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  • A liberdade de opinião e expressão (art. 19) não é, nem deve ser, ilimitada. Porém, para quem?

    A liberdade de opinião e expressão (art. 19)[1] deve ser reconhecida, garantida e protegida, a fim de resguardar esse e todos os outros direitos inerentes a todos os seres humanos. Embora "ter opinião" seja algo que não se pode retirar de um indivíduo, por mais que suas opiniões correspondam a um senso comum, racista, preconceituoso ou que incite a violência, não há forma de limitá-lo de ser um lixo. Porém, pode e deve-se limitá-lo de expressar tais absurdos ofensivos em podcasts medíocres ou em atitudes que resultem em atos perigosos a outras pessoas ou à sociedade, como a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Vamos explorar alguns exemplos práticos para ilustrar a situação. Nos Estados Unidos da América, onde a liberdade de opinião e expressão é considerada "irrestrita"[2] – para os brancos –, não é possível prender alguém simplesmente por estar vestido com um lençol branco adornado com uma cruz no peito, proclamando a supremacia branca e incitando o racismo e a violência em locais públicos. Além disso, é permitido que estações de rádio na Flórida promovam propaganda contrária ao governo de Cuba e organizem eventos e atos que resultam em atentados terroristas na ilha caribenha. No entanto, esse mesmo país, que preza pela liberdade de expressão, adota uma postura rigorosa ao perseguir jornalistas até mesmo em escala global, como no caso de Julian Assange[3], quando estes denunciam crimes de guerra e violações internacionais perpetrados pelo governo do Tio Sam. No Brasil, por mais que estejamos longe de ser um exemplo, a Constituição Federal[4] busca estabelecer um equilíbrio entre a liberdade de expressão e a proteção dos direitos individuais e coletivos, ao menos teoricamente. Nossa Carta Magna estabelece dois tipos de limitações, sendo elas a Limitação Legislativa e a Limitação Judicial. Essas restrições têm como objetivo garantir que o exercício da liberdade de expressão não ultrapasse fronteiras éticas e legais, assegurando um ambiente social um pouco menos danoso a nossa saúde. Limitação Legislativa Nossa legislação afirma que "Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística".[5] No entanto, a mesma Constituição estabelece restrições para propagandas que veiculem produtos ou serviços nocivos à saúde e ao meio ambiente[6], como por exemplo: propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias. Limitação Judicial Quanto à Limitação Judicial, caso alguém ou algum meio use de sua liberdade de expressão para violar o direito à intimidade, à honra ou à imagem de outras pessoas, existe legitimidade para, por meio da tutela jurisdicional e do direito de ação, garantir a restrição dessa liberdade.[7] Para exercer essa garantia, a Constituição não impede este ou qualquer autor de se expressar contrário ou, por mais absurdo que pareça, a favor da ideologia nazista, fascista, sionista ou qualquer outra forma de racismo. No entanto, há certas limitações para isso, e a principal é a vedação ao anonimato, exigindo a identificação dos responsáveis pelas manifestações, e a responsabilização por suas palavras, evitando abusos e excessos. Por mais que essa medida possa parecer intimidadora, não é. Considere a seguinte reflexão: se todos os indivíduos com tendências racistas no Brasil tivessem a possibilidade de disseminar a ideia de que “o nazismo deveria ter um partido reconhecido pela lei” e se “o cara quiser ser anti-judeu, ele tem o direito de ser”.[8]  percebe-se a potencialização de discursos prejudiciais e intolerantes. Nesse contexto, este autor pode afirmar que as declarações do apresentador Monark, fazem apologia ao nazismo e ao anti-judaísmo. Porém, a Constituição também estabelece que o ofendido – mesmo que seja um nazista – tem o direito de resposta. Adicionalmente, nossa Constituição permite buscar ressarcimento do dano causado por essa violação por meio judicial, garantindo o pagamento de indenização, seja pelo dano material ou moral ocasionado. Podemos ter a opinião que quisermos, mas expressá-las é uma outra história. Limitação ou restrição, quando feitas com ética e conforme a lei, não são, como muitos afirmam, censura. Aqueles que afirmam o contrário são exatamente os mesmos atores que desejam vomitar as suas atrocidades em palanques para que suas opiniões sejam convertidas em votos de outros tão inescrupulosos quanto. Conforme mencionado anteriormente, nossa Constituição está longe de ser perfeita, mas assegura que a Liberdade de Opinião e Expressão não seja utilizada de maneira irresponsável, causando prejuízos injustificados a terceiros. Já é um começo, se apenas for cumprido o que está escrito. [1] AGNU. Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III). Paris. 1948. [2] A Primeira Emenda da Constituição declara que o Congresso não pode fazer leis que restrinjam a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa. No entanto, essa liberdade não é absoluta e pode ter limitações em determinadas circunstâncias. [3] Julian Assange é um jornalista e ativista australiano, fundador do WikiLeaks, organização famosa por vazar documentos confidenciais em 2010. Assange enfrentou acusações na Suécia, buscando asilo na Embaixada do Equador em Londres até sua prisão em 2019. Atualmente, corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos, onde enfrenta processos por violações relacionadas à publicação de informações secretas. [4] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, p. 496. 1988. [5] Art. 220. § 1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, p. 496. 1988. [6] Art. 220. II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. (BRASIL, 1988) [7] Capítulo I, Art. 5º IV, V. (BRASIL, 1988) [8] UOL. Monark defende existência de partido nazista dentro da lei; Tabata rebate. 2022.

  • A História de Hussein, Ruayda e as oliveiras palestinas de Kobar

    Artigo 15 Direito à nacionalidade. 1.Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade. Declaração Universal dos Direitos Humanos As Oliveiras de Kobar Na época do Império Otomano, a vila palestina de Kobar se estendia por uma colina, cobrindo quase dez mil dunums de oliveiras. Sob o calor escaldante, as árvores ofereciam sombra aos 400 agricultores residentes, enquanto, no inverno, seus troncos largos protegiam dezenas de famílias dos ventos frios do Mediterrâneo. O único sinal da presença humana entre os olivais era o minarete da antiga mesquita dedicada a Sheikh Ahmed.   Durante os primeiros anos do domínio britânico, o Avô Rayan, muçulmano devoto, decidiu empreender uma peregrinação até a cidade sagrada de Meca, saindo das sombras das oliveiras. A viagem era árdua e longa, realizada naquela época apenas por meio de caravanas de camelos. [1]   Em 1925, o peregrino se despediu da esposa, ainda segurando a filha caçula nos braços, dando as últimas recomendações aos filhos antes de partir. Hussein Rayan, o filho mais novo, correu desesperado pelas 48 casinhas de calcário até a extremidade da vila, tentando alcançar o pai, mas já era tarde demais para dizer adeus.   Semanas após a partida, a família recebeu a trágica notícia: o peregrino sucumbira durante a jornada, e seu corpo se perdera nas areias do Deserto. Hussein Ali Mohammad Rayan, órfão aos quatro anos, herdou as oliveiras, as terras e a responsabilidade de cultivá-las. À viúva restou a árdua tarefa de criar os filhos, administrar a casa e os animais, além de arar, plantar e colher o que as oliveiras forneciam, pois, o império britânico havia tomado as terras e os impostos dos otomanos.   A Revolta Palestina (1936-1939)   A imigração clandestina de judeus europeus, que desrespeitavam as cotas estabelecidas pelo mandato britânico, somada à exploração por parte dos ingleses, incitou um profundo sentimento de revolta entre os palestinos. Iniciando uma greve geral que perdurou seis meses, os palestinos se depararam com uma resposta repressiva da administração e das forças britânicas, que declararam estado de emergência e impuseram severas sanções, detenções e punições. Com o envio de reforços britânicos, os palestinos não tiveram escolha a não ser prosseguir com o levante armado contra a ocupação. [2]   A revolta nacionalista, que começou nas áreas urbanas, se estendeu para as regiões agrícolas. Enquanto os palestinos lutavam por sua nação contra os britânicos, os imigrantes judeus europeus continuavam estabelecendo kibutzim. A guerra e a ocupação pareciam se aproximar cada vez mais de Kobar.   Hussein Rayan, jovem demais para empunhar armas, desenvolveu sua própria estratégia de resistência. Sendo a única família na vila a possuir cabeças de gado, os britânicos impunham impostos sobre cada uma delas. Sempre que os cobradores de impostos subiam as colinas, Hussein corria para esconder o gado entre as oliveiras. Apesar da sua juventude, ele era incrivelmente astuto e conhecia as colinas muito melhor do que qualquer colonizador.   A Revolta Palestina, que teve início em 1936, estendeu-se até 1939, resultando em centenas de mortes entre os judeus e milhares de palestinos mortos. De acordo com dados britânicos, a polícia e o exército foram responsáveis por aproximadamente 20 mil mortes de palestinos e a execução de 108 deles. Durante esse período, um em cada dez homens entre 20 e 60 anos morreu, foi ferido ou exilado.     Apátridas   Hussein Rayan, responsável por aquilo que cativava, cresceu mais rápido que as oliveiras sob sua custódia. Assim como as árvores, suas raízes penetravam cada vez mais profundamente na terra palestina. Sobrevivente da Revolta Palestina, Nakba e dos avanços cada vez mais intensos do sionismo, entre uma guerra e outra, Hussein se casou. Consciente de que o topo da colina de Kobar e os troncos robustos das oliveiras não eram suficientes para conter a desordem imposta pelo sionismo, que lutava contra os palestinos para tomar e ocupar cada vez mais território, ele conhecia bem a vida de um órfão palestino. Temendo a mesma sina para os filhos que desejava ter, tomou a decisão mais difícil de sua vida: deixar para trás, mesmo que temporariamente, a imprevisibilidade derramada pelo sionismo em suas terras.   No verão de 1960, Hussein chegou sozinho ao Brasil. Foram cinco anos de trabalho árduo até conseguir juntar dinheiro suficiente para trazer sua esposa. Em Toledo, no Paraná, o casal finalmente encontrou uma casa para construir sua família, longe da guerra. Hussein frequentava a mesquita durante a semana e aos domingos, bem cedo, acordava os filhos para ajudar nas plantações dos amigos franciscanos, afinal, "O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção."   Os filhos cresceram, assim como a saudade de Hussein por seu lar. Poucos anos após sua chegada ao Brasil, a voz no rádio trouxe as péssimas notícias de que uma nova guerra havia eclodido entre Israel e os países vizinhos. Apesar de a guerra durar apenas seis dias, seus efeitos colaterais perseguiram Rayan. Mesmo separado por todo o Atlântico, teve sua nacionalidade roubada, tornando-se mais um apátrida entre os milhões de refugiados palestinos que tentavam encontrar um lugar para se estabelecer pelo mundo.   Após a Guerra dos Seis Dias, Israel usurpou todo o território que estava sob controle jordaniano, incluindo a vila de Kobar. Com a tomada dos novos territórios, o governo sionista proibiu o retorno de todos aqueles que foram expulsos ou fugiram da guerra. Hussein e sua família, ausentes e apátridas, agora corriam o risco de perder tudo o que haviam temporariamente deixado na Palestina.       Lei de Propriedade dos Ausentes (1950)   Em 1950, alguns anos após a assim chamada "independência", Israel promulgou, sem o consentimento ou a participação da sociedade civil, a Lei de Propriedade dos Ausentes. Essa legislação conferiu ao Estado o poder de apropriar-se de todos os bens móveis, imóveis, terras e contas bancárias dos palestinos, incluindo as oliveiras de Hussein Rayan. Este foi o principal instrumento utilizado por Israel para confiscar terras pertencentes aos refugiados, tanto internos quanto externos, sem oferecer qualquer forma de compensação pelos bens que foram roubados.   Lei de Aquisição de Terras (1953)   Como complemento à Lei de Propriedade dos Ausentes, foi promulgada a Lei de Aquisição de Terras, concedendo ao Estado de Israel o direito de redistribuir e vender terras pertencentes a palestinos ausentes para recém-chegados judeus. Por meio dessas duas leis, Israel confiscou 417 vilas e aldeias palestinas. O confisco – nome para roubo institucional – não era a única ferramenta utilizada. Munya Mardor, ex-oficial da Haganah, descreveria em seu livro:   “Mesmo a imigração ilegal e o desrespeito das leis restritivas de Aquisição de Terras não seriam suficientes. A Haganah teria de entrar a sério na luta contra a política do Livro Branco e libertar-se de todo e qualquer escrúpulo quanto ao uso das armas.” (MARDOR, 1980) [3]   Lei do Fundo Nacional Judaico (1958)   A legislação ainda vigente concede à autoridade governamental o poder de adquirir terras palestinas por meio do Fundo Nacional Judaico (FNJ), uma entidade fundada pela aristocracia judaica europeia com o único e exclusivo propósito de adquirir terras dos palestinos expulsos pelos israelenses. Essa lei proporciona ao FNJ benefícios fiscais na aquisição de terras e propriedades pertencentes aos ausentes.   Com a persistência da Lei de Propriedade dos Ausentes, que confisca os bens e terras dos palestinos expulsos, aliada à distribuição e vendas garantidas pela Lei de Aquisição de Terras, e complementada pela Lei do Fundo Nacional Judaico, o Estado de Israel detém atualmente 93% do território originalmente palestino. Não nos esqueceremos   Hussein Rayan viveu grande parte de sua vida como um ausente apátrida. Ao longo desses anos, ele meticulosamente anotou todas as informações que sua memória permitia: a extensão de suas terras, o número de oliveiras em seus campos, e até mesmo os nomes de seus vizinhos. Tudo isso era uma estratégia para não ser derrotado pelo tempo e preservar sua identidade. Sua filha, Ruayda, cresceu testemunhando o desejo persistente de seu pai de um dia poder visitar as oliveiras que se tornaram tão significativas ao longo do tempo dedicado a elas.   Após 37 anos, Hussein finalmente conseguiu retornar para rever a família, amigos, terras e suas preciosas oliveiras. No entanto, após apenas 37 dias em sua pátria, o coração do palestino, que viveu com saudade por tanto tempo, não suportou e ele faleceu. Como era de sua vontade, Hussein Rayan foi sepultado na Palestina.   “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” Antoine de Saint-Exupéry, o Pequeno Príncipe.   Em uma mesquita de Maringá, Ruayda, filha de Hussein e neta do peregrino que se perdeu no deserto, encontrou um amigo do seu falecido pai. Ele compartilhou que em uma de suas últimas conversas, Hussein havia expressado a convicção de que um dia sua filha voltaria para cuidar das oliveiras. Em 1999, Ruayda e seu marido decidiram se mudar para a Palestina. Ao partir, sua intenção era reconectar-se com suas raízes e explorar um pouco de sua própria história. Ao chegar na cidade de Kobar, ela descobriu que suas origens de alguma forma sempre a acompanharam. Com base nas memórias compartilhadas por seu pai e em suas anotações, Ruayda tinha um conhecimento profundo de tudo: terras, idioma, cultura, religião e das pessoas ao seu redor. Essa conexão íntima foi construída de tal forma que ela se tornou familiar com cada detalhe, mesmo sem ter conhecido essas pessoas pessoalmente.   Em um casamento, Ruayda encontrou um antigo amigo da família que morou no Brasil. O senhor, encantado ao ver a filha de Hussein Rayan, apresentou-a aos convidados dizendo: "Essa é a filha do tio Hussein!" Ruayda, pela primeira vez, deu rostos aos personagens das histórias contadas por seu pai, exceto por um senhor bem idoso que aguçou sua curiosidade.   – Esse é o senhor Hessami? – ela perguntou. Espantados, os convidados explicaram que Hessami havia falecido há muito tempo e que, há mais de dez anos, ninguém mencionava seu nome. A memória palestina transcende gerações e permanece arraigada na sociedade refugiada. Todos que celebravam o casamento, após a menção do velho Hessami, compartilharam suas histórias sobre o senhor já falecido. Mesmo Ruayda, que nunca o conheceu e jamais optou por herdar essas histórias, tinha algumas para contar.    Uma vez, Ben Gurion declarou que os israelenses deveriam fazer de tudo para garantir que os palestinos nunca retornassem, assegurando aos companheiros sionistas que "os velhos morrerão e os jovens esquecerão" [4] . Essa previsão mostrou-se equivocada. Sim, como em qualquer parte do mundo, os mais velhos faleceram, em grande parte assassinados pelo Estado de Israel. No entanto, isso não significa que o tempo tenha enfraquecido a identidade palestina. Pois, como o essencial é invisível aos olhos, a "palestinidade" dos mais jovens renovou suas forças na luta pelo direito de serem reconhecidos pelo que nunca deixaram de ser: palestinos.     "Eu não tinha esse direito, pois esse direito foi usurpado de meu pai e minha mãe." [...] “Pessoas que nasceram na Europa e nunca estiveram aqui, não tinham pais aqui, não tinham avós aqui, não tinham bisavós aqui, tinham o direito de vir para cá e tomar as terras de pessoas que a vida toda viveram aqui e herdaram essas terras de suas bisavós.”  Ruayda   As memórias herdadas resistiram aos estragos da colonização britânica, à ocupação sionista e às inúmeras guerras. Finalmente, Ruayda as trouxe de volta para onde jamais deveriam ter saído. Assim como muitos outros palestinos, ela reencontrou seus sentimentos de pertencimento, profundamente enraizados no solo da pátria-mãe. Nascida no Brasil como a "filha do tio Hussein", ela é brasileira, mas toda sua identidade, moldada pelas experiências transmitidas por seu pai, assim como suas memórias, está entrelaçada com a Palestina, sua família, sua terra e sua cultura.    Ela não precisava residir na Palestina para ser palestina, pois essa identidade sempre a acompanhou, sendo a forma pela qual se enxergava como pessoa, embora a nacionalidade fosse necessária para exercer seus direitos como tal. Após obter sua nacionalidade, Ruayda assumiu a presidência do conselho de cidadãos brasileiros na Palestina, com o objetivo de recuperar para outros descendentes o que lhes havia sido injustamente retirado: sua nacionalidade. [1]  SIQUEIRA, L. Entrevista com Ruayda Rabah. Kobar. 2021. [2]  REICHERT, R. História da Palestina. São Paulo: Editora Herder (Universidade de São Paulo), 1972. [3]  MARDOR, M. Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel. Rio de Janeiro: Portugália, 1980. [4]  MEIR, G. Minha Vida. Jerusalém. 1976.

  • Faysa Daoud: A Menina Palestina Dos Campos De Refugiados

    Artigo 14 “Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.” Declaração Universal dos Direitos Humanos [1]   Nos dias quentes a agitação das partidas de futebol no campo de Baqa’a, na Jordânia, levantava a poeira da rua de terra batida. Uma menina madura o suficiente para jogar bola com as outras crianças, mas não tão para usar o hijab, passava direto pelas brincadeiras na volta da escola. Ela preferia bater de casa em casa para oferecer ajuda a outras mulheres e idosas do campo. Apesar de pequena conhecia bem as mazelas compartilhadas por todos ao seu redor, pois, sua família vivia as mesmas. A história da menina, como a de outros milhões de palestinos, começa como refugiada de uma guerra a qual não teve participação. Sua história começa na cidade portuária de al-'Abbasiyya, no distrito de Yaffa, de onde seus pais Ahmad Mohamad Saleh Abou Daoud e Miriam Ibrahim Deib foram expulsos na primavera de 1948.   Nakba, Palestina As flores desabrochavam enquanto o exército britânico assistia às milícias do Irgun [2]  e Haganah [3]  lançarem ataques contra o distrito de Jaffa [4] . Cidades inteiras foram bombardeadas por morteiros durante três dias consecutivos. Menos de um mês após o primeiro disparo, Ahmad e Miriam e outros 25 mil palestinos foram evacuados para as cidades vizinhas de Lydda e Ramle. David Ben-Gurion, comandante do Haganah, considerou a hipótese de retorno dos palestinos, então ordenou a invasão das cidades que acolheram os refugiados e a expulsão de todos dos territórios. Setenta mil palestinos se tornaram refugiados em poucos dias, incluindo o casal Daoud que pela segunda vez foi obrigado ao deslocamento interno forçado.   Os israelenses usam da falácia de que os moradores saíram das cidades por vontade própria, mas os fatos descritos por Yitzhak Rabin – na época comandante da milícia Palmach, parte da Haganah – eram bem diferentes. Já no cargo de Primeiro-ministro ele admitiu que os palestinos não saíram das cidades por um cordão humanitário, mas sob a mira de fuzis e tiros de alerta disparados contra a população. Revela ainda que os palestinos foram obrigados a caminhar sem água por quilômetros debaixo do sol, o que levou centenas de idosos e crianças a morrerem de sede durante a marcha forçada. [5]     Para intensificar a devastação, Ben-Gurion decretou a demolição das cidades, assegurando que não restassem residências para os deslocados retornarem. Os Daouds e milhares de palestinos buscaram refúgio nos campos da Cisjordânia, mas em 1967, um novo massacre se desdobrou. Em meros seis dias de conflito, os palestinos perceberam que mesmo o que restava de seu território já não oferecia segurança. Decidiram, então, buscar abrigo além do Rio Jordão. Para evitar mais tragédias, concentraram-se em um campo improvisado próximo à capital Amã, na Jordânia, que posteriormente se tornaria o Campo de Baqa’a.   Apesar de ser permitido aos palestinos habitar as terras jordanianas, o governo e a comunidade internacional não forneciam qualquer assistência. A única ajuda disponível eram algumas lonas da UNRWA utilizadas como cobertura. Alguns anos após sua chegada ao Campo de Baqa’a, Miriam deu à luz uma menina com olhos cor de avelã, a quem chamaram Faysa Daoud.   “Você nasce na Jordânia, mas você não é jordaniano. Seu passaporte vem com a letra ‘P’, de palestino.” Faysa Daoud [6]   A vida era extremamente difícil para os palestinos dos campos na Jordânia. Os melhores trabalhos, escolas e outros serviços do governo eram destinados exclusivamente para os jordanianos. Para os médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais palestinos só restavam os trabalhos braçais. A Organização para Libertação da Palestina (OLP) no intuito de suprimir a situação de abandono criou independentes redes de apoio aos refugiados e assistência as famílias dos combatentes. Essas redes consistiam, além de ajuda financeira, a construção de escolas, dispensários, hospitais e centros do Crescente Vermelho [7] . Os serviços prestados pelos fedayins palestinos superavam em todos os quesitos os oferecidos pelo governo Real e pela comunidade internacional, o que colocou a OLP e Arafat em situação de prestígio nunca visto na comunidade palestina, fazendo muitos aderirem às forças fedayins da OLP.   “Os filhos refugiados que mendigam à UNRWA um saco de farinha, um punhado de feijões e uma coberta vieram formar as fileiras dos combatentes, e são eles quem escrevem diante do mundo árabe a nova história da Palestina”. Yasser Arafat, 1967. [8]   Com dificuldades para encontrar trabalho, o pai Ahmad Daoud se alistou no exército jordaniano, a única oportunidade para oferecer à família uma vida melhor e mais segura. Pouco a pouco as condições melhoravam para os Daoud. A família trocou a tenda de lona por um quarto e cozinha. Os Daouds tiveram o primeiro momento de relativa paz. A menina Faysa ajudava a mãe nos afazeres de casa e nas horas vagas oferecia ajuda aos vizinhos que sobreviviam em condições lamentáveis, no entanto, ela não foi a única a perceber e se incomodar com o sofrimento do seu povo. Os lotados campos de refugiados que se espalhavam por toda Jordânia dependiam quase que exclusivamente das redes de assistência fornecidas pela OLP, o que fez a organização também tomar parte na lei e ordem dentro dos campos, criando leis, tribunais, polícia e até um exército de defesa. Estava criado um Estado palestino independente dentro do Estado jordaniano. O irmão mais velho de Faysa, Mahmud Daoud, também procurou uma maneira de ajudar o próprio povo e se alistou nas forças guerrilheiras da OLP. Guerra Civil, Jordânia   O Estado dentro do Estado ampliava continuamente o prestígio da OLP, ao mesmo tempo em que gerava desconforto para o Rei Hussein, que via na crescente popularidade de Arafat uma ameaça ao Reino da Jordânia. Diante dessa situação, o Rei Hussein tomou medidas para restringir a autonomia no território, impondo limitações aos fedayins. Estas incluíam a proibição da circulação de palestinos fardados nas cidades, a sujeição dos guerrilheiros às ordens das forças de segurança nacional e a exigência de entrega de armamento às autoridades jordanianas.   Os palestinos, por sua vez, resistiam à ideia de entregar suas armas e líderes, cientes de que o exército jordaniano não seria capaz de protegê-los dos frequentes ataques israelenses que invadiam o território jordaniano para atacar os campos de refugiados.   Manifestações populares contra as medidas do rei se espalharam por toda parte, conflitos entre a polícia jordaniana e a resistência palestina agravam a situação. Dentro dos campos de refugiados emerge a Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP). Os comunistas da FPLP preocupavam muito mais o rei Hussein que a própria OLP, visto que proliferavam rapidamente a estratégia de formação de um mundo árabe unido e socialista. Em 9 e 10 de junho de 1970, o rei ordenou a invasão do exército ao campo de refugiados de Wadaf, com intuito de prender e estancar a força popular da FPLP. Centenas de palestinos foram mortos e outras centenas ficaram feridos. Arafat consegue um cessar-fogo entre as partes, aumentando sua credibilidade também com os comunistas da FPLP e estancando-a ainda mais com o Rei Hussein. A constante invasão israelense ao território jordaniano ajudou a propagar a instabilidade política na região, o rei que não conseguia lidar sequer com os palestinos, acabara de herdar também seu inimigo. Dez dias após o cessar-fogo negociado com Arafat, no dia 17 de setembro de 1970, o rei decide expulsar os guerrilheiros da OLP e pôr fim ao Estado palestino em Amã.   “Tenho provas incontestáveis de que o rei Hussein tem a intenção de liquidar os resistentes palestinos. Presumo que seus governos não poderão ou não desejarão fazer nada por nós. Mas informo: vocês não podem dizer que não sabiam!” Mensagem que Yasser Arafat enviou a todos os chefes de Estados árabes, 1970.   Às 5h da manhã, blindados e tanques atacaram os campos de refugiados; simultaneamente invadem o quartel-general da OLP. Iniciava-se mais um plano de expulsão de refugiados palestinos. A ordem era, acima de tudo, capturar Arafat, vivo ou morto!   “Duas vezes o exército jordaniano cercara o local em que eu estava, pedindo que eu me rendesse. Sem sucesso, pois a cumplicidade da população sempre me permitia escapar.” Yasser Arafat, 1979   A Guerra Civil na Jordânia ou Setembro Sangrento, como ficou conhecido, obrigou pai e filho Daoud a tomarem armas em punho e irem para guerra, infelizmente, em lados opostos. Faysa tinha onze anos quando viu pela primeira vez seu pai e seu irmão sendo forçados a se confrontarem.   Com a retirada dos fedayins, uma ordem de prisão foi emitida em nome de Mahmud Daoud pelo exército jordaniano. A jovem ouviu dizer que seu irmão havia escapado para as montanhas, mas a polícia o perseguira por todo o território, forçando ele e outros jovens guerrilheiros a cruzarem para o território da Síria. Esse foi o momento mais difícil para os Daouds, pois sua residência foi bombardeada por vinte e quatro bombas do exército na tentativa de capturar o filho guerrilheiro. Após um período como fugitivo e acreditando estar seguro, Mahmud regressou à Jordânia, porém, ao atravessar a fronteira, foi prontamente identificado e detido pelas forças policiais.   “Eu tinha 11 anos nessa época, me lembro muito bem de tudo que aconteceu. Meu pai trabalhava no exército da Jordânia e meu irmão era guerrilheiro do Fatah; os dois lutavam contra. Esse foi um período muito marcante para todos nós! O exército queria a condenação do meu irmão, então ele acabou fugindo para as montanhas e depois para Síria, mas acabou sendo preso. Mahmoud passou 40 dias sendo interrogado e torturado na prisão jordaniana. Quando libertado, nós não o reconhecíamos, eu mesmo não conhecia mais meu irmão, ele estava quebrado, todo cortado e desfigurado. Nós sofremos muito por conta do regime jordaniano.” Faysa Daoud   O conflito mobilizou tropas por todo Oriente Médio, alguns pró palestinos, outros ao lado do Rei Hussein, incluindo os Estados Unidos e Israel, que se colocaram à disposição para mais um genocídio palestino. No nono dia de combate a rádio Amã anunciou que o rei Hussein e Arafat chegaram a um acordo de cessar-fogo intermediado pelo Rás egípcio Gamal Abdel Nasser.  A guerra se estendeu até que Arafat e a OLP concordaram em deixar a Jordânia e partir para o Líbano. O massacre se estendeu até julho de 1971. Os resultados variam de acordo com as fontes: a Jordânia estima 3.500 mortos, já a OLP afirma que esse número excede os 20 mil.   Refúgio Brasil   Hussein Arman, também da cidade portuária de al-'Abbasiyya, assim como a família Daoud, se tornou um dos milhares de refugiados palestinos ao atravessar o rio Jordão durante a Nakba. Com as perseguições israelenses aos campos jordanianos decidiu partir. Chegou ao Brasil em 1959, na mala apenas o sonho de se tornar piloto de avião e um dia poder voltar voando para seu país livre das guerras e perseguições.   Em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Arman passou por todas as dificuldades de um refugiado árabe em um país sul-americano. Seu sonho foi momentaneamente posto de lado, pois a prioridade consistia em aprender o idioma, adaptar-se à cultura e, simultaneamente, garantir o sustento por meio do trabalho que conseguiu como feirante. A única coisa que alçou voo para o palestino foram os anos de árduo trabalho. O sonho de se tornar piloto foi substituído pela saudade e pelo desejo de reunir-se com a família e os amigos deixados na Jordânia.   Após quatorze anos, o refugiado palestino de Mogi das Cruzes finalmente conseguiu economizar dinheiro suficiente para realizar sua primeira visita à família no campo de Baqa’a. O cenário já não era o mesmo; as lonas deram lugar a contêineres, todos adornados com estampas da UNRWA. Até mesmo casas de tijolos começavam a surgir, mas os impactos de tiros marcavam as paredes externas, recordando constantemente os habitantes de seu passado.   À medida que as ruas eram gradualmente pavimentadas, estudantes e trabalhadores circulavam incessantemente entre os comércios improvisados e a teia de fios elétricos suspensa sobre suas cabeças. As escolas da OLP, agora sob a administração da UNRWA, formavam jovens cheios de esperança, almejando deixar para trás a vida de refugiado. Faysa Daoud era uma das jovens que concluíram seus estudos nessa época.   Para Arman, tudo aquilo era notavelmente diferente de suas memórias, mas mesmo assim, ele sentia-se em casa.   Na visita, Husein Arman e Faysa Daoud foram apresentados um ao outro, e não demorou muito para decidirem se casar e fixar residência no Brasil. Faysa sentiu-se novamente como uma estranha, agora em uma terra ainda mais desconhecida. Este novo mundo revelou-se imensamente desafiador para a jovem que só conhecia a vida nos campos de refugiados. Desta vez, não eram bombas, tiros ou torturas que a atormentavam, mas sim a solidão. Distante de sua família, a jovem começou a se comunicar e, após tornar-se perita em mímicas, iniciou o aprendizado do português.   Arman apresentava à sua esposa todas as pessoas que conhecia e como poderiam auxiliar os outros a se estabelecerem; juntos, o casal palestino formou uma extensa rede de ajuda humanitária. A compaixão intrínseca de Faysa foi aprimorada ao lado de Arman. Cada vez que ela via o marido estender a mão para ajudar o próximo, sua admiração por ele crescia. As dificuldades pelas quais o casal havia passado eram semelhantes às enfrentadas por cada novo refugiado árabe.   Por estarem familiarizados com as nuances da burocracia brasileira, as barreiras idiomáticas, a adaptação a uma nova cultura e, principalmente, a distância da família, Arman e Faysa começaram a prestar auxílio aos recém-chegados. As missões de solidariedade do casal tornaram-nos um ponto de referência na ajuda humanitária para os refugiados.   Husein Arman repetia incansavelmente: "sirva e sirva sempre com excelência". Como marido, ele compartilhou todo o conhecimento possível com sua esposa, agindo como alguém que buscava auxílio para dar continuidade à sua missão. A cada ensinamento, Husein Arman destacava: "você precisa aprender, pois um dia terá que seguir isso sozinha". Em 2012, Husein Arman faleceu, deixando para Faysa, além da saudade, o legado que construíram juntos.   Faysa Daoud não teve tempo para vivenciar plenamente o luto. A guerra na Síria [10] , desencadeada no ano anterior, começou como uma série de grandes manifestações visando depor o presidente Bashar al-Assad [11]  e instaurar uma nova liderança democrática, resultando na maior onda migratória de refugiados da história. Assad tentou persuadir a comunidade de refugiados palestinos na Síria a se aliar ao governo contra a oposição, mas os palestinos optaram por permanecer neutros. Enfurecido, o presidente ordenou a abertura da fronteira Síria/Israel para que os refugiados pudessem retornar à Palestina.   Diante dos olhares impassíveis dos soldados de Assad, 22 jovens refugiados palestinos foram assassinados e outros 100 foram baleados pelos guardas de fronteira israelenses.   A guerra na Síria agravou-se com o tempo, e a maioria das organizações internacionais enfrentou desafios para prestar ajuda devido ao bloqueio imposto pelas forças do regime sírio. Pessoas estavam perdendo a vida em grande escala, tanto devido ao conflito quanto à perseguição por grupos opositores, à falta de assistência médica e à fome resultante do bloqueio. Além disso, destaca-se o fracasso da comunidade internacional em cumprir o dever de proteger os mais vulneráveis e mediar uma solução política e pacífica.   Os refugiados inundavam os países da Europa, mas muitos deles se viram diante de fronteiras fechadas e crescentes dificuldades na imigração. Diante desse cenário, o Brasil, conhecido por suas políticas humanitárias de imigração e refúgio desde 2003, emergiu como uma rota de fuga. Os refugiados provenientes do Iraque em 2007, com origens palestinas, foram beneficiados com ajuda financeira da ONU por dois anos, mas após esse período, enfrentaram a jornada por conta própria.   A realidade para a maioria dos refugiados é que, devido às barreiras idiomáticas e culturais, muitos acabam interagindo apenas com outros refugiados, o que dificulta a adaptação. Nascida nos campos de Baqa’a, Faysa, em prol de suprir as necessidades de acolhimento, integração e consolidação, uniu-se a outros três amigos para formar uma rede de ajudadores informais. Eles atuavam como intérpretes em consultas médicas, intermediários na burocracia brasileira, e desempenhavam papéis como "corretores de imóveis", dentre outras necessidades básicas. Para Faysa e seu grupo de acolhimento, esse era o momento de dar um passo à frente.   “Quando os refugiados chegaram, pensei: ‘chegou meu povo, eles estão sofrendo como eu sofri’. Eles não sabiam se comunicar, não sabiam nem comprar as coisas. Eu sabia que podia ajudar, me sentia na obrigação de ajudar.” Faysa Daoud    O árduo trabalho de socorrer aqueles que deixaram suas casas devido à guerra tornou-se ainda mais exaustivo com a crise na Venezuela no ano seguinte. Apesar das notáveis diferenças culturais e do conhecimento limitado da rede de amigos sobre a cultura venezuelana, a comunidade árabe muçulmana uniu esforços e preparou-se para ajudar os milhares que cruzavam a fronteira de Pacaraima, em Roraima. Ao longo de quatro anos, esses auxiliadores tornaram-se a referência para refugiados palestinos, sírios, iraquianos, afegãos, congoleses, haitianos e, agora, venezuelanos.   Com a chegada de milhares de refugiados, o trabalho do grupo se multiplicou, levando à necessidade de oficializar as atividades de ajuda humanitária. Em 2016, foi fundada a organização não governamental Refúgio Brasil.   Um dos milhares de refugiados venezuelanos que atravessaram a fronteira em busca de refúgio encontrou na Refúgio Brasil aulas de português, auxílio na regularização da documentação e apoio para encontrar emprego. Em seu casamento, que ocorreu algum tempo após a chegada ao Brasil, o venezuelano teve a presença de amigos palestinos, sírios, iraquianos e, é claro, Faysa Daoud, uma palestina-jordaniana. Todos, independentemente de sua nacionalidade, compartilhavam algo em comum: um dia estiveram na mesma condição de refugiado.   Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu o desastre humanitário, industrial e ambiental que ceifou a vida de 270 brasileiros: o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. A ONG Refúgio Brasil, presidida por Faysa Daoud e financiada em grande parte pela comunidade árabe-brasileira, mobilizou esforços para arrecadar um caminhão com alimentos, roupas e materiais de limpeza destinados às vítimas dessa catástrofe.   Brumadinho não foi o único momento em que Faysa e a Refúgio Brasil desempenharam um papel crucial na ajuda humanitária. Durante a pandemia da COVID-19, quando a maioria da população estava isolada em suas casas, a Refúgio Brasil arrecadou e distribuiu centenas de cestas básicas, beneficiando não só os refugiados estrangeiros, mas também brasileiros em situação de vulnerabilidade.   Faysa Daoud passou os primeiros anos de sua vida vivendo como refugiada, até mesmo sua identidade foi carimbada com um “P” extra, denotando sua origem palestina. Atualmente, ela foi homenageada com as chaves da cidade de Mogi das Cruzes, sendo reconhecida como cidadã. Tudo o que Faysa aprendeu com Arman, o jovem que se refugiou no Brasil com o sonho de se tornar piloto, ela coloca em prática para ajudar milhares de pessoas, sem distinção de etnia, cor ou religião. Ela ensina a todos que o amor não conhece fronteiras.   Atualmente, com uma vida um pouco mais tranquila, a mulher que cresceu nos campos volta sempre que pode para visitar parentes e amigos no Oriente Médio. Entre um voo e outro, às vezes ela consegue viajar em uma aeronave pilotada por seu próprio filho.   “Meu marido se sentiu muito realizado através do filho. Tudo que ele sonhava para ele foi realizado pelo filho. Ele ficou tão emocionado na formatura do menino. Infelizmente ele faleceu pouco tempo antes do meu filho se tornar comandante.” Faysa Daoud, 2022       Enquanto gravávamos as entrevistas (2022), Faysa coordenava simultaneamente campanhas de arrecadação para as vítimas das inundações em Petrópolis e prestava assistência a pessoas em situação de refúgio vindas do Afeganistão e Ucrânia. Atualmente, ela e a ONG Refúgio Brasil são referências para os repatriados brasileiros que foram resgatados do atual massacre israelense em Gaza.   [1]  AGNU, “Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III),” Paris, 1948. [2]  O Irgun ganhou notoriedade após o ataque ao Hotel King David, que resultou em 91 mortes. No ano subsequente, envolvido no tráfico de armas, o Irgun entrou em conflito com o exército israelense, culminando no naufrágio de um navio (Altalena) carregado com armamentos. Posteriormente, as autoridades britânicas classificaram a organização como terrorista. [3]  Após a autoproclamação de independência, o Haganah foi dissolvido e se tornou o exército israelense. Oficialmente o exército se chama, Israel Defense Forces (IDF), ao qual palestinos e organizações de direitos humanos preferem chamar de Israel Occupying Forces (IOF). No livro “Haganah”, o autor Munia Mardor, ex-oficial da força escreve, “Um dos principais objetivos da Haganah, tal como movimento sionista em geral, era abrir caminho aos imigrantes que desejavam entrar na Palestina”. [4]  M. Mardor, “Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel,” Portugália, Rio de Janeiro, 1980. [5]  Rabin forneceu detalhes ao ghostwriter Dov Goldstein sobre a invasão às vilas e o deslocamento interno forçado de milhares de palestinos. Contudo, o comitê governamental encarregado da preservação historiográfica de Israel, por razões de segurança, ordenou a eliminação desse trecho da biografia. De acordo com Goldstein, o chefe do comitê lhe afirmou: “Sim, a história é verdadeira e conhecida, mas não pode ser contada por um dos nossos heróis, alguém que esteve envolvido pessoalmente com ela, que foi Primeiro-ministro de Israel, porque desmentirá nosso argumento de que agimos com humanidade.” Goldstein relata que Rabin ficou contrariado, mas concordou em suprimir o trecho do livro. [6]  L. Siqueira, “Entrevista com Faysa Daoud,” Mogi das Cruzes, 2021. [7]  Estabelecida em 1968 por Fathi Arafat, irmão de Yasser Arafat, a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino é uma organização humanitária integrante do Movimento Internacional da Cruz Vermelha. [8]  A. Kapeliouk, “Arafat: O irredutível,” Editora Planeta do Brasil, 2004. [9]  R. Fisk, Pity the Nation: The Abduction of Lebanon, Oxford University Press, 1990. [10]  O governo sírio alega combater terroristas armados que visam desestabilizar o país. A partir de 2013, o grupo Estado Islâmico (Daesh) começou a reivindicar territórios na região. Lutando inicialmente ao lado da oposição síria, as forças desta organização passaram a atacar qualquer uma das facções envolvidas no conflito (apoiadores ou opositores ao regime Assad), buscando hegemonia. Segundo informações de ativistas de direitos humanos, o número de mortos no conflito passa das 500 mil pessoas (2022), sendo mais da metade civis, incluindo quatro mil refugiados palestinos neutros ao conflito. Outras 130 mil pessoas teriam sido detidas pelas forças de segurança do governo. Mais de cinco milhões de sírios já teriam buscado refúgio no exterior para fugir dos combates, com a maioria destes tomando abrigo no vizinho Líbano. [11]  Bashar Hafez al-Assad‎ é o atual presidente da Síria e Secretário Geral do Partido Baath desde 17 de julho de 2000. Sucedeu a seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos até sua morte. Bibliografia AGNU. Declaração Universal dos Direitos Humanos - resolução 217 A (III). Paris. 1948. FISK, R. Pity the Nation: The Abduction of Lebanon. [S.l.]: Oxford University Press, 1990. KAPELIOUK, A. Arafat: O irredutível. [S.l.]. 2004. KAPELIOUK, A. Arafat: O irredutível. [S.l.]: Editora Planeta do Brasil, 2004. MARDOR, M. Haganah: Como uma organização secreta transformou-se no exército de Israel. Rio de Janeiro. 1980. SIQUEIRA, L. Entrevista com Faysa Daoud. Mogi das Cruzes. 2021.

  • A era dos Pogroms, o massacre de judeus na Europa que proporcionou o surgimento do sionismo

    No século XIX, a maioria da população judaica se concentrava no Império Russo. De acordo com o censo de 1897, aproximadamente 5,2 milhões de judeus residiam na região conhecida como Pale of Jewish Settlement, que abrangia partes da atual Letônia, Lituânia, Polônia, Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia. Apesar de constituírem uma minoria de 11,3% da população total, os judeus dominavam as profissões intermediárias do mercado, incluindo comércio, artesanato, indústria, transporte e agiotagem [1] , uma vez que eram proibidos de se estabelecer fora desses territórios e de se envolver na agricultura ou possuir terras aráveis. [2] Após o assassinato do Czar Alexandre II em 1881, o governo dos sucessores Alexandre III (de 1881 a 1894) e Nicolau II (de 1894 a 1917) enfrentaram ondas de piores safras de grãos da história e uma sucessão de derrotas militares. Nicolau II absorveu muitos dos pontos de vista extremistas de seu pai e de Konstantin Pobedonostsev, que foi seu tutor. Ele culpava os judeus, a quem chamava de "assassinos de Cristo", pela violência e agitação social na Rússia. O governo tentou impor o uso da língua russa em todas as escolas e eliminar traços de culturas estrangeiras. O czar procurava fazer com que as pessoas não russas adotassem a religião, língua e cultura dos "Grandes Russos", que eram a maioria étnica do país, mas em relação à população total do império. Esses esforços causaram ressentimento e resistência em áreas como a Polônia, Ucrânia e Cáucaso. [3] Com a fome e a miséria generalizada, eclodiram greves e revoltas populares por todo o império. Famintos e incapazes de comprar grãos dos comerciantes judeus e de pagar suas dívidas com os credores judeus, os camponeses passaram a culpar a comunidade judaica pelos problemas econômicos. Assim, iniciou-se a era dos pogroms, palavra em russo para "causar estragos, destruir violentamente". [4] Em abril de 1903, Kishinev um grave surto antijudaico resultou na morte de 47 judeus, com 92 gravemente e 500 levemente feridos. A violência causou enormes perdas materiais à comunidade judaica, incluindo a destruição de 700 casas e o saque de 600 lojas. O episódio, planejado previamente, foi instigado pelo editor moldavo Pavolachi Krushevan, que, ao longo de seis anos, disseminou falsas acusações e incitou ódio antissemita na população. [5] Incitados por líderes políticos, religiosos e até pelo próprio Czar, os episódios de violência contra os judeus rapidamente se espalharam por todo o território do império. As autoridades czaristas, quando não estavam envolvidas, fechavam os olhos para os ataques, que incluíam estupro e assassinato de vítimas judias, bem como o saque de suas propriedades. Segundo Colin Tatz, que foi diretor do Instituto Australiano de Estudos do Holocausto e Genocídio, entre 1881 e 1920, a Ucrânia testemunhou 1.326 pogroms, resultando na morte de 70.000 a 250.000 judeus civis e deixando meio milhão de desabrigados. A violência dos pogroms na Europa Oriental desencadeou uma migração judaica, totalizando cerca de 2,5 milhões de pessoas. [1]  Os judeus constituíam 84% de todos os comerciantes de produtos agrícolas e não agrícolas, 92% de todos os comerciantes de grãos e, 45% no setor de artesanato e indústria, 30% nos serviços de transporte, e 37% de todos os agiotas. Essas profissões juntas absorviam 11% do emprego total de Pale. GROSFELD, I.; SAKALLI, S. O.; ZHURAVSKAYA. Middleman Minorities and Ethnic Violence: Anti-Jewish Pogroms in the Russian Empire. The Review of Economic Studies. London. 2017. [2]  Essas restrições territoriais e ocupacionais duraram até a Revolução de Fevereiro de 1917. [3]  NOVA CULTURA. Nicolau II. São Paulo. 1988. [4]  UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Introduction to the Holocaust, Pogrom. Washington, DC. [5]  ROSENTHAL, H.; ROSENTHAL. KISHINEF. Jewish Encyclopedia.

  • A mídia brasileira pinga o sangue palestino

    A mídia brasileira é escrota! Não mostram 5% do que acontece na Faixa de Gaza. Não abordam a falta de água, luz, comida e suprimentos médicos, nem dão a devida importância às famílias palestinas. Focam excessivamente no ataque do Hamas e minimizam criminosamente o papel de Israel, que é o terrorista mais sanguinário desta história. Não mencionam a colonização israelense que ocorre há 76 anos. Para entender o contexto geral, é necessário abordar como chegamos até aqui. Não divulgam quantos ataques Israel tem realizado ao longo de 76 anos. Fico feliz que existam pessoas questionando a conduta de vocês. Espero que nunca durmam em paz com esse apoio escancarado a Israel. Espero que as pessoas repensem o que assistem e onde dedicam sua audiência, desenvolvendo o senso crítico para não serem escravas dessa mídia porca e vendida.

  • Israel está sob intensas críticas da comunidade internacional após o massacre de mais de cem palestinos que esperavam na fila por alimentos

    França "Estou profundamente indignado com as imagens vindas de Gaza, onde civis foram alvejados por soldados israelenses." [,,,] "Expresso minha mais veemente condenação desses tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional." Emmanuel Macron na plataforma X. Turquia "Israel adicionou outro crime aos seus crimes contra a humanidade." [...] "O fato de Israel, que condenou os habitantes de Gaza à fome, desta vez ter como alvo civis inocentes em uma fila de ajuda humanitária, é uma prova de que (Israel) pretende, consciente e coletivamente, destruir o povo palestino." Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia Catar "A continuação dos crimes brutais da ocupação como parte de sua guerra brutal na Faixa de Gaza prova, dia após dia, a necessidade premente de uma ação internacional urgente para pôr fim imediatamente a esta agressão sem precedentes na história recente." Ministério das Relações Exteriores do Catar Alemanha "As pessoas estão arriscando suas vidas brigando por pacotes de alimentos que caem do ar porque não há caminhões suficientes chegando a Gaza. As crianças estão coletando ervas daninhas para dar algo para seus irmãos comerem. Os bebês estão morrendo de desidratação e desnutrição em hospitais que mal funcionam." Annalena Baerbock, Ministra das Relações Exteriores da Alemanha China A China condenou veementemente o assassinato de dezenas de palestinos durante a entrega de ajuda, expressando choque e pesar pelas vítimas. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Mao Ning, afirmou que a China condena veementemente o ataque israelense, apelando a uma rápida resolução para a agressão em curso.

  • Jornalistas Palestinos Sob Ataque Permanente do Regime de Ocupação Israelense somam 124 martirizados

    O regime de ocupação israelense persiste em atacar os jornalistas palestinos utilizando os meios e ferramentas mais cruéis, buscando infligir o máximo de mortes e terror possível. O sindicato, em comunicado emitido coincidindo com o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos (que ocorre hoje, segunda-feira, 26 de fevereiro), informou que, desde 7 de outubro passado, os mísseis e balas da ocupação resultaram na morte de 124 jornalistas e trabalhadores da mídia durante o genocídio na Faixa de Gaza. Isso inclui 16 jornalistas, enquanto o destino de dois colegas permanece desconhecido. O sindicato destacou que a ocupação continua seus ataques às residências dos jornalistas, causando destruição e morte a suas famílias. Esses ataques afetaram dezenas de residências ocupadas por famílias de jornalistas na Faixa de Gaza. Além disso, o sindicato afirmou que 1.500 jornalistas na Faixa de Gaza foram deslocados, muitos trabalhando em instalações temporárias, como hospitais e abrigos, sendo diretamente alvos da ocupação enquanto desempenham suas funções profissionais e humanitárias. O sindicato documentou a destruição de 73 instituições de comunicação social em Gaza, incluindo rádios locais, agências de notícias locais e internacionais, canais de satélite locais e internacionais, jornais locais, torres de transmissão e instituições de assessoria de imprensa. Sobre detenções, o sindicato relatou que aproximadamente 65 jornalistas foram presos desde 7 de outubro, alguns foram libertados, mas 36 continuam detidos, a maioria em "detenção administrativa", e outros 15 jornalistas permanecem em centros de detenção antes dessa data. Enquanto o genocídio israelense em Gaza se prolonga, casos de ataques diretos a jornalistas na Cisjordânia e em Jerusalém têm aumentado, numa tentativa de intimidar aqueles que cobrem a agressão israelense nessas regiões. O sindicato, à medida que se aproxima do quinto mês da guerra israelense, insta ações locais e internacionais, incluindo mídia e organizações de direitos humanos, a pressionarem pelo fim dos assassinatos de jornalistas palestinos, bem como o julgamento dos criminosos de guerra e assassinos de jornalistas. O apelo do sindicato inclui a participação maciça em atividades programadas para o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos, em diversos locais, juntamente com vigílias organizadas por sindicatos árabes e internacionais sob a Federação Internacional de Jornalistas.

  • Associações de Jornalistas Marcam o Dia Internacional em Apoio aos Jornalistas Palestinos

    Associações de jornalistas em mais de 100 países estão marcando o Dia Internacional dos Jornalistas Palestinos nesta segunda-feira, 26 de fevereiro. Tanto a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) quanto a Federação de Jornalistas Árabes (FAJ) afirmam que estão dedicando o dia em solidariedade aos seus colegas na Palestina. As associações expressaram consternação diante do assassinato de mais 100 jornalistas nos últimos quatro meses desde o início do conflito, classificando-o como uma "tragédia terrível e injustificada". O sindicato de jornalistas australianos MEAA enfatizou nas redes sociais: "Os jornalistas palestinos representam os olhos do mundo em Gaza, e sem eles, a crise humanitária passaria despercebida".

  • Que é História?

    A reflexão sobre o que constitui a História, embora aparentemente simples inicialmente, revela uma complexidade que se desdobra à medida que aprofundamos nosso entendimento sobre o assunto. Não há uma resposta definitiva, e a percepção dessa questão pode variar de pessoa para pessoa. Para alguns, a História representa um passado distante, do qual apenas restam memórias ou registros históricos trancados em um museu. Contudo, para aqueles que testemunharam eventos que consideramos históricos, a pergunta assume uma dimensão diferente. Poderia um habitante de Jerusalém, por exemplo, ter presenciado Jesus pregando e pensando: "Esse homem deixará sua marca na história"? Da mesma maneira podemos pensar, será que estamos nesse exato momento vivendo um evento que será considerado histórico no futuro? Conforme aponta o historiador inglês Edward Carr[1] em "Que é História?"[2], nossa definição de História é moldada pela nossa perspectiva temporal individual, dessa maneira, podemos dizer que sim e que não, a depender do ponto no tempo em que o observador analisa os eventos. Os historiadores do século XIX percebiam a história como um estudo imparcial do passado, narrando seus eventos de forma cronológica. Contudo, o conceito de imparcialidade é tão intrincado quanto o significado da própria história. Na atualidade, compreendemos que a história abrange a observação, compreensão, interpretação e explicação do passado humano, buscando entender as transformações políticas, econômicas e culturais nas sociedades, culturas e civilizações. Isso envolve analisar como essas mudanças se desenrolaram e identificar os eventos cruciais que as impulsionaram ao longo do tempo. Diferentemente dos historiadores do século XIX, não sustentamos a visão de que a história se restringe à mera descrição cronológica dos eventos passados. Pelo contrário, acreditamos que estudar história é buscar compreender o presente, investigando as causas e consequências, bem como os contextos sociais que moldaram tais acontecimentos. Em relação à imparcialidade, como mencionado anteriormente, a percepção da história é subjetiva e depende dos olhos do observador. Cada observador interpreta os fatos de maneira única, influenciado por seus próprios valores culturais, sociais e perspectivas individuais. Isso reforça que a História é uma análise do presente, especialmente no modo como as pessoas do presente se relacionam com o passado na construção de suas identidades coletivas e individuais. Um historiador vai além da simples análise dos "fatos históricos"; ele também interpreta e gera ideias a partir dessa compreensão, exercendo, assim, uma influência crítica por meio de sua produção no tempo presente. [1] Edward Hallett Carr (1892-1982) foi um renomado historiador britânico e autor de destaque no século XX. Ele ficou conhecido principalmente por seu trabalho "Que é História?", no qual aborda questões fundamentais sobre a natureza da história e a influência do tempo na interpretação dos eventos. Carr também desempenhou um papel ativo na diplomacia britânica, servindo como diplomata e historiador na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Sua contribuição significativa para a teoria da história e a análise crítica dos eventos marcaram sua influência duradoura no campo historiográfico. [2] CARR, E. H. Que é história? Rio de Janeiro. 1961.

  • A CÂMARA DOS DEPUTADOS DESISTIU DO PROJETO DE LEI DE COMBATE ÀS FAKE NEWS APÓS PRESSÃO DE PARLAMENTARES BOLSONARISTAS

    A Câmara dos Deputados recuou na proposta do PL de Combate às Fake News devido à pressão de parlamentares bolsonaristas. Agora, a atenção está voltada para um projeto do senador bolsonarista Jorge Seif, que busca dificultar a remoção de perfis e proteger as plataformas nas redes sociais. Inspirado em uma medida provisória do governo Bolsonaro, que foi considerada inconstitucional pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o novo projeto visa criar obstáculos para a remoção de perfis e conteúdos nas redes sociais, além de abordar outros aspectos sensíveis ao marco regulatório atual. Por exemplo, isenta provedores de conexão à internet e redes sociais de responsabilidade criminal, editorial ou civil por danos causados pelo conteúdo, desde que medidas para identificação dos responsáveis sejam adotadas. O projeto também estabelece que a exclusão, cancelamento ou suspensão de contas e conteúdos só podem ocorrer com justa causa, incluindo falta de pagamento, contas falsas, e decisões judiciais. No entanto, o texto exclui a consideração de aplicativos de mensagens como redes sociais e suas versões comerciais, como Telegram e Whatsapp Business. O projeto, aprovado na Comissão de Comunicação e Direito Digital, aguarda análise na Comissão de Direitos Humanos, sob relatoria do líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues.

  • O velho e o mar

    Finca Vigia, Havana Há muito tempo, um homem do norte chegou nesta ilha. Ele não era mais o mesmo e não viveria as “Aventuras de um jovem” novamente. Não sentiria mais o sal das “Ilhas no Stream”, o calor do “Green Hills da África”, muito menos deixaria “As Neves do Kilimanjaro” tocar a sua face, mas estava pronto para outro tipo de jornada. Encantou-se tão profundamente com a ilha, que percebeu que suas raízes, antes soltas no ar, agora poderiam aterrar-se a este solo. Este homem era um dos escritores mais renomados de sua época, e grande parte de suas narrativas, contos e histórias foram digitadas em uma velha Olivetti Plomo, que ainda reside em uma sala vazia, olhando “Do outro lado do rio entre as árvores” através das janelas de vidro, esperando que seu velho companheiro volte para sentir o peso de seus dedos sobre suas teclas. Seus uniformes militares e suas botas ainda jazem em seu armário, pois encontrou a paz que tanto procurou em outras terras. “A quinta coluna e as primeiras quarenta e nove histórias” ficaram para trás, enfim, ele deu “Adeus às Armas” definitivamente; não havia mais serventia para elas. Agora, costuma passar pelas belas flores rosadas de seu “Jardim do Éden”, mesmo durante “As torrentes de primavera”, subindo a escadaria de um anexo para presenciar que “O Sol também Nasce” e escrever sobre aquilo que lhe era mais caro: a simplicidade da vida dos comuns. O escritor que há muito tempo partiu, encontrou em Cuba sua inspiração para escrever, em uma única tarde foram “Três histórias e dez poemas”. Nos cubanos, aquele “homem sem mulher” entendeu a verdade entre “ter e não ter”. Ao conviver com os pescadores, ele descobriu a cumplicidade entre um homem do mar e os peixes que leva para casa. Tal segredo tornou-se uma das histórias mais lidas e aclamadas do mundo. Foi pelas pessoas e, com elas, que o escritor dividia conversas e charutos. Entre um trago e outro em La Floridita ou em uma partida de xadrez com um jovem comandante, ele decidiu mais uma vez se apaixonar. Se apaixonou pelas pessoas que cruzava pelas curvas da estrada até San Miguel del Padrón, onde chamava de lar. Foi aqui também que esse escritor, que já conhecia a guerra de outras passagens, testemunhou a paixão e a ternura que sustentam o peso da revolução em uma linha tênue que separa a vida da morte. Paixão que motiva camponeses, pescadores, estudantes e todos os trabalhadores humildes a se levantarem contra a tirania. Seus olhos viram e seu coração sentiu a pulsão da revolução. Ele falou sobre ela, escreveu sobre ela, defendeu-a como sua. Mas a temporada dos furacões chega para todos, mesmo para aqueles que já não marejam mais ao balanço do mar. Em “O verão perigoso”, não foram os cubanos nem os revolucionários, mas o governo do país de onde ele havia vindo, os Estados Unidos da América. Em meio a uma guerra psicológica entre capitalistas e comunistas em todo o mundo, o escritor, que só havia nascido naquele território ao qual se sentia estranho, foi rotulado como traidor devido às suas estreitas relações com os líderes do governo revolucionário e com o povo cubano, do qual ele próprio se tornara parte. Após inúmeras ameaças, inclusive à sua própria vida, o escritor deixou a ilha, abandonando tudo o que um dia fora seu: seus milhares de livros, sua casa, anotações, o barco em que navegou e no qual escreveu parte de sua novela sobre o peixe, e a velha Olivetti Plomo que o ajudou a ser agraciado com o Prêmio Nobel. Ele partiu, deixando para Cuba tudo o que tinha e tudo o que já foi. Partiu, mas já não era ele. Pouco tempo depois de se estabelecer naquela que os outros diziam ser sua verdadeira pátria, ele percebeu que o sentimento não correspondia ao que pulsava em seu coração. Sentou-se em sua cama, em uma casa nova que comprou, mas que não sentia como sua, enquanto as visitas conversavam na sala. Então, passou as mãos sobre o metal frio, correu pela extensão da arma e retirou-a da parede. Num momento de sanidade, ele puxou o gatilho, mesmo sabendo que o “Vencedor não leva nada”. Explodindo nas paredes e no teto toda a fonte de onde brotaram aquelas belas palavras que o mundo leu. Seu nome estava estampado no dia seguinte nos obituários de todo o mundo. Aquela "Morte à Tarde" era agora, “Em nosso tempo”, uma lenda “Por quem os sinos dobram”. Seu nome era Ernest Hemingway.

  • O fim da canção, mas não do amor em Santa Maria

    Santa Maria, Havana Seis meses se passaram desde a última vez que um jovem casal estrangeiro esteve nesta praia. Hoje, ao retornar a esse cenário, o homem caminhava sozinho, o motivo do sorriso que antes adornava seu rosto não havia mais. A brisa que tocava seu rosto agora só fazia aumentar a saudade da mão que costumava acariciar sua pele. Suas mãos buscavam, em vão, o par que um dia selou o amor com uma aliança. Seus olhos penetravam o mar sereno e cristalino, como na última vez, mas ao seu lado não havia ninguém para compartilhar; apenas as flores lhe faziam companhia. A praia de Santa Maria foi o último destino antes que o coração do rapaz fosse tomado por um vazio insuperável. Ele não voltou para dançar, sorrir ou amar como naquela última vez. Ele voltou para se despedir. O mar, que testemunhara o início de tantos outros jovens amores, hoje estava incumbido de levar embora cada pétala de uma despedida melancólica. Sozinho, o rapaz caminhou em direção ao mar, sob os olhares atentos de seus familiares que esperavam na areia. A água tocou seus tornozelos, depois suas pernas, até abraçá-lo na altura do peito, onde segurava o buquê com carinho. As lágrimas, que salgavam ainda mais o imenso oceano, não podiam ser vistas à distância, mas estavam lá. O choro dos que assistiam era tão silencioso quanto o dos pássaros ou das poucas ondas que quebravam nas areias caribenhas. Todos compartilhavam a dor da perda e a beleza do amor que continuava a existir, mesmo em sua singularidade. O tempo parecia ter sua própria vontade naquele momento. Passava mais devagar, respeitando a necessidade do rapaz de se despedir. E, então, acelerou ao levar as flores para onde ele não pudesse mais alcançar. Ele disse o adeus que guardou nos últimos meses, confiante de que o amor deles transcenderia as águas profundas do tempo. Deixamos a praia de Santa Maria junto com o sol. Eu observava, sem palavras, no momento, os únicos sinais que meu corpo obedecia eram olhar para a mulher ao meu lado e segurar sua mão com firmeza, certo de que jamais a soltaria. Diferente daquele rapaz, a vida permitiu que eu fosse embora ao lado da pessoa amada. Como agradecimento, prometo sempre sorrir com seus sorrisos, dançar todas as canções que cantarolar, abraçar como se fosse a última vez e, por fim, amar muito e amar sempre, antes que o mar leve um de nós embora, pois ele sempre leva...

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