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- Conferência anual do Sindicato de Jornalistas Palestinos
No Brasil, o dia 29 de janeiro é lembrado como Dia do Jornalista. A data foi escolhida em memória de José do Patrocínio, que morreu neste dia, no ano de 1905. Ainda hoje, José do Patrocínio é considerado um dos maiores jornalistas da abolição. Coincidentemente, fomos convidados pelo amigo Musa Al-Shaer, secretário executivo do Sindicato de Jornalistas Palestinos (PJS), para participar de uma conferência sobre as violações dos direitos humanos cometidas contra os profissionais de imprensa. O evento foi realizado na sede do Crescente Vermelho da Palestina, nas cidades de Ramallah e Gaza simultaneamente. Abu Khaled nos deixou próximo à sede do Crescente, como tínhamos uma hora antes do início da conferência, aproveitamos para conhecer o campo de Refugiados de Al-Amari. Este campo foi estabelecido como provisória para abrigar os palestinos expulsos de suas casas durante à Nakba. Inicialmente os abrigos eram tendas precárias, como o problema dos deslocados internos nunca foi resolvido, os habitantes resolveram trocar suas tendas por casas de alvenaria. Como a maioria dos campos na Cisjordânia, Al-Amari sofre com superlotação, além de precárias redes de água e esgoto. Andando pelo campo, percebemos algumas pichações de líderes da OLP e mártires palestinos, desenhos que mandam um recado muito claro para a ocupação. Vimos também outro símbolo muito comum, na porta de entrada de uma das casas haviam chaves penduradas. Para os palestinos, em especial se refugiados, a chave possui um simbolismo muito forte. Quando foram expulsos, muitas pessoas guardaram as chaves para o dia que pudessem retornar para suas casas. No entanto, não há casas para voltar. Em 1948, Ben-Gurion deu ordem para demolir as casas para anular possibilidade de retorno. As casas ruíram para dar lugar aos assentamentos israelenses, mas as chaves ficaram. Infelizmente, já se passou tanto tempo que muitos daqueles que foram expulsos já morreram enquanto esperavam pelo dia de poderem voltar. Queria muito conversar com algum morador do campo de Al-Amari, saber mais sobre suas histórias, de certa forma, muito que precisava saber já estava marcado nas paredes ou nas portas das casas; e como estava cedo, não tinha ninguém na rua. Voltamos para o local da conferência para esperar. O Crescente Vermelho Palestino é uma organização humanitária que faz parte do Movimento Internacional da Cruz Vermelha. Uma curiosidade é que o centro foi fundado por Fathi Arafat, irmão de Yasser Arafat, em 1968. A organização fornece hospitais, serviços de medicina de emergência e ambulância e centros de cuidados de saúde primários na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Do lado de fora pudemos acompanhar os palestinos carregando um caminhão com colchões e outros artigos humanitários. Musa nos encontrou do lado de fora, mas pediu para outra jornalista do sindicato nos acompanhar. No elevador, um jornalista palestino nos viu conversando. Hanzim Manoly, que havia morado em Madrid falava muito bem espanhol, e acabou se oferecendo para nos guiar. Pegamos os crachás de identificação na recepção e seguimos para o auditório. Esses anos que trabalho escrevendo sobre a Palestina, acabei identificando o incansável esforço do Estado de Israel para combater jornalistas. Dessa maneira, entrevistei muitos profissionais, desde então, venho reportando as violações que esses profissionais enfrentam diariamente no exercício de sua profissão. Me emocionei logo no vídeo de abertura do evento, quando as primeiras imagens a serem exibidas foram as do fotojornalista Muath Amarneh, o primeiro jornalista que entrevistei na Palestina. Após ver o vídeo do resgate de Muath – jornalista que se tornou amigo –, foram apresentadas imagens de Yasser Murtaja, assassinado na Grande Marcha do Retorno (GMR), em 2018. Não tive a honra de conhecer Murtaja; porém, conheço muito bem seu trabalho e sua história. No ano passado, seu irmão, Motassem Murtaja, também me concedeu uma entrevista. Quando comecei a escrever sobre as violações dos direitos humanos na Palestina, percebi que ferir, prender e matar profissionais de imprensa são estratégias do estado colonial sionista para silenciar os “mensageiros da paz” – como Hanzim, nosso tradutor, os chama. Segundo dados fornecidos durante a conferência, somente no ano de 2022, ao menos 900 crimes e violações foram cometidos contra o jornalismo palestino pelo regime de ocupação israelense. O PJS alertou também para escalada de violência no campo de refugiados de Jenin, como o que presenciamos na última semana. O caso mais recente mencionado, o qual emocionou a todos os 1500 presentes na conferência, aproximadamente, foi o assassinato da jornalista Shireen Abu Akleh, baleada na cabeça em 11 de maio de 2022, enquanto cobria uma invasão militar em Jenin. Outros casos de violência contra os profissionais de imprensa palestina foram mencionados durante a conferência. Vale recordar dos relatos de Janna Jihad[1] e Adham Al-Hajjar[2]. Os ataques da ocupação israelense contra jornalistas palestinos se tornaram um caso tão pessoal que, em 2020, iniciei uma pesquisa científica sobre o assunto. Neste entremeio, me deparei com uma situação adversa de reclamações de profissionais sobre a liberdade de imprensa durante a Copa do Mundo do Catar. No entanto, desta vez, os reclamantes eram repórteres israelenses, que decidiram batizar o evento de “Copa do Ódio”. O próprio governo de Israel aconselhou aos jornalistas e torcedores israelenses que não usassem símbolos ou bandeiras do Estado sionista e que evitassem o idioma hebraico em público. Após anos escrevendo sobre as violações contra jornalistas palestinos e conhecendo tão intimamente suas histórias, não pude deixar minha indignação de lado e acabei escrevendo um artigo sobre isso, intitulado Intifada das Chuteiras, no que relato como é desproporcional o que palestinos e israelenses consideram uma violação da liberdade de imprensa. A violência contra os jornalistas palestinos é parte dos esforços israelenses para impedir que os crimes da ocupação sejam reportados ao mundo. Intimidar, prender, agredir e violentar esses profissionais é o modus operandi sionista para calar a voz palestina. Hoje, em um dia tão especial para todos nós, “mensageiros da paz”, convido todos os colegas a refletirem: como podemos ajudar nossos colegas da Palestina ocupada a conquistarem sua própria abolição, como fez José do Patrocínio? Terminado a Conferência, Hanzim nos deixou na garagem onde vans aguardam os passageiros no centro de Ramallah. Mesmo com todos nos dizendo que ir até Jericó àquela hora do dia seria complicado, seguimos assim mesmo, afinal, nossos dias pela Palestina também estão passando e ainda tem muitos lugares para visitar e coisas para ver aqui. Pegamos um transporte até Ariḥa, como Jericó é chamada em árabe e seguimos pela estrada. É muito louco como a Palestina é um território tão pequeno e possui uma adversidade natural tão rica. No caminho para a cidade mais antiga do mundo (aproximados 10 mil anos), vimos uma paisagem desértica completamente diferente de todas as outras que já vimos. Conosco na van havia um senhor beduíno que desceu no meio do nada, foi quando vimos que ele caminhou na direção de algumas tendas que havia no meio daquele deserto. Os beduínos palestinos são outra história de violação ao qual gostaria de me aprofundar, mas como sei que não teremos tempo, seguimos nosso caminho. Em Jericó, no Vale do Jordão é completamente diferente. Ao longe vimos as pedras e areias serem tomadas por um oásis. Me senti como o jovem alquimista Santiago[3]. Tem tanta coisa para ver. Para citar algumas: a Fonte Ein as-Sultan (Fonte de Eliseu para judeus e cristãos); Qasr al-Yahud, onde Jesus foi batizado; O Mosteiro Ortodoxo Grego, onde Jesus jejuou por 40 dias; O sicômoro de Zaquel, árvore que o homem subiu para ver Jesus passar; o Mosteiro de São Jorge; e o que eu mais queria ver, o Jebel Quruntul (Monte da Tentação), local onde o demônio tentou Jesus, que agora possuí até um teleférico. “Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.” Mateus 4:8–11 Optamos em ir ao Hisham´s Palace. O palácio é mesmo um mistério, sabe-se que pertence ao período omíada[4] graças as escavações arqueológicas. Nossa visita foi acompanhada de sossego e calmaria, éramos os únicos no local. Pudemos fazer tudo com a calma e tranquilidade, apesar da falta de tempo. No pátio de entrada, há uma Janela de pedra em formato de estrela de seis pontas com um círculo oco no meio. A janela, durante o califado, era o ponto mais alto do palácio. De todas as escavações do sítio arqueológico, a joia mais preciosa foi recuperada com apoio do governo japonês, ao qual, guarda uma placa de agradecimento na entrada. Entrando no galpão coberto nos deparamos com gigantescos mosaicos coloridos. Mandalas geométricas que são verdadeiras obras de arte; milhões de pedrinhas coloridas formando um dos maiores mosaicos que sobreviveram do mundo antigo. O mais belo de todos é o da “Árvore da Vida” com um leão atacando uma gazela, ao qual existem muitas interpretações, mas não vou me arriscar em nenhuma, pois considero a arte uma manifestação com diversas possibilidades para cada pessoa. O Hisham’s Palace é um dos monumentos islâmicos mais importantes da Palestina e uma grande atração para visitantes estrangeiros e palestinos. Em 2010, segundo dados levantados pelo Ministério de Turismo e Antiguidades da Palestina, o local recebeu 43.455 visitantes. Dentro do sítio arqueológico existe uma escola que ensina e dá cursos sobre a confecção de mosaicos, é mais uma tentativa de recuperação e preservação da cultura local. Caminhamos até ele, mas estava fechado. Chegando perto da hora do sol se pôr, tratamos de acelerar o passo e quem sabe ver mais alguma coisa no centro de Jericó. Não havia táxi ali, decidimos voltar os 4km andando. Por sorte, acabamos pegando uma carona com um palestino e um gringo que vivem em Jericó, eles nos deixaram bem no centro, onde pegaríamos a van de volta para Ramallah. Antes de conhecer outro lugar na cidade, fomos nos informar sobre o último horário do transporte. O motorista nos mandou entrar no carro, disse que os israelenses fecharam a estrada principal e aquele seria o último carro. Não era papo furado, era real, a van saiu antes da hora e não tivemos tempo para ver mais nada. A situação era tão crítica que o motorista nem esperou o carro lotar, saiu com a metade da capacidade de passageiros. Quinze minutos pela estrada e lá estavam eles, os soldados realmente fecharam a estrada. A fila parecia interminável. Para nossa sorte, pela segunda vez no dia, conseguimos embarcar há tempo; se não tivéssemos pego uma carona com estranhos ou tivéssemos ido para outro ponto turístico, teríamos que dormir em Jericó, o que não seria legal, visto que ontem houve conflito entre soldados e manifestantes na cidade. Ficamos mais de 40 minutos parados, olhando pela janela a Di falou “olha isso”, quando olhei também, vi meninos (no máximo 15 anos) correndo em direção aos soldados com camisas e hattas amarrados no rosto e pedras na mão. Estávamos muito perto dos soldados, e presos em uma van, se eles atirassem na direção dos meninos não daria tempo de se esconder. Ficamos apreensivos, mas ver os palestinos que estavam conosco tão calmos, como se aquilo não fosse nada demais, acabou nos dando conforto. Não conseguimos ver se os meninos atiraram mesmo as pedras, e só os vimos voltar. Acho que não aconteceu nada, porque quase uma hora parados a fila começou a andar. Os soldados param os carros um a um, a fim de dificultar ainda mais o dia. Quando chegou nossa vez, o palestino no banco da frente pediu nosso passaporte para entregar aos soldados. Quando uma soldada mulher abriu a porta da van, como quem abre uma jaula, ela começou a gritar. Como estávamos sentados no último banco ela não nos viu, mas o palestino fez questão de exibir nossos passaportes em primeiro lugar. Sem pensar, depois de ver que tinha dois gringos no carro, a soldada devolveu os documentos, bateu a porta e mandou o motorista sair logo dali. A ordem é sempre a mesma, se livrar dos estrangeiros o mais rápido possível, para que não vejam fotografem ou reportem os crimes cometidos pelos soldados. Acelerando o motorista seguiu o conselho da soldada e saiu sem olhar para trás. O homem que estava com nossos passaportes nos entregou e agradeceu por estarmos ali. Foi um dia quase tão acelerado quanto aquela van que nos levou embora depois de horas parado em um bloqueio de soldados israelenses em uma estrada palestina. No caminho, lembramos que não tínhamos comido nada além de um falafel e uns morangos que ganhamos de boas-vindas logo que chegamos em Jericó. Quando chegamos em casa, dessa vez não por sorte, mas por carinho mesmo, a Ruayda havia preparado um jantar maravilhoso; e para sobremesa, alguns dos doces que aprendeu na aula em Nablus. [1] Começou a reportar a ocupação aos sete anos de idade; aos treze foi reconhecida como uma das jornalistas mais novas a documentar as violações contra os direitos humanos. [2] Adham al-Hajjar foi baleado na perna por munição expansiva (decretado crime de guerra durante à 4ª Convenção de Genebra), enquanto cobria a Grande Marcha do Retorno, em 2018. [3] Referência ao personagem Santigo do livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho. [4] Califado Omíada (661 – 750) foi o segundo dos quatro principais califados islâmicos, estabelecidos após a morte de Maomé. Era centrado na dinastia Omíada, originária de Meca, atualmente na Arábia Saudita.
- Terrorismo israelense em Nablus, na Palestina ocupada
A Palestina amanheceu em chamas! Nada novo por aqui! Acordamos com muitas mensagens no celular perguntando se estávamos vivos e bem. Já sabíamos o motivo para tamanha preocupação. Ontem à noite, em resposta ao massacre de Jenin, um palestino armado disparou contra israelenses que saíam de uma sinagoga, em Jerusalém. O ataque matou 9 israelenses e deixou outros 10 feridos. Na televisão, o Ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, anunciava, sem qualquer comprovação, que o atentado havia sido orquestrado pelo Hamas. Antes de continuar, preciso dar um panorama de quem é Itamar Ben-Gvir. Para começar, lembra que falei sobre o massacre na Tumba dos Patriarcas em Hebron, cometido pelo americano naturalizado israelense Baruch Goldstein. Então, Goldstein era membro do Kach, um partido judaico-ortodoxo e nacionalista que prega, a expulsão de todos os árabes da Palestina. Dentre outras coisas, o movimento pedia ao governo medidas como: anexação de toda Palestina; soberania da Esplanada das Mesquitas e a construção de uma sinagoga no local; oferecer terras palestinas para todo judeu que se casar; autonomia de tiro aos soldados contra atiradores de pedras; e censura da imprensa e submissão aos Estado Judeu. O Kach, era obviamente liderado por outro lunático fascista, Meir Kahane. Daí o nome kahanismo para aludir aos mais cruéis e lunáticos sionistas. Meir Kahane foi um Rabino ultranacionalista nascido nos EUA, onde chegou a ser consultor do FBI. Migrou para Palestina em 1971, no mesmo ano foi condenado por conspiração e fabricação de explosivos para fins terroristas. Kahane foi preso mais de 60 vezes pelas autoridades israelenses e proibido de entrar em diversos países. Sua principal ideologia era expulsão de todos os árabes da Palestina e troca da população por imigrantes judeus. Em 1984, o Comitê Eleitoral Central de Israel o proibiu de ser candidato alegando que Kach era um partido racista, mas a Suprema Corte de Israel anulou a proibição alegando que o comitê não estava autorizado a proibir a candidatura de Kahane. A Suprema Corte sugeriu que o Knesset aprovasse uma lei excluindo partidos racistas de futuras eleições. O Knesset respondeu em 1985 alterando a Lei Básica[1] para incluir uma proibição contra o registro de partidos que e incitam o racismo. – É claro que isso é puramente para fins de marketing, já que a maioria dos partidos fazem o mesmo. O Kach pregava ideias tão boçais que nem mesmo os sionistas aguentaram, e declararam-no como uma organização terrorista. Não que chamar algum grupo de terrorista é algo novo para o Estado de Israel, mas dessa vez era um grupo político-judaico e israelense. Logo após o massacre na Tumba dos Patriarcas, as autoridades israelenses realizaram busca e apreensão em suas instalações. Os policiais apreenderam armas escondidas no local e colocaram alguns de seus integrantes em detenção administrativa. Explicado quem é Meir Kahane, e o que prega o Kach, sua organização criminosa, vamos especificar o atual Ministro de Segurança de Israel. Itamar Ben-Gvir, é seguidor de Kahane e não esconde sua participação no Kach. Ben-Gvir já foi denunciado dezenas de vezes por discurso de ódio, enfrentando algumas poucas acusações que não deram em nada. Em outubro de 2021, Ben-Gvir foi visitar um prisioneiro que estava em greve de fome há mais de três semanas, um protesto contra sua detenção administrativa. O ministro declarou ironicamente que foi visitar o prisioneiro para “ver de perto esse milagre que uma pessoa permanece viva apesar de não comer por vários meses”. Ben-Gvir foi investigado em 2021 depois aparecer puxando uma arma para seguranças árabes durante uma disputa de estacionamento na garagem subterrânea do centro de conferências Expo Tel-Aviv. Tudo foi filmado e distribuído em vídeo. Ben-Gvir aparece sacando uma pistola e apontando para os árabes desarmados. Também não deu em nada, afinal, as vítimas eram palestinas. No ano passado, esse lixo a quem chamam de ministro participou de confrontos entre colonos judeus ilegais e moradores palestinos do bairro de Sheikh Jarrah. Há anos o governo de Israel vem expulsando os palestinos desse bairro de Jerusalém para construção de novos assentamentos ilegais. Nesse episódio Ben-Gvir participou empunhando uma arma contra palestinos, enquanto gritava “Nós somos os proprietários aqui, lembre-se disso, eu sou seu proprietário”. Depois de tantos crimes e episódios deploráveis, advinha o que aconteceu com Itamar Ben-Gvir: Se uniu ao governo de outro lixo chamado Benjamin Netanyahu, tornando-se Ministro de Segurança Nacional em dezembro de 2022, mesmo sob muita pressão de israelenses e até mesmo da mídia internacional. Conhecendo um pouquinho dessa figura ilustre do governo israelense, podemos entender que suas palavras não se apoiam em fatos, elas são motivadas pelo mesmo ódio e desumanidade que motivam todos os psicopatas. Referente ao ataque em Jerusalém, o Hamas afirmou que nenhum de seus militantes estavam envolvidos e não assumiu autoria sobre o crime cometido contra os israelenses na rua da sinagoga. Fundado durante a Primeira Intifada em 1987, o Hamas é um partido palestino de posição nacionalista e islamista cujo objetivo é garantir a libertação do povo palestino e lutar pelo fim de Israel como um Estado. Em 2006, o Hamas ganhou a eleição para o Parlamento Palestino, mas sendo considerado mais radical que o Al-Fatah[2], o Hamas foi impedido de assumir sendo exilado na Faixa de Gaza. O Hamas passou a atingir alvos civis em Israel e orquestrar atentados terroristas depois do massacre de Baruch Goldstein na Tumba dos Patriarcas, antes disso, seus avos eram direcionados apenas contra os militares israelenses, assumindo autoria por todos seus ataques. Gostando ou não, concordando ou discordando das táticas operacionais; seja como for e chamando como preferir, seja de partido político ou de organização terrorista, uma coisa é certa: se o Hamas disse que não cometeu, é porque não cometeu. Antes de ser acusado por essas linhas, quero esclarecer algumas coisas: eu não pertenço ao Hamas; nenhuma organização política paga meu salário; e não sou eu quem devo escolher qual partido é certo e qual é errado para o povo palestino. Meu objetivo com meu trabalho é ajudar à emancipação palestina, quem deve escolher o partido para seguir ou votar, é o povo palestino. Afinal, eu voto no Brasil! Ontem fomos até às 3h da manhã, acompanhando as notícias, sabíamos que o que seguiria seria um banho de sangue. Durante a madrugada, o Estado de Israel bombardeou a Faixa de Gaza e colonos israelenses invadiram territórios palestinos para propagar o terror. Lembrando que tudo isso aconteceu em resposta ao massacre de Jenin do dia 26. Conhecendo o desserviço prestado por algumas das maiores mídias de informação no Brasil, as quais noticiaram superficialmente o ataque de Jenin, fomos dormir sabendo que depois do ataque em Jerusalém alguém ligaria. E ligou! As notícias que circularam eram que Israel estava se defendendo de terroristas. Como previsto, passamos algumas horas convencendo familiares e amigos de que estávamos bem e seguros. Embora estivéssemos vivos, não estávamos nem bem, muito menos seguros. Próximo de Kobar, existe um assentamento ilegal chamado Halamish[3], esses colonos passaram a noite propagando o terror entre os palestinos. Mas nada disso, nem o massacre de Jenin, nem os bombardeios à Gaza, muito menos os ataques de colonos israelenses, tiveram ênfase na mídia brasileira; somente o “atentado terrorista contra judeus em Jerusalém”. Não que eu concorde com o ataque contra civis, mas veja bem a história como, na verdade aconteceu. O atirador palestino que cometeu a chacina e depois foi morto pela polícia, foi identificado como Heiri Alkam, de 21 anos. Alkam é morador do bairro de A-Tor, em Jerusalém Oriental (na Palestina). Uma foto do atirador circulou na televisão, nela o jovem aparece na sala de casa, com um quadro de um senhor ao fundo. Aquele senhor era Hayeri Alkam, avô do atirador, assassinado a facadas em 1998 na rua Shmuel HaNavi em Jerusalém. Obviamente, nenhum israelense foi preso pelo crime. Não que uma coisa justifique a outra, mas naquela noite Heiri Alkam, que não possuía antecedentes criminais, saiu de casa sabendo que iria morrer. Como disse, um ataque não justifica outro, mas a pergunta a se fazer é: como uma pessoa que cresce convivendo com tamanha violência consegue tomar outro rumo que não a própria violência? O mundo consegue intitular o povo árabe, em especial os palestinos, como “terrorista”, mas não é capaz de intitular de terrorista os presidentes americanos que invadiram os países árabes e perpetraram tantos massacres; não é capaz de chamar de terrorista o sistema de genocídio permanente ostentado pelo sionismo. O mundo não se cansa de dizer que a Ucrânia e os ucranianos têm todo o direito de se defender contra Vladimir Putin e os soldados russos. Mas um palestino não tem esse direito, e quando se levanta, seja com uma pedra contra a ocupação israelense, eles são chamados de terroristas. Se nada justifica uma agressão, como pode a agressão contra os palestinos ser justificada por nada? Depois de responder às mensagens e publicar alguns vídeos e informações sobre o que realmente estava acontecendo na Palestina; e já que não poderíamos sair para lugar nenhum, fomos novamente com Abu Khaled, Ruayda e Ayman cuidar das oliveiras. [1] As Leis Básicas de Israel são um componente essencial do direito constitucional de Israel. Essas leis tratam da formação e do papel das principais instituições do Estado e as relações entre as autoridades do Estado. Algumas delas também protegem os direitos civis. [2] Al-Fatah, é um partido política, fundada em 1959 pelo engenheiro Yasser Arafat e Khalil al-Wazir, e outros membros da diáspora palestina, como Salah Khalaf e Khaled Yashruti. É o maior partido dentro da Organização para a Libertação da Palestina. [3] Halamish, (ou Neveh Tzuf), é um assentamento israelense judaico ortodoxo na Cisjordânia Ocupada, estabelecido em 1977.
- A santidade da terra palestina
"Nossa família palestina! Allah nos colocou no caminho das oliveiras palestinas; elas nos receberam com o acolhimento e grandeza que só as grandes árvores podem oferecer. Tivemos o privilégio de ajudar a cuidar da terra mais amada do mundo e, trabalhar de corpo, mente e alma nesse campo foi o presente mais inspirador dessa viagem! Obrigada grandioso Allah por me trazer aqui e me fazer reconhecer os teus sinais." Diana Emidio Queria muito participar de uma manifestação e ver de perto, quem sabe registrar, a violência dos soldados israelenses no violar do direito de reunião e manifestação dos palestinos. No entanto, ontem quando nos aquecíamos na fogueira de Abu Khaled, ele nos convidou para o acompanharmos na tarefa de cuidar da terra e das oliveiras. Ele confessou que momentos como esse são difíceis, pois sabe da necessidade de lutar e se manifestar, porém, o único filho que ficou em casa tem apenas 13 anos, e nessa fase os jovens, principalmente os meninos, ficam inflamados com os movimentos de resistência e acabam se colocando em risco. É realmente uma fase perigosa. Por isso, toda vez que acontece algo assim, ele levava seus filhos para cuidar da terra, assim ocupava suas mentes e os mantinha longe das agressões. Entendendo bem o que Abu Khaled estava dizendo e até concordando sem ressalvas, decidimos ir junto para a terra e ver a Palestina como ela deveria ser se não houvesse um regime de ocupação. Carregamos o carro com água, ferramentas, alguns produtos para combater os insetos que atacam as oliveiras e algumas comidas. Peguei meu boné do MST e minha hattah (como os palestinos chamam a keffiyeh) e lá fomos nós com nossa família palestina. Falando de terra, Palestina e MST, gostaria de contribuir com uma informação a este diário. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é visto pela direita como um movimento “terrorista”; quanto a isso não vou entrar no mérito da questão, afinal não é bom dar palco para louco. O que poucos sabem é que o MST defende a luta camponesa também além das fronteiras brasileiras. Em 2002 a Via Campesina esteve em Ramallah, enquanto a Mukata´a e Yasser Arafat estavam sob bombardeio israelense. Desde então os “sem terras” brasileiros intensificaram suas relações com os movimentos populares na Palestina. Entre 2010 e 2011 o MST chega à Palestina com a decisão de ajudar a construir o processo de filiação da União dos Comitês de Trabalho Agrícola (UAWC) à Via Campesina. [...] Estivemos nesse período na Palestina, e tivemos condições de acompanhar todo esse processo de integração da UAWC na Via Campesina, fato ocorrido em 2013, na IV Conferência Internacional da Via Campesina, em Jacarta, Indonésia. Entre 2010 e 2013 o MST e a Via Campesina emitiram comunicados defendendo o “direito do povo palestino de lutar por todas as suas terras, sejam as ocupadas em 1948, em 1967 ou mesmo depois dos Acordos de Oslo (1993/1994)”. Buzetto, 2018 No campo de oliveiras, a Ruayda e a Di acenderam uma fogueira para preparar o café da manhã. Enquanto isso, eu e Abu Khaled fazíamos a poda de algumas árvores e Ayman jogava o pesticida. Preparado o café, nos sentamos para comer embaixo da sombra de uma das oliveiras. Aproveitando os pães com azeite e zatar e outras delícias típicas das produzidas na região conversamos muito sobre a terra e os cuidados para com ela. À nossa frente estava outro morro com mais oliveiras, onde outra família fazia o mesmo que nós: tomava seu café da manhã enquanto se preparava para um dia de trabalho. Por ver as crianças ao longe, entendi que eles estavam ali pelo mesmo motivo que Abu Khaled me falou ontem: para evitar que os jovens se colocassem em posição de perigo frente às manifestações que estavam acontecendo por todo país. Olhando para aquelas árvores fiquei pensando quanto tempo demoraria para que também fossem arrancadas da terra para construção de novos assentamentos ilegais de colonos estrangeiros. Fiquei pensando quanto tempo demoraria para que Abu Khaled e Ayman não tivessem mais oliveiras para cuidar. Deixando os pensamentos ruins de lado e com a barriga cheia, era hora de trabalhar. Juntamos as coisas e fomos todos pegar no pesado. Começamos a poda de baixo para cima, este não é um trabalho fácil. Me lembrei que o MST organiza também a Brigada de Solidariedade Ghassan Kanafani, na qual reúne grupos de trabalho voluntário durante o período de colheita de azeitonas na Palestina. Quando lembrei disso estava em cima de uma árvore com a Di; contei para ela sobre esse movimento e sorri dizendo: vou sugerir ao MST que venha da próxima vez no período de poda das árvores, isso é que é trabalho duro! Já faz um tempo, eu escrevi sobre as oliveiras de Kobar. Durante a pesquisa desse material naveguei com os satélites do Google até aqui para entender a geografia da região, vi fotos, li documentos e muitas outras coisas para alimentar minha percepção. Aqui, carregando os galhos podados para uma fogueira vejo como é bem diferente. Sinto o cheiro das árvores, sinto o calor da fogueira, procuro uma sombra larga para me esconder do sol, o verde que via pelas fotos é diferente. Tudo, presencialmente, é bem melhor e muito mais bonito, sei que vou sentir saudades, não só do local, mas dessa família maravilhosa que nos adotou. O dia que começou cedo foi de trabalho duro, minhas mãos estão ambas machucadas de espinhos, minhas costas doem e meus joelhos parecem não aguentar mais meu corpo. Mas posso dizer que estou realizado e feliz. Hoje eu entendi o valor dessa terra para os palestinos. Entendi que a santidade não está nos velhos templos bíblicos, a santidade está em um pai, uma mãe e um filho trabalhando juntos no campo. Acho que encontramos parte do que viemos buscar. Nota: Como mochileiro já expliquei que sou desenraizado e não me sinto verdadeiramente ligado à terra que nasci, talvez porque nunca tivesse trabalhado nas oliveiras de São José dos Campos. Mas consegui entender que a relação dos palestinos com sua casa, suas terras e suas oliveiras é algo que transcende a imaginação. “O colonialismo israelense será derrotado, pois é impossível subjugar e oprimir um povo para toda a vida. A Palestina é, hoje, o nosso Vietnã, e de lá retiramos a energia necessária para levar a justiça a todos os rincões de nosso planeta. A luta do povo palestino nos alimenta com a ousadia e a resistência de quem nunca teve medo de defender sua pátria, sua terra e seus princípios e valores.” Buzetto, MST, 2018.
- A chacina israelense em Jenin
Após ter conhecido a resistência das ruas de Nablus, pretendíamos ter um dia tranquilo para conhecer um pouco dessa história. Mas, como tudo por aqui depende da vontade israelense, acabou saindo tudo completamente diferente do que esperávamos. Se a ideia era conhecer o significado de resistência, hoje foi o dia para sentir na pele. A primeira parte do dia foi dedicada ao museu Mahmoud Darwish, poeta e escritor adotado como um símbolo da luta de libertação nacional. Na juventude, Darwish escrevia e recitava poemas sobre uma vida que conhecia bem, o sofrimento dos refugiados e a inevitabilidade de seu retorno. Em maio de 1965, Darwish leu em público pela primeira vez o poema “Bitaqat huwiyya”, em português “Cartão de Identidade”. Em poucos dias, seu nome e seu poema se propagaram pela Palestina e outros países árabes. Darwish se tornou militante da Organização para Libertação da Palestina (OLP) na década de 1970, anos depois foi eleito para o Comitê Executivo da OLP. Em 1988, Yasser Arafat leu em Argel a Declaração de Independência da Palestina, as palavras no documento foram escritas pelo poeta Mahmoud Darwish. A influência do escritor atingiu tamanha proporção que em 2000, Yossi Sarid, Ministro da Educação israelense, propôs que dois dos poemas do palestino fossem incluídos no currículo do ensino médio israelense. Ehud Barak, Primeiro-ministro à época, rejeitou a proposta protestando “não é o momento certo” para ensinar Darwish nas escolas. "Cartão de Identidade [...] Registra–me, sou árabe tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados e da terra que cultivava com meus filhos e não os deixastes nem a nossos descendentes[...]" Mahmoud Darwish. Entre os livros, prêmios, fotos e manuscritos inacabados em exposição, um artigo pessoal do autor nos fez parar; um velho livreto de páginas amareladas e corroídas pelo tempo: o famoso Cartão de identidade. Visitado o museu e o mausoléu onde está enterrado o poeta revolucionário, seguimos até o próximo destino, outro museu e mausoléu, desta vez de Yasser Arafat. Entre um ponto e outro da cidade, percebemos que todos os comerciantes começaram a guardar suas mercadorias e fechar as portas das lojas. As pessoas que circulavam pela rua também começaram a acelerar o passo, como se quisessem terminar o que estavam fazendo e voltar logo para casa. Não sabíamos o que estava acontecendo, mas era perceptível que aquilo era uma resposta para algo muito ruim. A primeira coisa que pensamos foi no comboio de escolta do prisioneiro liberto em Kobar. Tínhamos certeza de que alguma merda iria acontecer. Mandamos mensagens para Abu Khaled e para Ruayda. Nos preocupávamos de algo ter acontecido na cidade. Como estávamos perto, e nem Abu Khaled, nem Ruayda haviam nos respondido ainda, decidimos seguir até o museu de Arafat. Localizado no centro de Ramallah, este museu constitui a memória nacional palestina e sintetiza a história de um povo através de seu maior líder. Exibindo o icônico keffiyeh, armas, passaporte, fotografias e outros pertences do líder da OLP, incluindo o Prêmio Nobel da Paz de 1994. O museu constitui a narrativa de um povo que resistiu ao Império Otomano, Mandato Britânico, as guerras e ataques para formação do Estado de Israel, e agora contra a ocupação colonial, o regime de apartheid e o plano de limpeza étnica sionista. A visita acaba nas salas da Mukata’a, quartel-general onde Arafat ficou enclausurado enquanto o exército israelense o bombardeou de 2001 a 2004, véspera de sua morte – diga-se de passagem, repleta de controvérsias, com fortes indícios de envenenamento. A visita foi realmente emocionante. Devo confessar que já visitamos muitos memoriais de outros heróis, não vou comentar quais para não ser injusto com os outros, mas o memorial de Yasser Arafat foi o mais emocionante de todos, principalmente por estar vinculado ao mausoléu do Presidente proibido por Israel de ser enterrado em Jerusalém, como era de seu desejo. O mausoléu onde se encontra o corpo de Arafat, foi construído com esmero, sobre a água para expressar que no futuro, com a libertação da Palestina e o reconhecimento de um estado independente, seu corpo será movido para a capital, Jerusalém. Assim que finalizamos a visitação, o Lucas pegou o celular para verificar as horas, foi quando percebeu que Abu Khaled tinha ligado algumas vezes. Ele estava tão envolvido pelos corredores da Mukata’a que nem percebeu. Retornamos a ligação e Abu Khaled pediu para encontrarmos com ele no Centro Cultural Khalil Sakakini. Teríamos que retornar para Kobar com ele porque o transporte público logo pararia de funcionar. Ele disse que o motivo do comércio ter sido fechado em Ramallah foi mais uma chacina promovida contra o campo de refugiados em Jenin[1]. Até o momento que nos falamos, nove palestinos haviam sido assassinados e outros 20 estavam feridos, quatro em estado grave. A Autoridade Palestina declarou luto oficial de três dias em todo território. Chegando em casa, passamos o restante do dia acompanhando as notícias. Infelizmente, todos na frente da televisão sabíamos que aquele seria o início de mais uma escalada de violência e morte promovida pelos israelenses. Segundo reportado pelos veículos de comunicação, às 7h05 da manhã os soldados israelenses fecharam as estradas em direção à Jenin e cortaram a comunicação e internet da região, indicando uma ação premeditada. A seguir, as IOF invadiram o campo de refugiados ao norte do território palestino e abriram fogo contra pessoas que se organizavam em um centro de convenções para uma manifestação na comunidade. O governo israelense alegou uma ação preventiva contra células da Jihad Islâmica. – Mentira! Os soldados sionistas atiraram indiscriminadamente, tanto que uma senhora de 60 anos morreu enquanto observava a invasão da janela de sua casa. Estranhei que nenhum amigo ou parente mandou mensagem, ou ligou para saber se estávamos vivos. Na prática, já sabíamos que notícias sobre as violações israelenses, superficialmente ou raras vezes são noticiadas no Brasil. Nossos familiares e amigos – pelo menos os que não estão vinculados à nossa luta pela causa palestina – jamais ficariam sabendo o que estava acontecendo ao nosso redor se dependesse do interesse da mídia. Esse fenômeno de desinteresse não acontece só no Brasil, deploravelmente isso acontece em todo o ocidente, que “normalizou” e “aceitou” o estágio de genocídio permanente perpetrado pelos sionistas. Após conhecer a história do povo palestino e ver o acervo documentado nos museus de Mahmoud Darwish e Yasser Arafat, fomos dormir pensando estarmos vivenciando, pela primeira vez de dentro dos muros do apartheid, algo com que os palestinos aprenderam a conviver em seu cotidiano. É lamentável que o genocídio palestino aconteça há tanto tempo, enquanto a comunidade internacional assiste a tudo isso de camarote, enquanto chamam os palestinos de “terroristas” e as agressões israelenses de “legítima defesa”. Fomos dormir com mais uma certeza: amanhã, a violência continuará! Dedicado às famílias dos mártires de Jenin. [1] O Campo de Jenin, localizado no norte da Cisjordânia, foi criado em 1953 para abrigar os palestinos expulsos de suas casas durante a Nakba.
- Observando a realidade da ocupação e a resistência palestina em Nablus
Pegamos uma van para Nablus. Durante o caminho, a Ruayda nos mostrou os mais variados estágios de construção de assentamentos ilegais na Cisjordânia[1]. Os israelenses começam a construção pelo topo das colinas onde colocam pilhas de contêineres para dar início à ocupação. Geralmente, muros de contenção são construídos para dar “segurança” aos invasores. Seguindo o processo, casas são levantadas para dar lugar aos colonos. Conforme a ocupação avança, as construções descem as colinas para ocupar cada vez mais as terras palestinas. Pela janela da van, acompanhamos todos os processos da ocupação. O caminho até Nablus levaria pouco mais de uma hora, mas, se locomover pela Palestina é uma missão que demanda paciência. Já estávamos há trinta minutos presos em um engarrafamento. Quando isso acontece, provavelmente é porque os soldados israelenses fecharam alguma rota. A todo momento os motoristas se comunicam entre si pelo celular, antes e durante cada viagem, se orientando para saber qual rota está liberada. Cansado de esperar e após ouvir uma bronca da Ruayda, o motorista resolveu voltar e seguir por outra estrada. Após duas horas chegamos a Nablus, cidade localizada entre o Monte Ebal e o Monte Gerizim; é possível que você a conheça pelo nome bíblico de Siquem. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse–lhe Jesus: Dá–me de beber. Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse–lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos). Jesus respondeu, e disse–lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá–me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Disse–lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado? Jesus respondeu, e disse–lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede;Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. João 4:7–14 As citações bíblicas referentes a esta cidade, como todas as outras, servem como justificativa, ou melhor, “desculpa” para a ocupação israelense. Diariamente canais como o RamallahMix e o Eye.on.Palestine divulgam a violência dos soldados contra os moradores palestinos. Nablus é uma das cidades mais agredidas pela ocupação. Com toda a ocupação servindo como combustível, cresce no seio dessa comunidade também o apoio incondicional à resistência. A “justificativa” para a invasão se faz, principalmente, apoiada na reivindicação pela Tumba de José[2]. Santuário de importância para o monoteísmo, próximo ao Poço de Jacó. Por se tratar de um patriarca a tumba foi ao longo dos anos local de veneração dos judeus, cristãos e muçulmanos. Não há nenhuma evidência arqueológica que estabeleça a tumba como legítima, até mesmo Rabin quando Primeiro-ministro israelense afirmou isso. Os estudiosos modernos afirmam que não existem fontes (judaicas ou cristãs) anteriores ao século V que determinam a veracidade da tumba. Depois que Israel capturou a Cisjordânia em 1967, os muçulmanos foram proibidos de adorar no santuário e ele foi gradualmente transformado em uma sala de oração judaica. A ocupação trouxe muitos assentamentos israelenses para a cidade, estes que já mencionamos são vistos como ilegais pela ONU e a maioria da comunidade internacional, com ressalva, claro, dos Estados Unidos da América. As reivindicações concorrentes de judeus e muçulmanos sobre a tumba tornaram-se frequentes. Embora tenha caído sob a jurisdição da Autoridade Nacional Palestina (ANP) após a assinatura dos Acordos de Oslo, permaneceu sob guarda das IOF. Na década de 1980 os israelenses edificaram um posto militar avançado – semelhante ao que existe em Hebron. Em 1997, os rolos da Torá foram trazidos, o nicho de oração voltado para Meca foi coberto e o local foi declarado uma sinagoga. Nos últimos 20 anos, a Tumba de José serviu como palanque para reivindicação sionista. Atualmente, a cidade está sob jurisdição da Autoridade Palestina, mas a Tumba de José permanece sob controle das IOF, servindo como posto avançado para soldados e colonos lançarem suas incursões contra a cidade e os moradores de Nablus. Andando pelas ruas do mercado da Cidade Velha, também marcado como um dos mais antigos do mundo, pudemos ver que o símbolo de resistência palestina permanece ativo entre os moradores que exibem faixas e homenagens aos mártires palestinos de várias épocas, incluindo os atuais como Ibrahim al-Nablusi; um combatente da resistência martirizado pelo exército aos 18 anos, tornando-se símbolo para a nova geração. No ano passado, seu enterro foi acompanhado por milhares de pessoas. Na semana da morte de Nablusi, milhares de contas em redes sociais de jornalistas palestinos e ativistas internacionais foram bloqueadas por noticiar sobre o assassinado ou prestar homenagens ao mártir. “Eu nem quero dar a eles minhas lágrimas. Ibrahim é um mártir, al-hamdulilah.” Mãe de Ibrahim. Ibrahim Nablusi se tornou combatente da resistência tão cedo quanto sua própria morte. Seu assassinato foi divulgado como uma vitória para Israel contra o terrorismo. Te faço a pergunta: – Se Nablusi que lutava armado contra os soldados de uma ocupação colonial é considerado “terrorista”, por que os jovens que lutam contra os soldados na ocupação da Ucrânia são considerados heróis? Remontando ao passado, George Washington, Dom Pedro I, também lutaram por independência e nunca foram chamados de terroristas, mas sim de patriotas. O mesmo com Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. Ah, quase me esqueci, como não eram brancos, eles também foram chamados de “terroristas”; assim como Nablusi. Nablusi significa “da cidade ‘de Nablus’”. Ibrahim Nablusi nasceu em Nablus durante a Segunda Intifada, um dos períodos mais sangrentos na história palestina. Nablusi tinha o mesmo direito de se defender de qualquer um que lute contra uma ocupação estrangeira. Segundo Jhon Locke: “À doutrina da legitimidade de resistência ao exercício ilegal do poder reconhece ao povo, quando este não tem outro recurso ou a quem apelar para sua proteção, o direito de recorrer à força para a deposição do governo rebelde aos interesses que lhe deram origem. O direito do povo à resistência é legitimo tanto para defender-se da opressão de um governo tirânico como para libertar-se de domínio de uma nação estrangeira.” Jhon Locke Mas não nos baseamos apenas em um dos maiores filósofos da humanidade. O direito internacional reconhece o direito à autodefesa de uma nação contra uma ocupação estrangeira como parte do direito à legítima defesa. Este princípio está consagrado na Carta das Nações Unidas, que afirma o direito inerente de todos os Estados à autodefesa individual ou coletiva contra um ataque armado. Segundo o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas estabelece o direito à legítima defesa está sujeito a certas limitações e requisitos, como a necessidade de que a resposta seja proporcional ao ataque inicial e que seja notificado imediatamente ao Conselho de Segurança da ONU. Além disso, o direito internacional reconhece o direito dos povos à autodeterminação, que inclui o direito à resistência contra ocupações estrangeiras. Amparado pelo direito internacional de autodefesa, Nablus exporta heróis e uma rica cultura de grande importância para a cultura árabe. Todas suas contribuições podem ser encontradas no mercado da Cidade Velha, como a culinária, o vestuário típico, o artesanato e o famoso sabão “Nablusi”, feito com azeite de oliva virgem, exportado para o mundo todo como artigo de luxo. Fomos até o hipódromo enquanto Ruayda fazia a aula do seu curso de doces. Sentamo-nos um pouco no parque próximo ao centro fervoroso da cidade. Assistindo as famílias passeando, crianças brincando em meio aos vendedores de milho e pipocas; a vida quase parece não ser afetada pela ocupação! De certa forma viver o mais normal possível é bem uma maneira de resistir à ocupação. É incrível que em Israel nos sentimos em um clima de tensão o tempo todo. A impressão é que as pessoas estão o tempo inteiro se preparando para “ataques terroristas”, parece que os israelenses não descansam nunca. Já para os palestinos vandalizados diariamente o clima é exatamente outro. Aqui as pessoas sorriem sem se importar com as dificuldades da vida, como se não tivessem medo da incursão que o exército israelense com certeza fará essa noite. Sorrir é resistir! Ficamos pouco no parque, logo a Ruayda nos ligou para retornar e conhecer o chefe de cozinha especialista em doces palestinos. Ela disse que o chefe convidou suas alunas para um almoço e estendeu o convite para nós também. Levantamos e “picamos a mula” sem pensar, nem nos importamos de já ter comido nas barracas do mercado. Quando chegamos o chefe preparou um café “nablusi” e nos mostrou um pouco das massas finas que estava preparando para os doces. O café estava ótimo, mas e o “rango?” Perguntei para Ruayda. Como as mulheres que fazem o curso moram longe e todas precisam pegar a estrada para ir embora “elas cancelaram o almoço”, disse ela. Saímos de Nablus com água na boca, principalmente porque esperávamos uns docinhos feitos pelo chefe. Por sorte, a Ruayda levou a massa para casa e preparou alguns para nós. Já poderíamos ir dormir dizendo que o dia hoje foi completo. Para encerrar o dia em grande estilo, antes de dormir presenciamos a festa da libertação de um prisioneiro palestino de Kobar. Carros escoltaram o ex-prisioneiro, finalmente em liberdade após 15 anos de cárcere. A questão é que os prisioneiros palestinos não são prisioneiros comuns, a grande maioria é encarcerada por resistir contra a ocupação; e quando digo resistir, não estou me referindo a fuzil e luta armada, esses, como Nablusi são mortos à tiros e geralmente seus corpos são retidos pelos israelenses e a casa de seus pais é demolida. Me refiro a participar de alguma organização de defesa dos direitos humanos, ser jornalista, ou mesmo uma criança que atira pedras[3]. Todo palestino detido por Israel é julgado por um tribunal militar, o que deveria ser feito somente em casos excepcionais, mas é o protocolo de segurança desde à ocupação da Cisjordânia em 1967. Na qual ficou estabelecido a Proclamação Militar nº 2, concedendo ao comandante militar da área plenos poderes legislativos, executivos e judiciais sobre os prisioneiros. Existe a chamada “Detenção Administrativa”, na qual, qualquer “suspeito” pode ser colocado em prisão por tempo indeterminado, mesmo sem ter passado pelo devido processo legal. O Estado de Israel alega que as detenções administrativas são estipuladas com base em “provas secretas” que garantem a “segurança nacional”. O sistema de “justiça” de Israel, por si só, viola várias leis internacionais. Seria uma piada se não roubasse longos anos de palestinos que passam vidas inteiras atrás das grades da ocupação. Por isso toda vez que um prisioneiro é solto, a alegria toma conta das ruas. Em Kobar a recepção foi comovente, embora tivéssemos passado um dia calmo e tranquilo em Nablus, fomos dormir com a sensação de que o Estado de Israel não permitiria aquela festa a troco de nada, sabíamos que algo de ruim estava para acontecer. [1] Na guerra de 1967, Israel tomou e ocupou territórios na Palestina, no Egito, no Líbano e na Síria, desde então, promoveu a colonização da área com colônias judaicas; consideradas ilegais por organizações internacionais e pela ONU sob o direito internacional. [2] A Tumba refere-se José filho de Jacó. Não é sobre o pai de Jesus. [3] Atirar pedras é um crime específico da Ordem Militar 1651 na Lei da Juventude (Cuidados e Supervisão), em que impõem, detenção e multa aos pais do menor.
- Al-Khalil (Hebron), a cidade palestina do patriarca Abraão
Um dos lugares mais esperados para conhecermos na Palestina histórica era Hebron (Al-Khalil), na Cisjordânia ocupada, cidade onde o profeta Abraão se estabeleceu conforme a tradição das três grandes religiões monoteístas fundadas na região. “E Abraão mudou suas tendas, e foi, e habitou nos carvalhais de Manre, que estão junto a Hebron; e edificou ali um altar ao Senhor.” Gênesis 13:18 Sabendo que Hebron é uma das cidades palestinas que mais sofre com restrições e ataques das IOF, decidimos ir quanto antes para não arriscar ir embora sem antes vê-la. Saímos do centro de Ramallah em uma van local. A paisagem seria uma das mais lindas, não fosse pelo muro do apartheid, que separa os palestinos em sua própria terra. Alguns garotos sentados atrás de nós, com uma dificuldade tão grande quanto a nossa de falar inglês, arriscaram um “where are you from?”. Essa foi a deixa para começar um diálogo que se estendeu por mais de uma hora com ajuda do Google tradutor. A viagem duraria bem menos caso não houvesse tantos checkpoints israelenses atrapalhando o trânsito. Um dos garotos palestinos, W., se mostrou extremamente interessado em saber sobre o que dois brasileiros estavam fazendo em uma van amarela rumo a cidade de Hebron. Expliquei que queria escrever e fotografar a situação no país, para que outros brasileiros soubessem um pouco mais sobre a Palestina e como vive seu povo. Minha resposta deixou W. e os outros ainda mais interessados em compartilharem suas histórias e seus problemas cotidianos. A certa altura da conversa, os idiomas inglês, árabe e português pareciam um só. Falávamos um idioma universal e a única barreira que tínhamos era o muro ao nosso redor – por sinal, nosso assunto principal. Os jovens palestinos nos mostraram o quão perto Jerusalém é de Hebron, mas que devido ao muro, se torna tão longe, e por vezes, inalcançável. W. nos contou que seus documentos foram apreendidos por soldados israelenses depois de ter sido agredido na porta de sua casa. Justamente por não possuir os documentos, precisa pular o muro para chegar a Jerusalém e orar na Mesquita de Al-Aqsa – entrada clandestina na capital de seu próprio país. W. chegou a nos mostrar o ponto onde ele e os amigos costumam pular o muro. – Gostaria de lembrar, centenas de palestinos já foram baleados, ou mesmo mortos, na tentativa de transgredir essa barreira imposta pelo apartheid israelense. A ocupação israelense na Palestina, sobretudo na cidade de Hebron, é deveras complexa. Tento resumir a seguir. Os Acordos de Oslo[1] entre israelenses e a Autoridade Palestina determinaram que o território da Cisjordânia seria dividido, em tese, em zonas A, B e C: Área A sob administração completa da Autoridade Palestina; Área B, mista entre Autoridade Palestina e o Estado de Israel; e Área C, sob administração completa do estado de Israel. Na prática nada disso deu certo, enquanto os palestinos cediam às concessões acordadas, soldados e colonos sionistas continuaram a tomar e ocupar terras palestinas, muito embora seja considerado ilegal pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela maior parte da comunidade internacional. Hebron recaiu entre a Área B e a Área C. Os assentamentos ao redor da cidade abrigam uma das comunidades judaicas mais extremistas e violentas instaladas em terras palestinas: Kiryat Arba. Com uma população de oito mil israelenses essa comunidade serve como posto avançado do exército israelense dentro da Palestina, onde soldados podem exceder até mesmo o número de colonos – também fortemente armados. Assim que chegamos, W. se ofereceu para ser nosso guia. Nos convidou para comer falafel e tomar chá – quando fui pagar a conta, W. já havia feito. O jovem de 19 anos nos convidou para conhecer sua casa e sua mãe e ficou bastante surpreso e satisfeito quando concordamos. Da casa de nosso anfitrião foi possível ver toda a cidade de Hebron e como as bandeiras israelenses tremulam no topo das bases militares espalhadas pela cidade palestina. Depois de tomarmos um café com W. e sua mãe, caminhamos por entre as oliveiras centenárias até a Cidade Velha. Cruzamos com alguns soldados pelo caminho. Para nosso novo amigo o risco de que algum daqueles soldados o prendesse por não ter seus documentos era enorme, então ele caminhou conosco apenas até certo ponto da Cidade Velha. Passando por alguns checkpoints, com grades, roletas, câmeras de vigilância e soldados armados até os dentes, chegamos à rua do mercado velho – um dos maiores do Oriente Médio, em uma das cidades mais antigas do mundo – o qual evidencia a face hedionda da ocupação. A constante presença do exército israelense, a humilhação e a violência que estes causam aos palestinos, tudo isso levou muitos comerciantes a se retirarem do local, motivo pelo qual muitas lojas permanecem vazias até hoje. As lojas que resistiram abertas possuem uma tela de proteção como cobertura para evitar que o lixo jogado de cima pelos colonos atinja trabalhadores e suas mercadorias exibidas na rua. Manter o comércio nessas condições, olhando para cima daquelas telas e vendo aquele monte de lixo acumulado sobre suas cabeças é revoltante e me fez pensar: Que tipo de ser é capaz de jogar lixo em pessoas que estão tentando sustentar suas famílias? Ou como nomear alguém que atira ovos, urina e fezes em cima dos outros? Olhando para os velhos com seus keffiyehs pela rua do mercado, ou para os comerciantes mais jovens, tive a sensação de que trabalhar naquele mercado e naquelas condições é a mais pura maneira de dizer para ocupação israelense que a resistência palestina permanece viva e forte. Como W. nos disse, “cada vez que os israelenses demolem uma casa, eles abastecem com pedras a resistência palestina.” Sob a mira dos fuzis que só são abaixados quando a câmera de um estrangeiro se levanta, sentimos um pouco do medo de que as crianças palestinas sentem todos os dias para ir à escola, como um grupo que vimos a nossa frente. A ocupação é o nível mais baixo da podridão humana, Hebron é a cidade que evidencia essa faceta. Após cruzar o mercado, passando pela rua dos mártires, chegamos a nosso destino: o Túmulo dos Patriarcas, conhecido em árabe como Mesquita Abraâmica. Esse complexo religioso, abriga o Túmulo de Abraão e o local de sepultamento de seus filhos e esposas. Trata-se de um lugar sagrado para as três religiões monoteístas, já que Abraão é considerado o “pai de todas as nações”. Esse templo, não obstante, guarda uma memória ainda mais cruel do que o arremesso de lixo que presenciamos no caminho. Em 1994, logo após a divisão dos territórios, o supremacista americano judeu e naturalizado israelense, Baruch Goldstein entrou armado na mesquita e esperou até que os muçulmanos se prostrassem com as cabeças no chão, em posição de prece, para disparar contra eles. Goldstein assassinou 29 palestinos e baleou outras 125 pessoas. O atentado desencadeou uma série de respostas e tréplicas. O atentado terrorista do americano-israelense visava afetar as negociações de paz entre a Autoridade Palestina e o governo do Estado de Israel. A situação que já estava ruim, pioraria e muito. No ano seguinte, o Primeiro-ministro Rabin participou de uma manifestação em massa na Praça dos Reis de Israel (agora Praça Rabin) em Tel Aviv, organizada para promover a paz entre israelenses e palestinos, mediante aos Acordos de Oslo. Quando a manifestação terminou, Rabin desceu os degraus da prefeitura em direção à porta aberta de seu carro, momento em que Yigal Amir – outro israelense que discordava da paz com os palestinos – disparou três tiros assassinando o Primeiro–ministro. Com Rabin assassinado estava posto também uma pedra sobre as negociações de paz com os palestinos. Nenhum dos Primeiros–ministros que sucederam a Rabin optaram por negociações com a Autoridade Palestina. Instalado o caos, os sionistas impuseram uma nova subdivisão a uma cidade já dividida. Hebron seria novamente segmentada em zonas H1 e H2: um lado para os muçulmanos, outro para os judeus. O mesmo foi imposto ao Túmulo dos Patriarcas. Estar em Hebron e ver com os próprios olhos o que é a colonização é ainda mais devastador do que podemos descrever. Antes de adentrar ao templo sagrado, um soldado que apontava um fuzil na altura de nossos estômagos me perguntou se eu carregava uma faca. Fiquei indignado, mas respondi obviamente que não. Passando pela catraca, uma outra soldada – de no máximo 20 anos – nos perguntou, da forma mais arrogante possível, o que iríamos fazer ali e qual era nossa religião. Gostaria do fundo do coração de dizer a verdade, ou no mínimo dar uma boa resposta, mas me fiz de idiota mais uma vez ao afirmar que sou cristão e insistir que Abraão estava na Bíblia. No Túmulo dos Patriarcas, centenas de muçulmanos oravam e prestavam respeito ao mortuário daqueles que foram os primeiros personagens do monoteísmo. Contudo, a maioria ali presente era de estrangeiros, pois o Estado de Israel mantém seus cães de guarda na porta do santuário universal, não para garantir que outro Goldstein repita seu massacre, mas para reprimir e humilhar os palestinos – sobretudo as mulheres. O que acontece em Hebron é indigesto, repugnante e faz qualquer um questionar a própria humanidade. Ainda hoje a cidade é um dos alvos mais atingidos pela ocupação israelense. Ano após ano, jovens como W. são agredidos e assassinados por colonos ilegais que vieram de qualquer parte do mundo para viver na Terra Santa; quando não, esses jovens são presos, torturados e assassinados pelos soldados israelenses. Como todos os outros templos e santuários reivindicados pelo Estado de Israel, a Tumba dos Patriarcas serve como uma desculpa religiosa para dar legitimidade ao que realmente os interessa: tomar e ocupar mais território. Como alguém que não possui uma religião, não consigo compreender bem os limites da fé. Deixo para você leitor a pergunta: – Entrar armado em um templo e promover um massacre contra fiéis de costas e abaixados em oração tem algo a ver com religião? – Será que Deus seria conivente com tal crime? Antes de ser assassinado por outro judeu, Rabin considerou que não ter fechados os assentamentos de Hebron, foi um de seus maiores erros políticos, ele chegou a se referir aos colonos como “câncer” para a sociedade israelense. Durante o governo Rabin, a maioria dos israelenses apoiava a retirada dos colonos de Hebron, a situação atual é bem diferente. [1]Os acordos de Oslo foram uma série de acordos na cidade de Oslo, na Noruega, entre o governo de Israel e o Presidente da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Em 1994, ano após a assinatura dos acordos, o então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, o ministro israelense de relações exteriores Shimon Peres e Yasser Arafat, o presidente da OLP, receberam o Prêmio Nobel da Paz.
- Atravessando o muro do apartheid israelense para entrar na Palestina
Ir e vir é um direito inerente a todo ser humano, pelo menos é o que diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos[1]. Há um ano estávamos em um sebo na cidade de Santos planejando com Jehad a nossa viagem para Palestina. Ontem, quando vimos pela primeira vez o muro do apartheid e cruzamos pelo nosso primeiro checkpoint[2], vimos um pouco do que Jehad enfrentou boa parte de sua vida. Saindo de Jerusalém subimos em um transporte público em direção à Ramallah. Mesmo se optássemos por um táxi, seria uma dor de cabeça encontrar um que pudesse atravessar o checkpoint. Os motoristas e carros com placas de Israel preferem não circular pela Palestina, mesmo que o único impedimento para isso sejam enormes placas vermelhas indicando (em três idiomas) que os palestinos são uma ameaça às suas vidas; – Nem preciso dizer quem é a real ameaça aqui, né! Já os motoristas e carros com placas palestinas, a maioria, não pode trafegar pelas ruas do estado israelense. Sendo assim o ônibus foi a melhor opção. Quando chegamos perto do muro vimos que aquela aberração não serve ao propósito de “segurança”, ele serve para oprimir e humilhar o povo palestino. Chegando ao primeiro checkpoint vimos soldados fortemente armados, uns escondidos atrás de barreiras de concreto, outros parando indiscriminadamente os motoristas; fossem homens, mulheres ou idosos. É desesperador ver um jovem soldado humilhando um senhor que bem poderia ser seu avô. É imensurável o número de casos de assassinatos e outras violações cometidas nesses muros e checkpoints. Às vezes os soldados costumam fechar um ou outro, uma forma de punição coletiva[3] que obriga os motoristas a esperarem horas na estrada ou mudar seu caminho para um destino mais longo. Gostaria de filmar e fotografar aquela cena vulgar, mas estávamos em um transporte público e acabei recuando com medo de prejudicar os palestinos que estavam no ônibus. Foi assistindo aquela depravada composição que aprendemos que o lindo conceito iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade só serve aos propósitos do colonizador. Isso serve para assimilar que aqui o direito de ir e vir não se aplicava ao Jehad como se aplica para nós, mesmo sendo ele filho dessa terra e nós, tão estrangeiros quanto aqueles soldados armados. Este muro expõe de forma nua e crua a face de um regime racista e assassino. Vou tentar explicar sobre a construção deste muro de forma simples. Imagine que você mora em um bairro muito próximo ao bairro onde moram seus pais, amigos, até mesmo o amor de sua vida. Seu pai possui um lote de terra que usa para plantação próximo à sua casa. Suas verduras ajudam a sustentar sua família. Você trabalha ou estuda bem perto, a 200m da sua casa. Um dia você acordou e encontrou um papel colado no poste, por estar em outro idioma, você não conseguiu ler o que estava escrito e, ainda pior, estava escrito em japonês, com caracteres que você nem conhece. Imagine agora que de uma hora para outra, o prefeito da sua cidade decide classificar o seu bairro como um perigo para o bairro onde mora sua família, seus amigos, e seu amor. No mesmo bairro que você e milhares de outras pessoas estudam ou trabalham. De repente você acorda um dia para trabalhar e encontra em frente à sua casa um muro de concreto com 8 metros de altura separando o seu bairro do restante do mundo. Para ir ao trabalho ou ver as pessoas que ama você precisa ir até uma passagem controlada pela polícia, não obstante, você ainda precisa ter uma autorização prévia emitida pelos militares para poder atravessar. Para agravar a situação, o posto policial mais próximo fica a 20 quilômetros da sua casa. Aqueles 200 metros até o trabalho, que antes você faria a pé, se tornou uma viagem de 40 km para ir e mais 40 km para voltar. Você descobre que aquele papel no poste era um comunicado oficial avisando sobre a construção do muro e dando sete dias para os moradores recorrerem da decisão na justiça. Outro detalhe, seu pai “já senhor”, deveria fazer o trajeto inverso ao seu, e nem poderia ir e vir para sua própria plantação, pois, para os agricultores o portão só é aberto duas vezes por dia, uma vez para entrarem e outra para saírem. Este cenário parece bizarro para você? Foi exatamente o que Israel fez nas aldeias de Chiyah, El-Azariyeh e Ras al-Amud em 2002, e que agora se estende por mais de 700 km por dentro da Palestina. Em 2001 o Primeiro-ministro Ehud Barak (Partido Trabalhista) apresentou ao Knesset essa proposta de segurança para a população israelense. Sua ideia consistia em uma barreira entre os territórios palestinos e israelenses, as obras foram iniciadas pelo sucessor Ariel Sharon (Likud). Ao sul do monte das Oliveiras, as vilas de Chiyah, El-Azariyeh e Ras al-Amud, perto de Jerusalém, foram os primeiros a presenciar a construção do que os palestinos batizariam não muito depois de “O Muro do Apartheid”. – Sabe o que incomoda muito? – Todas às vezes que se fala de muros e violações ao direito de ir e vir, o muro de Berlim é evocado. Vez ou outra alguém diz na televisão que precisamos construir mais pontes e menos muros, e a imagem que aparece é sempre a da queda do muro de Berlim, uma visão quase romântica da tragédia alheia. – Por que nunca vemos falar de opressão usando as imagens de um Muro que está de pé? O muro de Berlim tinha 4,2m de altura e 155km de comprimento; já o muro israelense chega a 9m de altura e sua extensão é quase 7 vezes maior. – Não seria esse um ativismo dissimulado? – Por que não damos nomes as coisas como elas realmente são? Como o mundo comemora a queda do muro de Berlim enquanto permite que Israel continue construindo muros dentro do território palestino? – Por que não usamos o muro que está de pé para ilustrar o que significa a subjugação de um povo pelas mãos de um regime racista e opressor que também continua de pé? Nosso amigo Jehad é um palestino cujos avós foram expulsos de suas casas durante a Nakba. Há alguns anos ele vive e trabalha no Brasil. Quando estávamos nos organizando a respeito desta viagem percebemos como é obsceno como o Estado de Israel viola o direito de ir e vir dos palestinos diante dos olhos da comunidade internacional, que assiste essas e outras violações de camarote. “Sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos.” Nelson Mandela Como brasileiros, não havia nada que nos impedisse de comprar um voo direto para Tel Aviv (território que Israel roubou da Palestina logo nos primeiros anos de ocupação sionista), assim o fizemos. Compramos uma passagem de Istambul direto à Tel Aviv. Já para o Jehad, que assim como seus pais e avós, nasceu na Palestina, a viagem não poderia ser feita dessa maneira. Como palestino, ele não tem liberdade para entrar no território que Israel roubou para sua capital, posto isto, seu acesso ao aeroporto Ben-Gurion não existe. Jehad, como todos os outros palestinos do mundo, para entrar em seu próprio país teria que pegar um voo até a Jordânia e de lá atravessar pela fronteira terrestre com a Palestina, que também é controlada pelo exército israelense. – Por que Jehad não pega um avião direto para Palestina? – Porque o único aeroporto na Palestina, que ficava na Faixa de Gaza, foi bombardeado em 2014; qualquer outro aeroporto que os palestinos construíssem após, também seria bombardeado. Graças a violação do Direito de ir e vir, não poderíamos entrar todos juntos na Palestina. Nosso amigo, mesmo sendo palestino, não tem autorização para circular nos territórios ocupados por Israel. No fim das contas, acho que pensando em toda a dificuldade e o gasto muito maior para se chegar até a casa de seus pais, ele decidiu ficar no Brasil. Atualmente Jehad está em processo de conseguir a cidadania brasileira, o que não quer dizer que poderá entrar em Israel, mesmo que pudesse, Jehad é um palestino consciente da ocupação de seu país e jamais aceitaria qualquer favorecimento que indicasse sua aceitação ao Estado de Israel. “Eu jamais aceitaria qualquer coisa de Israel, porque se eu aceitar, isso quer dizer que aceito a ocupação deles na minha terra, e isso eu me recuso. Mesmo que eu pudesse usar o aeroporto Ben-Gurion, não usaria, isso seria uma traição à memória dos palestinos como meus pais e meus avós.” Jehad Afaghani Para o amigo Jehad! [1] Art.13 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a esse regressar. (ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948) [2] Postos de controle israelenses que controlam entradas e saídas de palestinos; são barreira físicas guardadas pelas Forças de Ocupação Israelense (IOF), fazem parte do sistema de bloqueio da Cisjordânia e Faixa de Gaza. [3] Punição coletiva é a punição aplicada a todo um grupo de pessoas, em razão da conduta de um ou mais indivíduos desse grupo, com base na generalização da culpa (culpa coletiva), ou em razão das ações de um outro grupo, sobre o qual o grupo castigado não tem controle direto. Segundo a Convenção de Genebra (1949), relativa à proteção de civis em tempo de guerra, as punições coletivas são consideradas crimes de guerra; uma vez que não pode haver ‘responsabilidade vicária’, mesmo que por crimes alheios.
- A Mesquita Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islã
Conseguimos entrar na Esplanada das Mesquitas, na cidade ocupada de Jerusalém. Não pudemos acompanhar os palestinos no mesmo horário, como gostaríamos. Porém, entramos. O que acontece na Palestina sob ocupação militar israelense não é uma guerra religiosa – como nós brasileiros tendemos a acreditar. O que acontece é ocupação e colonização sionista, cujo termo mais inteligível sobre os fatos talvez seja apartheid. Passamos por soldados israelenses fortemente armados que controlam a entrada da Esplanada das Mesquitas. Enquanto a mochila com os passaportes passava pelo raio X, éramos revistados por tropas policiais da ocupação israelense. Como se já não fosse estranho que colonos judeus controlem o acesso a um local islâmico, um deles me perguntou ainda por que eu queria visitar o “Monte do Templo” já que eu mesmo não sou muçulmano. Pensei em responder: “Pelo mesmo motivo que visitei o Muro das Lamentações sem ser judeu, o rio Ganges sem ser hindu, ou a Basílica do Santo Sepulcro sem ser cristão”. No fim das contas achei melhor evitar confusão e indagar apenas “por que não?”, e o soldado tampouco quis se estender. Para acessar à Esplanada das Mesquitas, cruzamos por uma passarela de madeira improvisada por cima do Al-Buraq, ou muro externo da Esplanada, – provavelmente você deve conhecer melhor se disser, Muro das Lamentações. Em 2021, logo no primeiro dia do período do Ramadã, época que os muçulmanos de todo mundo se reservam em observação da fé, o Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu autorizou a invasão do complexo da Esplanada das Mesquitas onde se encontra a mesquita Al-Aqsa. Nesse período os muçulmanos se reservam à prática da “maior Jihad”, expressão que ressalta a importância do fiel em elevar seu espírito acima de suas próprias vontades, através da observação de práticas religiosas que compreendem caridade, fraternidade, estreitamento dos laços familiares, leituras corânicas individuais ou em grupo e, o mais importante, o jejum praticado desde o alvorecer e encerrado com entes queridos ao se pôr de cada dia. Com o ataque autorizado, os policiais arrombaram as portas do minarete e cortaram os fios dos alto-falantes, reprimindo o chamado para oração noturna. Os muçulmanos também foram impossibilitados de distribuir as refeições de quebra do jejum. Conforme o Reino da Hachemita da Jordânia, que detém a custódia como parte de um acordo bilateral e é responsável pelo controle e segurança do local, o ataque à mesquita foi uma violação grave ao direito internacional de liberdade de religião dos muçulmanos. Após a profanação do local que é restrito aos muçulmanos, o Sheikh Muhammad, Grande Mufti de Jerusalém pediu aos religiosos de todo o mundo para interceder contra as violações praticadas contra os muçulmanos e a mesquita Al-Aqsa. A fim de repelir mais ataques contra o local ele também pediu a intensificação da presença dos palestinos na mesquita. Muçulmanos atenderam ao chamado, assim como árabes-cristãos que prestaram sua solidariedade. Os ataques não foram repelidos, continuaram ao longo do mês gerando ainda mais manifestações. Cristãos juntaram-se aos muçulmanos em defesa da mesquita. Na investida contra as manifestações populares e suas repercussões internacionais, o governo israelense, alegando contenção do avanço da covid-19 proibiu milhares de palestinos da Cisjordânia de entrarem no complexo da Esplanada das Mesquitas. As agressões durante o Ramadã de 2021 se repetiram em 2022, ainda com mais violência. Dias antes do de iniciar o mês sagrado, grupos judaicos publicaram um chamado nas redes sociais convocando os judeus para invadirem a mesquita durante o feriado de Páscoa e oferecer sacrifícios animais. Os muçulmanos pediram para que organizações de países árabes se manifestassem para evitar a profanação. Novamente policiais do governo de Israel invadiram a esplanada disparando balas de borracha, granadas de gás, e agredindo os fiéis com cassetetes. Aproximadamente 30 mil muçulmanos estavam presentes naquela manhã, mais de 400 pessoas foram presas por tentar defender a mesquita e a liberdade de culto. Segundo as autoridades israelenses os palestinos fizeram um cordão de isolamento para impedir o avanço das forças policiais, a polícia informou que os palestinos na barricada estavam armados com fogos de artifício. Mas tudo isso aconteceu longe dos olhos dos turistas, já que é proibido entrar na Esplanada das Mesquitas no mesmo horário que os palestinos. De certa maneira os turistas também são intimidados. Assim que entramos no pátio da Esplanada, por um ato automático, dei a mão para Di. No Islã não existe nenhuma regra para que um casal não dê as mãos; contudo, um dos policiais – faço questão de reforçar, israelense e não-muçulmano – nos repreendeu grosseiramente. De modo algum queríamos desrespeitar qualquer local sagrado, religião ou aqueles que a praticam, mas achamos absurdo que alguém tão estrangeiro como nós, que tampouco pertence àquela fé, nos chamasse a atenção enquanto muçulmanos que caminhavam ao nosso lado não se mostravam nada ofendidos. Percebemos que a forma com que os israelenses gritam com as pessoas serve justamente para constranger os visitantes, a fim de oprimi-los para que logo se retirem do local. Sendo assim, a mera permanência apesar do assédio a todo momento é uma maneira de resistir e demonstrar solidariedade à causa palestina – e assim o fizemos. Em frente ao Domo da Rocha paramos para fotografar. A Di levou um lenço com tramas preto e branco semelhante – e apenas semelhante – ao keffiyeh[1] palestino, mas estava tão quente que ela o amarrou na mochila. Eu lhe pedi para que fizesse uma foto minha, cerrei o punho em sinal de resistência, como fez Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano (CNA)[2] contra o regime de apartheid na África do Sul; como fez Malcolm X na luta contra as leis segregacionistas nos Estados Unidos; e como nós brasileiros fazemos contra o racismo em nosso país. Imediatamente outro policial gritou comigo para me coibir de uma foto ali em “pose de resistência”. Fingi não escutar e ele repetiu seus berros umas três vezes, mas permaneci até que a Di tirasse a fotografia. Em português, pedi a Di que preparasse outro retrato, olhei para o policial, pedi desculpa como se nada tivesse acontecido e mudei de pose: agora com os dedos em “V” de vitória – em alusão à pose tradicional de Yasser Arafat e dos palestinos que lutam contra a ocupação sionista. Posso imaginar o que passou pela cabeça daquele soldado, mas não esperamos para saber e seguimos a visita. Ainda na Esplanada caminhamos até a Mesquita Al-Aqsa. Sabíamos, claro, que não permitiriam a nossa entrada – mesmo assim, tentamos. Outro soldado saltou a frente. Chega a ser cômico como pensam que somos todos surdos, porque mesmo a uma distância de um braço, aquele homem achou que era imprescindível gritar. O “bem-educado” insistiu que a passagem ali era autorizada apenas aos muçulmanos. Novamente pensei: “Então, o que faz aqui um israelense judeu?”. Por óbvio, caso assim respondesse, a visita seria cancelada e seríamos retirados à força do local. Adotamos novamente a cara de “turista idiota” para evitar um confronto que não venceríamos. Vamos novamente esclarecer uma coisa para reforçar a ideia. Quando me refiro a “israelenses judeu”, o faço, pois é justamente a maneira como escolheram para descrever o Estado autoproclamado, a mesma maneira que usam para discriminar a própria população. Jerusalém é pauta principal nas negociações entre israelenses e palestinos. Ambos reivindicam a cidade como capital de seu Estado. Em 29 de novembro de 1947 a Organização das Nações Unidas (ONU) recomendou que todo o território – a Palestina histórica, antes sob Mandato Britânico – fosse dividido em dois: um lado para os judeus, outro para os árabes (muçulmanos e cristãos). A mesma resolução (181) recomendou ainda que Jerusalém ficasse como corpus separatum, ou seja, administrada pela ONU sob regime internacional. A recomendação da partilha deu vazão para que imigrantes europeus se assentassem na Palestina, incluindo Jerusalém, expulsando a população nativa e executando aqueles que resistissem. O processo culminou na criação do Estado de Israel em maio de 1948, evento conhecido em árabe como Nakba ou “catástrofe”, cujos esforços de limpeza étnica resultaram na então expulsão de 800 mil palestinos de suas casas. Com mais da metade da Palestina tomada a força em 1948, faltava pouco para obter controle total do território. Durante a guerra de 1967, os israelenses ocuparam o que faltava, obtendo controle de toda Palestina, incluindo a cidade de Jerusalém, e também de países vizinhos como: Síria, Líbano, Jordânia e Egito. Com toda região sob controle israelense, o próximo passo era expulsar a população palestina e judaizar integralmente a cidade. Este processo é parte da limpeza étnica que Israel promove até hoje em toda a Palestina, incluindo esforços para apagar ou eliminar a identidade cristã e islâmica da cidade sagrada. Em 1980 Israel anexou toda Jerusalém, ao declará-la capital de Israel. A ONU voltou a protestar e reiterou através da Resolução 476 que toda e qualquer anexação era ilegal segundo o direito internacional. Mesmo sob as notas de repúdio da comunidade internacional, Israel manteve sua tomada à força do território palestino. Em 2018 uma nova lei aprovada pelo Knesset israelense (parlamento) definiu o país como exclusivamente judaico e reafirmou sua reivindicação ilegal sobre Jerusalém como suposta capital. Tudo que relatei trata-se de um resumo, grosso modo, das atrocidades cometidas para chegar ao resultado que presenciamos na Cidade Santa. Essas agressões mencionadas não foram exclusivas. A organização Rabbis for Humans Rights (Rabinos para Direitos Humanos) denunciou 43 ataques contra igrejas, mesquitas e mosteiros em Israel, Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental somente no período de 2009 a 2015. A situação se agravou em 2022 devido à coincidência no calendário das três religiões monoteístas, tornando um dos anos de maior violência. Estima-se que durante o período do último ramadã, mais de 3.600 judeus invadiram o complexo da Esplanada das Mesquitas em 23 ataques diferentes. Embora a questão seja política, de caráter colonial, o papel da religião tem de ser esclarecido, até porque os documentos de identidade de Israel especificam a religião de seus cidadãos a fim de discriminá-los. No entanto, criticar as políticas coloniais de Israel não equivale a antissemitismo[3]. Sabendo que comentários posteriores às atrocidades do Holocausto nazista e dos pogroms perpetrados na Europa poderiam soar como discriminação antijudaica, o sionismo se apropriou deste argumento para difamar os opositores a suas práticas de apartheid. É deste mesmo modo que se “justifica” que um policial israelense não-muçulmano controle quem entra e sai de um lugar sagrado para o islamismo – e até mesmo como se posa para as fotos naquele local. [1] Tradicional lenço palestino. As cores e as tramas simbolizam as regiões tribais ou as aspirações políticas de seu usuário. [2] CNA é um partido político sul-africano. Foi fundado em 1912, na cidade de Bloemfontein, com a proposta de advocar os direitos da população negra do país. Desde o fim do regime conhecido como apartheid, em 1994, o CNA é o principal partido político da África do Sul, sendo apoiado pela aliança com Congresso dos Sindicatos Sul-africanos e o Partido Comunista Sul-Africano. Nelson Mandela foi a figura mais influente do partido, assim como de todo o continente africano. [3] palavra semita deriva da expressão bíblica que se refere a linhagem de descendentes de Sem, filho de Noé. O termo semita é designado para povos do Oriente Médio que compartilham conjuntos linguísticos, entre os quais se destacam os árabes, portanto, palestinos. “Antissemitismo é o preconceito, hostilidade ou discriminação contra judeus, apesar de não serem o único povo semita, já que os árabes também tem origem semita.”
- O regime Corpus Separatum de Jerusalém
Diferente da noite anterior, hoje não nos deixaram chegar nem perto para observar as orações no Al-Buraq (muro das lamentações para os israelenses). Logo acima do muro está a Esplanada das Mesquitas e mesquita Al-Aqsa, local que os colonos sionistas insistem em chamar de “Monte do Templo”. A Esplanada das Mesquitas é um dos pontos de nosso maior interesse na cidade, mas os soldados israelenses que guardam suas entradas não nos permitiram entrar. Tentamos pelos portões de acesso dos fiéis muçulmanos duas vezes, mas os soldados israelenses – não eram poucos – voltaram a nos impedir. Na tentativa derradeira, o soldado afirmou que não poderíamos entrar porque não éramos muçulmanos; eu lhe perguntei como poderia saber, mas saímos para evitar um tumulto e tentar novamente na manhã seguinte. “O que é odioso para você, não faça para seu próximo” (Judaísmo) “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você.” (Cristianismo) “Nenhum de vocês é crente até que deseje para seu irmão o que deseja para si mesmo.” (Islamismo) É bizarro que nos territórios controlados pelo Estado de Israel eu tenha que mentir sobre uma religião que nem tenho para poder entrar em algum templo religioso que também não pertence a religião do soldado que o controla. Ainda mais bizarro é um ateu olhar para um soldado que veio de algum lugar do mundo para morar na “Terra Prometida”, e saber que apesar de ele estar usando o quipá, ele acredita muito mais na segurança de seu fuzil que na provida por Deus. A hipocrisia dos fanáticos religiosos, seja lá qual for a religião, me incomoda profundamente. Vou explicar uma coisa; o conceito de que “Deus” prometeu uma terra para o “povo de Israel”, não se sobrepõe aos direitos humanos, muito menos se o “povo escolhido” quer tomar terras à força, prendendo, torturando e matando qualquer um que se atreva a se opor às suas vontades nefastas. Ainda mais se o argumento usado para isso é puramente raso e não possui nenhum fundamento religioso. Termos empregados puramente como propaganda sionista que caminham na contramão do judaísmo. E nem sou eu que estou falando. Atualmente existem muitas organizações judaicas de oposição ao sionismo em diversas partes do mundo. A Rede Judaica Antissionista Internacional (IJAN) afirma que o sionismo é um movimento racista e o Estado de Israel um regime de Apartheid. Grupos como a IJAN afirmam que não existem argumentos no judaísmo para o “retorno”, pelo contrário, as leis judaicas contidas no Talmude e outros livros sagrados afirmam que os judeus são proibidos de retornar para Terra Santa até a vinda do Messias. Um dos grupos judaicos antissionistas de maior destaque é o Neturei Karta (‘Guardiões da cidade’ em aramaico). Formado por judeus húngaros e lituanos que se estabeleceram na Palestina no início do século XIX (antes das primeiras imigrações sionistas), seus fundadores ajudaram a comunidade palestina de Jerusalém na fundação de novos bairros para aliviar a superlotação da Cidade Velha[1]. Quando os primeiros sionistas imigraram, quase um século após o estabelecimento do Neturei Karta, estes se opuseram afirmando que a redenção judaica só poderia ser realizada de maneira divina e não pelas mãos humanas do sionismo. Atualmente com associados em Israel, EUA, Inglaterra e outros países o grupo de judeus ortodoxos se opõe ao sionismo pedindo pelo “desmantelamento pacífico” do Estado de Israel e expressa apoio à libertação da Palestina. O grupo também afirma que o sionismo (não o judaísmo) foi uma das causas que provocou o holocausto nazista. Na opinião dos rabinos do Neturei Karta, “o sionismo é uma presunçosa afronta a Deus” e que “as tentativas humanas de estabelecer a soberania judaica sobre a Terra de Israel são pecaminosas”, a qual se opõe ao conceito dos Três Juramentos contidos no Talmude babilônico. A Lei dos Três Juramentos foi um pacto entre Deus, o povo judeu e as nações do mundo, estabelecida quando os judeus foram enviados para o exílio. Para os Judeus: não reclamar à força a Terra de Israel e não se rebelar contra as outras nações. E para as outras nações: não subjugar excessivamente os judeus. Ao se rebelar contra esse pacto, os rabinos ortodoxos do Neturei Karta afirmam que os sionistas estão se rebelando contra Deus. Organizações como o Neturei Karta, o Edah HaChareidis[2] e outros, em Israel e no exterior, geralmente pertencem à segmentação filosófica Haredi[3], na qual rejeita a participação na política. Após a “independência” de Israel, o judaísmo Haredi se caracterizou por sua oposição ao sionismo e ao estabelecimento do Estado de Israel; em sua maioria não celebram Yom Ha’Atzmaut (Dia da Independência de Israel) ou quaisquer outros feriados instituídos pelo estado. Os seguidores do judaísmo Haredi que não se consideram sionistas se enquadram em dois campos: não-sionista e antissionista. Antissionista: que constituem a minoria, acreditam que qualquer independência judaica antes da vinda do Messias é um pecado. Não-sionista: se opõem a Israel como um estado judeu independente, os que o consideram positivo não acreditam que tenha qualquer significado religioso. Embora sejam minorias presentes no Estado de Israel, os judeus antissionistas e não sionistas não pertencem aos principais partidos políticos, naturalmente, não possuem o apoio em números para eleger um governo majoritário porque devido à Lei de “retorno” de 1950 que deu o direito de qualquer pessoa do mundo, mesmo que não seja judeu ou religiosa, retornar para onde nunca esteve. Lastimavelmente, o mesmo direito não se aplica aos 5,8 milhões de refugiados palestinos que esse sistema de limpeza étnica promove há pelo menos um século. Desta maneira, o direito de retorno para Israel é tão incompatível com sua alegação, quanto o sionismo é incompatível com o judaísmo. Caminhamos pelo bairro muçulmano, comemos o melhor falafel do mundo. Conversando com o palestino que preparou nosso falafel e nos recebeu com característica hospitalidade, falei que fomos impedidos de entrar na Esplanada das Mesquitas. Ele nos convidou a acompanhá-lo no dia seguinte, mas, infelizmente os palestinos não podem entrar na esplanada no mesmo horário que os turistas. Uma maneira que Israel encontrou para violar os direitos humanos dos palestinos sem cometer o erro de um tiro perdido atingir um turista. Seguindo nossos planos caminhamos pela Via Dolorosa[4]. Entramos em cada igreja que marca os principais pontos do percurso de Jesus para a crucificação. De todo trajeto o ponto que mais nos impressionou foi o calabouço onde Jesus foi encarcerado após ser condenado por Pilatos. O local é sombrio e claustrofóbico, mas de uma forma inexplicável (pelo menos para um ateu), causa uma certa sensação de conforto. No momento que entramos nesse calabouço que hoje é uma igreja, estava acontecendo um culto ortodoxo. Alguns poucos cristãos entonavam um cântico (talvez em grego) que acabou dando tom à visita. Descemos até o subsolo. A aparência de caverna muda completamente e a sensação de conforto dá lugar ao sentimento de agonia. Em uma das celas escavadas na rocha vimos um altar de pedra com dois buracos, acima uma imagem de Jesus sentado com as pernas presas naqueles buracos. Estávamos sozinhos nesse momento, apesar de estar abaixo do solo podíamos ouvir o som dos cânticos de oração. A Di acendeu uma vela e subiu rapidinho. Não ficamos muito por ali e resolvemos seguir em frente. Finalmente chegamos à Basílica do Santo Sepulcro, onde Jesus foi sepultado e ressuscitou. A igreja estava lotada. A cotoveladas, cristãos de todos os cantos do mundo disputavam os centímetros da basílica, em particular, o Altar da Crucificação e a Pedra da Unção. Ortodoxos, católicos apostólicos romanos, coptas e outros – cada qual a seu modo – entoam orações e cânticos. É difícil caminhar pela Igreja, afinal este local é considerado sagrado por todas as vertentes do cristianismo. Romanos, ortodoxos gregos, ortodoxos orientais, protestantes e há ainda os muçulmanos e, ateus como eu, todos juntos dividindo suas orações, rituais, crenças e fé. Nesta igreja há uma cerimônia específica a qual me interessei muito. O patriarca ortodoxo, sob os olhos atentos de autoridades judaicas, para garantir que não haja nenhum artifício de combustão, adentra sozinho no Santo Sepulcro. O sacerdote aguarda quieto na antecâmara – no mesmo lugar onde o anjo esperou Maria Madalena para lhe revelar a ressurreição – e sai apenas quando as 33 velas se acendem espontaneamente. Durante o milagre, no “Sábado de Aleluia” do ano passado, um dos dias mais santos para o cristianismo, o governo israelense solicitou as autoridades das Igrejas Católica Romana, Católica Ortodoxa e Apostólica Armênia que restringissem o número de visitantes e peregrinos à Igreja do Santo Sepulcro durante o feriado. Os policiais israelenses tentaram dificultar o acesso da multidão e houve conflitos do lado de fora do local do sepultamento de Jesus, mas, após horas de espera, o Patriarca de Jerusalém conseguiu realizar a cerimônia do Fogo Santo e abriu os portões aos fiéis. Líderes palestinos no Knesset disseram que o Primeiro-ministro Naftali Bennett e Omer Ber-Lev, Ministro do Interior, estavam cometendo uma “violação flagrante à liberdade de culto” e iniciando um novo capítulo contra palestinos. A Igreja do Santo Sepulcro é uma experiência única na vida. Não sei se existe outro lugar no mundo com tanta concentração de pessoas que acreditam em dogmas diferentes acendendo uns as velas dos outros e repassando-as pela multidão. “Impossível não se emocionar no local mais importante do cristianismo. Na Igreja do Santo Sepulcro, onde pude sentir com as mãos e coração a santíssima Pedra da unção, a pedra memorial do ritual judaico, onde foi realizada a unção de Jesus Cristo antes do seu enterro. Não sei como expressar o sentimento de entrar nessa igreja.” Diana Emidio Contando assim, parece que a Terra Santa é um paraíso de respeito ecumênico onde as religiões convivem em harmonia. Já foi, mas hoje está bem longe de ser, principalmente para os muçulmanos e cristãos que vivem aqui. Há anos, a Esplanada das Mesquitas e a Igreja do Santo Sepulcro e outros templos na cidade são alvos de extremistas sionistas. Em uma dessas incursões contra a Mesquita Al-Aqsa, Ariel Sharon – mais tarde, primeiro-ministro israelense – Invadiu o complexo com soldados armados para realizar rituais judaicos. O episódio deflagrou a Segunda Intifada, revolta civil da população palestina contra a ocupação sionista, entre os anos 2000 e 2005. Com o tempo os ataques israelenses se tornaram cada vez mais frequentes e violentos; mortos e feridos se acumularam. No ano passado, soldados israelenses trancaram centenas de pessoas – palestinos muçulmanos – na Mesquita de Al-Aqsa, estilhaçaram seus vitrais e, dali, dispararam bombas de gás lacrimogêneo em seu interior, deixando centenas de pessoas intoxicadas pela inalação de gás. Mas as agressões, como disse, não foram destinadas somente aos muçulmanos. Extremistas judeus também queimam, picham e depredam igrejas cristãs. A sede da Igreja Ortodoxa Grega em Jerusalém foi vandalizada com as palavras “Jesus é um lixo”. No norte do território, local que foi ocupado por Israel em 1948, a igreja onde Jesus realizou o milagre da multiplicação dos peixes foi incendiada duas vezes. Em 2022 os ataques foram tantos que muçulmanos fizeram um cordão de isolamento para que cristãos pudessem realizar sua tradicional procissão de Páscoa. Na mesma época, quando os ataques à Esplanada das Mesquitas se tornaram mais comuns e agressivos, os patriarcados das diferentes congregações cristãs também se uniram em defesa de Al-Aqsa. Até mesmo o Papa Francisco se pronunciou, ao defender o direito de todos os palestinos (cristãos e muçulmanos) de acessar aos seus lugares sagrados em Jerusalém ocupada. Conhecer um pouco das religiões e transitar por Jerusalém é encantador mesmo para um ateu. No entanto, saber sobre os atos de violências e as violações aos direitos à liberdade de pensamento, consciência e religião (Art. 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) é repugnante. Jerusalém foi declarada uma cidade santa pertencente a todas as religiões. Seria bom se fosse! Em 1980, o Estado de Israel ignorando o status de corpus separatum promulgou uma lei declarando Jerusalém “completa e unida” como Capital de Israel. Tomando à jurisdição e administração de toda cidade, incluindo as partes árabes. O Conselho de Segurança das Nações Unidas declarou que a aquisição de terras árabe-palestinas a força era inadmissível e uma violação ao direito internacional. Em resposta a ONU aprovou a Resolução 478 que além de não reconhecer Jerusalém como capital de Israel, exortava os estados-membros a retirarem suas missões diplomáticas da cidade. Todos os estados-membros da ONU aprovaram a resolução, com exceção dos EUA que se absteve. Para piorar, em 2018, novamente o Knesset aprovou outra lei, esta declarava que Israel era um Estado Judeu. Procurando pela Terra Santa, andamos pelo mesmo caminho que Jesus fez para crucificação. No fim do dia, ao chegar ao Jardim do Getsêmani e o Monte das Oliveiras, local que Jesus costumava falar com Deus, víamos o Domo Dourado da Esplanada das Mesquitas e também o cemitério judaico, três locais sacros para três religiões distintas. Percebi que a Terra Santa que procurávamos, só pode ser verdadeiramente Santa quando todas as religiões desfrutarem dos mesmos direitos à liberdade de pensamento, consciência e religião, bem como “a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.” (Declaração Universal dos Direitos Humanos) [1] Rodeada por muros antigos, a Cidade Antiga é o lar de lugares sagrados para o monoteísmo, como o Al-Buraq (Muro das Lamentações), a Esplanada das Mesquitas, a Mesquita Al-Aqsa e a Basílica do Santo Sepulcro. [2] Inspirado pela ideologia militante anti-sionista, o grupo se recusa a endossar o voto nas eleições, contando com doações de outros judeus Haredi anti-sionistas no exterior e com sua própria renda. [3] Grupo judaico ortodoxo caracterizados por sua estrita adesão à halakha (lei judaica) e tradições, em oposição aos valores e práticas modernas. [4] Via Dolorosa (Via Crucis) é uma rua na cidade velha de Jerusalém, que começa na Portão do Leão e percorre a parte ocidental da cidade de Jerusalém, terminando na Igreja do Santo Sepulcro.
- Al-Quds, uma jornada pela história sangrenta em Jerusalém
Deixamos a Turquia com vontade de ficar mais, mas era hora de ir; sabendo qual seria nosso próximo destino, nem olhamos para trás. Esta é a segunda vez que tentamos entrar na Palestina. Na tentativa anterior, o plano era adentrar na Faixa de Gaza pela turbulenta passagem de Rafah, fronteira com o Egito; contudo, assim que chegamos à península do Sinai, as condições políticas no momento nos desencorajaram e nem tentamos. Pousamos no aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv às 20h de sexta-feira. Não havia ônibus ou trem para Jerusalém haja vista que na sexta-feira após o pôr-do-sol começa o Shabat, dia de descanso para os judeus. Após uma negociação sobre os valores da viagem com um motorista que faz o translado, seguimos para Al-Quds, que talvez você conheça pelo nome de Jerusalém. Chegamos na cidade de Al-Quds por volta das 22h. Ficamos em um hostel bem perto do portão de Jaffa, uma das entradas para a Cidade Velha. Sem demora, mesmo que já estivesse tarde, largamos as malas e saímos para conhecer a capital da Palestina. Não foi preciso mapa para entrar na Cidade Velha; só de olhar para as muralhas e seus mais de cinco mil anos de história você já se localiza fácil. Jerusalém é uma cidade mítica, mística e com séculos de histórias reais, nem todas boas. A cidade já foi ocupada, destruída, sitiada, atacada e capturada muitas vezes por diferentes povos; entre eles, egípcios, babilônios, romanos, cruzados e sionistas[1], todos interessados na cidade que, repetindo, é a capital da Palestina. Muitos devem estar se perguntando: Mas Jerusalém não fica em Israel? Não! Jerusalém é o centro de uma disputa territorial desde 1948 e se agrava diariamente diante dos olhos da comunidade internacional. Vamos nos referir a Jerusalém como Al-Quds, por ser o nome árabe para a capital da Palestina, mas antes disso vou explicar por quê? Houve uma época que judeus, cristãos e muçulmanos viviam em harmonia na Palestina. Basicamente a sociedade era composta em 85% de muçulmanos, 10% de cristãos e 5% de judeus. Na mesma época, em 1890, ou seja, antes de Adolf Hitler, os judeus eram perseguidos pela Europa, nos chamados pogroms[2]. Assim surgiu entre euro-judeus a ideia de se proteger dos ataques e “fundar” um país onde pudessem viver “em paz”. O movimento mais proeminente foi o sionismo. Os sionistas cogitaram a criação do Estado Judeu na Argentina, Marrocos, Uganda, Madagascar e até lhes foi cedido um território em uma região na Rússia, mas no fim decidiram ir para Palestina. Iniciou-se a imigração judaica ilegal para Palestina, durante o Mandato Britânico para Palestina[3]. Os ingleses tentaram limitar a imigração, mas por baixo dos panos davam pleno apoio para o crescimento da ocupação e do movimento sionista. Em 1947, com o aumento exponencial da imigração judaica – aí sim com efeitos da perseguição nazista – e o abandono do Mandato Britânico para Palestina; a recém fundada Organização das Nações Unidas, sugeriu dividir o território em duas partes (Resolução 181). Sobre a Resolução 181. Os imigrantes judeus (32,95% à época) ficariam com 57% do território, já os árabes-palestinos receberiam apenas 43% do próprio país. Para a cidade de Jerusalém seria instituído o regime de “corpus separatum”, o qual ficaria sob administração internacional por um período de dez anos até que um plebiscito decidisse qual nacionalidade administraria a cidade. Observando os aspectos religiosos da cidade, dos lugares sagrados, santuários e edifícios religiosos, é dito neste documento que respeite e garanta a liberdade de culto, acesso, visitas e trânsito dos residentes e dos cidadãos de outros estados sem distinção de nacionalidade. Os Palestinos rejeitaram a proposta, já que obviamente beneficiava somente os imigrantes europeus. Com o argumento da partilha, milícias judaicas organizadas sob liderança do Haganah[4] (atualmente Forças de Ocupação Israelense, conhecida pela sigla IOF)[5] começaram a atacar, matar e expulsar os palestinos de suas próprias casas. As vilas conquistadas pelos euro-judeus foram destruídas para que não houvesse casas para os palestinos voltarem. Ao final desse episódio, 774 cidades e povoados palestinos foram ocupados, 531 foram totalmente destruídos. Houve 70 massacres com mais de 15 mil mortos e milhares de feridos e mutilados. Aproximadamente 800 mil palestinos foram expulsos; os que resistiram a sair foram empurrados para as extremidades, ficando com apenas 22% de seu próprio território – dividido e separado – que ficaram conhecidos como Cisjordânia e Faixa de Gaza, para que os sionistas pudessem chamar os outros 78% de “Eretz Israel”. O massacre foi chamado pelos euro-judeus de Independência, para os palestinos é chamado de Nakba, uma palavra em árabe que quer dizer catástrofe. Então, quando se argumenta que o que acontece atualmente na Palestina se trata de uma guerra religiosa, comete-se dois perigosos enganos que beneficiam somente ao estado de ocupação: o primeiro é que não há nada de “religioso” nessa história, isso é uma ocupação territorial, uma colonização violenta e assassina, na qual a religião é apenas um argumento de “legitimação” a causa sionista; segundo, isso não é uma guerra, pois, para ser tratado como guerra deveria ambos os lados estarem armados; aqui os soldados sionistas humilham, prendem, torturam e matam civis, sejam mulheres, crianças ou idosos; na ocupação, de um lado tem-se um dos maiores e mais modernos e tecnológicos exércitos do planeta, do outro, palestinos com paus e pedras. Existem várias nomenclaturas que podemos usar para definir o que acontece na Palestina atualmente, algumas que podem ser usadas são: limpeza étnica, apartheid[6], racismo[7], colonialismo e genocídio. Dado esse panorama superficial de uma catástrofe muito mais profunda, agora vamos falar em especial da cidade de Al-Quds (Jerusalém) e sua a importância religiosa para as três religiões monoteístas. Para cristãos, a cidade é cenário dos últimos dias de Cristo. Aqui fica a Via Dolorosa – caminho que Jesus percorreu para a crucificação. Jesus também tem uma história com o Templo; de acordo com a Bíblia foi no segundo Templo de Salomão que o profeta expulsou os vendilhões e cambistas. Outro local sacro é a Gólgota, a colina onde Jesus foi crucificado. João afirma em seu Evangelho que o calvário estava situado nos arredores de Jerusalém, mas evidências arqueológicas recentes sugerem que o Gólgota fica a uma curta distância dos muros da Cidade Velha, justamente na área da Basílica do Santo Sepulcro, local de peregrinação cristã pelos últimos dois mil anos. Para os muçulmanos que consideram a cidade como a terceira mais sagrada de sua fé, a maior importância se dá pela Mesquita de Al-Aqsa. Conforme o Islã, por volta do ano 621 d.C., o anjo Jibril (Gabriel) guiou o Profeta Muhammad por uma viagem noturna por via de um Buraq[8]. O primeiro destino foi o Monte Sinai – onde Allah revelou a Torá a Moisés. A segunda parada se fez em Bethlehem (Belém), cidade palestina do nascimento de Jesus. Na sequência, o profeta foi guiado ao local onde Moisés foi sepultado – hoje, na Esplanada das Mesquitas. Por fim, Muhammad foi conduzido pelo anjo até o local onde profetas antes dele – como Abraão, Enoque, Moisés, José, João Batista, Jesus – o aguardavam para iniciar uma oração. Após a prece os profetas ascenderam juntos ao céu e lá Muhammad recebeu a instrução de repassar aos muçulmanos o culto das cinco orações diárias. No local do encontro e partida dos profetas foi erguida a mesquita Al-Aqsa. Para os judeus o maior argumento de sacralidade é o Muro das Lamentações. Segundo a tradição judaica, na cidade de Jerusalém foi erguido o Templo de Salomão, cujo Muro das Lamentações – conforme certas interpretações – é vestígio do santuário antigo, a ser restaurado com a vinda do Messias, e somente com a vinda – conforme o judaísmo – será autorizada a volta dos judeus para Jerusalém. No entanto, o muro das lamentações reivindicado é na verdade o Al-Buraq, muro ocidental que guarda a mesquita Al-Aqsa. O muro não tinha nenhuma importância, somente no século XVI é que os judeus que habitavam a Palestina começaram a orar ali. Durante a ocupação britânica, os judeus tentaram controlar a área do muro, mas os palestinos recusaram. Em 1929 houve a chamada Revolução de Al-Buraq. Uma comissão internacional foi montada para avaliar a situação; a conclusão enviada para Liga das Nações (antecessora da ONU) foi: “O Buraq ‘Muro das Lamentações’ é parte integral da Mesquita de Al-Aqsa e al-Haram al-Sharif (nome em árabe para Esplanada das Mesquitas). Nenhuma pedra sequer remonta os tempos do Templo de Salomão. A passagem da frente do Muro não é uma passagem pública, mas ela foi construída para uso dos habitantes do bairro de Mughrabi e outros muçulmanos, deixando os judeus sem nenhum direito sobre o assunto.” Durante a Guerra de 1967, as Forças de Ocupação Israelense (IOF) tomaram e ocuparam outras partes do Território da Palestina, bem como a cidade de Al-Quds. Com isso tomaram o controle de toda cidade, do Muro, destruíram o bairro de Mughrabi e distorceram toda história a favor da narrativa sionista. – Ficou confuso com a história? Não se espante, como se ela já não fosse confusa o suficiente, ainda assim o quer o sionismo. Chegamos a Jerusalém em pleno shabat que começa com o pôr do sol da sexta-feira e termina ao anoitecer do sábado. É o sétimo dia da semana judaica e é dedicado ao descanso. No shabat você não trabalha, não dirige, não cozinha e não compra; é um dia dedicado à oração e à desconexão total. Deixamos as malas no hostel e corremos para cidade antiga. Foi impactante, estava vazio, já que Jerusalém é uma das cidades mais visitadas da terra. Por conta do horário e do shabat, havia poucas pessoas na rua, o que nos deixou ainda mais animados. Nunca ouvimos falar de um tour noturno por Jerusalém, mas uma coisa podemos afirmar: à noite, a cidade é absolutamente outra. Apesar de câmeras que parecem te olhar o tempo todo, a cidade velha não é nem um pouco segura, pelo menos não se você for ou se parecer com um palestino. Em 2014 Mohammed Abu Khdair, um jovem palestino de 16 anos foi sequestrado, espancado e assassinado por judeus ortodoxos. Segundo a autópsia, o jovem foi queimado vivo. Segue abaixo trechos do depoimento dos assassinos: “Estávamos de cabeça quente e com raiva e decidimos queimar algo dos árabes.” [...] “Decidimos pegar alguém, sequestrá-lo, espancá-lo e expulsá-lo.” [...] “Eu disse a Yud para pressionar com força e acabar com ele porque essas pessoas têm sete vidas. Não deixe que ele se levante.” [...] “Peguei um isqueiro e coloquei fogo no cara… e tudo pegou fogo.” [...] “Eu disse a eles: ‘Vou falar a verdade, nós tínhamos um propósito, mas isso não é para nós. Nós estávamos errados. Somos judeus misericordiosos. Somos seres humanos’”. The Times of Israel Andando pela Cidade Velha percebemos muitos jovens ortodoxos, sempre com olhares desconfiados. Queríamos encontrar o Al-Buraq (Muro das Lamentações), mas o Google Maps não funcionava, então perguntamos para dois jovens como chegar. Não é difícil encontrar “israelenses” que falam outros idiomas, na verdade é bem comum, visto que muitos desses jovens não nasceram no Estado de Israel. Logo depois da Nakba (1948), que Israel chama de Independência, era preciso firmar maioridade populacional dentro da Palestina, para isso, em 1950 Israel criou a Lei de Retorno (5710-1950). Essa lei, ainda válida, garante a qualquer judeu de qualquer parte do mundo, “retornar” para Israel. – Aí te pergunto como é possível que estrangeiros que nunca estiveram aqui, “retornem”? – E pior, como não é permitido que os palestinos que nasceram aqui, que tem seus pais, avós, bisavós e além, e foram expulsos de suas casas, não possam retornar? – Para piorar a situação, em 1970 o Estado de Israel acrescentou a Emenda (5730), ampliando o “direito de retorno” para filhos e netos de judeus bem como seus cônjuges e os cônjuges de seus filhos e netos. Ou seja, qualquer um que se declara descendente de judeu, tem direito de cidadania israelense. – E com base em quê o Estado de Israel comete essa atrocidade? – Alegando o “direito divino” dessas pessoas ao “retorno” à Terra Prometida. Por isso não é difícil encontrar um judeu ortodoxo falando russo, inglês, espanhol ou mesmo um português carregado de um sotaque forçado. Chegando ao Muro, a Di foi para área destinada às mulheres. Achei melhor observar de longe e ficar de olho. Sei que muitas pessoas enxergam o Muro das Lamentações como algo sacro, mas eu não conseguia olhar dessa maneira, para ser bem sincero estava louco para sair logo dali. Enquanto estava pensando nas histórias que permeiam esse muro e de longe olhando para Di, um francês judeu que decidiu morar em Jerusalém se aproximou de mim e puxou conversa. Ele também falava bem espanhol, o que facilitou compreendê-lo. Ele me disse que decidiu morar em Jerusalém pela “paz espiritual” que emana da cidade; fiquei pensando: “esse filho da puta só pode estar de sacanagem”, mas fiquei quieto. Ele me convidou a me aproximar do muro, embora eu não quisesse, acabei indo. Percebi que muitos jovens estrangeiros – ao qual percebesse pela dificuldade em ler e pronunciar o hebraico – faziam um tipo de “catequese”. Dei uma volta rápida e caminhei para o meu ponto de vigia, dando as costas para o muro; foi quando percebi, que outros israelenses pelos quais eu passei na entrada sem perceber, estavam fortemente armados. Pela aparência de mais velhos, deduzi que não eram soldados, deviam ser civis que montavam guarda para os que estavam orando. O que mais me chamou a atenção foi que aqueles caras armados, cantavam enquanto liam trechos da Torah[9]. Eu sei que meu ateísmo me impede de ver certas coisas, mas talvez esse mesmo ateísmo me possibilite ver outras. Fiquei pensando: “se eu acreditasse em Deus com essa mesma efervescência, se confiasse tanto na vontade de um ser superior e aceitasse seus planos divinos, me recusaria carregar um fuzil”, mas esse sou eu. Assim que saí dali fiquei buscando a Di com os olhos, mas ela me achou primeiro. Perguntei se tinha sentido algo e ela disse que não, pois o clima era muito tenso. Não esticamos a conversa e saímos logo. Caminhamos pela Via Dolorosa – percurso da crucificação de Jesus –, passamos pela Igreja do Santo Sepulcro, conhecemos o mercado, mesmo que fechado, e lá pelas três da madrugada o cansaço bateu e voltamos ao hostel para descansar um pouco e nos prepararmos para o dia seguinte. Era muita experiência de Terra Santa para um único dia. [1] Fundado pelo Theodore Herzl, jornalista austro-húngaro, o sionismo surgiu como um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano, sobretudo, na Palestina. [2] Pogrom é uma palavra russa que significa “causar estragos, destruir violentamente”. Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população, principalmente contra judeus, tanto no império russo como em outros sob domínio do Czar. [3] O Mandato Britânico da Palestina foi uma entidade geopolítica sob administração britânica que foi criada com a Partilha do Império Otomano após o final da Primeira Guerra Mundial. A administração civil britânica na Palestina operou de 1920 a 1948. [4] No livro “Haganah”, o autor Munia Mardor, ex-oficial da força escreve, “Um dos principais objetivos da Haganah, tal como movimento sionista em geral, era abrir caminho aos imigrantes que desejavam entrar na Palestina”. (MARDOR, 1980). [5] Após a autoproclamação de independência, o Haganah foi dissolvido e se tornou o exército israelense. Oficialmente o exército se chama, Israel Defense Forces (IDF), ao qual palestinos e organizações de direitos humanos preferem chamar de Israel Occupying Forces (IOF). [6] Em 2021 a Anistia Internacional publicou um relatório especificando que o sionismo é um regime de Apartheid (outras Organizações já haviam feito anteriormente). Em 2022, durante a segunda Cúpula da Missão Palestina em Pretória, o governo da África do Sul pediu para que a comunidade internacional reconheça o Estado de Israel como regime de apartheid. [7] Em 1975, a ONU adotou a Resolução 3379, considerando que o sionismo equivale a racismo. Esse status só foi revogado em 1991, após o discurso de Yasser Arafat, que tornou a OLP membro Observador Permanente da ONU. [8] Buraq “relâmpago” ou geralmente traduzido do persa como “brilhante”; é interpretado na tradição islâmica como um animal alado [9] A Torá ou Bíblia Hebraica corresponde aos cinco primeiros livros do Pentateuco – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, e constitui também a primeira grande parte da Bíblia Cristã, ou Antigo Testamento. (USP Online)
- Ayasofya: a herança bizantina de história, cultura e fé em Istambul
Decidimos ser os primeiros a entrar na Ayasofya. Tentamos outras vezes visitar o monumento, mas a fila na praça externa estava tão grande que decidimos ir outro dia e no primeiro horário. Mais uma vez, cruzamos por entre os pescadores da Ponte de Gálata e em pouco menos de uma hora de caminhada matinal lá estávamos nós, entre os primeiros da fila para conhecer a mesquita que é o símbolo de Istambul. A Ayasofya ou “Santa Sofia” é um dos monumentos mais visitados na Turquia. Construída entre 532 e 537 por ordem do Imperador Justiniano, permaneceu como a maior catedral do mundo por quase mil anos. A etimologia do nome Ayasofya causa confusão para os turistas ocidentais que adotam o nome Santa Sofia, acreditando que seja uma homenagem à santa cristã, Sofia. Deveras, o nome completo da Catedral é (Ναός της Αγίας του Θεού Σοφίας), sendo: Ναός της (Templo) Αγίας (Agia, palavra para Santo) Θεού (Deus) Σοφίας (Sofia). Sofia é um nome grego que significa “sabedoria”, portanto, a tradução literal em português é “Templo da Santa Sabedoria de Deus”. Não somente o nome causa confusão, mas também a qual religião esse templo pertence. Atualmente, Ayasofya é uma Mesquita, porém, no passado já foi Catedral Bizantina (537 – 1054), Catedral Ortodoxa Grega (1054 – 1204), Catedral Romana (1204 – 1261), novamente Catedral Ortodoxa Grega (1261 – 1463), Mesquita (1463 – 1931), Museu (1935 – 2020) e agora, com muita controvérsia e rejeição, novamente Mesquita. Confesso que nós mesmos ficamos com dúvidas quanto a que nome adotar neste diário e se deveríamos chamar de Catedral, Museu ou Mesquita. Optamos por Mesquita Ayasofya, haja vista que atualmente ela é uma mesquita e que se encontra em território turco. Ayasofya está profundamente vinculada à história da Turquia. Servindo como palco para o florescer e desfalecer dos grandes impérios que passaram por aqui. Depois de uma hora esperando na fila, finalmente os portões se abriram e entramos para conhecer a Mesquita Ayasofya. Imponente e majestosa, a arquitetura externa de estilo bizantino não difere de outras mesquitas da cidade. Durante 500 anos Ayasofya serviu como modelo para tantas outras mesquitas de todo o Império Otomano, incluindo a Sultanahmet (Mesquita azul) localizada bem em frente. Retirando os sapatos, caminhamos cada um por um lado para poder entrar no local sagrado. Ao entrar na Mesquita, a visão que tínhamos de simplicidade foi tomada pela sensação de se estar numa caixa de joias islâmicas. Os lustres baixos iluminam um ambiente amplo e de tetos que se erguem às alturas, sustentados por enormes pilastras laterais. No centro, um lustre de arabescos islâmicos ilumina à meia-luz; o contraste entre o ferro da armação e a delicadeza dos finos vidros que prendem as luzes amareladas exterioriza os dogmas da fé islâmica: firme, porém abundante em ternura. No teto abobadado, caligrafias do nome de Deus partilham o espaço com imagens cristãs cobertas. É comum que cristãos se indignem com a cobertura das imagens, no entanto, elas não estão cobertas somente pelo fato de serem representação cristã, mas somente pelo fato de serem representações. No Islã, é proibido a idolatria de imagens, principalmente as que dizem respeito aos profetas, Abraão, Noé, Moisés, Jesus ou Mohammad. Segundo a religião, os profetas iluminados por Allah devem ter importância na imaginação das pessoas e não ter o sagrado personificado em imagens. Assim, a forma de representar Deus é na caligrafia de seu nome. Em forma de respeito à tradição cristã, os muçulmanos preservaram suas imagens e, em forma de respeito à tradição islâmica, elas permanecem cobertas. “Ele é Allah, o Criador, o Originador, o Criador de imagens. A Ele pertencem os melhores nomes.” (Alcorão 59:24) Passamos horas admirando a mesquita, vimos muitos turistas entrando e saindo, mas nós não conseguimos sair. Apesar de ser ateu, ou como prefiro dizer, “alguém que ainda não encontrou Deus”, tenho imensa admiração por templos religiosos, ainda mais se esses templos guardam tantas histórias como Ayasofya. Seja mesquita, catedral, sinagoga ou templos hindus, budistas ou de religiões de matriz africana, eu realmente gosto de toda herança cultural guardada dentro dessas paredes. Quanto à Di, além de gostar tanto quanto do contexto histórico e cultural, ela ainda se deixa emocionar pelas manifestações de fé. – Algo que admito invejar! Escolhemos fazer esta viagem à procura da Terra Santa, na qual encontramos até o momento diversas manifestações e expressões da fé praticadas de formas diferentes. Na Ayasofya, provavelmente por guardar segredos de religiões diferentes, mesmo com a disputas pelo status religioso, conseguimos encontrar um pouco da Terra Santa que temos procurado. Hoje é nosso último dia de passeio pela Turquia, podemos dizer que sim, encontramos aqui uma terra santa. Santificada por um povo maravilhoso que não mede esforços para ajudar, seja na acolhida de pessoas em situação de refúgio ou na simples ajuda a dois turistas perdidos. Santificada por tentar lidar com a diversidade tentando corrigir erros anteriores. Mas, principalmente, santificada por entender que a religião é importante para o ser humano, tanto quanto a laicidade e a secularidade são importantes para uma sociedade. A Turquia realmente conquistou nossos corações. Toda despedida dói, mas essa vai doer um pouco mais, pois saímos com a mais verdadeira vontade de ficar. O tempo que convivemos com os turcos não demorou, mas aprendemos a pronunciar "teşekkürler", que significa obrigado; não foi fácil, mas aprendemos. Então para Turquia, para todo seu povo, para toda sua cultura e para Ayasofya; só podemos dizer "teşekkürler" por ser tão boa para nós!
- Taksim, após o atentado terrorista
Em novembro do ano passado, um ataque a bomba ceifou a vida de seis pessoas e deixou mais de oitenta feridos em uma das ruas mais movimentadas de Istambul. Poucos meses após o atentado, lá estávamos nós, caminhando pela praça Taksim e pela tumultuada rua Istiklal. Estamos hospedados no bairro de Karaköy, local com a maior concentração de turistas em Istambul. A rua Istiklal liga nosso bairro à praça Taksim, no bairro de Beyoglu. Devo admitir que esperava encontrar o lugar vazio devido ao ataque; ao contrário, estava lotado de turcos e turistas estrangeiros. Lamentavelmente, não foi a primeira vez que um ataque como esse aconteceu por aqui. Em 2010, um terrorista suicida do grupo Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK) explodiu-se ao lado de um ônibus da polícia, ferindo 15 policiais e 17 civis. Outro atentado ocorreu em março de 2016; um homem-bomba matou diversos turistas na mesma rua – ataque então reivindicado pelo grupo fundamentalista Estado Islâmico (ISIS ou Daesh). É complicado entender ou falar sobre terrorismo de maneira tão superficial, visto que existe muito preconceito e desinformação sobre o assunto. Vale ressaltar que Estado Islâmico é uma organização terrorista que não representa os muçulmanos, sejam eles do Oriente Médio ou de qualquer outra parte do mundo. O grupo apenas se apropriou do termo “islâmico” como pretexto, exatamente como terroristas bolsonaristas se autoproclamam “patriotas” para atacar a democracia brasileira. Terrorismo e islamismo não são sinônimos, muito pelo contrário. Os turcos, majoritariamente muçulmanos, se orgulham e insistem em manter e cobrar que o regime seja laico e secular, bem como Atatürk, o “Pai dos turcos”, prometeu desde a independência, afirmando que: “A religião é uma instituição importante. Uma nação sem religião não pode sobreviver. No entanto, também é muito importante observar que a religião é um elo entre Allah e o crente individual.” Kemal Atatürk Tão é o senso de laicidade turca que cito um exemplo: logo ao chegarmos na praça, fomos conhecer a Mesquita Taksim. Inaugurada em 2021 em cerimônia que contou com a presença do presidente Recep Tayyip Erdoğan. O plano de construção do complexo religioso foi pauta de discussão desde a década de 1950. Várias vezes o projeto foi abandonado. Os turcos, mesmo muçulmanos, se opuseram à construção devido ao fato de a praça Taksim ser ligada à história de republicanismo e secularismo na Turquia. No entanto, o Conselho de Preservação de Monumentos Culturais eventualmente venceu a disputa; em 2017, a obra teve início. A Mesquita Taksim não foi a única construção que a vontade popular tentou barrar. A Mesquita de Çamlica, no lado asiático da cidade, teve uma história parecida, concluída apenas em 2019 para então se tornar a maior mesquita do país. Voltando aos atentados terroristas, uma onda de ataques abalou as metrópoles turcas entre 2015 e 2017, causando mais de 500 mortes. Em 2015, um carro-bomba explodiu nas ruas da capital Ancara; em 2016, foi a vez do aeroporto internacional de Istambul. Na mesma cidade, durante uma festa no réveillon de 2017, uma bomba explodiu em uma discoteca. Esperávamos que o ataque de novembro tivesse espantado os turistas ou, no mínimo, incitado maior controle da polícia em áreas não islâmicas, como a Igreja de Santo Antônio, que visitamos mais tarde. Contudo, a vida segue como se nada tivesse acontecido. Havia, de fato, certo contingente policial, mas nada que espantasse dois brasileiros. Dias após o atentado no fim do ano anterior, as autoridades turcas prenderam uma mulher e outros suspeitos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – designado “terrorista” pelo regime turco. Autoridades proibiram a publicação de imagens e artigos sobre o assunto e limitaram a banda das redes sociais para “impedir a propagação de imagens chocantes e de informação falsa”. Erdoğan prometeu “punir os responsáveis”. Não obstante, Istiklal e Taksim contam com vasto aparato de vigilância e força policial 24 horas, o que facilitou encontrar os suspeitos. Andar pela área me fez pensar na maneira com que o governo brasileiro tem tratado terroristas bolsonaristas. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Evidentemente, o que aconteceu em Brasília não tem nada a ver com “liberdade de expressão e reunião pacífica”; aquilo foi terrorismo. Antes de viajar à Turquia, lembro de ter visto o atual Ministro da Justiça Flávio Dino afirmar em entrevista que defende o direito à manifestação de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que ataques contra a democracia seriam tratados com seriedade. Na Turquia, porém, não existe essa distinção; manifestantes pacíficos são tratados como terroristas e vice-versa. A força policial instalada na praça Taksim não serve apenas para prevenir o terrorismo, como insiste em dizer; serve para dissuadir qualquer tipo de manifestação popular. Erdoğan e seu gabinete foram criticados várias vezes pelo uso excessivo da força e violência contra manifestantes pacíficos – quem dirá aqueles que cometem atentados terroristas. No primeiro dia de viagem, escrevi sobre como nós ocidentais olhamos para incidentes no Oriente Médio enquanto minimizamos a periculosidade de nossos próprios terroristas. Olhando para a maneira com que o governo turco atua no combate ao terrorismo e como o governo brasileiro tem atuado – e como ambos reagem às manifestações populares –, podemos dizer que, neste quesito, o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seu ministro Flávio Dino e outras autoridades brasileiras em questão dão exemplo de aplicação da lei e da ordem sem ferir os direitos humanos – mesmos daqueles que apoiam a ditadura, exaltam a tortura e outras barbáries. Se os presos da Papuda e Colmeia soubessem um pouco sobre a diferença entre terrorismo e direito de associação pacífica e como é distinta a abordagem do Brasil e da Turquia, em seus respectivos cenários, estariam todos gratos por estarem detidos sob um governo democrata de esquerda que respeita os direitos humanos.











