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- Desinformação: A batalha pela verdade na mídia palestina
Desde que aprendemos a nos comunicar, a mentira sempre esteve presente em nossas bocas, ainda mais em casos de disputas narrativas, territoriais ou de qualquer outra forma. Como se diz “durante os períodos de guerra, a primeira baixa sempre foi a verdade” [107]. Devido ao avanço das comunicações online nas últimas décadas, à medida que melhoramos nossos meios de comunicação, também aprimoramos as técnicas de disseminação de mentiras, revelando um desafio catastrófico de alcance global. Ao invés de informar a esfera pública sobre o que é de interesse, a desinformação, ou fake news tendem a provocar efeitos opostos. Se antes, o jornalismo esteve ligado à procura da verdade, a desinformação tem como pretensão obscurecer essa busca. A utilização do termo fake news suscita dificuldades na sua compreensão. Para nós, falantes do português, a tradução literal da expressão resulta em “notícia falsa”. Tal tradução tende, de certa forma, a relativizar o significado tanto da palavra “notícia”, que se refere a um fato de interesse público, quanto minimizar o uso da palavra “falso”, que simplesmente representa o que não é. Se uma informação é categorizada como “falsa”, então, por definição, ela não pode ser considerada uma notícia. Vamos adotar neste texto o termo “desinformação”, que é o que realmente significa. A desinformação busca unicamente confundir, manipular e iludir o público por meio de falsidades. – Espero, que os leitores adotem essa terminologia como forma usual, para que não mais notícia seja relativizada e falso minimizado. Conceituado a palavra "desinformação", avançamos agora para os efeitos colaterais causados por ela em nossa sociedade contemporânea. Em escala global, a desinformação tem desencadeado o caos, desestabilizado governos e manipulado a opinião pública em todos os cantos, muitas vezes visando influenciar o resultado de eleições democráticas ou sustentar golpes midiáticos; uma situação muito bem delineada pelo jornalista Andrey Korybko em seu livro "Guerras Híbridas” [108]. Basta observar os eventos ocorridos após a difusão em larga escala de desinformação referente ao "kit gay" e à "mamadeira de piroca", desinformações das mais absurdas, que abriram as portas para o período mais catastrófico da história da democracia brasileira, resultando no golpe batizado de impeachment da Presidenta Dilma, sucedida pelos governos golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A desinformação provoca danos em toda a sociedade, mas nenhum setor sofre mais com seus efeitos do que o jornalismo, especialmente aqueles comprometidos com ética profissional e a responsabilidade na apresentação de fatos em vez de fofocas. A inversão de valores foi tão significativa - e não me refiro apenas aos casos no Brasil e na Palestina - que os profissionais, após dedicarem longos anos ao estudo e aprimoramento de técnicas de comunicação, verificação de informações e métodos científicos, sem mencionar os estudos éticos, passaram a ser desacreditados pela sociedade. Seu compromisso com a verdade dos fatos foi substituído pelas páginas de redes sociais e grupos de WhatsApp, que priorizam apenas seus interesses em curtidas e compartilhamentos virtuais, em detrimento do comprometimento com a sociedade. Diante dessa nova realidade, o ambiente virtual se transformou em um palco onde se censura toda forma de luta social ao passo que autoriza e incentiva os verdadeiros discursos de ódio e promoção das mais bizarras pseudociências - alguém ainda duvida do formato da Terra? Para os jornalistas palestinos, os impactos têm sido ainda mais severos. Diante de tudo que discutimos até o momento, torna-se evidente que o Estado de Israel exerce um domínio significativo sobre o cenário midiático, utilizando sua influência para interferir na comunicação palestina. Esse controle se manifesta na distorção dos fatos noticiados, na alteração da narrativa e, acima de tudo, na influência sobre as redes sociais. O autor ilustrou, ao longo desse breve histórico, casos exemplares: desde a responsabilização de um jornalista por seu próprio assassinato até a morte de uma jornalista em um confronto de tiros unilateral; da confusão entre uma toalha branca e um coquetel molotov até a classificação de uma jovem jornalista como uma ameaça à segurança do poderoso Estado de Israel. Essa desinformação é disseminada por agências da indústria da desinformação e por perfis de redes sociais controlados e financiados pela ideologia sionista.
- Alfabetização midiática, uma ferramenta para libertação da Palestina
No âmbito do curso de jornalismo, aprendemos que os profissionais devem ser capazes de abordar os fatos com objetividade, transformando-os em notícias de maneira imparcial. Após discutirmos a falsa premissa da "imparcialidade", concentremo-nos agora no conceito de "objetividade". A objetividade refere-se à qualidade de manter-se imune a influências pessoais, preconceitos ou opiniões. No contexto do jornalismo, a objetividade representa uma norma ética que demanda a apresentação de múltiplos pontos de vista, a verificação minuciosa dos fatos e a clara distinção entre notícias e opiniões. Jornalistas devem evitar expressar opiniões pessoais ou tendenciosas em suas reportagens, fundamentando suas histórias em evidências verificáveis. Dessa forma, proporcionam aos leitores ou espectadores uma visão objetiva dos eventos, permitindo que formem suas próprias opiniões com base nos fatos apresentados. Teoricamente, se essa regra não fosse exceção, poderíamos, de fato, exigir e prestar mais atenção à objetividade. Entretanto, isso não é o que ocorre, pelo menos não desde o século XIX. Embora a objetividade seja um termo técnico de extrema importância, ele também pode ser usado de forma enganosa para difundir desinformação, como evidenciado durante o recente episódio de violência contra os palestinos na Faixa de Gaza e o avanço na colonização na Cisjordânia em 2023. A Indústria da Desinformação tem abordado os fatos com a “objetividade” de isolá-los. Desde o momento em que as Brigadas Al-Qassam cruzaram as fronteiras da ocupação e lançaram ataques contra Israel, a mídia tem negligenciado os 76 anos de ocupação colonial, genocídio contínuo, opressão e apartheid do povo palestino. Como se um grupo armado estivesse em um ataque terrorista por lazer e não em resposta aos 76 anos anteriores. O que está acontecendo atualmente é parte de um processo histórico em curso e não pode ser considerado um evento isolado. A desinformação, juntamente com uma noção distorcida de objetividade que rotula todos os palestinos, inclusive os jornalistas, como “terroristas”, transcenderam as barreiras geográficas de Israel e se espalhou pelos cabos de fibra ótica e redes de wi-fi em todo o mundo. No Brasil, é raro encontrar veículos de comunicação que tenham divergido da linha editorial favorável a Israel. Em geral, as mídias comprometidas com a verdade dos fatos e postura ética e objetiva em relação aos eventos em curso foram os canais independentes. Muitos jornalistas podem ter reproduzido esse tipo de conteúdo não necessariamente por compartilharem das políticas ou práticas sionistas que violam os direitos humanos, mas devido à necessidade de garantir que as contas estejam pagas no final de cada mês. É relevante também mencionar casos de negligência em relação à primeira regra que antecede a objetividade, que é a "checagem". Para verificar as informações, qualquer pessoa, mesmo sem ser jornalista, pode recorrer a diversas plataformas. É crucial destacar aquelas que conduzem análises de declarações feitas por políticos, tanto ao nível nacional quanto internacional. Exemplos desse tipo de serviço gratuito on-line incluem o Snopes, FactCheck, PolitiFact, International Fact-Checking Network e Reuters Fact Check, entre várias outras disponíveis. Devo ressaltar que nenhuma dessas ferramentas é infalível quando se trata de disputas narrativas complexas, como o conflito entre Palestina e Israel. Para além da checagem de informações, é fundamental que tanto jornalistas quanto o público em geral estejam atentos aos termos utilizados, evitando assim serem influenciados pelas armadilhas do senso comum. O senso comum refere-se às crenças, ideias e noções amplamente aceitas por uma sociedade ou grupo de pessoas, frequentemente sem uma base sólida em evidências científicas ou análises críticas. Essas noções são transmitidas de geração em geração e se tornam parte integrante da cultura de uma comunidade. Compreender o uso de terminologia pré-estabelecida, como "antissemitismo," "guerra santa," "judaísmo" e outras expressões é o primeiro passo para evitar cair nessas armadilhas; outra forma é prestar atenção à maneira generalizada e estereotipada como são empregados termos como "árabe," "muçulmano," "terrorista" e outros frequentemente utilizados para influenciar a opinião pública. Vivemos em uma era de rápida disseminação de informações, na qual as mídias sociais e as plataformas digitais desempenham um papel significativo na formação de opiniões e consciências. No entanto, a conectividade digital também trouxe um fenômeno preocupante, a desinformação. A causa palestina destaca-se como um exemplo de como a desinformação pode moldar a consciência coletiva e prejudicar a busca por uma solução justa e equitativa. Não há maneira de combater a nocividade da desinformação sem promover a alfabetização midiática e a formação de uma sociedade crítica. As pessoas precisam ser incentivadas a questionar informações, verificar fontes e considerar diferentes perspectivas. A importância de questionar, verificar e analisar criticamente as informações que encontramos não pode ser subestimada. No contexto da causa palestina, cada clique, like ou compartilhamento pode ter consequências profundas na vida e dignidade de milhões de pessoas. A desinformação pode ser tão destrutiva quanto uma bala disparada, especialmente quando contribui para perpetuar preconceitos e injustiças. Em uma era globalizada e digital, onde nossas ações virtuais têm impactos reais, a necessidade de alfabetização midiática e educação crítica é mais urgente do que nunca. Não apenas para evitar a disseminação de informações incorretas, mas também para garantir que estejamos trabalhando juntos na busca de soluções sensatas e duradouras para os conflitos globais. A busca pela verdade e pelo entendimento é uma responsabilidade compartilhada, e é por meio da educação e do pensamento crítico que podemos enfrentar o desafio da desinformação e construir um mundo mais justo e informado.
- Desinformação global e o chamado urgente pelo jornalismo e a regulamentação da Internet
A era da globalização se tornou também a era da desinformação. Nunca foi tão necessário o fortalecimento do jornalismo sério, responsável e comprometido com os princípios éticos para defesa da sociedade e de nossa própria civilidade, assim como nunca se fez tão urgente aderir à política de regulamentação da internet e mídias sociais. Atualmente, a UNESCO e diversos jornalistas, representantes de estado e outras organizações têm discutido uma regulamentação em âmbito global. No início do ano de 2023, em Paris, foi realizado a Primeira Conferência Global “Internet for Trust”, ou “Por uma Internet Confiável” para discutir um “conjunto de rascunhos de diretrizes globais para a regulamentação de plataformas digitais” no intuito de “melhorar a confiabilidade da informação e proteger a liberdade de expressão e os direitos humanos” [109]. O evento gerou controvérsia em todo mundo, alimentando a mesma desinformação, discurso de ódio e teorias da conspiração que a conferência buscava combater. Uma das questões centrais discutidas durante a conferência está relacionada ao direito à intimidade e privacidade na internet, conforme estabelecido no artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É inegável que milhões de dados pessoais de usuários da internet são coletados por empresas privadas e comercializados para quem oferecer o maior lance. A justificativa recorrente para essa prática de espionagem frequentemente gira em torno da segurança. Curiosamente, ainda há pessoas que se sentem seguras sob vigilância constante, apoiando o argumento clássico de “quem não deve não teme”. A realidade vai muito além do escopo da segurança e encontro de práticas que visam não apenas a identificação de “terroristas”, como evidenciado no Project Pegasus, mas também a vigilância de opositores políticos e jornalistas comprometidos com a responsabilidade e transparência – dessa vez, diferente do Project Pegasus. Guilherme Canela, chefe da área de Liberdade de Expressão e Segurança de Jornalistas da UNESCO, explicou à ONU News, em Paris, os objetivos do evento, a magnitude do desafio e as estratégias para enfrentá-lo. “Temos um desafio considerável: embora haja um certo consenso sobre o problema, ainda não existe consenso sobre como abordá-lo. Portanto, a UNESCO convocou este debate global com todos os interessados para apresentar um rascunho de proposta em desenvolvimento. Queremos receber contribuições sobre como podemos efetivamente lidar com a situação, desenvolvendo oportunidades, mitigando riscos e buscando justiça pelos danos causados, ao mesmo tempo em que protegemos a liberdade de expressão.” Guilherme Canela, 2023. [110] A expressão “regulamentação” já foi deturpada por agentes mal-intencionados que a conhecem bem. Muitos deles usaram suas redes sociais para criticar a possível regulamentação internacional da internet e das redes sociais, alegando que isso infringiria a liberdade de opinião e expressão dos usuários. A regulamentação da internet não é uma questão nova no Brasil. Em 2021, uma audiência pública foi realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para debater o tema. Deputados brasileiros, principalmente da direita, se manifestaram contra a possibilidade de o Ministério do Turismo editar um decreto regulamentando a moderação de conteúdo em plataformas digitais. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), conhecida por disseminar desinformação sobre o processo eleitoral brasileiro e medicamentos ineficazes contra a covid-19, foi uma das primeiras a se manifestar contra a regulamentação de postagens em mídias sociais. Segundo a deputada, 19 de seus vídeos foram retirados do Facebook, ela alegou que seus vídeos “não continham nenhum tipo de crime, eram apenas opiniões”. É compreensível que Carla Zambelli tema a regulamentação, uma vez que sua concepção de liberdade de opinião e expressão parece não considerar os direitos humanos de terceiros. Também, o que podemos esperar de alguém que compartilha nas redes sociais uma imagem retratando uma águia adornada com as bandeiras de Israel e dos EUA atacando um rato com um cinto de explosivos e a bandeira da Palestina? E isso ocorreu quando 9 mil palestinos já haviam sido assassinados por bombardeios israelenses no cerco a Gaza de 2023. Em seu discurso de abertura na conferência, Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO, observou que a linha divisória entre verdade e falsidade está cada vez mais tênue, com a negação de fatos científicos e a amplificação da desinformação e das teorias conspiratórias. Ela afirmou que, embora a desinformação não tenha começado nas redes sociais, a falta de regulamentação permitiu que ela ganhasse mais espaço do que a verdade. A conferência foi uma resposta a um apelo global de ação feito pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, para enfrentar a disseminação da desinformação e a negação de fatos científicos estabelecidos, que representam “um risco existencial para a humanidade” – como aqueles propagados pelo conhecido gabinete do ódio do clã Bolsonaro, Zambelli e outros apoiadores. Na França, onde ocorreu a primeira discussão internacional sobre a regulamentação da internet, o debate sobre a regulação dos meios de comunicação é antigo. Em 1982, o país estabeleceu sua regulação de comunicações com a criação da Alta Autoridade da Comunicação Audiovisual, posteriormente transformada na Comissão Nacional da Comunicação e das Liberdades (CNCL). O marco regulatório orienta as operações de emissoras públicas e privadas, visando garantir a proteção e promoção da cultura nacional, liberdade de expressão, direitos fundamentais, liberdade econômica e diversidade dos meios de comunicação. A legislação francesa limita o controle de veículos impressos diários a 30% por grupo de mídia, exigindo deles a exibição de programas educativos por meios de comunicação, tanto públicos quanto privados, aos quais foram concedidas licenças. Além disso, a França autoriza restrições à liberdade de expressão para evitar crimes, como a lei de combate ao racismo e à xenofobia, e possui leis que protegem direitos individuais, incluindo privacidade e restrições à pornografia. Em todo o mundo, a desinformação e o discurso de ódio se tornaram cada vez mais frequentes nos últimos anos. A jornalista filipino-americana Maria Ressa[1], que também participou da conferência em Paris, destacou que “as mentiras se espalham mais rapidamente do que os fatos” e que, quando combinadas com medo, raiva, ódio e tribalismo, se espalham como um incêndio em gravetos secos. O que Ressa advertiu é que não podemos mais tolerar algoritmos de mídias sociais que recompensam a disseminação de mentiras em troca de nossa liberdade. [1] Maria Angelita Ressa é uma jornalista e autora filipino-americana, mais conhecida por cofundar o website jornalístico Rappler, do qual é diretora executiva. Em 2021, ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
- Os dilemas da liberdade de expressão na Palestina e no mundo
A liberdade de expressão pode ser interpretada por algumas pessoas como o direito de propagar discursos racistas e preconceituosos, como é feito anualmente na marcha das bandeiras[1]. No caso do Estado de Israel, a implementação de barreiras em torno da população palestina, bem como ações de humilhação, prisão, tortura e assassinato, é vista como uma medida para garantir a liberdade e segurança dos cidadãos israelenses. Por outro lado, para os palestinos, a liberdade significa lutar por seus direitos básicos e resistir à ocupação. Mesmo que os conceitos sejam parecidos, quando ambos os lados o exercem, as respostas são bem diferentes. Isaiah Berlin, um influente filósofo político do século XX cujo principal trabalho é baseado nos conceitos de liberdade, entende que “é inegável que a verdade e a liberdade de expressão não podem florescer onde o dogma suprime todo o pensamento” [111]. – Mas o que quer dizer verdadeiramente a palavra liberdade? – Será que a mais pura liberdade também possui restrições? Berlin desenvolveu uma análise abrangente dos variados tipos de conceitos de liberdade em sua obra. Ele examinou as múltiplas facetas da liberdade em condições sociais e em culturas diversas, explorando os dilemas que surgem quando essas concepções entram em conflito uns com os outros ou com os estados que os governam. Dois dos concentos principais e universais delineados por este filósofo são a liberdade negativa e a liberdade positiva. A liberdade negativa, segundo Berlin, é a ausência de interferência externa, permitindo que as pessoas ajam e expressem suas opiniões sem serem coagidas. Um exemplo claro é quando as pessoas se reúnem para manifestar suas opiniões; sob essa visão, elas têm a capacidade de se expressar livremente, mesmo que possam enfrentar hostilidades. Por outro lado, a liberdade positiva refere-se à capacidade de um indivíduo alcançar seus objetivos, muitas vezes envolvendo a colaboração de outras pessoas ou instituições. Para ilustrar, imagine alguém sonhando em voar como um pássaro. Embora seja livre para tentar, a natureza humana impede a realização desse sonho. Transpondo para a realidade na Palestina, um palestino pode escolher o jornalismo, mas será que pode exercê-lo sem perseguição pelo estado ocupante? A resposta parece evidente. A questão da liberdade positiva ou negativa se manifestam seletivamente nos territórios ocupados palestinos. Dizer que um jornalista palestino é livre, é um eufemismo, já que as correntes que os aprisionam são tanto morais quanto físicas. O mesmo vale para todos os cidadãos palestinos na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia. Embora possam ter mobilidade limitada, sempre que se levantam para lutar por sua emancipação, são reprimidos. No Ocidente, principalmente por meio da indústria da desinformação, é comum afirmar que os palestinos são privados de sua liberdade devido a grupos de libertação nacional. Uma grande abstração da realidade para um povo que luta diariamente por aquela palavra que subestimamos muitas vezes o significado. Não cabe a nós, nem mesmo ao Estado de Israel, assim como nunca coube a Organização das Nações Unidas em 1948, definir os limites territoriais ou as restrições às liberdades dos palestinos. Isso é uma prerrogativa do povo palestino, e somente do povo palestino, que deve ter seu próprio estado independente e livre para poderem eles mesmo escolher seus governantes e cobrar de seu governo a sua própria concepção de liberdade. Para alcançar isso, não apenas os jornalistas, mas toda a Palestina deve ser imediatamente libertada. – E como? [1] A Marcha das Bandeiras é uma componente do Yom Yerushalayim, uma celebração anual na qual os israelenses buscam eternizar a conquista de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias. Essa marcha, organizada e financiada por colonos ultranacionalistas, frequentemente inclui manifestações públicas de hostilidade contra os palestinos. Os participantes costumam expressar palavras de ordem carregadas de ódio, como "morte aos árabes".
- A liberdade de opinião e expressão dos jornalistas palestinos não corresponde ao que está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos
Em 10 de dezembro de 1948, o Estado de Israel foi um dos países que durante a Assembleia Geral das Nações Unidas votaram a favor da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Na Resolução 217 A III, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi estabelecida com o objetivo de reconhecer, proteger e garantir os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais de todos os seres humanos, não importando sua classe social, nacionalidade, religião, cultura, gênero, orientação sexual ou qualquer outra forma de discriminação. Os direitos e liberdades estipulados por essa declaração são fundamentais para o estabelecimento da paz, o desenvolvimento humano e a democracia. Esses direitos tornaram-se parte essencial do direito internacional. Quando um Estado como Israel assina essa declaração, expressa publicamente sua vontade de promover esses direitos e torná-los vinculativos ao Estado. A liberdade de imprensa, não está especificada desta maneira nesse conjunto de leis, porém, é defendida pelo artigo 19, na qual se refere a liberdade de opinião e expressão. No campo do jornalismo, entende-se que esse artigo protege o direito e a liberdade de um indivíduo publicar e ter acesso à informação, geralmente por meio de comunicação de massa, sem interferências de terceiros, o que garante a proteção de todos os outros direitos humanos delineados pela declaração. Art.19 “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.” [33] Os tratados e pactos internacionais referentes aos direitos humanos, são reconhecidos e vinculados a constituição de maneiras diferentes pelos estados nacionais. Em alguns países “os tratados internacionais têm precedência sobre a lei nacional; em outros, uma lei específica pode ser exigida para dar a um tratado internacional já ratificado a força de uma lei nacional” [34]. No parlamento israelense, Knesset, a adoção automática de convenções é um tabu, muitos defendem que sem a participação do parlamento no processo de criação de leis domésticas vinculativas aos tratados internacionais podem causar situações em que “o poder executivo assume um compromisso internacional que não é cumprido devido à falta de legislação nacional relevante” [34]. O aparente compromisso com a defesa dos direitos humanos permitiu que, em 11 de maio de 1949, o Estado de Israel fosse, em resposta ao pedido de admissão, aceito como membro das Nações Unidas. Israel foi o único Estado a ser aceito na ONU sob termos condicionantes, principalmente em relação aos direitos humanos e retorno dos palestinos expulsos durante a Nakba. Nas décadas seguintes após a admissão na ONU, não só Israel não cumpriu com nenhuma das condicionantes como também continuou a expulsar palestinos de suas terras, violar todos os direitos humanos e perpetuar seu projeto de limpeza étnica. Em 16 de outubro de 1991, após décadas de violações, Israel reforçou o compromisso com os direitos humanos ratificando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ratificação é quando um estado se dispõe a ficar legalmente vinculado a um determinado tratado, convenção, declaração ou protocolo. As ratificações da DUDH impõem ao Estado de Israel novas obrigações internacionais, pelas quais ele pode ser responsabilizado em caso de violação. Mesmo como força ocupante, Israel se comprometeu em garantir, defender e proporcionar condições para os direitos humanos de todos os indivíduos sob sua jurisdição, incluindo os palestinos. O compromisso do Estado de Israel com os direitos humanos seria cômico se não fosse trágico. Ao que parece, assinaturas e ratificações não passam de fachadas democráticas, na realidade o país frequentemente age em contraposição a esses princípios. Essa discordância permite que crimes internacionais e violações contra tanto os profissionais de imprensa quanto a população civil palestina ocorram sem a devida responsabilização. Curiosamente, no próprio site do Knesset, é possível encontrar uma descrição de como o parlamento israelense compreende a obrigação de assinar e ratificar tratados internacionais. “Um tratado é um instrumento pelo qual os países concordam em impor limitações à sua soberania. Eles são frequentemente chamados de cartas, acordos, protocolos, memorandos, pactos, trocas de notas ou qualquer um dos mais de 25 outros títulos; vinculam os Estados com direitos e obrigações sob o direito internacional.” Knesset [34] Além de menosprezar a validação das leis internacionais de defesa dos direitos humanos, os parlamentares no Knesset as consideram limitações à sua soberania. Se o Estado de Israel, comete os crimes e violações que comete mesmo tendo assinado e ratificado leis de proteção aos direitos humanos, quais seriam os crimes que ele estaria disposto a cometer se não tivesse firmado esse compromisso?
- Permissões
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- Shukran Falestine
Saímos de casa há trinta e poucos dias à procura da Terra Santa. Porém, encontramos diversos conceitos para “Terra Santa”. Tantos que não há mochila ou mala grande o suficiente para colocar. Na Turquia aprendemos que o conceito de santidade está profundamente vinculado ao conceito de “liberdade”. Se nos perguntarem se encontramos a santidade na Turquia, podemos dizer que sim. Na Capadócia reviramos igrejas cristãs primitivas esculpidas em cavernas; em Istambul vislumbramos mesquitas tão antigas quanto o próprio Islã. Entretanto, Izmir nos ensinou que a verdadeira santidade repousa na diversidade religiosa e em sua liberdade de escolha individual. No passado, os turcos tiveram liberdade para escolher a própria religião, e assim o fizeram; mas também optaram por manter um estado secular livre da imposição religiosa. Fé e espiritualidade existem em cada indivíduo de maneira diferente, portanto, um estado tão plural como a Turquia não pode ser livre e democrático se impuser os dogmas de uma única religião. Encontramos a Terra Santa na Turquia exatamente pelo fato dos turcos poderem escolher por sua própria vontade o que consideram ou não santo. Para a Palestina. Ah, Palestina! Mãe de tantos mártires e heróis; essa carregamos em espaço cativo no coração. Se encontramos a Terra Santa aqui, sim! Em coisas completamente diferentes das quais pensávamos. Encontramos a santidade, não em igrejas, muros, mesquitas, tumbas, sinagogas ou estações da Via Crucis. A santidade palestina reside em seu povo. Santidade que descobrimos um pouco devido aos amigos que fizemos; outros tantos pelas histórias que ouvimos; pelas coisas que vimos; e claro, por todas as lágrimas que derramamos juntos. Agora, a caminho de casa, ou pelo menos da cidade onde nasci, relembro todos os momentos vividos nos últimos dias e aproveito para reler algumas notas escritas. Abro a primeira, qual já nem lembrava ter escrito; nota que escrevi ao começar esta viagem, justamente quando fazia o caminho oposto ao que faço agora. “Estou cruzando São José dos Campos. Olhando pela janela percebo como essa cidade mudou nos 13 anos em que já não vivo mais aqui. Observo as mudanças externas e reflito como eu também mudei nesses últimos 13 anos. Mas assim como São José, apesar das mudanças, ainda preserva muito do que a torna a cidade que é – seja para bem ou para mal – assim como eu – seja para bem ou para mal. Gosto de pensar que estou completamente desenraizado, principalmente quando deixo a cidade passar sem olhar para trás, mas como disse, ainda tenho minhas raízes conectadas nesta terra como um cordão umbilical, que não consigo ou não quero que seja cortado.” 1 de janeiro de 2023. Relendo essa pequena nota, entendo que saí para procurar o que sempre esteve diante de meus olhos; algo que os palestinos descobriram há muito tempo. Explico: passamos por checkpoints com os palestinos; vimos casas sendo demolidas pela ocupação; sentimos medo durante a noite; viajamos em transporte público; ficamos presos em estradas; fomos humilhados por soldados; choramos juntos por jovens assassinados no meio do dia. Por outro lado, rezamos juntos; jantamos no mesmo prato – como de costume; cuidamos da terra; podamos oliveiras; sorrimos, nos divertimos e, acima de tudo, amamos e nos sentimos amados. Dessa maneira entendi que a Terra Santa, para os palestinos é sua própria terra; onde eles vivem ou sonham em viver com todos aqueles que amam. É por essa terra que os palestinos morrem, para que um dia ela seja liberta e seus entes queridos possam retornar. O conceito de Terra Santa é diferente para turcos, israelenses e palestinos, tão quanto é para mim, para Di, ou para você caro “leitor”. No último mês procurei pela santidade em três países diferentes, encontrei vários conceitos, mas nenhum era o meu. Olhando para o lado vejo a minha própria Terra Santa, ela estava no mesmo lugar onde sempre esteve: sentada na poltrona ao lado olhando pela janela.
- De Ramallah a Jerusalém: o desafio diário dos checkpoints e zumbis de Israel
Jesus disse: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.” Lucas 21:20 Soldados circulam por todos os lados, meninos e meninas cheios de si, como se fossem os últimos defensores da pátria. Eles passam por nós desconfiados, se distanciam, mas os cães os trazem de volta, deve ser por causa dos pacotes de zatar[1] e sálvia[2] que estamos carregando, ou quem sabe nos acham parecidos com os palestinos. Enquanto aguardamos o horário de embarcar de volta para casa sentados aqui no aeroporto, escrevo sobre surreal dia que enfrentamos. É melhor escrever agora, deixar para depois minimizaria a raiva que estamos sentindo. Sendo nosso voo às 4h, saímos de Ramallah com 12 horas de antecedência. É doentio ter que sair todo esse tempo com antecedência para atravessar menos de 70 km. Para chegar ao aeroporto teríamos que ir para Ramallah e pegar um ônibus com destino a Jerusalém e de lá um trem para Tel Aviv. Passando pela capital administrativa palestina, compramos mais uma mala para colocar as encomendas do Jehad. Viajar no frio é bom, mas carregar 4 malas, uma bolsa e duas mochilas é um “saco”. Nossa família adotiva nos levou até o estacionamento das vans. Abu Khaled saiu perguntando sobre o transporte para Jerusalém; um dos motoristas disse que não teria mais carros e teríamos que ir até Qalandiya e atravessar pelo checkpoint até o lado israelense. Sem problemas, tínhamos tempo e estamos acostumados com essas mudanças de planos; só não estávamos a fim de ficar cara a cara com os soldados sionistas, mas tudo bem. Toda vez que nos despedimos de alguém que gostamos sabendo que não nos veremos mais, ao menos não tão cedo, é mesmo complicado. Nos últimos dias essa família nos acolheu e fez de tudo por nós, nos sentimos realmente como membros de um clã palestino, dificultando ainda mais o momento de dar tchau. Nos abraçamos, trocamos as últimas palavras. Ayman, gentil como sempre, me passou a última lição de português/árabe ali mesmo. Abu Khaled e Ruayda aproveitaram para fazer as últimas recomendações quanto ao trajeto e nos despedimos à maneira típica palestina, curto e grosso, porém transbordando carinho. Nunca, “nunca esqueceremos de tudo que fizeram por nós”, foram nossas últimas palavras antes de subir no táxi. Em Qalandiya o motorista nos apontou para o checkpoint, descarregamos as malas, iria começar o inferno. Pelo lado de fora, a barreira sionista parece com um abatedouro de gado, de fato é! Estava vazio, caminhamos pelos corredores externos. Sabe aquelas filas intermináveis de aeroporto que você fica andando em zig-zag por entre fitas? Usando sua imaginação, substitua as fitas por paredes de ferro com grade como cobertura. Ainda para ser mais cruel, aqueles intermináveis corredores que milhares de palestinos precisam passar ao menos duas vezes por dia, ficam do lado externo. A engenharia sionista é tão cruel que não bastava construir aquela monstruosidade, eles colocaram grades na parte do teto, assim, enquanto esperam nas filas do abate, os palestinos enfrentam o frio, a chuva, ou o intenso sol de verão do Oriente Médio. Ao tratar os palestinos como animais, os próprios sionistas se transformam na pior, mais cruel e selvagem de todas as espécies. Na parte interna passamos pela primeira verificação com os soldados. Fui colocando as malas no raio X enquanto a Di passava pelo detector de metais. Pi pi pi. Aquela merda apitou, foi então que a primeira besta selvagem começou a bater no vidro e gritar em hebraico. Se não falamos nem inglês, quem dirá hebraico. Começamos a responder em português. Uma observação: costumamos aprender pelo menos as palavras correspondentes à boa educação em cada país que visitamos; obrigado, com licença e por aí vai; mas como ali os soldados são tão estrangeiros como nós, não existia a necessidade de aprender nada. A soldada, uns vinte anos de puro ódio, ficou irritadíssima. Outro rapaz, também de uns vinte e poucos anos, apareceu para dar apoio para menina. Ele falava em inglês, mas como nós não falamos bem e não estávamos nem um pouco dispostos a sermos simpáticos, bati o passaporte no vidro e respondi um alto e claro “no speak english”. A fila foi se formando atrás de nós, a essa altura uns 5 palestinos tentavam nos ajudar com as malas pelo raio X e o inferno daquele detector de metais que não parava de apitar. Com muito custo, depois de umas trezentas tentativas, a Di conseguiu passar. Na minha vez eu já tinha tirado tudo dos bolsos, os casacos, a bota, a touca, tudo que podia; passei sem apitar. Em um corredor longo, chegamos às portas giratórias. Passamos por umas três. A Di ia à frente e uma a uma eu passava as malas e mochilas. Profundamente irritado, minha vontade era de largar aquele monte de mala ali mesmo. Essas portas não são como as dos bancos, elas são roletas de ferro do chão ao teto, e também muito espremidas. Soldados em outra guarita a frente se divertiam em nos ver passando pela última catraca, o que me irritava ainda mais. Quando íamos girar a última roleta entre nós e Jerusalém, outra israelense, ainda mais insana que a primeira começou a gritar com a Di. Estressada com a abordagem, a Di seguiu o plano de só falar português. A menina espumava pela boca enquanto socava o vidro. Por um buraco na cabine passamos os passaportes. Enquanto a menina gritava em hebraico como se o volume da voz fosse nos fazer compreender o idioma, a Di comentou que parecia o zumbi que tenta quebrar o vidro com a cabeça no filme “Eu sou a lenda”, realmente parecia. Como na guarita anterior, saiu outro soldado com um fuzil na mão, ele me perguntou em inglês o que estávamos fazendo em Qalandiya. Não vou nem comentar o que pensei em responder, disse em português “no Qalandiya, Jerusalém, Je–ru–sa–lém”. Enquanto a zumbi continuava a bater a cabeça no vidro, com outras amigas que se juntaram a ela para assistir o circo, o soldado fez perguntas, as quais algumas eu não entendi e outras ignorei, só respondia, e em português, “i´m Brazil, no speak english, you speak portuguese?” Ele insistiu e perguntou se conhecíamos alguém na Palestina. Eu queria muito responder que sim, conhecíamos pessoas, seres humanos maravilhosos, educados, amáveis, carinhosos e gentis, tudo que os israelenses não são, mas não podia. Se passássemos por uma revista, encontrariam em nossas malas muitas coisas árabes e turcas, e de alguma maneira poderiam chegar a Ruayda e Abu Khaled; se abrissem minha lista de contatos no whatsapp seria ainda pior; portanto, obviamente, neguei conhecer pessoas na Palestina! Com muita dificuldade passamos. Por estarmos na Palestina, aqueles jovens queriam tentar de alguma maneira nos atrasar, eles sabiam que se estávamos ali, naquele checkpoint é porque somos simpáticos a luta de emancipação palestina. Liberados pela roleta saímos sem olhar para trás, só ouvíamos ao longe os gritos dos zumbis. De certa forma os soldados são mesmo zumbis, e o sistema de educação israelense faz de tudo para que isso se torne possível. Nurit Peled-Elhanan, professora de língua e educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, após ter a filha assassinada em um atentado suicida, iniciou uma pesquisa científica sobre a ideologia e a propaganda usada nos livros didáticos israelenses. O resultado da pesquisa apontou que a educação e os materiais didáticos são ferramentas utilizadas para alienar os jovens que em poucos anos estarão fardados e com um fuzil apontado para os palestinos. Nas escolas israelenses as crianças passam por todos os anos escolares sem ver uma única fotografia de uma pessoa palestina nos livros que estudam. Geralmente quando retratados, os palestinos são representados por ilustrações infantis de árabes do século XIX, como se todo palestino fizesse parte de uma comunidade internacional árabe que compartilha dos mesmos hábitos e culturas; essa estratégia visa o argumento de que os palestinos podem se mudar para qualquer país árabe. Outras vezes, ao se falar dos Territórios Palestinos Ocupados, as áreas da Cisjordânia, como Hebron, permanecem vazias e sem informações sobre quem habita ou o que há no local, um “espaço em branco pronto para ser habitado”. Essas “categorias de discurso racista” tentam apagar a existência das pessoas nativas, transformando-as no “problema palestino”. Os livros didáticos israelenses objetivam desumanizar os palestinos, deturpar as incursões de limpeza étnica, glorificar os heróis da causa sionista e, acima de tudo, criar zumbis alienados e cheios de sede de sangue. Andando pelo último corredor, dessa vez muito escuro, mal iluminado, sem nenhuma sinalização e as moscas, chegamos a uma bifurcação. “Fudeu”! – e agora? Como não tinha um único palestino para seguir, escolhemos o caminho da direita. Caminhamos um pouco e quando vimos, estávamos na frente do matadouro novamente, agora pior, não tinha como voltar. Teríamos que fazer o trajeto da morte tudo de novo. No fundo eu sabia que a direita sempre é o caminho de merda que nos faz andar para trás. Com mais fúria, e agora com muito mais motivos, passamos novamente pelos percursos: labirinto externo de ferro; porta giratória; porta giratória; porta giratória; raio X; detector de metais; soldados furiosos; porta giratória; porta giratória; porta giratória; guarita dos zumbis. Quando a zumbi viu a Di novamente ali, ela ficou ensandecida – eu nem sabia que era possível um zumbi passar de nível, agora sei. A menina só faltava enfiar a cabeça pelo buraco da guarita para morder. Estávamos realmente muito irados, e tínhamos motivos para isso, era exatamente o que a menina queria ver. Falei para Di, vamos rir e mostrar que não temos medo, embora tivéssemos, afinal, eram jovens sem nenhum bom senso e com um fuzil enorme. Começamos a rir e passar as malas, como dois turistas burros ao estilo “Debi & Loide”. Passando do nível “hard”, a menina se levantou para bater no vidro e olhar para Di, ainda mais provocante, além de rir, a Di não olhou para ela uma única vez, como se ela não estivesse ali dando aquele show. O soldado novamente nos deixou passar, embora a menina discordasse, com os cabelos já bagunçados ela gritava e espumava com o soldado. Passamos, quando olhei para trás, “puta que pariu, esquecemos uma mala”. “Caralho, merda”, recitando todos os palavrões que conhecia, pensei “vou ter que dar a volta tudo de novo”, mais que “porra!”. A fim de se livrar logo de nós, e fazer aquela menina calar a boca e parar de gritar, o soldado saiu da guarita e foi buscar a última mala. Dessa vez, o ódio da zumbi se voltou para seu companheiro, ela tentou agarrar seu braço no intuito de impedi-lo de ir buscar a mala. Ela queria um motivo para nos dar um tiro, e uma mala para trás pode ser justificado como “sinal de bomba”, aí eles atiram mesmo, já fizeram antes, e se não fosse gringos, teriam feito novamente. O soldado pegou a mala, me entregou e apontou para a esquerda, por uma passarela escura. Agora falta pouco para chegar em casa, porém, como você mesmo “leitor” já se cansou de nos ver escrever aqui, andar pela Palestina demanda da vontade dos soldados israelenses, por isso saímos quase 12 horas antes, para atravessar um caminho de 60 km de puro ódio. Os soldados tentaram de todas as maneiras nos atrasar, embora uns ou outros tentassem nos morder eu espalhar nossos miolos pelo chão com um tiro. No fim das contas, cá estamos, já fizemos o check-in e agora aguardamos para voltar para casa. Mas parece que essa odisseia não acaba. Aqui mesmo no aeroporto, já respondemos mais algumas perguntas idiotas, como: foram vocês que arrumaram as próprias malas? Estão juntos? Quanto tempo vocês estão casados? Possuem algum explosivo? – Fico com a língua coçando com todas essas baboseiras. Agora é hora de voltar para nossas vidas e continuar lutando contra esse sistema que oprime por um lado e por outro cria zumbis e os alimenta com o mais puro ódio; o resultado disso, são massacres como o do campo de refugiados de Jenin. Naturalmente os soldados israelenses, assim como o jovem que cometeu o atentado em Jerusalém foram jogados para essa situação ocasionada por um regime de apartheid que propaga cada vez mais o racismo. Assim como nem todos os palestinos acreditam na luta por meio de armas, alguns soldados israelenses também não estão dispostos a agredir e violar os direitos palestinos. Em Israel alguns ex-soldados das forças de ocupação entenderam como e o que é o sionismo. Após o serviço militar obrigatório, arrependidos de suas próprias contribuições, os jovens fundaram a organização Breaking the Silence, a qual se dedica a palestrar nos territórios ocupados para outros jovens soldados, e também participam de manifestações a favor da Palestina. Como essa organização é israelense, judaica e de ex-militares, estava moldando a opinião pública e denunciando os crimes e violações, o Estado de Israel resolveu classificá-los também como organização terrorista. Claro, para qualquer regime autoritário, “se você não está conosco, está contra nós!” Apesar das tentativas de silenciamento e repressão por parte do Estado de Israel, organizações como a Breaking the Silence continuam a desafiar a narrativa oficial e a lutar pelos direitos humanos e pela justiça na Palestina. Esses veteranos, ao reconhecerem os horrores da ocupação e do sionismo, estão contribuindo significativamente para conscientizar outros jovens israelenses sobre a realidade da vida na Palestina e os abusos cometidos pelo Estado de Israel. A trajetória desses militares que se tornaram ativistas é um exemplo poderoso de como é possível questionar e desafiar sistemas de opressão, mesmo quando se faz parte deles. Suas vozes são essenciais na luta contra a desumanização dos palestinos e na promoção de uma paz verdadeira e duradoura na região. À medida que mais pessoas em Israel e ao redor do mundo se conscientizam sobre a situação na Palestina e se engajam em ações de solidariedade e defesa dos direitos humanos, há esperança de que um dia a injustiça e a opressão sejam superadas e que todas as pessoas na região possam viver em paz e dignidade. [1] Mistura de especiarias usada como condimento e originária do Oriente Médio, marcante na culinária levantina-árabe. [2] Nativa da região Mediterrânica e cultivada como erva aromática e medicinal ou como planta ornamental. Também utilizada para chá.
- A arte de expressar a dor e a força das mães fedayins palestinas
Cheguei na Palestina com uma imensa vontade de pintar, queria muito expressar tudo que estava sentindo. Pintar é a maneira que tenho para colocar todo sentimento para fora, mesmo os desenhos que fiz pelo caminho, não foram suficientes para suprir essa necessidade. Minha vontade era deixar aqui um pouco da minha arte, para mostrar como me importo com o que estava acontecendo. Mas, como nada é por acaso e um artista não escolhe o que sente ou quando sente, minhas ideias e meus sentimentos acabaram se transformando, tão rápido como mudam as dunas no deserto. Parte das mudanças aconteceram por conta da alteração em nosso roteiro, já outra parte por conta do que vivemos nos últimos dias. Para começar, ficaríamos na casa do Jehad, além dele não poder vir, sua família ainda teve alguns problemas pessoais enquanto estávamos na Turquia. Acontece que a hospedagem em Israel é muito cara, a mais cara que já pagamos na vida, sem contar que ficamos em um hotel racista, qual o dono tinha até uma bandeira do batalhão Azov[1]. Na Palestina o hotel é um pouco mais barato, mesmo assim você precisa estar atento aos acontecimentos e onde as IOF estão atacando. No fundo, eu sabia que os planos para a segunda parte da viagem daria tudo errado. Já tinha até desistido de pintar e resolvi vestir o manto do “seja o que Deus quiser”. Acabamos sendo acolhidos pela Ruayda, Mohammad e Ayman, o “errado” não poderia ter dado mais certo, o que ascendeu novamente minha vontade de pintar, porém, eu ainda tinha outro problema para resolver, meu emocional. Geralmente, gosto de pintar coisas bonitas que transmitam a felicidade ou “a cor da minha vida” como o Lucas costuma dizer, era isso que eu queria fazer na Palestina. Pintar essas mulheres lindas com seus hijabs, lenços e vestidos bordados, tão lindas quanto elas merecem. Quando vimos pela Al-Jazeera, a felicidade das mulheres – mãe, irmãs, sobrinhas, filha e avó – abraçando e recebendo calorosamente seu filho que voltava para casa depois de 15 anos de cativeiro sionista, pensei ser aquela felicidade que queria passar para tela. Aquele sentimento de “a dor foi superada”, não esquecida, mais superada. Eu não sabia, mas o sentimento que assistimos no jornal, na noite seguinte se transformou em outro completamente diferente. A alegria foi tomada pela tristeza e a dor das mães de Jenin que perderam seus filhos em mais um ataque israelense. Eu vi as cenas de mães em completo desespero velando seus filhos. Eu sou mãe, não consigo imaginar uma dor maior que carregar o caixão de um filho; geralmente são os filhos que carregam os caixões de suas mães, não o contrário, mas a ocupação consegue inverter até mesmo a ordem natural da vida; e só aqui essa desumanidade acontece com tanta frequência. Não há a menor possibilidade de qualquer mãe assistir à perda de outra sem se deixar abalar. Desde que chegamos aqui, eu tenho acompanhado e sentido o sofrimento dessas mães, esposas e filhas. Mulheres que lutam diariamente contra a ocupação com qualquer outro fedayin, e ainda por cima carregam o peso dos caixões dos próprios filhos. Quando estivemos em Hebron, conversei com a mãe do W., enquanto falávamos pelo tradutor, fiquei pensando no sofrimento que aquela mulher sentiu ao ver o filho ser espancado pelo exército colonizador. Eu tenho um filho da mesma idade que o W. Como mãe, me coloquei no lugar daquela mulher diante de mim, fiquei pensando em quantas orações aquela mulher já pediu para que Allah protegesse seu filho para não ser preso ou assassinado; ou mesmo quantas vezes agradeceu a Deus por trazer seu filho vivo para casa. Benção que as mães de Jenin não tiveram; benção que a mãe de Jerusalém que teve o filho queimado vivo não teve; benção que, outras incontáveis mães palestinas não tiveram. No tempo que estamos na aqui, pude assistir um pouco do sofrimento daquelas mulheres. Fiquei com a imagem de cada um de seus rostos em minha cabeça. Ainda pior era sentir a dor de cada uma delas, uma dor que só cresce em terras palestinas. A raiva de saber que o mundo se cala perante a dor dessas mães, me fez repensar, eu não me permitiria ficar só como telespectadora como o resto da comunidade internacional que vem aqui, tiram suas fotos e vão embora. Eu gritaria junto com as mães palestinas e colocaria através do que faço de melhor toda minha solidariedade, mesmo que isso custasse minha própria sanidade. A ideia de pintar lindas palestinas ainda existe, mas saber que tantas mães, irmãs, tias e avós sofrem diariamente com a ocupação da Palestina, não pode nem deve esperar, eu não esperaria mais. Essas mulheres precisam saber que não estão sozinhas, precisam saber que nos importamos e dividimos a sua dor! Quando disse que tudo de “errado” acabou dando certo, me referia a família que nos acolheu de última hora e sem nenhum plano específico. Com a Ruayda, vi que a mulher palestina é forjada em sofrimento, mas permanece de pé, não por conta desse sofrimento, mas apesar dele; assim como por conta do amor; seu amor pela vida, pela família, pela terra, e pela Palestina. Entendo que as mulheres são os pilares de qualquer sociedade, mas, na Palestina seu papel é de protagonista. Essas mulheres não se curvam a submissão, seja a imposta pela força de ocupação ou mesmo por sua própria sociedade. É certo que ainda existem muitos costumes patriarcais e outros que devem ser tratados na Palestina – como em todas as outras sociedades –, no entanto a emancipação com maior urgência aqui é, obviamente, a luta contra a ocupação israelense, é essa que prende, tortura e mata os filhos e filhas dessa terra. Como mulheres, enquanto suportamos ou mesmo superamos caladas as desigualdades que nos são impostas, sofreremos. Enquanto nos calarmos por tantas outras que sofrem os horrores mais inimagináveis, seremos coniventes. Eu sei que se um dia nos unirmos e lutarmos contra todas as injustiças cometidas contra outras mulheres, sem distinção de cor, nacionalidade ou religião, o mundo vai poder evoluir de verdade. Com ajuda de Mohammad e Ayman, consegui comprar um pouco de material de pintura e hoje estou aqui, com uma tela em branco e uma ideia: retratar as mães fedayins. Tentar mostrar através da arte que faço, um pouco da força daquelas que compõem metade das linhas de resistência, e que ao mesmo tempo, deram a vida a outra metade! [1] Os ucranianos passaram a considerar o batalhão Azov como heróis na guerra contra a Rússia. Fundado por Andriy Biletsky e outros paramilitares voluntários neonazistas. Em novembro de 2014, o Batalhão de Azov foi integrado como parte formal da Guarda Nacional da Ucrânia. Além da adoção de símbolos nazistas em bandeiras e uniformes oficiais do batalhão, após o cerco da Mariupol (2022) e a rendição das forças ucranianas, os soldados do batalhão foram filmados sem camisa para exposição das tatuagens em homenagem a Adolf Hitler, Mussolini e outros líderes nazifascistas.
- Os véus e o preconceito "velado" do ocidente em relação à cultura, religião e à mulher no oriente
Mulheres são mulheres em qualquer parte do mundo. Seja no Brasil, Afeganistão ou Austrália, todas carregamos o peso das culturas e costumes de nossas próprias sociedades; isso sem contar o peso de nossas próprias histórias. Antes de vir para Palestina, eu e o Lu conversamos muito sobre a posição da mulher nas sociedades do Oriente Médio e principalmente nas comunidades islâmicas. Eu tinha uma visão muito diferente. Quando estivemos no Egito, vi uma cena muito impactante para mim, uma mulher de burkini na praia e ao lado uma jovem europeia fazendo topless – isso sem falar no camelo. Fiquei pensando o quão a vida daquelas mulheres é diferente da minha. Desde que passei por essa cena, o uso ou não do véu é algo que tem me intrigado. Apesar de Turquia, Egito e Palestina estarem no Oriente Médio e todos serem países predominantemente islâmicos, o uso do véu, hijab, xador, niqab ou burca são bem diferentes: na Palestina usa-se bastante; no Egito bem menos; na Turquia menos ainda. Isso porque em todos esses países cobrir a cabeça é, ou deveria ser uma escolha. Costumamos pensar – eu pensei um dia – que o véu havia sido uma criação islâmica. A religião teve papel fundamental na adoção dessa prática, mas longe de ter sido inventada por ela, menos ainda da maneira como vemos. O uso do véu vem bem antes do surgimento do islã. Você já parou para pensar que Maria, mãe de Jesus, usava véu? Ela não era muçulmana. O véu se originou nos seios de antigas culturas indo-europeias[1]. Em um texto assírio datado do século anterior a Era Comum, a prática do véu é mencionada como reservada às mulheres de famílias ricas e proibido para mulheres pobres. Além de proibidas de usar o véu, se fossem pegas, essas mulheres eram castigadas; e olha que naquela época o apedrejamento estava na moda. – Mas não está fazendo sentido, né! Vou chegar lá. – O véu era destinado somente para as mulheres ricas para evitar que as filhas ou esposas de alguém “importante” fosse molestada, violentada ou sofresse qualquer outro tipo de agressão, “comum” às mulheres de todas as épocas. As mulheres ricas eram vistas como joias preciosas e intocáveis. Por isso as mulheres pobres eram proibidas de usar; essas sim podiam ser estupradas ou agredidas na rua sem ninguém se importar ou apedrejar um homem por isso. Com a revelação da palavra de Deus ao profeta Muhammad, para evitar que as mulheres muçulmanas fossem tocadas pelos homens – principalmente os bizantinos e cruzados cristãos – o véu foi designado para todas as mulheres muçulmanas; ricas, pobres, brancas ou negras, absolutamente todas! Aos olhos do islamismo, e do profeta, todas as mulheres eram intocáveis. Ficou fácil para mulheres cristãs questionar o uso ou proibição de um país com outra cultura e outra religião. Comecei a perceber os olhares das pessoas nas ruas do Brasil quando veem uma mulher de véu ou hijab; eu mesma já usei e uso. Os olhares não são só de curiosidade, são de preconceito e discriminação, dessa maneira me pergunto: – Não seria o preconceito, o machismo, a misoginia, e a discriminação uma prática mais velada e comum de nossa sociedade? [1] Originários das estepes da Ásia central ou dos planaltos iranianos que se expandiram para a Europa, Pérsia e península da Índia. Por volta do II milênio a.C., o grande movimento migratório de leste a oeste dos povos que falavam línguas da família indo-europeia terminou.
- Conhecendo um irmão no campo de refugiados palestinos de Dheisheh
A chuva caiu assim que colocamos os pés em Ramallah. O primeiro compromisso do dia foi uma entrevista com Hussam Gush, Diretor do Centro Cultural Sakakini. A entrevista foi ótima, e Abu Khaled é um ótimo tradutor. Quando encerramos, tomamos um café e expliquei para Abu Khaled que iria até o centro de Ramallah conhecer o amigo Muath Amarneh, mas que depois voltaria para nos encontrarmos próximo à academia onde Ayman treina Muay Thai. Acho que se não estivesse tão frio, a Di já teria feito um treino também. Troquei algumas mensagens com Muath pelo caminho. Ele pediu desculpas, atrasaria um pouco devido à chuva. Enquanto esperávamos, a Di resolveu comprar um vestido[1] que vinha namorando desde Hebron. Entramos em uma loja e fomos recebidos por um “buenos dias”, despejados por um senhor muito simpático. O homem parecia muito contente por poder “hablar um poquito con nosotros”; devia estar esperando há um tempo por aquela oportunidade. No passado, aquele senhor optou por morar fora, uma tentativa de fugir da ocupação israelense, assim como tantos outros palestinos. Ele viveu um tempo em Porto Rico até que decidiu voltar para sua casa, sua terra e seus costumes. Desde que comecei a conviver com os palestinos, venho presenciando o que chamam de “palestinidade”. Esse conceito é usado para explicar os vínculos dos palestinos com sua terra e com sua cultura. A “palestinidade” inata, é o que os identifica como indivíduos. Esse fenômeno acontece até mesmo com aqueles que já nascem na diáspora. Por exemplo: quando um palestino nasce na Jordânia, ele não deixa de ser palestino. Seus documentos, sua comunidade, escolas, trabalhos e acesso a todos os serviços públicos são fornecidos de acordo com sua condição de nascimento. Para esses palestinos da diáspora, eles podem ter começado a vida fora do território, mas, geralmente, a maioria da sua família permanece na Palestina, a que eles são proibidos de entrar. Um palestino que nasce filho de um refugiado, cresce ouvindo as histórias de seus pais e seus avós, e tudo em suas vidas se relaciona a “NeverLand” que “nunca” poderão conhecer. Ouvi relatos de várias pessoas que sonham em conhecer os tios e tias, avós, primos e outros parentes que ainda permanecem na Palestina. É como se aquilo tudo os identificassem como o que nasceram para ser, palestinos! — Ah, mais e os israelenses não podem sentir o mesmo? — E a identidade judaica? David Ben-Gurion[2], nasceu na Polônia. Moshe Sharett, nasceu na Ucrânia. Levi Eshkol, nasceu em Kiev, Ucrânia. Yigal Allon, nasceu na Palestina, mas seus pais emigraram da Bielorrússia. Golda Meir, nasceu na Ucrânia; quando criança migrou para os EUA; e quando jovem migrou para Palestina. Yitzhak Rabin, nasceu na Palestina, seus pais nasceram na Ucrânia e Bielorrússia. Menahem Begin, nasceu na Bielorrússia. Yitzhak Shamir, nasceu na Bielorrússia. Shimon Peres, nasceu na Polônia. Benjamin Netanyahu, o primeiro da lista nascido em Israel, seus pais vieram da Polônia. Ehud Barak, nasceu no Estado de Israel, seus pais vieram da Lituânia. Ariel Sharon, nasceu na Palestina durante o Mandato Britânico, seus pais são de Tiblisi, na Geórgia. Ehud Olmert, nasceu na Palestina durante o Mandato Britânico, seus pais são da Ucrânia e Rússia. Naftali Bennett, nasceu em Haifa (Território Palestino Ocupado em 1948), seus pais são dos Estados Unidos e suas avós da Polônia, Alemanha e Holanda. Yair Lapid, nasceu em Tel Aviv; seu pai nasceu na Iugoslávia (atual Sérvia) e seus avós paternos na Hungria; seus avós maternos são originários da Transilvânia (atual Romênia). Todos nesta lista foram primeiros-ministros do Estado de Israel, alguns, mais de uma vez. O que quero dizer é que, se você perguntar para qualquer palestino, onde seus avós, ou dependendo da idade seus pais estão enterrados, ele te dirá Palestina. Se perguntar onde estão seus familiares ou quais histórias cresceu ouvindo ele dirá o mesmo, já que toda a sua vida ainda está entrelaçada com sua terra. Se fizer as mesmas perguntas para um israelense, ele vai contar histórias e mostrar que sua relação é com algum país da Europa, provavelmente um que tenha sido parte do Império Russo, onde o Czar permitia e até incentivava os pogroms contra os judeus. Toda pessoa tem o direito de procurar uma vida melhor em outro lugar, o problema é quando essas pessoas transformam a vida dos nativos um inferno. Os crimes cometidos contra os judeus por toda Europa e em diferentes épocas, são crimes injustificáveis, cruéis e desumanos, porém nenhum desses crimes foi cometido por palestinos. O mundo tem sim uma dívida com o povo judeu que deve ser paga, mas não as custas do povo palestino. – Quando será que a comunidade internacional entenderá que a tentativa de saudar a dívida do holocausto deveria assumir as responsabilidades sobre ela, não jogar nas costas do povo palestino. – Comunidade Internacional, sua dívida agora é com o povo palestino! “Israel não é um Estado de toda a sua cidadania [...] é o Estado do povo judeu e apenas deles”. Postagem publicada pelo Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, 2018. Que os judeus possam se identificar como um grupo unido por sua religião, isso é completamente compreensível, no entanto, eles não podem dizer que estão unidos como grupo étnico; até porque o hebraico[3], idioma oficial em Israel, foi adotado para criar uma identidade nacional fictícia e facilitar a comunicação entre imigrantes que falavam diversos idiomas diferentes. Antes disso, os primeiros-ministros israelenses, seus pais e avós, falavam russo, ucraniano, polonês, alemão e outros idiomas europeus, há pelo menos 2 mil anos. Assim, o sentimento de pertencimento palestino é uma característica étnica e o judaísmo é uma característica religiosa. Por conta dessa mesma “palestinidade”, depois de décadas morando no Caribe, aquele senhor estava de volta à sua terra, e vendendo lindos vestidos de bordados tão originalmente palestinos como ele. “O pedido por um lar nacional para os judeus não me convence. Por quê eles não fazem, como qualquer outro dos povos do planeta, que vivem no país onde nasceram e fizeram dele o seu lar? A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.” Mahatma Gandhi, em 1938. Muath mandou mensagem, fomos encontrá-lo. Ele parecia nervoso, mesmo estando com dois celulares nas mãos, por conta da chuva, nenhum deles tinha sinal; e como também não falava inglês, sentiu-se incomodado por não conseguir se comunicar. Eu escrevi no meu tradutor, mas Muath não podia responder porque meu celular não possui os caracteres para escrever árabe. Como que um lapso, olhei para o Muath e para Di e soltei um “yalla, yalla”. Voltamos até o senhor que falava espanhol para poder traduzir pelo menos cinco minutos de nossa conversa. O senhor, extremamente prestativo, traduziu que o Muath estava nos convidando para ir até sua casa no campo de Dheisheh, em Bethlehem. Pedi para o tradutor dizer que já estava tarde e que não poderíamos ir e voltar a tempo. A Di olhou para mim e quase me bateu “O cara saiu nesse temporal e dirigiu até aqui para te conhecer, você vai mesmo deixar ele ir embora?” Realmente eu nem tinha pensado nisso, estava preocupado com o transporte e com a violência dos soldados e colonos atacando carros palestinos na estrada, mas a Di tinha razão. Antes do tradutor terminar, corrigi dizendo novamente “yalla, yalla”. Tudo que tinha para chover na Palestina parece que choveu hoje, mas o dia começou a mudar assim que entramos no carro. O céu se abriu, o sol apareceu e deu até para tirar uma camada de casaco. Muath parou conosco em algumas partes da estrada, conhecemos uma fonte natural e alguns locais que não estão e nenhum mapa turístico. Em uma das paradas, caminhamos por uma trilha em direção a um riacho, mas como havia chovido, o rio estava transbordado e tivemos que retornar. Mais adiante, o carro parou novamente no acostamento e descemos. Estávamos no alto de uma colina, abaixo de nós se estendia um profundo e longo vale. Apontando para uma cadeia de montanhas que se erguiam no horizonte, nosso amigo nos certificou que aquela era a Jordânia. Tão perto e tão longe. Queríamos muito ter conhecido esse país, principalmente as cidades de Omã e Petra, mas vai ficar para próxima, por hora, nos contentamos em apenas observar o horizonte. Seguimos por mais alguns quilômetros até Muath perceber que estava no horário da oração. Ele nos pediu licença e parou novamente o carro, mas não sem antes escolher a vista mais bela de todas. Ele pegou seu tapete e estendeu no local mais alto, a qual pegava os últimos raios do sol. Olhando para Muath, pensei em todos os outros palestinos, sírios e afegãos que cruzamos pelo caminho, todos religiosos. Fiquei pensando em tudo que essas pessoas haviam passado por suas vidas até o ponto que nossos caminhos se cruzaram. Percebi que apesar de minha arrogância ser tão grande quanto minha descrença, nem se comparava ao tamanho da fé daquelas pessoas. Me senti um ignorante completo, e um idiota por tantas vezes ter descredibilizado as crenças alheias. A Di, minha mãe, e todas as pessoas com quem refutei sobre Deus estavam certas, e eu estava errado. Não que tenha tido uma iluminação espiritual, ou tenha de uma hora para outra acreditado em uma divindade soberana, mas me senti injusto por reclamar tanto da vida enquanto outros (com verdadeiros motivos para reclamar) estavam apenas agradecendo. Compreendi que enquanto eu reclamava, pessoas que sofreram tantas perdas, uma dor que eu não tenho nem como descrever, estavam parando suas vidas no meio da estrada para agradecer por aquele momento do dia; Muath agradecia por nos conhecer e eu me sentia um bosta de não agradecer por tê-lo conhecido. Nunca em minha vida eu senti vontade de orar, algumas vezes, eu cheguei a repetir as palavras na missa, ou mesmo negociar e fazer as minhas exigências para Deus; mas nunca, nunca mesmo, senti vontade de agradecer por mais um dia de vida; mas ali com Muath, achei que não tinha o direito de não o acompanhar. O que senti, falei para Deus ou as palavras que joguei aos ventos, é algo que ainda estou tentando decifrar. Quem sabe um dia, quando tiver uma opinião menos arrogante e deixar de ser um bosta, eu possa colocar em palavras, mas hoje, ainda não estou pronto. Chegamos no Campo de Dheisheh à noite. Este campo foi estabelecido como abrigo temporário para três mil pessoas expulsas de Jerusalém e Hebron durante a Nakba. Como em todos os campos de refugiados dentro da Palestina, ou em outros países limítrofes, essas pessoas nunca puderam voltar, portanto, transformaram o que era temporário em permanente, e o que era três mil pessoas se multiplicou em dezenas de milhares. O Campo de Dheisheh, também se tornou muito importante para a luta de libertação nacional, principalmente durante os eventos da Primeira Intifada, quando a única entrada e saída foi fechada pelo exército israelense com cercas e arames farpados. Toda história, batalhas e mártires, estão estampados em grafites nos muros de Dheisheh. Lendo tudo que já escrevi sobre sua casa, Muath sabia que era importante para mim estar ali. Ele dirigiu um pouco por aquelas ruas estreitas, uma a uma, apontava para as casas e dizia os nomes das pessoas que habitavam ou habitaram um dia, alguns que eu conhecia bem a história. Não fosse pela chuva que voltou a cair, eu teria pedido para descermos para caminhar um pouco. Muath estacionou e nos convidou para entrar, era sua casa. Seus filhos chegaram para nos receber. As crianças estavam muito curiosas, principalmente sua filha de 11 anos. A menina trouxe uns copos pequenos para nos servir, pensei “Será que é álcool?” Não bebemos há pelo menos uns sete anos, e não queria a voltar a beber logo hoje, seria difícil, mas eu teria que recusar; como fazer isso pelo Google tradutor é que é complicado. Peguei o copo, a Di perguntou o que era, cheirei e disse que não sabia. A esposa de Muath entrou na sala e me pegou com o nariz dentro do copo, ela sorriu e, sem menosprezar minha ignorância, disse uma única palavra “Zamzam”. — “Ufa!” Resmunguei baixo para Di. Segundo o islamismo, o anjo Jibril (Gabriel) abriu o Poço para Hagar (serva egípcia de Sara, também esposa de Abraão) e seu filho Ismael não morrerem de sede no deserto. O poço fica próximo à Kaaba[4] na cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita. Milhões de peregrinos que viajam à Meca todos os anos trazem água desse poço, ao qual dizem possuir propriedades medicinais e divinas. Coincidência ou não, ontem havíamos conversado com a Ruayda sobre essa água, e hoje estávamos ali prontos para provar. Fomos servidos da água de Zamzam não uma, mas duas vezes; uma das maiores honras que um visitante estrangeiro pode receber em uma casa de muçulmanos. Conversamos todos pelo celular até que sua esposa nos trouxe um jantar maravilhoso. Comemos todos juntos. Um tio de Muath chegou, um homem muito educado, sua voz ecoava pela sala com toda calma do mundo. Ele estava entusiasmado para saber mais sobre nós, e nós, ainda mais para saber sobre ele, afinal estávamos na presença do Mufti[5] da cidade de Belém, um dos mais queridos da Palestina. Enquanto conversávamos com o Mufti, outro tio de Muath, esse bem mais velho, chegou para ajudar com a comunicação. O velhinho morou um tempo no Brasil e na Argentina. Apesar de estar há mais de 40 anos sem falar português ou espanhol, conseguiu traduzir nossa conversa muito bem. A Di não conseguia disfarçar, ela não tirava o olho daquele senhor e eu sabia exatamente o porquê. Esse segundo tio de Muath tinha todos os trejeitos do seu João, o avô da Di falecido há pouco tempo. O mesmo jeito encolhido na cadeira, jeito de sorrir, coçar a cabeça, andar, se movimentar com dificuldade, falar, absolutamente tudo naquele senhor lembrava o Sir John. Percebi que a Di ficou emocionada e eu sabia que era saudade. Conversamos muito com toda família. A hospitalidade Palestina não tem comparação. Ficamos algumas horas com a família Amarneh, até que pedi, contra vontade, para nosso anfitrião nos deixar no local onde pegaria o transporte para Ramallah, ele insistiu que nos levaria até lá. Insisti um pouco mais que já era tarde e que ele já tinha dirigido muito. Ele insistiu ainda mais. Não tinha como debater se íamos ou não com ele de volta para Ramallah, pedi pelo menos para ajudar com a gasolina, Muath encerrou a assunto. A chuva não deu trégua nem no caminho de volta. A Di pediu para que eu parasse de falar com Muath (pelo celular) porque iria atrapalhar ele a dirigir. Mas eu não conseguia parar de falar e pelo jeito, ele também não. Passamos o dia todo assim, escrevendo e traduzindo pelo celular. Eu escrevi em português e mostrava para ele, que; traduzia a resposta enquanto dirigia e me mostrava de volta. A Di tentou dormir para não ver o momento exato do acidente. Realmente, a estrada de Belém é perigosa, em uma das curvas, Muath puxou o volante com força, jogando o carro de lado e cantando pneu. A Di deu um pulo no banco de trás perguntando o que tinha acontecido. Meio a uma curva fechada, havia um monte de areia derrubado no meio da pista, e Muath conseguiu tirar o carro a tempo. Olhei para Di, ela estava pálida, tentei acalmá-la dizendo: – Israel pode até ter arrancado um olho dele, mas o que sobrou é bom mesmo! A Di não achou graça e ficou ainda mais brava. Traduzi o que tinha dito para Muath, ele sim riu, mas disse: nem tanto, ou você acha que estou usando óculos para o olho que não tenho? – O que sobrou também não funciona muito bem! Ouvir, isso de um motorista que está dirigindo em uma estrada perigosa à noite, com chuva enquanto traduz mensagens no celular não é muito confortável, admito. Muath nos levou até a portaria da universidade de Birzeit, lá, liguei para Abu Khaled que foi nos buscar com Ayman. Abu Khaled chegou rindo de nossa aventura, quanto mais contávamos sobre nosso dia, mais Abu Khaled e Ayman riam. Ayman não conseguia acreditar que fizemos tudo aquilo em um único dia sem saber falar árabe, “tem coisa que não tem explicação pequeno gafanhoto”, disse para Ayman. Ficamos todos ali conversando uns dez minutos na frente da universidade, até que percebemos que Abu Khaled estava com o carro estacionado em fila dupla, e havia uma viatura da polícia atrás, esperando para passar. Muath nos deu um abraço apertado, e foi embora. Já em casa, repassei os áudios gravados da entrevista com o diretor do museu Sakakini com Abu Khaled. A Di, não conseguia disfarçar o cansaço, ela queria apenas um banho quente e a cama, eu também, mas ainda precisava transcrever o material. [1] Os viajantes estrangeiros para a Palestina no final do século XIX e início do século XX frequentemente comentavam sobre a rica variedade de vestidos entre o povo palestino e, em particular, o fellaheen ou as mulheres da aldeia. Até a década de 1940, a maioria das mulheres palestinas podiam decifrar o status econômico de uma mulher, casada ou solteira, e a cidade ou área de onde vieram, pelo tipo de tecidos, cores, cortes e bordados. Vestido é pronunciado “thoub” em árabe. O êxodo palestino de 1948 levou a uma interrupção nos modos tradicionais de vestimenta e costumes, já que muitas mulheres que haviam sido deslocadas não podiam mais ter tempo ou dinheiro para investir em roupas bordadas complexas. [2] David Ben-Gurion, nasceu na Polônia e migrou para a Palestina em 1906. Se tornou um dos líderes do Sionismo Trabalhista, quando em 1938, afirmaria em uma das reuniões ‘Se eu soubesse que seria possível salvar todas as crianças da Alemanha ao trazê-las para a Inglaterra ou apenas metade ao transportá-las para à Terra de Israel, então eu optaria pela segunda alternativa. Pois temos que tomar em consideração não apenas as vidas destas crianças, mas também a história do povo de Israel.’” Ben-Gurion foi um dos maiores genocidas do povo palestino, após a Nakba, tornou-se o primeiro-ministro do autointitulado Estado de Israel. [3] Em 2018, o Knesset aprovou a polêmica Lei do Estado Nação Judeu, dentre tantos itens discriminatórios contra a população palestina, estava declara o hebraico como único idioma oficial em Israel. [4] Kaaba é o edifício no centro da mesquita mais importante do Islã, a Masjid al-Haram em Meca, na Arábia Saudita. É o local mais sagrado do Islã, uma das cinco obrigações dos muçulmanos é a peregrinação (ao menos uma vez na vida) para a Cidade Sagrada. Os muçulmanos acreditam que a Kaaba foi reconstruída várias vezes ao longo da história, principalmente por Abraão e seu filho Ismael, quando ele retornou ao vale de Meca vários anos após deixar sua esposa Hagar e Ismael lá sob o comando de Allah. [5] Um Mufti é um acadêmico islâmico a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a lei islâmica, e qualificado do Alcorão para resolver os pontos controvertidos da lei. Em alguns países, o Mufti é nomeado oficialmente.
- Como está Betlehem, a cidade ocupada por Israel onde Jesus nasceu?
Mesmo arriscando ficar mais uma vez presos na estrada, pegamos uma van com destino à cidade onde Maria deu à luz ao menino Jesus. Ficamos mais de 2h na estrada, em um trajeto de apenas 28km, mas chegamos. Bethlehem (nome em árabe) ou Belém como a conhecemos, estava bem tranquila e tão vazia quanto esperávamos, com apenas alguns poucos grupos de turistas. A Igreja da Natividade foi o primeiro ponto a ser visitado. Encomendada por Constantino, começou a ser construída em 300 d.C. Adentramos no salão principal e vislumbramos meticulosamente cada obra de arte que resistiu ao tempo e as mudanças entre um império e outro. Abaixo do altar principal existe uma gruta onde uma estrela de prata marca o local do nascimento de Jesus. Descemos entre os fiéis e vimos diversas manifestações de devoção religiosa. Enquanto a Di fazia suas orações, olhei para Ruayda e perguntei: Será que eles sabem o que aconteceu aqui? Em 2 de abril de 2002, o governo de Israel enviou as Forças de Ocupação Israelense (IOF) para invadir a cidade de Belém na tentativa de capturar fedayins[1] da Organização para Libertação da Palestina (OLP). Os fedayins fugiram para a Igreja da Natividade onde foram acolhidos pelos padres e outros civis que estavam rezando. As autoridades israelenses montaram um cerco ao redor da Igreja com tanques, helicópteros, franco-atiradores e outros soldados de infantaria. O governo israelense reivindicava a imediata libertação dos reféns, no entanto, a ordem franciscana, uma das que administra a igreja[2], se pronunciou dizendo que todos os monges e as outras pessoas – mais de 200 – que estavam presentes na igreja eram voluntários em defesa dos guerrilheiros palestinos. O chefe da Igreja Católica Romana (outra administradora da igreja) na região disse que os homens foram recebidos em um santuário e que “a basílica é um lugar de refúgio para todos, até mesmo para os combatentes. Temos a obrigação de dar refúgio a palestinos e israelenses.” No dia 4 de abril, o palestino Samir Ibrahim Salman, que estava dentro da Natividade, foi baleado várias vezes no peito por um franco-atirador israelense e acabou morrendo; ele não era guerrilheiro, era um sineiro da Igreja. Um porta-voz dos monges católicos na Terra Santa acusou os israelenses de “ato indescritível de barbárie”. O Vaticano também se manifestou dizendo para Israel respeitar o local sagrado; o Papa João Paulo II descreveu a violência como tendo atingido níveis “inimagináveis e intoleráveis”. No dia 10 de abril, outro monge foi baleado, e os israelenses culparam a própria vítima por estar usando roupas civis durante o ataque. O cerco israelense durou semanas. Os monges e as autoridades negociavam a evacuação da Igreja desde que Israel garantisse a vida de todos os combatentes, mas as negociações foram frustradas e fizeram mais fatalidades. Em 2 de maio, dez ativistas estrangeiros do Movimento de Solidariedade Internacional conseguiram driblar os israelenses e adentrar na igreja para proteger os combatentes. Após 39 dias, um acordo foi alcançado, segundo o qual os militantes se entregaram a Israel e foram exilados na Europa e na Faixa de Gaza. O saldo foi de 8 pessoas mortas dentro da Igreja construída para marcar o local de nascimento de Jesus Cristo. Admito que essa Igreja também me emocionou, mais ainda por saber que pessoas, lutadores pela liberdade de seu país, morreram ali enquanto fugiam de soldados colonizadores, os mesmos que agora exploram o turismo religioso em território ocupado. Por isso, enquanto fiéis se curvavam para tirar suas fotos beijando a estrela de prata, preferi fazer a clássica pose dos dedos em “V” e pronunciar um “free Palestine”, algo que incomodou a maioria dos religiosos. No lado de fora da Igreja da Natividade, encontramos mais uma vez com Musa Al-Shaer, o jornalista do PJS. Ele nos levou até a gruta do Leite. Segundo conta a história, esse foi o local onde a Sagrada Família se escondeu de Herodes antes de fugir para o Egito. A gruta se tornou simbólica, sobretudo para casais com dificuldades para engravidar. O simbolismo decorre da lenda de que aqui, uma gota do leite de Maria caiu na rocha, tornando-a e ao seu redor branco. Se verídico ou não, cabe a crença e a fé de cada um. A Gruta do Leite, assim como a Igreja da Natividade, são importantes santuários protegidos por cristãos e muçulmanos, também visitados por eles. Em nosso grupo por exemplo, havia dois muçulmanos, uma devota de São Jorge, e eu. Nosso amigo Musa, nos levou para conhecer a região de Belém onde acontecem os maiores confrontos entre as pedras palestinas e as balas e bombas israelenses. Almoçamos bem em frente ao portão dos confrontos. Pedi para nos sentarmos bem em frente a janela. Olhando para a torre de vigilância queimada, a comida que apesar de maravilhosa, custava descer. Caminhamos um pouco ao redor do muro. Vimos manifestações artísticas em apoio a causa palestina e outras causas que clamam por urgência em todo mundo. Murais enormes, com aproximadamente 8 metros (tamanho do muro neste setor), os rostos estampados eram de Yasser Arafat, Abu Jihad[3], Ahed Tamimi[4], Shireen Abu Akleh[5], Leila Khaled[6] e outros. Neste muro, encontra-se também manifestações artísticas como apoio a outras causas de justiça social, como o rosto de George Floyd[7] e as artes de Banksy[8]. Visitamos também The Walled off Hotel, também um projeto do artista e ativista Banksy. Inaugurado em 2017 esse projeto é parte importante na demonstração e conscientização para os crimes e danos causados pela ocupação sionista. A Di estava tão impactada que não quis entrar. A Ruayda ficou com ela passeando pelo lado de fora. Circulando pelo Museu, passei por uma sala na qual só havia um telefone tocando. Por ser todo interativo, entendi a mensagem e atendi o telefone. A voz do outro lado se identificava como um oficial do governo israelense e notificava que esse prédio seria bombardeado e que eu teria somente cinco minutos para deixar o local. Bati o telefone e corri para o lado de fora, obvio que eu sabia que era uma encenação, no entanto, eu já entrevistei pessoas que passaram por esse momento e me coloquei no lugar delas; senti o desespero que elas sentiram, lógico que em outra proporção, mas senti. Saí dali correndo, sem olhar para trás. Encontrei com a Di e a Ruayda do lado de fora e pedi um copo de chá, precisava tirar aquele nó preso na garganta. Fiquei muito perturbado, eu só queria naquele momento, desabafar. Depois de nossa visita a Belém, Ruayda nos levou até a cidade de Al-Khader, uma cidade próxima, para conhecer a casa de São Jorge. A Igreja estava fechada, mas Ruayda buscou, em uma casa em frente à Igreja, um senhor muito educado que saiu para abrir as portas da igreja e nos guiar por uma visita. Como dito antes, São Jorge nasceu na Capadócia, Turquia, mas foi viver com sua mãe na Palestina. São Jorge doou toda sua fortuna, mas a casa de sua mãe foi preservada pela comunidade cristã da época. Ruayda nos guiava e contava algumas histórias sobre a Igreja e a vida de São Jorge e outras histórias eram contadas pelo palestino que abriu a igreja para nossa visita exclusiva. Alguns pontos da igreja haviam sido restaurados recentemente pelo senhor que nos acompanhava, já em outros anexos ele explicava o que faltava restaurar. Depois de nos mostrar as salas usadas como creche e outras como salas de aulas para crianças, o senhor nos convidou a tomar um café. Claro que aceitamos, iríamos tomar um café na casa da mãe de São Jorge! Sentados à mesa, o palestino nos contou sobre os ataques israelenses no campo de oliveiras nos fundos da igreja; e como uma bomba de gás lançada pelas IOF incendiou o campo, quase destruindo a igreja; ele contou que precisou de dois caminhões de bombeiro para controlar o incêndio e da ajuda de cristãos e muçulmanos. “Como assim cristãos e muçulmanos” perguntei. “Sim”, ele disse, e completou “aqui rezamos e cuidamos da igreja juntos”. Ruayda explicou que a Igreja é frequentada tanto por cristãos como por muçulmanos, mesmo aquele senhor que era como um caseiro, cuidador e restaurador também era muçulmano. Não se sabe exatamente quando a igreja passou a ser cuidada pelos palestinos muçulmanos. Estudiosos acreditam que al-Khadr – mesmo nome da cidade – um servo de Deus mencionado no Alcorão, tenha sido o próprio São Jorge. Mesmo que os detalhes dessa história sejam desconhecidos por uns e rejeitado por outros, os palestinos enxergam São Jorge como protetor da fé e dos necessitados, e por isso seguiram protegendo o monastério ao longo dos séculos, inclusive o protegem agora do exército colonizador de Israel. Tudo o que vimos em um único dia, nos mostrou quanto cristãos e muçulmanos são próximos e convivem harmoniosamente na Palestina, demonstrando que o problema não tem nada a ver com religião e sim com ocupação territorial. Tanto é que pouco antes de nos curvarmos para adentrar pela “porta da humildade” na Igreja da Natividade, Ruayda nos mostrou um entalho discreto, mas com muito simbolismo; um entalho de uma meia lua que representa a religião islâmica na porta da Igreja que guarda o local de nascimento de Jesus e o assassinato de oito mártires palestinos durante o cerco israelense de 2002. O Estado de Israel não se importa se a Igreja de Jorge é ou não importante para cristãos e muçulmanos, pois os judeus que costumavam também frequentar a igreja, já não a frequentam mais. Assim, como não respeitam o local do nascimento de Jesus, a menos que possam lucrar com o turismo religioso, ou usá-lo como desculpa para o seu plano de limpeza étnica e estado de genocídio permanente contra a população palestina. Conhecendo um pouco da história de Jesus Cristo, um palestino que nasceu em Belém, ou melhor Bethlehem, não tenho dúvidas que se o cerco israelense tivesse acontecido hoje, Jesus e São Jorge estariam lá defendendo os seus compatriotas e acabariam sendo os primeiros a serem baleados assim como foi o padre Samir. [1] Fedayin é um termo que se refere aos militantes ou guerrilheiros de orientação nacionalista entre o povo palestino. A maioria dos palestinos considera os fedayin como “guerreiros da liberdade”, enquanto o governo israelense os descreve como “terroristas”. [2] A custódia da Igreja da Natividade é dividida por três denominações cristãs: Ortodoxa Grega, Católica Romana e Armênia. Cada denominação cristã cuida de uma área específica da estrutura, porém todas elas realizam cultos na igreja. [3] Abu Jihad, foi um dos fundadores da Fatah e segundo na linha de comando da OLP. [4] Ahed Tamimi, é uma adolescente ativista palestina que age contra a ocupação dos territórios palestinos. Ficou conhecida por esbofetear soldados israelenses depois de seu primo ser baleado na cabeça. [5] Shireen Abu Akleh foi uma jornalista palestino-estadunidense morta pelo exército israelense em 2022. [6] Uma das guerrilheiras mais admiradas na Palestina, pertencia a Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP). [7] George Floyd foi um afro-americano que morreu sufocado (25 de maio de 2020), após um policial ajoelhar em seu pescoço. Ativistas e organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo Roger Waters (líder da banda Pink Floyd), acusaram o governo americano de exportar a tática do exército israelense, que, frequentemente está associada a treinamento e consultorias as forças de segurança americana. A morte de George Floyd levou a protestos em todo o mundo do movimento ativista antirracista Black Lives Matter, pedindo à reforma da polícia e a legislação para lidar com as desigualdades raciais. [8] Banksy é o pseudônimo de um artista anônimo “britânico”, cujos trabalhos em estêncil são facilmente encontrados nas ruas da cidade de Bristol, Londres e em várias cidades do mundo.










