aqui. Pegamos um transporte até Ariḥa, como Jericó é chamada em árabe e seguimos pela estrada. É muito louco como a Palestina é um território tão pequeno e possui uma adversidade natural tão rica. No caminho para a cidade mais antiga do mundo (aproximados 10 mil anos), vimos uma paisagem desértica completamente diferente de todas as outras que já vimos. Conosco na van havia um senhor beduíno que desceu no meio do nada, foi quando vimos que ele caminhou na direção de algumas tendas que havia no meio daquele deserto. Os beduínos palestinos são outra história de violação ao qual gostaria de me aprofundar, mas como sei que não teremos tempo, seguimos nosso caminho. Em Jericó, no Vale do Jordão é completamente diferente. Ao longe vimos as pedras e areias serem tomadas por um oásis. Me senti como o jovem alquimista Santiago[3]. Tem tanta coisa para ver. Para citar algumas: a Fonte Ein as-Sultan (Fonte de Eliseu para judeus e cristãos); Qasr al-Yahud, onde Jesus foi batizado; O Mosteiro Ortodoxo Grego, onde Jesus jejuou por 40 dias; O sicômoro de Zaquel, árvore que o homem subiu para ver Jesus passar; o Mosteiro de São Jorge; e o que eu mais queria ver, o Jebel Quruntul (Monte da Tentação), local onde o demônio tentou Jesus, que agora possuí até um teleférico. “Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.” Mateus 4:8–11 Optamos em ir ao Hisham´s Palace. O palácio é mesmo um mistério, sabe-se que pertence ao período omíada[4] graças as escavações arqueológicas. Nossa visita foi acompanhada de sossego e calmaria, éramos os únicos no local. Pudemos fazer tudo com a calma e tranquilidade, apesar da falta de tempo. No pátio de entrada, há uma Janela de pedra em formato de estrela de seis pontas com um círculo oco no meio. A janela, durante o califado, era o ponto mais alto do palácio. De todas as escavações do sítio arqueológico, a joia mais preciosa foi recuperada com apoio do governo japonês, ao qual, guarda uma placa de agradecimento na entrada. Entrando no galpão coberto nos deparamos com gigantescos mosaicos coloridos. Mandalas geométricas que são verdadeiras obras de arte; milhões de pedrinhas coloridas formando um dos maiores mosaicos que sobreviveram do mundo antigo. O mais belo de todos é o da “Árvore da Vida” com um leão atacando uma gazela, ao qual existem muitas interpretações, mas não vou me arriscar em nenhuma, pois considero a arte uma manifestação com diversas possibilidades para cada pessoa. O Hisham’s Palace é um dos monumentos islâmicos mais importantes da Palestina e uma grande atração para visitantes estrangeiros e palestinos. Em 2010, segundo dados levantados pelo Ministério de Turismo e Antiguidades da Palestina, o local recebeu 43.455 visitantes. Dentro do sítio arqueológico existe uma escola que ensina e dá cursos sobre a confecção de mosaicos, é mais uma tentativa de recuperação e preservação da cultura local. Caminhamos até ele, mas estava fechado. Chegando perto da hora do sol se pôr, tratamos de acelerar o passo e quem sabe ver mais alguma coisa no centro de Jericó. Não havia táxi ali, decidimos voltar os 4km andando. Por sorte, acabamos pegando uma carona com um palestino e um gringo que vivem em Jericó, eles nos deixaram bem no centro, onde pegaríamos a van de volta para Ramallah. Antes de conhecer outro lugar na cidade, fomos nos informar sobre o último horário do transporte. O motorista nos mandou entrar no carro, disse que os israelenses fecharam a estrada principal e aquele seria o último carro. Não era papo furado, era real, a van saiu antes da hora e não tivemos tempo para ver mais nada. A situação era tão crítica que o motorista nem esperou o carro lotar, saiu com a metade da capacidade de passageiros. Quinze minutos pela estrada e lá estavam eles, os soldados realmente fecharam a estrada. A fila parecia interminável. Para nossa sorte, pela segunda vez no dia, conseguimos embarcar há tempo; se não tivéssemos pego uma carona com estranhos ou tivéssemos ido para outro ponto turístico, teríamos que dormir em Jericó, o que não seria legal, visto que ontem houve conflito entre soldados e manifestantes na cidade. Ficamos mais de 40 minutos parados, olhando pela janela a Di falou “olha isso”, quando olhei também, vi meninos (no máximo 15 anos) correndo em direção aos soldados com camisas e hattas amarrados no rosto e pedras na mão. Estávamos muito perto dos soldados, e presos em uma van, se eles atirassem na direção dos meninos não daria tempo de se esconder. Ficamos apreensivos, mas ver os palestinos que estavam conosco tão calmos, como se aquilo não fosse nada demais, acabou nos dando conforto. Não conseguimos ver se os meninos atiraram mesmo as pedras, e só os vimos voltar. Acho que não aconteceu nada, porque quase uma hora parados a fila começou a andar. Os soldados param os carros um a um, a fim de dificultar ainda mais o dia. Quando chegou nossa vez, o palestino no banco da frente pediu nosso passaporte para entregar aos soldados. Quando uma soldada mulher abriu a porta da van, como quem abre uma jaula, ela começou a gritar. Como estávamos sentados no último banco ela não nos viu, mas o palestino fez questão de exibir nossos passaportes em primeiro lugar. Sem pensar, depois de ver que tinha dois gringos no carro, a soldada devolveu os documentos, bateu a porta e mandou o motorista sair logo dali. A ordem é sempre a mesma, se livrar dos estrangeiros o mais rápido possível, para que não vejam fotografem ou reportem os crimes cometidos pelos soldados. Acelerando o motorista seguiu o conselho da soldada e saiu sem olhar para trás. O homem que estava com nossos passaportes nos entregou e agradeceu por estarmos ali. Foi um dia quase tão acelerado quanto aquela van que nos levou embora depois de horas parado em um bloqueio de soldados israelenses em uma estrada palestina. No caminho, lembramos que não tínhamos comido nada além de um falafel e uns morangos que ganhamos de boas-vindas logo que chegamos em Jericó. Quando chegamos em casa, dessa vez não por sorte, mas por carinho mesmo, a Ruayda havia preparado um jantar maravilhoso; e para sobremesa, alguns dos doces que aprendeu na aula em Nablus. [1] Começou a reportar a ocupação aos sete anos de idade; aos treze foi reconhecida como uma das jornalistas mais novas a documentar as violações contra os direitos humanos. [2] Adham al-Hajjar foi baleado na perna por munição expansiva (decretado crime de guerra durante à 4ª Convenção de Genebra), enquanto cobria a Grande Marcha do Retorno, em 2018. [3] Referência ao personagem Santigo do livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho. [4] Califado Omíada (661 – 750) foi o segundo dos quatro principais califados islâmicos, estabelecidos após a morte de Maomé. Era centrado na dinastia Omíada, originária de Meca, atualmente na Arábia Saudita.

  • Terrorismo israelense em Nablus, na Palestina ocupada

    A Palestina amanheceu em chamas! Nada novo por aqui! Acordamos com muitas mensagens no celular perguntando se estávamos vivos e bem. Já sabíamos o motivo para tamanha preocupação. Ontem à noite, em resposta ao massacre de Jenin, um palestino armado disparou contra israelenses que saíam de uma sinagoga, em Jerusalém. O ataque matou 9 israelenses e deixou outros 10 feridos. Na televisão, o Ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, anunciava, sem qualquer comprovação, que o atentado havia sido orquestrado pelo Hamas. Antes de continuar, preciso dar um panorama de quem é Itamar Ben-Gvir. Para começar, lembra que falei sobre o massacre na Tumba dos Patriarcas em Hebron, cometido pelo americano naturalizado israelense Baruch Goldstein. Então, Goldstein era membro do Kach, um partido judaico-ortodoxo e nacionalista que prega, a expulsão de todos os árabes da Palestina. Dentre outras coisas, o movimento pedia ao governo medidas como: anexação de toda Palestina; soberania da Esplanada das Mesquitas e a construção de uma sinagoga no local; oferecer terras palestinas para todo judeu que se casar; autonomia de tiro aos soldados contra atiradores de pedras; e censura da imprensa e submissão aos Estado Judeu. O Kach, era obviamente liderado por outro lunático fascista, Meir Kahane. Daí o nome kahanismo para aludir aos mais cruéis e lunáticos sionistas. Meir Kahane foi um Rabino ultranacionalista nascido nos EUA, onde chegou a ser consultor do FBI. Migrou para Palestina em 1971, no mesmo ano foi condenado por conspiração e fabricação de explosivos para fins terroristas. Kahane foi preso mais de 60 vezes pelas autoridades israelenses e proibido de entrar em diversos países. Sua principal ideologia era expulsão de todos os árabes da Palestina e troca da população por imigrantes judeus. Em 1984, o Comitê Eleitoral Central de Israel o proibiu de ser candidato alegando que Kach era um partido racista, mas a Suprema Corte de Israel anulou a proibição alegando que o comitê não estava autorizado a proibir a candidatura de Kahane. A Suprema Corte sugeriu que o Knesset aprovasse uma lei excluindo partidos racistas de futuras eleições. O Knesset respondeu em 1985 alterando a Lei Básica[1] para incluir uma proibição contra o registro de partidos que e incitam o racismo. – É claro que isso é puramente para fins de marketing, já que a maioria dos partidos fazem o mesmo. O Kach pregava ideias tão boçais que nem mesmo os sionistas aguentaram, e declararam-no como uma organização terrorista. Não que chamar algum grupo de terrorista é algo novo para o Estado de Israel, mas dessa vez era um grupo político-judaico e israelense. Logo após o massacre na Tumba dos Patriarcas, as autoridades israelenses realizaram busca e apreensão em suas instalações. Os policiais apreenderam armas escondidas no local e colocaram alguns de seus integrantes em detenção administrativa. Explicado quem é Meir Kahane, e o que prega o Kach, sua organização criminosa, vamos especificar o atual Ministro de Segurança de Israel. Itamar Ben-Gvir, é seguidor de Kahane e não esconde sua participação no Kach. Ben-Gvir já foi denunciado dezenas de vezes por discurso de ódio, enfrentando algumas poucas acusações que não deram em nada. Em outubro de 2021, Ben-Gvir foi visitar um prisioneiro que estava em greve de fome há mais de três semanas, um protesto contra sua detenção administrativa. O ministro declarou ironicamente que foi visitar o prisioneiro para “ver de perto esse milagre que uma pessoa permanece viva apesar de não comer por vários meses”. Ben-Gvir foi investigado em 2021 depois aparecer puxando uma arma para seguranças árabes durante uma disputa de estacionamento na garagem subterrânea do centro de conferências Expo Tel-Aviv. Tudo foi filmado e distribuído em vídeo. Ben-Gvir aparece sacando uma pistola e apontando para os árabes desarmados. Também não deu em nada, afinal, as vítimas eram palestinas. No ano passado, esse lixo a quem chamam de ministro participou de confrontos entre colonos judeus ilegais e moradores palestinos do bairro de Sheikh Jarrah. Há anos o governo de Israel vem expulsando os palestinos desse bairro de Jerusalém para construção de novos assentamentos ilegais. Nesse episódio Ben-Gvir participou empunhando uma arma contra palestinos, enquanto gritava “Nós somos os proprietários aqui, lembre-se disso, eu sou seu proprietário”. Depois de tantos crimes e episódios deploráveis, advinha o que aconteceu com Itamar Ben-Gvir: Se uniu ao governo de outro lixo chamado Benjamin Netanyahu, tornando-se Ministro de Segurança Nacional em dezembro de 2022, mesmo sob muita pressão de israelenses e até mesmo da mídia internacional. Conhecendo um pouquinho dessa figura ilustre do governo israelense, podemos entender que suas palavras não se apoiam em fatos, elas são motivadas pelo mesmo ódio e desumanidade que motivam todos os psicopatas. Referente ao ataque em Jerusalém, o Hamas afirmou que nenhum de seus militantes estavam envolvidos e não assumiu autoria sobre o crime cometido contra os israelenses na rua da sinagoga. Fundado durante a Primeira Intifada em 1987, o Hamas é um partido palestino de posição nacionalista e islamista cujo objetivo é garantir a libertação do povo palestino e lutar pelo fim de Israel como um Estado. Em 2006, o Hamas ganhou a eleição para o Parlamento Palestino, mas sendo considerado mais radical que o Al-Fatah[2], o Hamas foi impedido de assumir sendo exilado na Faixa de Gaza. O Hamas passou a atingir alvos civis em Israel e orquestrar atentados terroristas depois do massacre de Baruch Goldstein na Tumba dos Patriarcas, antes disso, seus avos eram direcionados apenas contra os militares israelenses, assumindo autoria por todos seus ataques. Gostando ou não, concordando ou discordando das táticas operacionais; seja como for e chamando como preferir, seja de partido político ou de organização terrorista, uma coisa é certa: se o Hamas disse que não cometeu, é porque não cometeu. Antes de ser acusado por essas linhas, quero esclarecer algumas coisas: eu não pertenço ao Hamas; nenhuma organização política paga meu salário; e não sou eu quem devo escolher qual partido é certo e qual é errado para o povo palestino. Meu objetivo com meu trabalho é ajudar à emancipação palestina, quem deve escolher o partido para seguir ou votar, é o povo palestino. Afinal, eu voto no Brasil! Ontem fomos até às 3h da manhã, acompanhando as notícias, sabíamos que o que seguiria seria um banho de sangue. Durante a madrugada, o Estado de Israel bombardeou a Faixa de Gaza e colonos israelenses invadiram territórios palestinos para propagar o terror. Lembrando que tudo isso aconteceu em resposta ao massacre de Jenin do dia 26. Conhecendo o desserviço prestado por algumas das maiores mídias de informação no Brasil, as quais noticiaram superficialmente o ataque de Jenin, fomos dormir sabendo que depois do ataque em Jerusalém alguém ligaria. E ligou! As notícias que circularam eram que Israel estava se defendendo de terroristas. Como previsto, passamos algumas horas convencendo familiares e amigos de que estávamos bem e seguros. Embora estivéssemos vivos, não estávamos nem bem, muito menos seguros. Próximo de Kobar, existe um assentamento ilegal chamado Halamish[3], esses colonos passaram a noite propagando o terror entre os palestinos. Mas nada disso, nem o massacre de Jenin, nem os bombardeios à Gaza, muito menos os ataques de colonos israelenses, tiveram ênfase na mídia brasileira; somente o “atentado terrorista contra judeus em Jerusalém”. Não que eu concorde com o ataque contra civis, mas veja bem a história como, na verdade aconteceu. O atirador palestino que cometeu a chacina e depois foi morto pela polícia, foi identificado como Heiri Alkam, de 21 anos. Alkam é morador do bairro de A-Tor, em Jerusalém Oriental (na Palestina). Uma foto do atirador circulou na televisão, nela o jovem aparece na sala de casa, com um quadro de um senhor ao fundo. Aquele senhor era Hayeri Alkam, avô do atirador, assassinado a facadas em 1998 na rua Shmuel HaNavi em Jerusalém. Obviamente, nenhum israelense foi preso pelo crime. Não que uma coisa justifique a outra, mas naquela noite Heiri Alkam, que não possuía antecedentes criminais, saiu de casa sabendo que iria morrer. Como disse, um ataque não justifica outro, mas a pergunta a se fazer é: como uma pessoa que cresce convivendo com tamanha violência consegue tomar outro rumo que não a própria violência? O mundo consegue intitular o povo árabe, em especial os palestinos, como “terrorista”, mas não é capaz de intitular de terrorista os presidentes americanos que invadiram os países árabes e perpetraram tantos massacres; não é capaz de chamar de terrorista o sistema de genocídio permanente ostentado pelo sionismo. O mundo não se cansa de dizer que a Ucrânia e os ucranianos têm todo o direito de se defender contra Vladimir Putin e os soldados russos. Mas um palestino não tem esse direito, e quando se levanta, seja com uma pedra contra a ocupação israelense, eles são chamados de terroristas. Se nada justifica uma agressão, como pode a agressão contra os palestinos ser justificada por nada? Depois de responder às mensagens e publicar alguns vídeos e informações sobre o que realmente estava acontecendo na Palestina; e já que não poderíamos sair para lugar nenhum, fomos novamente com Abu Khaled, Ruayda e Ayman cuidar das oliveiras. [1]  As Leis Básicas de Israel são um componente essencial do direito constitucional de Israel. Essas leis tratam da formação e do papel das principais instituições do Estado e as relações entre as autoridades do Estado. Algumas delas também protegem os direitos civis. [2] Al-Fatah, é um partido política, fundada em 1959 pelo engenheiro Yasser Arafat e Khalil al-Wazir, e outros membros da diáspora palestina, como Salah Khalaf e Khaled Yashruti. É o maior partido dentro da Organização para a Libertação da Palestina. [3] Halamish, (ou Neveh Tzuf), é um assentamento israelense judaico ortodoxo na Cisjordânia Ocupada, estabelecido em 1977.

  • A santidade da terra palestina

    "Nossa família palestina! Allah nos colocou no caminho das oliveiras palestinas; elas nos receberam com o acolhimento e grandeza que só as grandes árvores podem oferecer. Tivemos o privilégio de ajudar a cuidar da terra mais amada do mundo e, trabalhar de corpo, mente e alma nesse campo foi o presente mais inspirador dessa viagem! Obrigada grandioso Allah por me trazer aqui e me fazer reconhecer os teus sinais." Diana Emidio Queria muito participar de uma manifestação e ver de perto, quem sabe registrar, a violência dos soldados israelenses no violar do direito de reunião e manifestação dos palestinos. No entanto, ontem quando nos aquecíamos na fogueira de Abu Khaled, ele nos convidou para o acompanharmos na tarefa de cuidar da terra e das oliveiras. Ele confessou que momentos como esse são difíceis, pois sabe da necessidade de lutar e se manifestar, porém, o único filho que ficou em casa tem apenas 13 anos, e nessa fase os jovens, principalmente os meninos, ficam inflamados com os movimentos de resistência e acabam se colocando em risco. É realmente uma fase perigosa. Por isso, toda vez que acontece algo assim, ele levava seus filhos para cuidar da terra, assim ocupava suas mentes e os mantinha longe das agressões. Entendendo bem o que Abu Khaled estava dizendo e até concordando sem ressalvas, decidimos ir junto para a terra e ver a Palestina como ela deveria ser se não houvesse um regime de ocupação. Carregamos o carro com água, ferramentas, alguns produtos para combater os insetos que atacam as oliveiras e algumas comidas. Peguei meu boné do MST e minha hattah (como os palestinos chamam a keffiyeh) e lá fomos nós com nossa família palestina. Falando de terra, Palestina e MST, gostaria de contribuir com uma informação a este diário. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é visto pela direita como um movimento “terrorista”; quanto a isso não vou entrar no mérito da questão, afinal não é bom dar palco para louco. O que poucos sabem é que o MST defende a luta camponesa também além das fronteiras brasileiras. Em 2002 a Via Campesina esteve em Ramallah, enquanto a Mukata´a e Yasser Arafat estavam sob bombardeio israelense. Desde então os “sem terras” brasileiros intensificaram suas relações com os movimentos populares na Palestina. Entre 2010 e 2011 o MST chega à Palestina com a decisão de ajudar a construir o processo de filiação da União dos Comitês de Trabalho Agrícola (UAWC) à Via Campesina. [...] Estivemos nesse período na Palestina, e tivemos condições de acompanhar todo esse processo de integração da UAWC na Via Campesina, fato ocorrido em 2013, na IV Conferência Internacional da Via Campesina, em Jacarta, Indonésia. Entre 2010 e 2013 o MST e a Via Campesina emitiram comunicados defendendo o “direito do povo palestino de lutar por todas as suas terras, sejam as ocupadas em 1948, em 1967 ou mesmo depois dos Acordos de Oslo (1993/1994)”. Buzetto, 2018 No campo de oliveiras, a Ruayda e a Di acenderam uma fogueira para preparar o café da manhã. Enquanto isso, eu e Abu Khaled fazíamos a poda de algumas árvores e Ayman jogava o pesticida. Preparado o café, nos sentamos para comer embaixo da sombra de uma das oliveiras. Aproveitando os pães com azeite e zatar e outras delícias típicas das produzidas na região conversamos muito sobre a terra e os cuidados para com ela. À nossa frente estava outro morro com mais oliveiras, onde outra família fazia o mesmo que nós: tomava seu café da manhã enquanto se preparava para um dia de trabalho. Por ver as crianças ao longe, entendi que eles estavam ali pelo mesmo motivo que Abu Khaled me falou ontem: para evitar que os jovens se colocassem em posição de perigo frente às manifestações que estavam acontecendo por todo país. Olhando para aquelas árvores fiquei pensando quanto tempo demoraria para que também fossem arrancadas da terra para construção de novos assentamentos ilegais de colonos estrangeiros. Fiquei pensando quanto tempo demoraria para que Abu Khaled e Ayman não tivessem mais oliveiras para cuidar. Deixando os pensamentos ruins de lado e com a barriga cheia, era hora de trabalhar. Juntamos as coisas e fomos todos pegar no pesado. Começamos a poda de baixo para cima, este não é um trabalho fácil. Me lembrei que o MST organiza também a Brigada de Solidariedade Ghassan Kanafani, na qual reúne grupos de trabalho voluntário durante o período de colheita de azeitonas na Palestina. Quando lembrei disso estava em cima de uma árvore com a Di; contei para ela sobre esse movimento e sorri dizendo: vou sugerir ao MST que venha da próxima vez no período de poda das árvores, isso é que é trabalho duro! Já faz um tempo, eu escrevi sobre as oliveiras de Kobar. Durante a pesquisa desse material naveguei com os satélites do Google até aqui para entender a geografia da região, vi fotos, li documentos e muitas outras coisas para alimentar minha percepção. Aqui, carregando os galhos podados para uma fogueira vejo como é bem diferente. Sinto o cheiro das árvores, sinto o calor da fogueira, procuro uma sombra larga para me esconder do sol, o verde que via pelas fotos é diferente. Tudo, presencialmente, é bem melhor e muito mais bonito, sei que vou sentir saudades, não só do local, mas dessa família maravilhosa que nos adotou. O dia que começou cedo foi de trabalho duro, minhas mãos estão ambas machucadas de espinhos, minhas costas doem e meus joelhos parecem não aguentar mais meu corpo. Mas posso dizer que estou realizado e feliz. Hoje eu entendi o valor dessa terra para os palestinos. Entendi que a santidade não está nos velhos templos bíblicos, a santidade está em um pai, uma mãe e um filho trabalhando juntos no campo. Acho que encontramos parte do que viemos buscar. Nota: Como mochileiro já expliquei que sou desenraizado e não me sinto verdadeiramente ligado à terra que nasci, talvez porque nunca tivesse trabalhado nas oliveiras de São José dos Campos. Mas consegui entender que a relação dos palestinos com sua casa, suas terras e suas oliveiras é algo que transcende a imaginação. “O colonialismo israelense será derrotado, pois é impossível subjugar e oprimir um povo para toda a vida. A Palestina é, hoje, o nosso Vietnã, e de lá retiramos a energia necessária para levar a justiça a todos os rincões de nosso planeta. A luta do povo palestino nos alimenta com a ousadia e a resistência de quem nunca teve medo de defender sua pátria, sua terra e seus princípios e valores.” Buzetto, MST, 2018.

  • A chacina israelense em Jenin

    Após ter conhecido a resistência das ruas de Nablus, pretendíamos ter um dia tranquilo para conhecer um pouco dessa história. Mas, como tudo por aqui depende da vontade israelense, acabou saindo tudo completamente diferente do que esperávamos. Se a ideia era conhecer o significado de resistência, hoje foi o dia para sentir na pele. A primeira parte do dia foi dedicada ao museu Mahmoud Darwish, poeta e escritor adotado como um símbolo da luta de libertação nacional. Na juventude, Darwish escrevia e recitava poemas sobre uma vida que conhecia bem, o sofrimento dos refugiados e a inevitabilidade de seu retorno. Em maio de 1965, Darwish leu em público pela primeira vez o poema “Bitaqat huwiyya”, em português “Cartão de Identidade”. Em poucos dias, seu nome e seu poema se propagaram pela Palestina e outros países árabes. Darwish se tornou militante da Organização para Libertação da Palestina (OLP) na década de 1970, anos depois foi eleito para o Comitê Executivo da OLP. Em 1988, Yasser Arafat leu em Argel a Declaração de Independência da Palestina, as palavras no documento foram escritas pelo poeta Mahmoud Darwish. A influência do escritor atingiu tamanha proporção que em 2000, Yossi Sarid, Ministro da Educação israelense, propôs que dois dos poemas do palestino fossem incluídos no currículo do ensino médio israelense. Ehud Barak, Primeiro-ministro à época, rejeitou a proposta protestando “não é o momento certo” para ensinar Darwish nas escolas. "Cartão de Identidade [...] Registra–me, sou árabe tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados e da terra que cultivava com meus filhos e não os deixastes nem a nossos descendentes[...]" Mahmoud Darwish. Entre os livros, prêmios, fotos e manuscritos inacabados em exposição, um artigo pessoal do autor nos fez parar; um velho livreto de páginas amareladas e corroídas pelo tempo: o famoso Cartão de identidade. Visitado o museu e o mausoléu onde está enterrado o poeta revolucionário, seguimos até o próximo destino, outro museu e mausoléu, desta vez de Yasser Arafat. Entre um ponto e outro da cidade, percebemos que todos os comerciantes começaram a guardar suas mercadorias e fechar as portas das lojas. As pessoas que circulavam pela rua também começaram a acelerar o passo, como se quisessem terminar o que estavam fazendo e voltar logo para casa. Não sabíamos o que estava acontecendo, mas era perceptível que aquilo era uma resposta para algo muito ruim. A primeira coisa que pensamos foi no comboio de escolta do prisioneiro liberto em Kobar. Tínhamos certeza de que alguma merda iria acontecer. Mandamos mensagens para Abu Khaled e para Ruayda. Nos preocupávamos de algo ter acontecido na cidade. Como estávamos perto, e nem Abu Khaled, nem Ruayda haviam nos respondido ainda, decidimos seguir até o museu de Arafat. Localizado no centro de Ramallah, este museu constitui a memória nacional palestina e sintetiza a história de um povo através de seu maior líder. Exibindo o icônico keffiyeh, armas, passaporte, fotografias e outros pertences do líder da OLP, incluindo o Prêmio Nobel da Paz de 1994. O museu constitui a narrativa de um povo que resistiu ao Império Otomano, Mandato Britânico, as guerras e ataques para formação do Estado de Israel, e agora contra a ocupação colonial, o regime de apartheid e o plano de limpeza étnica sionista. A visita acaba nas salas da Mukata’a, quartel-general onde Arafat ficou enclausurado enquanto o exército israelense o bombardeou de 2001 a 2004, véspera de sua morte – diga-se de passagem, repleta de controvérsias, com fortes indícios de envenenamento. A visita foi realmente emocionante. Devo confessar que já visitamos muitos memoriais de outros heróis, não vou comentar quais para não ser injusto com os outros, mas o memorial de Yasser Arafat foi o mais emocionante de todos, principalmente por estar vinculado ao mausoléu do Presidente proibido por Israel de ser enterrado em Jerusalém, como era de seu desejo. O mausoléu onde se encontra o corpo de Arafat, foi construído com esmero, sobre a água para expressar que no futuro, com a libertação da Palestina e o reconhecimento de um estado independente, seu corpo será movido para a capital, Jerusalém. Assim que finalizamos a visitação, o Lucas pegou o celular para verificar as horas, foi quando percebeu que Abu Khaled tinha ligado algumas vezes. Ele estava tão envolvido pelos corredores da Mukata’a que nem percebeu. Retornamos a ligação e Abu Khaled pediu para encontrarmos com ele no Centro Cultural Khalil Sakakini. Teríamos que retornar para Kobar com ele porque o transporte público logo pararia de funcionar. Ele disse que o motivo do comércio ter sido fechado em Ramallah foi mais uma chacina promovida contra o campo de refugiados em Jenin[1]. Até o momento que nos falamos, nove palestinos haviam sido assassinados e outros 20 estavam feridos, quatro em estado grave. A Autoridade Palestina declarou luto oficial de três dias em todo território. Chegando em casa, passamos o restante do dia acompanhando as notícias. Infelizmente, todos na frente da televisão sabíamos que aquele seria o início de mais uma escalada de violência e morte promovida pelos israelenses. Segundo reportado pelos veículos de comunicação, às 7h05 da manhã os soldados israelenses fecharam as estradas em direção à Jenin e cortaram a comunicação e internet da região, indicando uma ação premeditada. A seguir, as IOF invadiram o campo de refugiados ao norte do território palestino e abriram fogo contra pessoas que se organizavam em um centro de convenções para uma manifestação na comunidade. O governo israelense alegou uma ação preventiva contra células da Jihad Islâmica. – Mentira! Os soldados sionistas atiraram indiscriminadamente, tanto que uma senhora de 60 anos morreu enquanto observava a invasão da janela de sua casa. Estranhei que nenhum amigo ou parente mandou mensagem, ou ligou para saber se estávamos vivos. Na prática, já sabíamos que notícias sobre as violações israelenses, superficialmente ou raras vezes são noticiadas no Brasil. Nossos familiares e amigos – pelo menos os que não estão vinculados à nossa luta pela causa palestina – jamais ficariam sabendo o que estava acontecendo ao nosso redor se dependesse do interesse da mídia. Esse fenômeno de desinteresse não acontece só no Brasil, deploravelmente isso acontece em todo o ocidente, que “normalizou” e “aceitou” o estágio de genocídio permanente perpetrado pelos sionistas. Após conhecer a história do povo palestino e ver o acervo documentado nos museus de Mahmoud Darwish e Yasser Arafat, fomos dormir pensando estarmos vivenciando, pela primeira vez de dentro dos muros do apartheid, algo com que os palestinos aprenderam a conviver em seu cotidiano. É lamentável que o genocídio palestino aconteça há tanto tempo, enquanto a comunidade internacional assiste a tudo isso de camarote, enquanto chamam os palestinos de “terroristas” e as agressões israelenses de “legítima defesa”. Fomos dormir com mais uma certeza: amanhã, a violência continuará! Dedicado às famílias dos mártires de Jenin. [1] O Campo de Jenin, localizado no norte da Cisjordânia, foi criado em 1953 para abrigar os palestinos expulsos de suas casas durante a Nakba.

  • Observando a realidade da ocupação e a resistência palestina em Nablus

    Pegamos uma van para Nablus. Durante o caminho, a Ruayda nos mostrou os mais variados estágios de construção de assentamentos ilegais na Cisjordânia[1]. Os israelenses começam a construção pelo topo das colinas onde colocam pilhas de contêineres para dar início à ocupação. Geralmente, muros de contenção são construídos para dar “segurança” aos invasores. Seguindo o processo, casas são levantadas para dar lugar aos colonos. Conforme a ocupação avança, as construções descem as colinas para ocupar cada vez mais as terras palestinas. Pela janela da van, acompanhamos todos os processos da ocupação. O caminho até Nablus levaria pouco mais de uma hora, mas, se locomover pela Palestina é uma missão que demanda paciência. Já estávamos há trinta minutos presos em um engarrafamento. Quando isso acontece, provavelmente é porque os soldados israelenses fecharam alguma rota. A todo momento os motoristas se comunicam entre si pelo celular, antes e durante cada viagem, se orientando para saber qual rota está liberada. Cansado de esperar e após ouvir uma bronca da Ruayda, o motorista resolveu voltar e seguir por outra estrada. Após duas horas chegamos a Nablus, cidade localizada entre o Monte Ebal e o Monte Gerizim; é possível que você a conheça pelo nome bíblico de Siquem. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse–lhe Jesus: Dá–me de beber. Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse–lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos). Jesus respondeu, e disse–lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá–me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Disse–lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado? Jesus respondeu, e disse–lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede;Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. João 4:7–14 As citações bíblicas referentes a esta cidade, como todas as outras, servem como justificativa, ou melhor, “desculpa” para a ocupação israelense. Diariamente canais como o RamallahMix e o Eye.on.Palestine divulgam a violência dos soldados contra os moradores palestinos. Nablus é uma das cidades mais agredidas pela ocupação. Com toda a ocupação servindo como combustível, cresce no seio dessa comunidade também o apoio incondicional à resistência. A “justificativa” para a invasão se faz, principalmente, apoiada na reivindicação pela Tumba de José[2]. Santuário de importância para o monoteísmo, próximo ao Poço de Jacó. Por se tratar de um patriarca a tumba foi ao longo dos anos local de veneração dos judeus, cristãos e muçulmanos. Não há nenhuma evidência arqueológica que estabeleça a tumba como legítima, até mesmo Rabin quando Primeiro-ministro israelense afirmou isso. Os estudiosos modernos afirmam que não existem fontes (judaicas ou cristãs) anteriores ao século V que determinam a veracidade da tumba. Depois que Israel capturou a Cisjordânia em 1967, os muçulmanos foram proibidos de adorar no santuário e ele foi gradualmente transformado em uma sala de oração judaica. A ocupação trouxe muitos assentamentos israelenses para a cidade, estes que já mencionamos são vistos como ilegais pela ONU e a maioria da comunidade internacional, com ressalva, claro, dos Estados Unidos da América. As reivindicações concorrentes de judeus e muçulmanos sobre a tumba tornaram-se frequentes. Embora tenha caído sob a jurisdição da Autoridade Nacional Palestina (ANP) após a assinatura dos Acordos de Oslo, permaneceu sob guarda das IOF. Na década de 1980 os israelenses edificaram um posto militar avançado – semelhante ao que existe em Hebron. Em 1997, os rolos da Torá foram trazidos, o nicho de oração voltado para Meca foi coberto e o local foi declarado uma sinagoga. Nos últimos 20 anos, a Tumba de José serviu como palanque para reivindicação sionista. Atualmente, a cidade está sob jurisdição da Autoridade Palestina, mas a Tumba de José permanece sob controle das IOF, servindo como posto avançado para soldados e colonos lançarem suas incursões contra a cidade e os moradores de Nablus. Andando pelas ruas do mercado da Cidade Velha, também marcado como um dos mais antigos do mundo, pudemos ver que o símbolo de resistência palestina permanece ativo entre os moradores que exibem faixas e homenagens aos mártires palestinos de várias épocas, incluindo os atuais como Ibrahim al-Nablusi; um combatente da resistência martirizado pelo exército aos 18 anos, tornando-se símbolo para a nova geração. No ano passado, seu enterro foi acompanhado por milhares de pessoas. Na semana da morte de Nablusi, milhares de contas em redes sociais de jornalistas palestinos e ativistas internacionais foram bloqueadas por noticiar sobre o assassinado ou prestar homenagens ao mártir. “Eu nem quero dar a eles minhas lágrimas. Ibrahim é um mártir, al-hamdulilah.” Mãe de Ibrahim. Ibrahim Nablusi se tornou combatente da resistência tão cedo quanto sua própria morte. Seu assassinato foi divulgado como uma vitória para Israel contra o terrorismo. Te faço a pergunta: – Se Nablusi que lutava armado contra os soldados de uma ocupação colonial é considerado “terrorista”, por que os jovens que lutam contra os soldados na ocupação da Ucrânia são considerados heróis? Remontando ao passado, George Washington, Dom Pedro I, também lutaram por independência e nunca foram chamados de terroristas, mas sim de patriotas. O mesmo com Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. Ah, quase me esqueci, como não eram brancos, eles também foram chamados de “terroristas”; assim como Nablusi. Nablusi significa “da cidade ‘de Nablus’”. Ibrahim Nablusi nasceu em Nablus durante a Segunda Intifada, um dos períodos mais sangrentos na história palestina. Nablusi tinha o mesmo direito de se defender de qualquer um que lute contra uma ocupação estrangeira. Segundo Jhon Locke: “À doutrina da legitimidade de resistência ao exercício ilegal do poder reconhece ao povo, quando este não tem outro recurso ou a quem apelar para sua proteção, o direito de recorrer à força para a deposição do governo rebelde aos interesses que lhe deram origem. O direito do povo à resistência é legitimo tanto para defender-se da opressão de um governo tirânico como para libertar-se de domínio de uma nação estrangeira.” Jhon Locke Mas não nos baseamos apenas em um dos maiores filósofos da humanidade. O direito internacional reconhece o direito à autodefesa de uma nação contra uma ocupação estrangeira como parte do direito à legítima defesa. Este princípio está consagrado na Carta das Nações Unidas, que afirma o direito inerente de todos os Estados à autodefesa individual ou coletiva contra um ataque armado. Segundo o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas estabelece o direito à legítima defesa está sujeito a certas limitações e requisitos, como a necessidade de que a resposta seja proporcional ao ataque inicial e que seja notificado imediatamente ao Conselho de Segurança da ONU. Além disso, o direito internacional reconhece o direito dos povos à autodeterminação, que inclui o direito à resistência contra ocupações estrangeiras. Amparado pelo direito internacional de autodefesa, Nablus exporta heróis e uma rica cultura de grande importância para a cultura árabe. Todas suas contribuições podem ser encontradas no mercado da Cidade Velha, como a culinária, o vestuário típico, o artesanato e o famoso sabão “Nablusi”, feito com azeite de oliva virgem, exportado para o mundo todo como artigo de luxo. Fomos até o hipódromo enquanto Ruayda fazia a aula do seu curso de doces. Sentamo-nos um pouco no parque próximo ao centro fervoroso da cidade. Assistindo as famílias passeando, crianças brincando em meio aos vendedores de milho e pipocas; a vida quase parece não ser afetada pela ocupação! De certa forma viver o mais normal possível é bem uma maneira de resistir à ocupação. É incrível que em Israel nos sentimos em um clima de tensão o tempo todo. A impressão é que as pessoas estão o tempo inteiro se preparando para “ataques terroristas”, parece que os israelenses não descansam nunca. Já para os palestinos vandalizados diariamente o clima é exatamente outro. Aqui as pessoas sorriem sem se importar com as dificuldades da vida, como se não tivessem medo da incursão que o exército israelense com certeza fará essa noite. Sorrir é resistir! Ficamos pouco no parque, logo a Ruayda nos ligou para retornar e conhecer o chefe de cozinha especialista em doces palestinos. Ela disse que o chefe convidou suas alunas para um almoço e estendeu o convite para nós também. Levantamos e “picamos a mula” sem pensar, nem nos importamos de já ter comido nas barracas do mercado. Quando chegamos o chefe preparou um café “nablusi” e nos mostrou um pouco das massas finas que estava preparando para os doces. O café estava ótimo, mas e o “rango?” Perguntei para Ruayda. Como as mulheres que fazem o curso moram longe e todas precisam pegar a estrada para ir embora “elas cancelaram o almoço”, disse ela. Saímos de Nablus com água na boca, principalmente porque esperávamos uns docinhos feitos pelo chefe. Por sorte, a Ruayda levou a massa para casa e preparou alguns para nós. Já poderíamos ir dormir dizendo que o dia hoje foi completo. Para encerrar o dia em grande estilo, antes de dormir presenciamos a festa da libertação de um prisioneiro palestino de Kobar. Carros escoltaram o ex-prisioneiro, finalmente em liberdade após 15 anos de cárcere. A questão é que os prisioneiros palestinos não são prisioneiros comuns, a grande maioria é encarcerada por resistir contra a ocupação; e quando digo resistir, não estou me referindo a fuzil e luta armada, esses, como Nablusi são mortos à tiros e geralmente seus corpos são retidos pelos israelenses e a casa de seus pais é demolida. Me refiro a participar de alguma organização de defesa dos direitos humanos, ser jornalista, ou mesmo uma criança que atira pedras[3]. Todo palestino detido por Israel é julgado por um tribunal militar, o que deveria ser feito somente em casos excepcionais, mas é o protocolo de segurança desde à ocupação da Cisjordânia em 1967. Na qual ficou estabelecido a Proclamação Militar nº 2, concedendo ao comandante militar da área plenos poderes legislativos, executivos e judiciais sobre os prisioneiros. Existe a chamada “Detenção Administrativa”, na qual, qualquer “suspeito” pode ser colocado em prisão por tempo indeterminado, mesmo sem ter passado pelo devido processo legal. O Estado de Israel alega que as detenções administrativas são estipuladas com base em “provas secretas” que garantem a “segurança nacional”. O sistema de “justiça” de Israel, por si só, viola várias leis internacionais. Seria uma piada se não roubasse longos anos de palestinos que passam vidas inteiras atrás das grades da ocupação. Por isso toda vez que um prisioneiro é solto, a alegria toma conta das ruas. Em Kobar a recepção foi comovente, embora tivéssemos passado um dia calmo e tranquilo em Nablus, fomos dormir com a sensação de que o Estado de Israel não permitiria aquela festa a troco de nada, sabíamos que algo de ruim estava para acontecer. [1] Na guerra de 1967, Israel tomou e ocupou territórios na Palestina, no Egito, no Líbano e na Síria, desde então, promoveu a colonização da área com colônias judaicas; consideradas ilegais por organizações internacionais e pela ONU sob o direito internacional. [2] A Tumba refere-se José filho de Jacó. Não é sobre o pai de Jesus. [3]  Atirar pedras é um crime específico da Ordem Militar 1651 na Lei da Juventude (Cuidados e Supervisão), em que impõem, detenção e multa aos pais do menor.

  • Al-Khalil (Hebron), a cidade palestina do patriarca Abraão

    Um dos lugares mais esperados para conhecermos na Palestina histórica era Hebron (Al-Khalil), na Cisjordânia ocupada, cidade onde o profeta Abraão se estabeleceu conforme a tradição das três grandes religiões monoteístas fundadas na região. “E Abraão mudou suas tendas, e foi, e habitou nos carvalhais de Manre, que estão junto a Hebron; e edificou ali um altar ao Senhor.” Gênesis 13:18 Sabendo que Hebron é uma das cidades palestinas que mais sofre com restrições e ataques das IOF, decidimos ir quanto antes para não arriscar ir embora sem antes vê-la. Saímos do centro de Ramallah em uma van local. A paisagem seria uma das mais lindas, não fosse pelo muro do apartheid, que separa os palestinos em sua própria terra. Alguns garotos sentados atrás de nós, com uma dificuldade tão grande quanto a nossa de falar inglês, arriscaram um “where are you from?”. Essa foi a deixa para começar um diálogo que se estendeu por mais de uma hora com ajuda do Google tradutor. A viagem duraria bem menos caso não houvesse tantos checkpoints israelenses atrapalhando o trânsito. Um dos garotos palestinos, W., se mostrou extremamente interessado em saber sobre o que dois brasileiros estavam fazendo em uma van amarela rumo a cidade de Hebron. Expliquei que queria escrever e fotografar a situação no país, para que outros brasileiros soubessem um pouco mais sobre a Palestina e como vive seu povo. Minha resposta deixou W. e os outros ainda mais interessados em compartilharem suas histórias e seus problemas cotidianos. A certa altura da conversa, os idiomas inglês, árabe e português pareciam um só. Falávamos um idioma universal e a única barreira que tínhamos era o muro ao nosso redor – por sinal, nosso assunto principal. Os jovens palestinos nos mostraram o quão perto Jerusalém é de Hebron, mas que devido ao muro, se torna tão longe, e por vezes, inalcançável. W. nos contou que seus documentos foram apreendidos por soldados israelenses depois de ter sido agredido na porta de sua casa. Justamente por não possuir os documentos, precisa pular o muro para chegar a Jerusalém e orar na Mesquita de Al-Aqsa – entrada clandestina na capital de seu próprio país. W. chegou a nos mostrar o ponto onde ele e os amigos costumam pular o muro. – Gostaria de lembrar, centenas de palestinos já foram baleados, ou mesmo mortos, na tentativa de transgredir essa barreira imposta pelo apartheid israelense. A ocupação israelense na Palestina, sobretudo na cidade de Hebron, é deveras complexa. Tento resumir a seguir. Os Acordos de Oslo[1] entre israelenses e a Autoridade Palestina determinaram que o território da Cisjordânia seria dividido, em tese, em zonas A, B e C: Área A sob administração completa da Autoridade Palestina; Área B, mista entre Autoridade Palestina e o Estado de Israel; e Área C, sob administração completa do estado de Israel. Na prática nada disso deu certo, enquanto os palestinos cediam às concessões acordadas, soldados e colonos sionistas continuaram a tomar e ocupar terras palestinas, muito embora seja considerado ilegal pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela maior parte da comunidade internacional. Hebron recaiu entre a Área B e a Área C. Os assentamentos ao redor da cidade abrigam uma das comunidades judaicas mais extremistas e violentas instaladas em terras palestinas: Kiryat Arba. Com uma população de oito mil israelenses essa comunidade serve como posto avançado do exército israelense dentro da Palestina, onde soldados podem exceder até mesmo o número de colonos – também fortemente armados. Assim que chegamos, W. se ofereceu para ser nosso guia. Nos convidou para comer falafel e tomar chá – quando fui pagar a conta, W. já havia feito. O jovem de 19 anos nos convidou para conhecer sua casa e sua mãe e ficou bastante surpreso e satisfeito quando concordamos. Da casa de nosso anfitrião foi possível ver toda a cidade de Hebron e como as bandeiras israelenses tremulam no topo das bases militares espalhadas pela cidade palestina. Depois de tomarmos um café com W. e sua mãe, caminhamos por entre as oliveiras centenárias até a Cidade Velha. Cruzamos com alguns soldados pelo caminho. Para nosso novo amigo o risco de que algum daqueles soldados o prendesse por não ter seus documentos era enorme, então ele caminhou conosco apenas até certo ponto da Cidade Velha. Passando por alguns checkpoints, com grades, roletas, câmeras de vigilância e soldados armados até os dentes, chegamos à rua do mercado velho – um dos maiores do Oriente Médio, em uma das cidades mais antigas do mundo – o qual evidencia a face hedionda da ocupação. A constante presença do exército israelense, a humilhação e a violência que estes causam aos palestinos, tudo isso levou muitos comerciantes a se retirarem do local, motivo pelo qual muitas lojas permanecem vazias até hoje. As lojas que resistiram abertas possuem uma tela de proteção como cobertura para evitar que o lixo jogado de cima pelos colonos atinja trabalhadores e suas mercadorias exibidas na rua. Manter o comércio nessas condições, olhando para cima daquelas telas e vendo aquele monte de lixo acumulado sobre suas cabeças é revoltante e me fez pensar: Que tipo de ser é capaz de jogar lixo em pessoas que estão tentando sustentar suas famílias? Ou como nomear alguém que atira ovos, urina e fezes em cima dos outros? Olhando para os velhos com seus keffiyehs pela rua do mercado, ou para os comerciantes mais jovens, tive a sensação de que trabalhar naquele mercado e naquelas condições é a mais pura maneira de dizer para ocupação israelense que a resistência palestina permanece viva e forte. Como W. nos disse, “cada vez que os israelenses demolem uma casa, eles abastecem com pedras a resistência palestina.” Sob a mira dos fuzis que só são abaixados quando a câmera de um estrangeiro se levanta, sentimos um pouco do medo de que as crianças palestinas sentem todos os dias para ir à escola, como um grupo que vimos a nossa frente. A ocupação é o nível mais baixo da podridão humana, Hebron é a cidade que evidencia essa faceta. Após cruzar o mercado, passando pela rua dos mártires, chegamos a nosso destino: o Túmulo dos Patriarcas, conhecido em árabe como Mesquita Abraâmica. Esse complexo religioso, abriga o Túmulo de Abraão e o local de sepultamento de seus filhos e esposas. Trata-se de um lugar sagrado para as três religiões monoteístas, já que Abraão é considerado o “pai de todas as nações”. Esse templo, não obstante, guarda uma memória ainda mais cruel do que o arremesso de lixo que presenciamos no caminho. Em 1994, logo após a divisão dos territórios, o supremacista americano judeu e naturalizado israelense, Baruch Goldstein entrou armado na mesquita e esperou até que os muçulmanos se prostrassem com as cabeças no chão, em posição de prece, para disparar contra eles. Goldstein assassinou 29 palestinos e baleou outras 125 pessoas. O atentado desencadeou uma série de respostas e tréplicas. O atentado terrorista do americano-israelense visava afetar as negociações de paz entre a Autoridade Palestina e o governo do Estado de Israel. A situação que já estava ruim, pioraria e muito. No ano seguinte, o Primeiro-ministro Rabin participou de uma manifestação em massa na Praça dos Reis de Israel (agora Praça Rabin) em Tel Aviv, organizada para promover a paz entre israelenses e palestinos, mediante aos Acordos de Oslo. Quando a manifestação terminou, Rabin desceu os degraus da prefeitura em direção à porta aberta de seu carro, momento em que Yigal Amir – outro israelense que discordava da paz com os palestinos – disparou três tiros assassinando o Primeiro–ministro. Com Rabin assassinado estava posto também uma pedra sobre as negociações de paz com os palestinos. Nenhum dos Primeiros–ministros que sucederam a Rabin optaram por negociações com a Autoridade Palestina. Instalado o caos, os sionistas impuseram uma nova subdivisão a uma cidade já dividida. Hebron seria novamente segmentada em zonas H1 e H2: um lado para os muçulmanos, outro para os judeus. O mesmo foi imposto ao Túmulo dos Patriarcas. Estar em Hebron e ver com os próprios olhos o que é a colonização é ainda mais devastador do que podemos descrever. Antes de adentrar ao templo sagrado, um soldado que apontava um fuzil na altura de nossos estômagos me perguntou se eu carregava uma faca. Fiquei indignado, mas respondi obviamente que não. Passando pela catraca, uma outra soldada – de no máximo 20 anos – nos perguntou, da forma mais arrogante possível, o que iríamos fazer ali e qual era nossa religião. Gostaria do fundo do coração de dizer a verdade, ou no mínimo dar uma boa resposta, mas me fiz de idiota mais uma vez ao afirmar que sou cristão e insistir que Abraão estava na Bíblia. No Túmulo dos Patriarcas, centenas de muçulmanos oravam e prestavam respeito ao mortuário daqueles que foram os primeiros personagens do monoteísmo. Contudo, a maioria ali presente era de estrangeiros, pois o Estado de Israel mantém seus cães de guarda na porta do santuário universal, não para garantir que outro Goldstein repita seu massacre, mas para reprimir e humilhar os palestinos – sobretudo as mulheres. O que acontece em Hebron é indigesto, repugnante e faz qualquer um questionar a própria humanidade. Ainda hoje a cidade é um dos alvos mais atingidos pela ocupação israelense. Ano após ano, jovens como W. são agredidos e assassinados por colonos ilegais que vieram de qualquer parte do mundo para viver na Terra Santa; quando não, esses jovens são presos, torturados e assassinados pelos soldados israelenses. Como todos os outros templos e santuários reivindicados pelo Estado de Israel, a Tumba dos Patriarcas serve como uma desculpa religiosa para dar legitimidade ao que realmente os interessa: tomar e ocupar mais território. Como alguém que não possui uma religião, não consigo compreender bem os limites da fé. Deixo para você leitor a pergunta: – Entrar armado em um templo e promover um massacre contra fiéis de costas e abaixados em oração tem algo a ver com religião? – Será que Deus seria conivente com tal crime? Antes de ser assassinado por outro judeu, Rabin considerou que não ter fechados os assentamentos de Hebron, foi um de seus maiores erros políticos, ele chegou a se referir aos colonos como “câncer” para a sociedade israelense. Durante o governo Rabin, a maioria dos israelenses apoiava a retirada dos colonos de Hebron, a situação atual é bem diferente. [1]Os acordos de Oslo foram uma série de acordos na cidade de Oslo, na Noruega, entre o governo de Israel e o Presidente da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Em 1994, ano após a assinatura dos acordos, o então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, o ministro israelense de relações exteriores Shimon Peres e Yasser Arafat, o presidente da OLP, receberam o Prêmio Nobel da Paz.

  • Atravessando o muro do apartheid israelense para entrar na Palestina

    Ir e vir é um direito inerente a todo ser humano, pelo menos é o que diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos[1]. Há um ano estávamos em um sebo na cidade de Santos planejando com Jehad a nossa viagem para Palestina. Ontem, quando vimos pela primeira vez o muro do apartheid e cruzamos pelo nosso primeiro checkpoint[2], vimos um pouco do que Jehad enfrentou boa parte de sua vida. Saindo de Jerusalém subimos em um transporte público em direção à Ramallah. Mesmo se optássemos por um táxi, seria uma dor de cabeça encontrar um que pudesse atravessar o checkpoint. Os motoristas e carros com placas de Israel preferem não circular pela Palestina, mesmo que o único impedimento para isso sejam enormes placas vermelhas indicando (em três idiomas) que os palestinos são uma ameaça às suas vidas; – Nem preciso dizer quem é a real ameaça aqui, né! Já os motoristas e carros com placas palestinas, a maioria, não pode trafegar pelas ruas do estado israelense. Sendo assim o ônibus foi a melhor opção. Quando chegamos perto do muro vimos que aquela aberração não serve ao propósito de “segurança”, ele serve para oprimir e humilhar o povo palestino. Chegando ao primeiro checkpoint vimos soldados fortemente armados, uns escondidos atrás de barreiras de concreto, outros parando indiscriminadamente os motoristas; fossem homens, mulheres ou idosos. É desesperador ver um jovem soldado humilhando um senhor que bem poderia ser seu avô. É imensurável o número de casos de assassinatos e outras violações cometidas nesses muros e checkpoints. Às vezes os soldados costumam fechar um ou outro, uma forma de punição coletiva[3] que obriga os motoristas a esperarem horas na estrada ou mudar seu caminho para um destino mais longo. Gostaria de filmar e fotografar aquela cena vulgar, mas estávamos em um transporte público e acabei recuando com medo de prejudicar os palestinos que estavam no ônibus. Foi assistindo aquela depravada composição que aprendemos que o lindo conceito iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade só serve aos propósitos do colonizador. Isso serve para assimilar que aqui o direito de ir e vir não se aplicava ao Jehad como se aplica para nós, mesmo sendo ele filho dessa terra e nós, tão estrangeiros quanto aqueles soldados armados. Este muro expõe de forma nua e crua a face de um regime racista e assassino. Vou tentar explicar sobre a construção deste muro de forma simples. Imagine que você mora em um bairro muito próximo ao bairro onde moram seus pais, amigos, até mesmo o amor de sua vida. Seu pai possui um lote de terra que usa para plantação próximo à sua casa. Suas verduras ajudam a sustentar sua família. Você trabalha ou estuda bem perto, a 200m da sua casa. Um dia você acordou e encontrou um papel colado no poste, por estar em outro idioma, você não conseguiu ler o que estava escrito e, ainda pior, estava escrito em japonês, com caracteres que você nem conhece. Imagine agora que de uma hora para outra, o prefeito da sua cidade decide classificar o seu bairro como um perigo para o bairro onde mora sua família, seus amigos, e seu amor. No mesmo bairro que você e milhares de outras pessoas estudam ou trabalham. De repente você acorda um dia para trabalhar e encontra em frente à sua casa um muro de concreto com 8 metros de altura separando o seu bairro do restante do mundo. Para ir ao trabalho ou ver as pessoas que ama você precisa ir até uma passagem controlada pela polícia, não obstante, você ainda precisa ter uma autorização prévia emitida pelos militares para poder atravessar. Para agravar a situação, o posto policial mais próximo fica a 20 quilômetros da sua casa. Aqueles 200 metros até o trabalho, que antes você faria a pé, se tornou uma viagem de 40 km para ir e mais 40 km para voltar. Você descobre que aquele papel no poste era um comunicado oficial avisando sobre a construção do muro e dando sete dias para os moradores recorrerem da decisão na justiça. Outro detalhe, seu pai “já senhor”, deveria fazer o trajeto inverso ao seu, e nem poderia ir e vir para sua própria plantação, pois, para os agricultores o portão só é aberto duas vezes por dia, uma vez para entrarem e outra para saírem. Este cenário parece bizarro para você? Foi exatamente o que Israel fez nas aldeias de Chiyah, El-Azariyeh e Ras al-Amud em 2002, e que agora se estende por mais de 700 km por dentro da Palestina. Em 2001 o Primeiro-ministro Ehud Barak (Partido Trabalhista) apresentou ao Knesset essa proposta de segurança para a população israelense. Sua ideia consistia em uma barreira entre os territórios palestinos e israelenses, as obras foram iniciadas pelo sucessor Ariel Sharon (Likud). Ao sul do monte das Oliveiras, as vilas de Chiyah, El-Azariyeh e Ras al-Amud, perto de Jerusalém, foram os primeiros a presenciar a construção do que os palestinos batizariam não muito depois de “O Muro do Apartheid”. – Sabe o que incomoda muito? – Todas às vezes que se fala de muros e violações ao direito de ir e vir, o muro de Berlim é evocado. Vez ou outra alguém diz na televisão que precisamos construir mais pontes e menos muros, e a imagem que aparece é sempre a da queda do muro de Berlim, uma visão quase romântica da tragédia alheia. – Por que nunca vemos falar de opressão usando as imagens de um Muro que está de pé? O muro de Berlim tinha 4,2m de altura e 155km de comprimento; já o muro israelense chega a 9m de altura e sua extensão é quase 7 vezes maior. – Não seria esse um ativismo dissimulado? – Por que não damos nomes as coisas como elas realmente são? Como o mundo comemora a queda do muro de Berlim enquanto permite que Israel continue construindo muros dentro do território palestino? – Por que não usamos o muro que está de pé para ilustrar o que significa a subjugação de um povo pelas mãos de um regime racista e opressor que também continua de pé? Nosso amigo Jehad é um palestino cujos avós foram expulsos de suas casas durante a Nakba. Há alguns anos ele vive e trabalha no Brasil. Quando estávamos nos organizando a respeito desta viagem percebemos como é obsceno como o Estado de Israel viola o direito de ir e vir dos palestinos diante dos olhos da comunidade internacional, que assiste essas e outras violações de camarote. “Sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos.” Nelson Mandela Como brasileiros, não havia nada que nos impedisse de comprar um voo direto para Tel Aviv (território que Israel roubou da Palestina logo nos primeiros anos de ocupação sionista), assim o fizemos. Compramos uma passagem de Istambul direto à Tel Aviv. Já para o Jehad, que assim como seus pais e avós, nasceu na Palestina, a viagem não poderia ser feita dessa maneira. Como palestino, ele não tem liberdade para entrar no território que Israel roubou para sua capital, posto isto, seu acesso ao aeroporto Ben-Gurion não existe. Jehad, como todos os outros palestinos do mundo, para entrar em seu próprio país teria que pegar um voo até a Jordânia e de lá atravessar pela fronteira terrestre com a Palestina, que também é controlada pelo exército israelense. – Por que Jehad não pega um avião direto para Palestina? – Porque o único aeroporto na Palestina, que ficava na Faixa de Gaza, foi bombardeado em 2014; qualquer outro aeroporto que os palestinos construíssem após, também seria bombardeado. Graças a violação do Direito de ir e vir, não poderíamos entrar todos juntos na Palestina. Nosso amigo, mesmo sendo palestino, não tem autorização para circular nos territórios ocupados por Israel. No fim das contas, acho que pensando em toda a dificuldade e o gasto muito maior para se chegar até a casa de seus pais, ele decidiu ficar no Brasil. Atualmente Jehad está em processo de conseguir a cidadania brasileira, o que não quer dizer que poderá entrar em Israel, mesmo que pudesse, Jehad é um palestino consciente da ocupação de seu país e jamais aceitaria qualquer favorecimento que indicasse sua aceitação ao Estado de Israel. “Eu jamais aceitaria qualquer coisa de Israel, porque se eu aceitar, isso quer dizer que aceito a ocupação deles na minha terra, e isso eu me recuso. Mesmo que eu pudesse usar o aeroporto Ben-Gurion, não usaria, isso seria uma traição à memória dos palestinos como meus pais e meus avós.” Jehad Afaghani Para o amigo Jehad! [1] Art.13 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a esse regressar. (ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948) [2] Postos de controle israelenses que controlam entradas e saídas de palestinos; são barreira físicas guardadas pelas Forças de Ocupação Israelense (IOF), fazem parte do sistema de bloqueio da Cisjordânia e Faixa de Gaza. [3] Punição coletiva é a punição aplicada a todo um grupo de pessoas, em razão da conduta de um ou mais indivíduos desse grupo, com base na generalização da culpa (culpa coletiva), ou em razão das ações de um outro grupo, sobre o qual o grupo castigado não tem controle direto. Segundo a Convenção de Genebra (1949), relativa à proteção de civis em tempo de guerra, as punições coletivas são consideradas crimes de guerra; uma vez que não pode haver ‘responsabilidade vicária’, mesmo que por crimes alheios.

  • A Mesquita Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islã

    Conseguimos entrar na Esplanada das Mesquitas, na cidade ocupada de Jerusalém. Não pudemos acompanhar os palestinos no mesmo horário, como gostaríamos. Porém, entramos. O que acontece na Palestina sob ocupação militar israelense não é uma guerra religiosa – como nós brasileiros tendemos a acreditar. O que acontece é ocupação e colonização sionista, cujo termo mais inteligível sobre os fatos talvez seja apartheid. Passamos por soldados israelenses fortemente armados que controlam a entrada da Esplanada das Mesquitas. Enquanto a mochila com os passaportes passava pelo raio X, éramos revistados por tropas policiais da ocupação israelense. Como se já não fosse estranho que colonos judeus controlem o acesso a um local islâmico, um deles me perguntou ainda por que eu queria visitar o “Monte do Templo” já que eu mesmo não sou muçulmano. Pensei em responder: “Pelo mesmo motivo que visitei o Muro das Lamentações sem ser judeu, o rio Ganges sem ser hindu, ou a Basílica do Santo Sepulcro sem ser cristão”. No fim das contas achei melhor evitar confusão e indagar apenas “por que não?”, e o soldado tampouco quis se estender. Para acessar à Esplanada das Mesquitas, cruzamos por uma passarela de madeira improvisada por cima do Al-Buraq, ou muro externo da Esplanada, – provavelmente você deve conhecer melhor se disser, Muro das Lamentações. Em 2021, logo no primeiro dia do período do Ramadã, época que os muçulmanos de todo mundo se reservam em observação da fé, o Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu autorizou a invasão do complexo da Esplanada das Mesquitas onde se encontra a mesquita Al-Aqsa. Nesse período os muçulmanos se reservam à prática da “maior Jihad”, expressão que ressalta a importância do fiel em elevar seu espírito acima de suas próprias vontades, através da observação de práticas religiosas que compreendem caridade, fraternidade, estreitamento dos laços familiares, leituras corânicas individuais ou em grupo e, o mais importante, o jejum praticado desde o alvorecer e encerrado com entes queridos ao se pôr de cada dia. Com o ataque autorizado, os policiais arrombaram as portas do minarete e cortaram os fios dos alto-falantes, reprimindo o chamado para oração noturna. Os muçulmanos também foram impossibilitados de distribuir as refeições de quebra do jejum. Conforme o Reino da Hachemita da Jordânia, que detém a custódia como parte de um acordo bilateral e é responsável pelo controle e segurança do local, o ataque à mesquita foi uma violação grave ao direito internacional de liberdade de religião dos muçulmanos. Após a profanação do local que é restrito aos muçulmanos, o Sheikh Muhammad, Grande Mufti de Jerusalém pediu aos religiosos de todo o mundo para interceder contra as violações praticadas contra os muçulmanos e a mesquita Al-Aqsa. A fim de repelir mais ataques contra o local ele também pediu a intensificação da presença dos palestinos na mesquita. Muçulmanos atenderam ao chamado, assim como árabes-cristãos que prestaram sua solidariedade. Os ataques não foram repelidos, continuaram ao longo do mês gerando ainda mais manifestações. Cristãos juntaram-se aos muçulmanos em defesa da mesquita. Na investida contra as manifestações populares e suas repercussões internacionais, o governo israelense, alegando contenção do avanço da covid-19 proibiu milhares de palestinos da Cisjordânia de entrarem no complexo da Esplanada das Mesquitas. As agressões durante o Ramadã de 2021 se repetiram em 2022, ainda com mais violência. Dias antes do de iniciar o mês sagrado, grupos judaicos publicaram um chamado nas redes sociais convocando os judeus para invadirem a mesquita durante o feriado de Páscoa e oferecer sacrifícios animais. Os muçulmanos pediram para que organizações de países árabes se manifestassem para evitar a profanação. Novamente policiais do governo de Israel invadiram a esplanada disparando balas de borracha, granadas de gás, e agredindo os fiéis com cassetetes. Aproximadamente 30 mil muçulmanos estavam presentes naquela manhã, mais de 400 pessoas foram presas por tentar defender a mesquita e a liberdade de culto. Segundo as autoridades israelenses os palestinos fizeram um cordão de isolamento para impedir o avanço das forças policiais, a polícia informou que os palestinos na barricada estavam armados com fogos de artifício. Mas tudo isso aconteceu longe dos olhos dos turistas, já que é proibido entrar na Esplanada das Mesquitas no mesmo horário que os palestinos. De certa maneira os turistas também são intimidados. Assim que entramos no pátio da Esplanada, por um ato automático, dei a mão para Di. No Islã não existe nenhuma regra para que um casal não dê as mãos; contudo, um dos policiais – faço questão de reforçar, israelense e não-muçulmano – nos repreendeu grosseiramente. De modo algum queríamos desrespeitar qualquer local sagrado, religião ou aqueles que a praticam, mas achamos absurdo que alguém tão estrangeiro como nós, que tampouco pertence àquela fé, nos chamasse a atenção enquanto muçulmanos que caminhavam ao nosso lado não se mostravam nada ofendidos. Percebemos que a forma com que os israelenses gritam com as pessoas serve justamente para constranger os visitantes, a fim de oprimi-los para que logo se retirem do local. Sendo assim, a mera permanência apesar do assédio a todo momento é uma maneira de resistir e demonstrar solidariedade à causa palestina – e assim o fizemos. Em frente ao Domo da Rocha paramos para fotografar. A Di levou um lenço com tramas preto e branco semelhante – e apenas semelhante – ao keffiyeh[1] palestino, mas estava tão quente que ela o amarrou na mochila. Eu lhe pedi para que fizesse uma foto minha, cerrei o punho em sinal de resistência, como fez Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano (CNA)[2] contra o regime de apartheid na África do Sul; como fez Malcolm X na luta contra as leis segregacionistas nos Estados Unidos; e como nós brasileiros fazemos contra o racismo em nosso país. Imediatamente outro policial gritou comigo para me coibir de uma foto ali em “pose de resistência”. Fingi não escutar e ele repetiu seus berros umas três vezes, mas permaneci até que a Di tirasse a fotografia. Em português, pedi a Di que preparasse outro retrato, olhei para o policial, pedi desculpa como se nada tivesse acontecido e mudei de pose: agora com os dedos em “V” de vitória – em alusão à pose tradicional de Yasser Arafat e dos palestinos que lutam contra a ocupação sionista. Posso imaginar o que passou pela cabeça daquele soldado, mas não esperamos para saber e seguimos a visita. Ainda na Esplanada caminhamos até a Mesquita Al-Aqsa. Sabíamos, claro, que não permitiriam a nossa entrada – mesmo assim, tentamos. Outro soldado saltou a frente. Chega a ser cômico como pensam que somos todos surdos, porque mesmo a uma distância de um braço, aquele homem achou que era imprescindível gritar. O “bem-educado” insistiu que a passagem ali era autorizada apenas aos muçulmanos. Novamente pensei: “Então, o que faz aqui um israelense judeu?”. Por óbvio, caso assim respondesse, a visita seria cancelada e seríamos retirados à força do local. Adotamos novamente a cara de “turista idiota” para evitar um confronto que não venceríamos. Vamos novamente esclarecer uma coisa para reforçar a ideia. Quando me refiro a “israelenses judeu”, o faço, pois é justamente a maneira como escolheram para descrever o Estado autoproclamado, a mesma maneira que usam para discriminar a própria população. Jerusalém é pauta principal nas negociações entre israelenses e palestinos. Ambos reivindicam a cidade como capital de seu Estado. Em 29 de novembro de 1947 a Organização das Nações Unidas (ONU) recomendou que todo o território – a Palestina histórica, antes sob Mandato Britânico – fosse dividido em dois: um lado para os judeus, outro para os árabes (muçulmanos e cristãos). A mesma resolução (181) recomendou ainda que Jerusalém ficasse como corpus separatum, ou seja, administrada pela ONU sob regime internacional. A recomendação da partilha deu vazão para que imigrantes europeus se assentassem na Palestina, incluindo Jerusalém, expulsando a população nativa e executando aqueles que resistissem. O processo culminou na criação do Estado de Israel em maio de 1948, evento conhecido em árabe como Nakba ou “catástrofe”, cujos esforços de limpeza étnica resultaram na então expulsão de 800 mil palestinos de suas casas. Com mais da metade da Palestina tomada a força em 1948, faltava pouco para obter controle total do território. Durante a guerra de 1967, os israelenses ocuparam o que faltava, obtendo controle de toda Palestina, incluindo a cidade de Jerusalém, e também de países vizinhos como: Síria, Líbano, Jordânia e Egito. Com toda região sob controle israelense, o próximo passo era expulsar a população palestina e judaizar integralmente a cidade. Este processo é parte da limpeza étnica que Israel promove até hoje em toda a Palestina, incluindo esforços para apagar ou eliminar a identidade cristã e islâmica da cidade sagrada. Em 1980 Israel anexou toda Jerusalém, ao declará-la capital de Israel. A ONU voltou a protestar e reiterou através da Resolução 476 que toda e qualquer anexação era ilegal segundo o direito internacional. Mesmo sob as notas de repúdio da comunidade internacional, Israel manteve sua tomada à força do território palestino. Em 2018 uma nova lei aprovada pelo Knesset israelense (parlamento) definiu o país como exclusivamente judaico e reafirmou sua reivindicação ilegal sobre Jerusalém como suposta capital. Tudo que relatei trata-se de um resumo, grosso modo, das atrocidades cometidas para chegar ao resultado que presenciamos na Cidade Santa. Essas agressões mencionadas não foram exclusivas. A organização Rabbis for Humans Rights (Rabinos para Direitos Humanos) denunciou 43 ataques contra igrejas, mesquitas e mosteiros em Israel, Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental somente no período de 2009 a 2015. A situação se agravou em 2022 devido à coincidência no calendário das três religiões monoteístas, tornando um dos anos de maior violência. Estima-se que durante o período do último ramadã, mais de 3.600 judeus invadiram o complexo da Esplanada das Mesquitas em 23 ataques diferentes. Embora a questão seja política, de caráter colonial, o papel da religião tem de ser esclarecido, até porque os documentos de identidade de Israel especificam a religião de seus cidadãos a fim de discriminá-los. No entanto, criticar as políticas coloniais de Israel não equivale a antissemitismo[3]. Sabendo que comentários posteriores às atrocidades do Holocausto nazista e dos pogroms perpetrados na Europa poderiam soar como discriminação antijudaica, o sionismo se apropriou deste argumento para difamar os opositores a suas práticas de apartheid. É deste mesmo modo que se “justifica” que um policial israelense não-muçulmano controle quem entra e sai de um lugar sagrado para o islamismo – e até mesmo como se posa para as fotos naquele local. [1] Tradicional lenço palestino. As cores e as tramas simbolizam as regiões tribais ou as aspirações políticas de seu usuário. [2] CNA é um partido político sul-africano. Foi fundado em 1912, na cidade de Bloemfontein, com a proposta de advocar os direitos da população negra do país. Desde o fim do regime conhecido como apartheid, em 1994, o CNA é o principal partido político da África do Sul, sendo apoiado pela aliança com Congresso dos Sindicatos Sul-africanos e o Partido Comunista Sul-Africano. Nelson Mandela foi a figura mais influente do partido, assim como de todo o continente africano. [3]  palavra semita deriva da expressão bíblica que se refere a linhagem de descendentes de Sem, filho de Noé. O termo semita é designado para povos do Oriente Médio que compartilham conjuntos linguísticos, entre os quais se destacam os árabes, portanto, palestinos. “Antissemitismo é o preconceito, hostilidade ou discriminação contra judeus, apesar de não serem o único povo semita, já que os árabes também tem origem semita.”

  • O regime Corpus Separatum de Jerusalém

    Diferente da noite anterior, hoje não nos deixaram chegar nem perto para observar as orações no Al-Buraq (muro das lamentações para os israelenses). Logo acima do muro está a Esplanada das Mesquitas e mesquita Al-Aqsa, local que os colonos sionistas insistem em chamar de “Monte do Templo”. A Esplanada das Mesquitas é um dos pontos de nosso maior interesse na cidade, mas os soldados israelenses que guardam suas entradas não nos permitiram entrar. Tentamos pelos portões de acesso dos fiéis muçulmanos duas vezes, mas os soldados israelenses – não eram poucos – voltaram a nos impedir. Na tentativa derradeira, o soldado afirmou que não poderíamos entrar porque não éramos muçulmanos; eu lhe perguntei como poderia saber, mas saímos para evitar um tumulto e tentar novamente na manhã seguinte. “O que é odioso para você, não faça para seu próximo” (Judaísmo) “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você.” (Cristianismo) “Nenhum de vocês é crente até que deseje para seu irmão o que deseja para si mesmo.” (Islamismo) É bizarro que nos territórios controlados pelo Estado de Israel eu tenha que mentir sobre uma religião que nem tenho para poder entrar em algum templo religioso que também não pertence a religião do soldado que o controla. Ainda mais bizarro é um ateu olhar para um soldado que veio de algum lugar do mundo para morar na “Terra Prometida”, e saber que apesar de ele estar usando o quipá, ele acredita muito mais na segurança de seu fuzil que na provida por Deus. A hipocrisia dos fanáticos religiosos, seja lá qual for a religião, me incomoda profundamente. Vou explicar uma coisa; o conceito de que “Deus” prometeu uma terra para o “povo de Israel”, não se sobrepõe aos direitos humanos, muito menos se o “povo escolhido” quer tomar terras à força, prendendo, torturando e matando qualquer um que se atreva a se opor às suas vontades nefastas. Ainda mais se o argumento usado para isso é puramente raso e não possui nenhum fundamento religioso. Termos empregados puramente como propaganda sionista que caminham na contramão do judaísmo. E nem sou eu que estou falando. Atualmente existem muitas organizações judaicas de oposição ao sionismo em diversas partes do mundo. A Rede Judaica Antissionista Internacional (IJAN) afirma que o sionismo é um movimento racista e o Estado de Israel um regime de Apartheid. Grupos como a IJAN afirmam que não existem argumentos no judaísmo para o “retorno”, pelo contrário, as leis judaicas contidas no Talmude e outros livros sagrados afirmam que os judeus são proibidos de retornar para Terra Santa até a vinda do Messias. Um dos grupos judaicos antissionistas de maior destaque é o Neturei Karta (‘Guardiões da cidade’ em aramaico). Formado por judeus húngaros e lituanos que se estabeleceram na Palestina no início do século XIX (antes das primeiras imigrações sionistas), seus fundadores ajudaram a comunidade palestina de Jerusalém na fundação de novos bairros para aliviar a superlotação da Cidade Velha[1]. Quando os primeiros sionistas imigraram, quase um século após o estabelecimento do Neturei Karta, estes se opuseram afirmando que a redenção judaica só poderia ser realizada de maneira divina e não pelas mãos humanas do sionismo. Atualmente com associados em Israel, EUA, Inglaterra e outros países o grupo de judeus ortodoxos se opõe ao sionismo pedindo pelo “desmantelamento pacífico” do Estado de Israel e expressa apoio à libertação da Palestina. O grupo também afirma que o sionismo (não o judaísmo) foi uma das causas que provocou o holocausto nazista. Na opinião dos rabinos do Neturei Karta, “o sionismo é uma presunçosa afronta a Deus” e que “as tentativas humanas de estabelecer a soberania judaica sobre a Terra de Israel são pecaminosas”, a qual se opõe ao conceito dos Três Juramentos contidos no Talmude babilônico. A Lei dos Três Juramentos foi um pacto entre Deus, o povo judeu e as nações do mundo, estabelecida quando os judeus foram enviados para o exílio. Para os Judeus: não reclamar à força a Terra de Israel e não se rebelar contra as outras nações. E para as outras nações: não subjugar excessivamente os judeus. Ao se rebelar contra esse pacto, os rabinos ortodoxos do Neturei Karta afirmam que os sionistas estão se rebelando contra Deus. Organizações como o Neturei Karta, o Edah HaChareidis[2] e outros, em Israel e no exterior, geralmente pertencem à segmentação filosófica Haredi[3], na qual rejeita a participação na política. Após a “independência” de Israel, o judaísmo Haredi se caracterizou por sua oposição ao sionismo e ao estabelecimento do Estado de Israel; em sua maioria não celebram Yom Ha’Atzmaut (Dia da Independência de Israel) ou quaisquer outros feriados instituídos pelo estado. Os seguidores do judaísmo Haredi que não se consideram sionistas se enquadram em dois campos: não-sionista e antissionista. Antissionista: que constituem a minoria, acreditam que qualquer independência judaica antes da vinda do Messias é um pecado. Não-sionista: se opõem a Israel como um estado judeu independente, os que o consideram positivo não acreditam que tenha qualquer significado religioso. Embora sejam minorias presentes no Estado de Israel, os judeus antissionistas e não sionistas não pertencem aos principais partidos políticos, naturalmente, não possuem o apoio em números para eleger um governo majoritário porque devido à Lei de “retorno” de 1950 que deu o direito de qualquer pessoa do mundo, mesmo que não seja judeu ou religiosa, retornar para onde nunca esteve. Lastimavelmente, o mesmo direito não se aplica aos 5,8 milhões de refugiados palestinos que esse sistema de limpeza étnica promove há pelo menos um século. Desta maneira, o direito de retorno para Israel é tão incompatível com sua alegação, quanto o sionismo é incompatível com o judaísmo. Caminhamos pelo bairro muçulmano, comemos o melhor falafel do mundo. Conversando com o palestino que preparou nosso falafel e nos recebeu com característica hospitalidade, falei que fomos impedidos de entrar na Esplanada das Mesquitas. Ele nos convidou a acompanhá-lo no dia seguinte, mas, infelizmente os palestinos não podem entrar na esplanada no mesmo horário que os turistas. Uma maneira que Israel encontrou para violar os direitos humanos dos palestinos sem cometer o erro de um tiro perdido atingir um turista. Seguindo nossos planos caminhamos pela Via Dolorosa[4]. Entramos em cada igreja que marca os principais pontos do percurso de Jesus para a crucificação. De todo trajeto o ponto que mais nos impressionou foi o calabouço onde Jesus foi encarcerado após ser condenado por Pilatos. O local é sombrio e claustrofóbico, mas de uma forma inexplicável (pelo menos para um ateu), causa uma certa sensação de conforto. No momento que entramos nesse calabouço que hoje é uma igreja, estava acontecendo um culto ortodoxo. Alguns poucos cristãos entonavam um cântico (talvez em grego) que acabou dando tom à visita. Descemos até o subsolo. A aparência de caverna muda completamente e a sensação de conforto dá lugar ao sentimento de agonia. Em uma das celas escavadas na rocha vimos um altar de pedra com dois buracos, acima uma imagem de Jesus sentado com as pernas presas naqueles buracos. Estávamos sozinhos nesse momento, apesar de estar abaixo do solo podíamos ouvir o som dos cânticos de oração. A Di acendeu uma vela e subiu rapidinho. Não ficamos muito por ali e resolvemos seguir em frente. Finalmente chegamos à Basílica do Santo Sepulcro, onde Jesus foi sepultado e ressuscitou. A igreja estava lotada. A cotoveladas, cristãos de todos os cantos do mundo disputavam os centímetros da basílica, em particular, o Altar da Crucificação e a Pedra da Unção. Ortodoxos, católicos apostólicos romanos, coptas e outros – cada qual a seu modo – entoam orações e cânticos. É difícil caminhar pela Igreja, afinal este local é considerado sagrado por todas as vertentes do cristianismo. Romanos, ortodoxos gregos, ortodoxos orientais, protestantes e há ainda os muçulmanos e, ateus como eu, todos juntos dividindo suas orações, rituais, crenças e fé. Nesta igreja há uma cerimônia específica a qual me interessei muito. O patriarca ortodoxo, sob os olhos atentos de autoridades judaicas, para garantir que não haja nenhum artifício de combustão, adentra sozinho no Santo Sepulcro. O sacerdote aguarda quieto na antecâmara – no mesmo lugar onde o anjo esperou Maria Madalena para lhe revelar a ressurreição – e sai apenas quando as 33 velas se acendem espontaneamente. Durante o milagre, no “Sábado de Aleluia” do ano passado, um dos dias mais santos para o cristianismo, o governo israelense solicitou as autoridades das Igrejas Católica Romana, Católica Ortodoxa e Apostólica Armênia que restringissem o número de visitantes e peregrinos à Igreja do Santo Sepulcro durante o feriado. Os policiais israelenses tentaram dificultar o acesso da multidão e houve conflitos do lado de fora do local do sepultamento de Jesus, mas, após horas de espera, o Patriarca de Jerusalém conseguiu realizar a cerimônia do Fogo Santo e abriu os portões aos fiéis. Líderes palestinos no Knesset disseram que o Primeiro-ministro Naftali Bennett e Omer Ber-Lev, Ministro do Interior, estavam cometendo uma “violação flagrante à liberdade de culto” e iniciando um novo capítulo contra palestinos. A Igreja do Santo Sepulcro é uma experiência única na vida. Não sei se existe outro lugar no mundo com tanta concentração de pessoas que acreditam em dogmas diferentes acendendo uns as velas dos outros e repassando-as pela multidão. “Impossível não se emocionar no local mais importante do cristianismo. Na Igreja do Santo Sepulcro, onde pude sentir com as mãos e coração a santíssima Pedra da unção, a pedra memorial do ritual judaico, onde foi realizada a unção de Jesus Cristo antes do seu enterro. Não sei como expressar o sentimento de entrar nessa igreja.” Diana Emidio Contando assim, parece que a Terra Santa é um paraíso de respeito ecumênico onde as religiões convivem em harmonia. Já foi, mas hoje está bem longe de ser, principalmente para os muçulmanos e cristãos que vivem aqui. Há anos, a Esplanada das Mesquitas e a Igreja do Santo Sepulcro e outros templos na cidade são alvos de extremistas sionistas. Em uma dessas incursões contra a Mesquita Al-Aqsa, Ariel Sharon – mais tarde, primeiro-ministro israelense – Invadiu o complexo com soldados armados para realizar rituais judaicos. O episódio deflagrou a Segunda Intifada, revolta civil da população palestina contra a ocupação sionista, entre os anos 2000 e 2005. Com o tempo os ataques israelenses se tornaram cada vez mais frequentes e violentos; mortos e feridos se acumularam. No ano passado, soldados israelenses trancaram centenas de pessoas – palestinos muçulmanos – na Mesquita de Al-Aqsa, estilhaçaram seus vitrais e, dali, dispararam bombas de gás lacrimogêneo em seu interior, deixando centenas de pessoas intoxicadas pela inalação de gás. Mas as agressões, como disse, não foram destinadas somente aos muçulmanos. Extremistas judeus também queimam, picham e depredam igrejas cristãs. A sede da Igreja Ortodoxa Grega em Jerusalém foi vandalizada com as palavras “Jesus é um lixo”. No norte do território, local que foi ocupado por Israel em 1948, a igreja onde Jesus realizou o milagre da multiplicação dos peixes foi incendiada duas vezes. Em 2022 os ataques foram tantos que muçulmanos fizeram um cordão de isolamento para que cristãos pudessem realizar sua tradicional procissão de Páscoa. Na mesma época, quando os ataques à Esplanada das Mesquitas se tornaram mais comuns e agressivos, os patriarcados das diferentes congregações cristãs também se uniram em defesa de Al-Aqsa. Até mesmo o Papa Francisco se pronunciou, ao defender o direito de todos os palestinos (cristãos e muçulmanos) de acessar aos seus lugares sagrados em Jerusalém ocupada. Conhecer um pouco das religiões e transitar por Jerusalém é encantador mesmo para um ateu. No entanto, saber sobre os atos de violências e as violações aos direitos à liberdade de pensamento, consciência e religião (Art. 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) é repugnante. Jerusalém foi declarada uma cidade santa pertencente a todas as religiões. Seria bom se fosse! Em 1980, o Estado de Israel ignorando o status de corpus separatum promulgou uma lei declarando Jerusalém “completa e unida” como Capital de Israel. Tomando à jurisdição e administração de toda cidade, incluindo as partes árabes. O Conselho de Segurança das Nações Unidas declarou que a aquisição de terras árabe-palestinas a força era inadmissível e uma violação ao direito internacional. Em resposta a ONU aprovou a Resolução 478 que além de não reconhecer Jerusalém como capital de Israel, exortava os estados-membros a retirarem suas missões diplomáticas da cidade. Todos os estados-membros da ONU aprovaram a resolução, com exceção dos EUA que se absteve. Para piorar, em 2018, novamente o Knesset aprovou outra lei, esta declarava que Israel era um Estado Judeu. Procurando pela Terra Santa, andamos pelo mesmo caminho que Jesus fez para crucificação. No fim do dia, ao chegar ao Jardim do Getsêmani e o Monte das Oliveiras, local que Jesus costumava falar com Deus, víamos o Domo Dourado da Esplanada das Mesquitas e também o cemitério judaico, três locais sacros para três religiões distintas. Percebi que a Terra Santa que procurávamos, só pode ser verdadeiramente Santa quando todas as religiões desfrutarem dos mesmos direitos à liberdade de pensamento, consciência e religião, bem como “a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.” (Declaração Universal dos Direitos Humanos) [1] Rodeada por muros antigos, a Cidade Antiga é o lar de lugares sagrados para o monoteísmo, como o Al-Buraq (Muro das Lamentações), a Esplanada das Mesquitas, a Mesquita Al-Aqsa e a Basílica do Santo Sepulcro. [2] Inspirado pela ideologia militante anti-sionista, o grupo se recusa a endossar o voto nas eleições, contando com doações de outros judeus Haredi anti-sionistas no exterior e com sua própria renda. [3] Grupo judaico ortodoxo caracterizados por sua estrita adesão à halakha (lei judaica) e tradições, em oposição aos valores e práticas modernas. [4]  Via Dolorosa (Via Crucis) é uma rua na cidade velha de Jerusalém, que começa na Portão do Leão e percorre a parte ocidental da cidade de Jerusalém, terminando na Igreja do Santo Sepulcro.

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