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- Göreme, Jorge da Capadócia
Salve Jorge! Existe uma ligação entre nós que eu nunca compreendi; na verdade nunca me questionei sobre essa simpatia. Há quase 20 anos eu o desenho, e tatuo o santo em seus fiéis mais devotos. Sempre pensei como era forte aquela imagem do homem em seu cavalo branco matando um dragão. Anos se passaram e eu mantive essa ligação invisível, sempre o admirando quando cruzava meu caminho, até que em 2021, tive o tombo mais significativo da minha vida e na primeira oportunidade corri para os pés do Grande Jorge, por coincidência ou não, tive a honra de visitar a linda igreja dedicada a ele no Cairo. Fiz uma profunda oração ao Santo Guerreiro e fui atendida maravilhosamente por ele, por Deus e tantos outros seres de luz. Não sei bem como rezar, já que não tenho nenhuma religião, mas me sinto à vontade em me comunicar com ele e Deus. Nesse monólogo entre amigos, gosto de pensar que eles me aceitam como sou, cheia de defeitos. Agora aqui no berço de São Jorge tive a certeza de que nada é por acaso; toda a minha ansiedade, pressa e urgência foi tomada por um sopro de tranquilidade. São Jorge esteve comigo ano passado, num momento de desespero, me mostrando que existem coisas que não queremos, mas que Deus é absoluto, e às vezes age de formas dolorosas. Temos que aceitar o que o universo nos dá, assim como o que nos tira. Ele levou meu ‘amiguinho’, mas me deixou a certeza que ele está em suas mãos e um dia nos veremos. Eu estou aqui Jorge, em sua homenagem, e te seguirei para sempre até te encontrar e te dizer obrigada por estar comigo, mesmo quando eu nem sabia da sua presença. Salve São Jorge Guerreiro. *** Acordamos com a primeira oração que soava da mesquita, antes do sol nascer. Nossa esperança era tomar um café assistindo ao espetáculo dos balões da Capadócia, mas não foi dessa vez! Os termômetros marcavam –4°C e a neblina não permitia ver um palmo à frente do nariz. Dadas as condições, não teve balões! Como programado, saímos para uma trilha – uma não, duas: Rose Valley e Red Valley. Entre o frio, a neblina e a neve acumulada da madrugada, caminhamos sem pressa e fazendo muitas fotos pelo caminho; não tantas quanto eu gostaria, pois, algum dispositivo da máquina congelou – junto, meu coração. Já tínhamos visto neve antes, mas sempre no topo de alguma montanha ou em flocos tão sutis que derretiam ao primeiro contato com o solo. Dessa vez tinha neve. Como duas crianças, pulamos em arbustos e raspamos o chão para arremessar bolas de neve um no outro. O passeio de hoje foi a Di que escolheu; estou tão focado na Palestina que nem me preocupei em saber o que faríamos na Turquia. Pela primeira vez em uma viagem decidimos separar o roteiro e cada um ficar responsável pelo que fazer em cada país. Adotamos essa estratégia por dois motivos específicos: o primeiro é que para conhecer a Palestina depende da vontade e nível de agressão dos soldados de ocupação israelense; o segundo é que a Di não sairia da Turquia sem antes conhecer os famosos mercados de pulgas. Após uma hora de caminhada chegamos ao Rose Valley. Não sei se foi a neblina, mas não consegui distinguir onde acabava o Rose Valley e onde começava o Red Valley. Andamos algumas horas por entre subidas, descidas, terra e gelo, até que finalmente chegamos à primeira chaminé de fada. Mais adiante, encontramos escavado na pedra, uma igreja cristã. Sim, uma igreja cristã, sabe–se lá de que época. A igrejinha é obviamente simples, mas chama a atenção pelas pinturas no teto e nas paredes, ao estilo cristão primitivo, ao menos em nosso ponto de vista leigo. As imagens estão bem deterioradas, o que impossibilita apreciar a obra por completo. Arrisco dizer que além dos anjos e arabescos que estavam melhores definidos, acredito que dois dos personagens das imagens eram os apóstolos Paulo e Pedro, pois, após a crucificação de Jesus os dois seguidores vieram propagar o cristianismo na Turquia. “E sucedeu que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Éfeso; ali encontrou alguns discípulos.” Atos 19:1 Entre um caminho e outro encontramos mais igrejas escavadas nas rochas. Somente na região da Capadócia existem cerca de 600 delas. Uma em particular nos impressionou bastante por ter uma cruz dos cruzados, esculpida no teto, muito bem preservada apesar dos séculos. Não vamos nos atrever a falar muito das igrejas, pois é uma história que demanda estudo. Abordar esse tema sem tanto conhecimento apenas nos deixaria ainda mais confusos. Para alguns pode ser uma novidade falar de cristianismo na Turquia ou no Oriente Médio, mesmo considerando que o cristianismo nasceu aqui. A começar, Jesus nasceu na Palestina; de lá seus seguidores espalharam seus ensinamentos pelo mundo e até hoje a presença da religião é forte nessas regiões. Referente a Turquia, o apóstolo Paulo nasceu em Tarso; era comum desde a antiguidade chamar uma pessoa e suceder seu nome a sua cidade ou região de nascimento, por isso, o apóstolo é chamado de Paulo de Tarso. “Mas Paulo lhe disse: Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao povo.” Atos 21:39 Embora Paulo de Tarso seja o turco mais conhecido do Novo Testamento, escolhemos outro conterrâneo seu para destacar um pouco da relevância dos turcos para a formação do cristianismo, principalmente por nascer na região em que estamos. Jorge nasceu na região da Capadócia, mas seu nome se difundiu no mundo todo. Hoje é reverenciado para além do catolicismo apostólico romano. Segundo a tradição, foi ele o soldado do exército romano que matou o dragão. Até aqui, acho que todos conhecem a estória, mas vamos um pouco mais além. Após a morte de seu pai em batalha, Jorge mudou–se com sua mãe para Lida, na Palestina (cidade ocupada por Israel durante a Nakba ou “catástrofe”, em 1948, atualmente Lod). Na adolescência, Jorge entrou para o exército romano, no qual rapidamente ascendeu de posto. Quando sua mãe faleceu, o militar já de alta patente resolveu doar toda fortuna aos pobres, revelando ao Império Romano sua verdadeira devoção a Jesus Cristo. A história do Santo Guerreiro trafega por lendas e tradições orais transmitidas pelos fiéis ao longo dos tempos, principalmente por sua imagem estar vinculada a um dragão e a lua. Uma dessas narrativas é que uma pequena cidade era atacada periodicamente por um animal alado que cuspia fogo. Para proteger a cidade, os cidadãos faziam um sorteio de jovens virgens para oferecer ao dragão. Um dia a filha de um rei foi escolhida como oferenda, e o rei não poderia negar a sorte da própria filha. Aí que aparece um jovem guerreiro que matou o dragão e salvou a princesa. – Matou não! A lenda conta que Jorge com uma espadada transformou o dragão em cordeiro, colocou em uma coleira e o deu a princesa. – Tá; mas e a lua? – Popularmente no ocidente, acredita–se que a lua simboliza o islamismo combatido pelo santo. Mentira! São Jorge nunca combateu muçulmanos, até porque o islã surgiu 300 anos depois de sua morte. Essa versão só ganhou força porque a história e imagem do Santo Guerreiro se popularizou durante as cruzadas.” – Então São Jorge não vive na lua? – Pelo contrário, a União Astronômica Internacional batizou uma das crateras lunares com seu nome, então São Jorge vive sim na lua. Mas como somos brasileiros, vale mencionar que as religiões de matrizes africanas também reverenciam o santo turco. Quando as pessoas escravizadas na África eram trazidas para o Brasil, os únicos bens que conseguiam trazer era sua cultura e religião, que também eram vistas como paganismo. Para driblar a imposição do cristianismo, os africanos escravizados adotaram a imagem de São Jorge para simbolizar Ogum. Esse sincretismo ainda hoje é usado na umbanda e candomblé. – Afinal qual a realidade de São Jorge no meio de tantos mitos? – Durante a história do nascimento do cristianismo, o Império Romano dominava toda Terra Santa, na época a religião oficial era politeísta, e o cristianismo era visto como uma revolução popular, assim como seus adeptos que pregavam a igualdade e a humildade. Em 303 d.C., o imperador Diocleciano (284 – 305 d.C.) decretou a prisão de todos os soldados romanos que professassem a fé em Jesus Cristo. Jorge objetou diretamente ao imperador e declarou–se publicamente cristão. Consagrado como um dos melhores tribunos de Roma – isto é, agente público. O imperador tentou dissuadi-lo, ao lhe oferecer terras, dinheiro e escravos, mas encontrou apenas a abnegação e uma fé irredutível do bom soldado. Jorge foi preso, torturado e, enfim, no dia 23 de abril de 303 d.C., decapitado. A história do jovem mártir em defesa da fé em Cristo ganhou notoriedade na Palestina, incluindo entre outros soldados que se rebelaram e se converteram. Mesmo a esposa do imperador, tocada pela história de Jorge da Capadócia, se converteu ao cristianismo. Voltando ao dragão, a historiografia de São Jorge é baseada em documentos seculares, apócrifos e pela tradição oral contada de geração em geração. Boa parte do relato pode ser considerado mítico ou místico – o que não quer dizer que não tenha credibilidade, afinal, elementos místicos e míticos nos ajudam a compreender a realidade. O dragão, portanto, é interpretado por teólogos como o mal que tenta destruir a fé. Entre a deturpação da narrativa e o simbolismo místico e mítico, São Jorge pode ter até lutado contra povos árabes – lembrando que ser árabe é diferente de ser muçulmano – já que o exército romano guerreou contra os povos de quase todo o Oriente – incluindo árabes – o que nada tem a ver com fé ou religião. Quanto a afinidades e diferenças entre judaísmo, cristianismo e Islã, deixo o assunto para quando passarmos por Hebron (Al-Khalil), na Palestina ocupada. Por ora, gostaria de deixar uma reflexão nada teológica: se os antigos cristãos que habitavam essa terra foram embora ou se converteram ao Islã, quem foi que preservou as 600 igrejinhas da Capadócia? Por muito tempo, sobretudo após os atentados de 11 de setembro de 2001, os muçulmanos sofreram com o preconceito nominado islamofobia. Todo preconceito se origina do medo; por sua vez nascido daquilo que não conhecemos. Jorge da Capadócia era cristão, foi torturado e morto por romanos pagãos que depois se converteram e canonizaram o soldado que eles próprios executaram. São Jorge morreu no século IV e o Islã surgiu no século VII, sendo assim, o argumento do santo contra muçulmanos é só mais uma ofensa preconceituosa. O Ocidente de modo geral pouco sabe sobre os muçulmanos ou os árabes, – se soubesse, saberia diferenciar a nomenclatura – mesmo assim os trata com preconceito e discriminação. São Jorge morreu em defesa da fé. Porém, retratado com a pele clara, em um cavalo “branco” e com uma armadura reluzente, não é visto como “terrorista” ou “extremista”. De fato, muçulmanos e cristãos já viveram suas crises e confrontos na Turquia. Por conta dos efeitos colaterais da Primeira Guerra Mundial, cristãos – mesmo nascidos na Turquia – eram tratados pelo Império Otomano como estrangeiros e dependiam do suporte da Igreja Ortodoxa Grega e Armênia para subsistir. O atual governo turco prega um regime secular. Naturalmente, ainda há problemas a serem resolvidos. De todo modo, muçulmanos, cristãos e fiéis da umbanda e candomblé, ainda lutam para defender sua fé e sua liberdade religiosa – direito inerente a todo ser humano, que deve ser garantido e protegido conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Depois de uma caminhada de seis horas, conversando com a Di – por sinal, devota de São Jorge desde sua visita à igreja dedicada ao Santo Guerreiro no Cairo – atrevo-me a dizer que caso estivesse vivo hoje, Jorge da Capadócia defenderia com afinco os direitos de todos os povos, sobretudo seus irmãos muçulmanos, que por tanto tempo ajudaram a preservar a história do santo cristão. Dedicado à S. A. Matos “É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante.” O Alquimista, Paulo Coelho
- Göreme, a Capadócia e suas chaminés de fada
Chegamos na região da Capadócia e não vimos nenhum único balão. Antes de falar sobre balões, lindas paisagens, ou São Jorge, cavernas e cavalos, abrimos um pequeno trecho para propaganda gratuita. Viagens de ônibus sempre fizeram parte das nossas aventuras, inclusive a rota mais longa do mundo (São Paulo – Lima) já fizemos. Penso que temos um pouco de “bagagem” para falar do assunto. A empresa Metro Bus – que não é patrocinadora deste diário – dispensa elogios. Uma das mais queridas por viajantes internacionais. Em geral escolhemos a empresa mais barata, mas, neste caso, a Metro estava com o valor da passagem alinhado com os de outras empresas; como anteriormente lemos muitos relatos positivos “resolvemos pagar para ver”. Absolutamente esta foi a viagem mais impressionante de todas. Tem wi–fi funcional, lanche, entretenimento de bordo, aquecedor – no árduo inverno turco –, chá, café e (juro por Deus) um “ônibusmoço” para servir aos passageiros. – Garçom? Nem sei que nome dar ao cavalheiro que nos serviu a todo momento. Brincadeiras à parte, a empresa Metro é sem dúvida a mais completa das quais já viajamos, e acredite se quiser, o trajeto é de 12 horas! Viajamos umas três horas e estou metendo mesmo os burros na frente: ainda que, daqui alguns minutos nos mandem descer e continuar a pé, já valeria o valor pago. E por que é tão importante falar sobre essa viagem? – Vamos dizer que pagamos muito pouco por uma distância muito longa e por um serviço muito bom. Isso nos faz pensar como as companhias de transporte no Brasil tratam seus clientes. Será que estamos realmente recebendo o serviço que merecemos pela quantia que pagamos? Fica a dica, Renan Filho (Ministro dos Transportes). Outra coisa a ressaltar no atendimento da empresa é algo que se completa em todos os cidadãos turcos que cruzamos pelo caminho; todos, sem exceção, foram receptivos, prestativos e muito educados. Geralmente no Brasil costumamos usar o termo “turco” de modo pejorativo quando queremos falar de alguém que visa dinheiro. Precisamos rever nossos conceitos ao empregar termos maldosos como este. Temos muito a falar sobre a Capadócia, mas falaremos sobre o dia de hoje apenas. Chegamos no Henna Hotel um pouco antes do previsto, nosso recepcionista foi muito atencioso, mas não pudemos entrar, pois ainda havia pessoas hospedadas no quarto que nos estava reservado. Escolhemos o Henna Hotel pela localização: de maneira alguma eu toparia um voo de balão; porém, do terraço deste hotel, podemos ter uma das melhores vistas dos famosos balões da Capadócia – e bem de perto! Em Göreme existe uma infinidade de hotéis para todos os gostos. No fim optamos por um hotel–caverna, típico da região. Antes de entrar no quarto, fomos ao café para matar o tempo e, uaaaauuuu! Outra surpresa. Sendo um país de maioria da população muçulmana, os turcos não costumam consumir bebida alcoólica, pelo menos não em público, e não como no Brasil. Sendo assim, o costume aqui é os homens se encontrarem nesses “cafés” para tomarem chá e jogarem dominó, cartas, gamão e outros tipos de jogos que não reconhecemos. Entramos justamente em uma dessas casas de chá, ou café, ou sei lá como chama; e advinha quem era a única mulher. Foi como um alienígena entrando no bar, embora estranho, ninguém olhou feio. Comemos umas baklavas[1], tomamos uns chás, e seguimos nosso rumo. A paisagem de Göreme, moldada pelos ventos e pela chuva, possui predominantemente calcário em sua formação geológica, o que possibilitou que fossem esculpidas pelo homem. Os primeiros cristãos, perseguidos pelo Império Romano, – na época politeísta – encontraram nas rochas um habitat para escavar suas casas, igrejas, monastérios e até cidades inteiras subterrâneas. Hoje, essas cavernas são usadas como residências, hotéis e restaurantes. Contudo, com o crescimento da especulação imobiliária para turismo, as escavações foram proibidas pelo governo por motivo de preservação; mesmo quem já adquiriu uma propriedade não pode escavar além do que já foi feito, assim, algumas casas expandem em torno das cavernas. Assim que o Henna nos liberou o quarto, subimos para carregar as baterias e um pouco de nossa própria energia, afinal, passar 12 horas dentro de um ônibus é muito cansativo. Baterias, corpo e mente carregados, é hora de sair. Pelo menos no presente período de baixa temporada, Göreme permanece tranquila, com poucos turistas, o que nos agrada muito. Os preços estão ótimos, apesar do real ter se desvalorizado bastante nos últimos quatro anos. Como o horário não ajudou muito, decidimos caminhar até o Sunset Point e assistir ao pôr do sol. Caminhamos entre casas, hotéis e comércios esculpidos nas rochas: de perto, ainda mais impressionantes. A subida não foi longa, porém, a cada nova curva, parávamos para fotografar. Sem sombra de dúvida, o mais impressionante na paisagem de Göreme são as chaminés de fada. Imensas rochas que emergem do solo. Essas chaminés existem em outros lugares do mundo, como em Utah, nos Estados Unidos; mas as da Capadócia possuem uma decoração peculiar. Passeamos por entre as chaminés de fadas e aproveitamos o pôr do sol. O frio estava intenso, aproximadamente 5°C no sol; compramos mais um chá para esquentar ao menos nossas mãos, e nos sentamos embaixo de uma árvore cheia de olhos turcos com vista para o vale da cidade. Uma curiosidade: no Brasil chamamos o amuleto em formato de olho de vidro (tipicamente azul) contra mau–olhado, de olho grego, mas na Turquia, onde é ainda mais popular, seu nome é Nazar, ou “Olho Turco”. No islã, conforme descrito no compilado de livros Sahih Muslim, o profeta Mohammad declarou: “A influência de um mau–olhado é um fato.” Por isso é comum ver um muçulmano dizer Masha’Allah, ou seja, “Deus quis isso”. Eu, que já sou apaixonada por árvores, que além de purificar o ar, renovam as energias da vida, estou ainda mais apaixonada por essas arvores decoradas com olhos turcos que as pessoas foram deixando por ali no Sunset Point. Fico pensando: se cada árvore pudesse produzir um único fruto de olho turco, não viveríamos em um mundo tão negativo. Eu já estou à procura de um olho turco bem bonito para plantar em casa. [1] Baklavas são doces de origem oriental, feitos com camadas finas de massa folhada, nozes ou pistaches triturados e regados com xarope de açúcar. Essa sobremesa é muito apreciada em várias culturas do Oriente Médio e do Mediterrâneo.
- Istambul, Capital de muitos impérios
A região da Capadócia será o ponto mais frio de nossa viagem. Daí a ideia de ter como primeira parada o mercado de pulgas de Kadiköy. Porém, antes de começar falando sobre nosso primeiro dia, precisamos esclarecer algumas coisas: Istambul não é a capital da Turquia; sua capital é Ancara. Turcos não são árabes; árabes são aqueles que falam o idioma árabe. Na Turquia fala–se turco, portanto, não se fala árabe. Nem todo turco é muçulmano; embora o Islã seja a religião predominante, a presença do cristianismo e judaísmo também é forte e constitui parte da história do país. No Oriente Médio também faz frio! – Nós, ocidentais, tendemos a pensar que qualquer canto do Oriente Médio é deserto e faz calor. Trata–se de uma visão orientalista, a qual o autor palestino Edward Said descreveu como “Oriente como invenção do Ocidente”. Isso quer dizer que pouco ou nada sabemos sobre a cultura oriental, apenas especulamos; muitas vezes tirando conclusões precipitadas e equivocadas – percepção que o cinema americano e as novelas ajudaram a formar. Esqueça tudo que assistiu em “O clone”, até porque ele se passa no Marrocos, ou seja, outro país. Voltando ao assunto, comecemos a falar de Kadiköy pela cidade gigantesca onde se situa. Como esclarecido, embora não seja capital da Turquia, Istambul é a maior e mais populosa cidade, onde está localizado o coração econômico que movimenta o país. A cidade é dividida pelo estreito de Bósforo, com um lado no continente europeu e a maior porção na Ásia; aliás, a única cidade do mundo dividida entre dois continentes. Istambul antecede seu nome; a cidade já esteve nas mãos de persas, espartanos, atenienses, macedônios, celtas, romanos e bizantinos, até que em abril de 1453, o Sultão Mehmed II disparou o primeiro tiro de canhão contra suas muralhas. As semanas seguintes foram de batalhas épicas, uma delas, foi quando o papado de Nicolau V enviou navios em auxílio aos bizantinos. Mehmed II mandou os barcos para bloquear a ajuda no mar, mas sua frota inteira foi destruída pelo fogo grego[1]. Impossibilitado de adentrar no Corno de Ouro por causa das gigantescas correntes que guardavam o canal, Mehmed II ordenou a construção de uma estrada de rolagem ao norte da colônia genovesa, contornando por detrás da Torre de Gálata. Por essa estrada os otomanos atravessaram os navios do Sultão, uma estratégia ousada, mas que no final não deu certo e os navios otomanos acabaram sendo repelidos. Em 29 de maio a batalha final teve início. De um lado, Constantino XI Paleólogo defendia as muralhas com apoio do seu líder militar italiano Giovani Giustiniani; do outro o Sultão atacava a muralha com o maior canhão já construído e enviava as tropas de elite do exército otomano para escalar os muros da cidade e combater os soldados bizantinos. O cerco otomano à Constantinopla se encerrou em 29 de maio de 1453, quando as tropas de elite dos Janízaros[2] feriram o militar Giustiniani, que foi retirado da batalha. Segundo a lenda, no último momento, prevendo a perda da cidade, o Imperador Constantino levantou sua espada e seguiu para luta; foi visto pela última vez. O Sultão Mehmed II venceu a batalha e finalmente conseguiu entrar na cidade capital bizantina e, a cavalo. Transformando a capital Constantinopla em Istambul, capital do seu próprio império. A vitória dos otomanos sobre os escombros bizantinos marcou o fim da Idade Média e da Idade Moderna. Dada uma pequena introdução de mais de dois mil anos de história, voltemos ao frio de congelar os ossos. Acordamos cedo, deixamos as mochilas no hotel e saímos para conhecer a cidade, comprar as passagens para Göreme, na Capadócia e, quem sabe, fazer umas compras. Istambul é enorme; antes de chegar ao mercado de pulgas de Kadiköy atravessamos toda a cidade de trem e metrô, já que a primeira e mais importante missão era a compra das passagens. Um turco gentil nos ajudou bastante; por coincidência ou não, seu nome é Mehmed, igual ao do sultão otomano que tomou Constantinopla e a converteu em Istambul. Mehmed – não o sultão – depois que nos viu “quebrando cabeça” para comprar um ticket de metrô, conversou com um dos seguranças e passamos pela catraca no modo “free”. Não sei o que Mehmed estava fazendo naquele dia, mas parou tudo e foi conosco até a agência de ônibus da Metro, onde nos ajudou também com a compra das passagens para Göreme. Já que falaremos muito sobre preconceitos neste diário, vamos assumir um dos nossos. Quando Mehmed nos ajudou, logo de cara pensamos: “vamos ter que dar uma grana”. Erradíssimos! Em todos os lugares que viajamos, sem exceção, geralmente as pessoas sempre estão dispostas a dar uma ajuda para os turistas perdidos, mas entre um e outro sempre aparece um querendo cobrar por uma informação, empurrar uma mercadoria que você não quer comprar, ou como é mais comum, te levar para uma “lojinha” da qual ganha comissão. Na Turquia tem sido diferente, as pessoas te ajudam de verdade, sem interesse. Com Mehmed foi assim, ele nos ajudou e de repente sumiu e foi viver sua vida. Andamos muito por toda Istambul. Tentamos nos adaptar ao câmbio, já que percebemos que ao idioma seria impossível – eles têm “Ğ, Ö, Ş, e Ü” no alfabeto, letras que não sabemos nem como pronunciar. O atual alfabeto turco foi uma reforma promovida por um nome que repetiremos muitas vezes aqui, Kemal Atatürk – por sinal Atatürk com trema no “u”. Várias vezes nos perdemos tentando chegar ao famoso mercado de pulgas de Kadiköy – com trema no “o” – mas a cidade é tão fascinante que quanto mais nos perdemos, mais queríamos nos perder. Na procura do Kadiköy, chegamos sei lá como ao Grand Bazaar, um dos mercados cobertos mais antigo do mundo, o qual possui mais de 60 ruas e é frequentado por uma média de 400 mil pessoas por dia. O Grand Bazaar, como muitas outras construções na cidade, também é uma herança deixada por Mehmed II – dessa vez o Sultão, não o cara do metrô. Pouco depois de conquistar a cidade, Mehmed II mandou restaurar e expandir o mercado bizantino que havia. O Império Otomano cobrava uma taxa dos comerciantes, tal imposto foi revertido na transformação da Catedral de Hagia Sofia em Mesquita de Ayasofya. – Se você se perdeu com esses nomes, calma, explicaremos direitinho quando visitarmos o monumento. Atualmente o Grand Bazaar não é mais movimentado por artesãos ou comerciantes da rota da seda como antes, ele acabou se adaptando aos gostos e gastos dos turistas. Por falar nisso, se você pretende comprar roupas, saiba que a Turquia é o melhor país para isso, não estou brincando. Seja no Kadiköy, no Grand Bazaar, ou em qualquer um dos outros milhares de mercados em território turco, as roupas são extremamente baratas; além de que, visitar qualquer um desses mercados já é uma atração. Quando demos conta já estava quase na hora de pegar o ônibus para a Capadócia. Não conhecemos o Kadiköy, mas conhecemos o Grand Bazaar, andamos por suas ruas, provamos alguns de seus doces e tomamos alguns – muitos – chás; além de conhecer o próprio Mehmed. Diante das muitas maravilhas que a cidade de Istambul tem a oferecer nem ficamos tristes por não chegar ao mercado de pulgas de Kadiköy. Para não haver “pré-conceitos” como o que cometemos mais cedo, gostaria de esclarecer uma última coisa: mercado das pulgas é um termo popular usado para bazares medievais, principalmente em metrópoles como na França e Inglaterra, que vendiam roupas – junto com as roupas, também suas pulgas. [1] "Fogo grego" era uma arma incendiária usada historicamente em batalhas navais, especialmente pelos bizantinos. Composta por uma mistura inflamável que podia ser lançada em direção aos navios inimigos, causava incêndios intensos e danos devastadores. Sua composição exata e métodos de uso variavam ao longo da história, mas sua eficácia era temida pelos adversários marítimos. [2] Os Janízaros eram uma milícia de elite do Império Otomano, composta principalmente por soldados cristãos convertidos ao Islã. Reconhecidos por sua lealdade ao sultão e sua ferocidade no campo de batalha, os Janízaros foram uma força poderosa por séculos, exercendo influência significativa na política e na sociedade otomanas.
- Problemas no motor, mas, finalmente, aterrissamos em Istambul
Sobre o voo? – Não lembro! Confesso ter muito medo de avião, diferente da Di. Então costumo tomar alguns remedinhos, antes, durante e quase chegando no destino, para resistir ao pouso sem passar vergonha. Esse hábito – nessa ocasião em especial – foi uma ótima ideia já que os problemas começaram logo na decolagem. Taxiando pela pista, se preparando para decolar, a voz do piloto gaguejando avisou: – Senhores pa-pa-ssageiros, tivemos pro-pro-blema em um dos motores da aeronave; nossa de–decolagem vai a–atrasar, até que os mecâ-cânicos consertem o motor." Por sorte eu dormia a ponto de roncar e não vi isso acontecer. Me conhecendo bem, a Di resolveu não me acordar. Após duas horas parado na pista, o avião decolou normalmente. Eu não sei se teria voado se soubesse dessa pane. Foi uma pane no motor, não consigo entender como nenhum passageiro desistiu! *** Fiquei horas sem dormir, erguendo a cabeça do Lucas a cada cinco minutos – ele dorme para voar; eu, me recuso, na esperança de viver cada segundo de nossa aventura. A Turquia é o mais novo país na nossa coleção e mesmo antes de viajar já sentia vontade de morar aqui. Costumo ver vídeos e documentários antes de ir a algum lugar. A Turquia me parece especial, não sei ainda o porquê, mas certamente já conquistou meu coração. Alguns minutos antes de pousar, senti aquele peculiar frio na barriga, com a certeza de que nossa viagem será uma experiência extraordinária. Desta vez há um tempero a mais, uma ligação invisível, quem sabe, certa "cafonice de mochileira", uma visão romântica que eu mesmo criei. Minha única certeza é que sei que essa será uma viagem intensa e surpreendente.
- Do Brasil à Turquia com nossas próprias bombas
Às 15h40, horário exato, estávamos trancados em um avião atrasado. Diana Emidio, ou Di, minha companheira de aventuras, camarada de todas as lutas e, ainda por cima, esposa; postou uma foto de nosso embarque. O primeiro comentário na postagem foi: “Vão para posse?” – Não estávamos indo para Brasília, para ser sincero, gostaríamos, mas não! Talvez a pessoa que comentou deve ter cogitado isso por eu estar com um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); ou pode ser que essa pessoa nos conheça bem. Mas, não! Estávamos esperando para ir à procura da Terra Santa. Confesso que embarcar para o Oriente Médio sempre me deixa impaciente. Principalmente em relação à instabilidade política. Tudo que me transmite tensão nessa viagem decorre do chamado “terrorismo”; aquele mesmo propagado pela imprensa e difundido por outras fontes menores. Claro que temos medo de bombas, ataques terroristas, e isso acontece muito por aqui, causando muitas fatalidades e desastres humanitários. Respondido sobre do que temos medo, é sensato falar também sobre: de quem temos medo. Não temos medo de muçulmanos, árabes, turcos, curdos, drusos, persas ou qualquer etnia dessa região. – Se você é brasileiro, calma! Antes que este livro acabe, você saberá a diferença entre todas essas etnias. Quem nos causa medo somos nós mesmos! Sendo um pouco mais específico, ocidentais; ainda mais específico, estou me referindo às potências imperialistas e neocoloniais; as quais financiam seus próprios luxos com exploração, sangue, dor e vida dos povos dessa terra. – Certamente trata–se de outro ponto que teremos de abordar mais de uma vez no decorrer dos dias que estão por vir. O tempo que passamos no aeroporto, fiquei observando as pessoas indo e vindo e não consegui me concentrar em muita coisa. Lembrei–me praticamente de todas as manchetes dos últimos meses em relação ao Oriente Médio. Quanto à Israel e Palestina, há muito tempo venho me preparando, então já estou um tanto “acostumado” com as notícias da “guerra”. Entretanto, um ataque terrorista na Turquia foi uma surpresa para mim. Em novembro de 2022 uma bomba matou seis pessoas e deixou outras 81 feridas. O atentado aconteceu na Istiklal, em uma das regiões mais movimentadas de Istambul. No dia seguinte à tragédia uma mulher síria foi presa, suspeita de ter implantado a bomba. O presidente Recep Tayyip Erdoğan – falaremos muito sobre ele – acusou o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) de orquestrar o atentado. O PKK, movimento nacional curdo, negou qualquer envolvimento com o atentado contra civis. Rejeitando o comunicado do partido, Erdoğan autorizou uma enxurrada de bombas no norte da Síria, local com grande concentração de curdos. Tragicamente a Síria é tão bombardeada e há tanto tempo, sobretudo por Israel, que ninguém se importou. Pelo andamento deste relato explicarei sobre os curdos e o PKK também mais adiante. Como previsível, as notícias do atentado circularam em todos os canais, já o bombardeio na Síria, quando muito se tornaram notas de rodapé. Detalhe, nos hospedaremos a poucos metros de onde ocorreu o atentado. Nos últimos meses vários fatores externos contribuíram para instabilidade nessa região, a começar pela guerra na Ucrânia. Geograficamente falando, a Turquia faz fronteira com Síria, Iraque, Irã e, separada pelo Mar Negro, com a Ucrânia. O país também integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), dado que Istambul repousa dividida entre Ásia e Europa, a guerra também afetou o cotidiano dos turcos. Quem sabe o leitor se pergunte o que viemos fazer no meio de toda essa “treta” de bombas, ataques terroristas, opressão contra mulheres, LGBTfobia, etc. Sim, tudo isso existe, mas não só no Oriente Médio. Paremos um minuto para refletir: o Brasil é o país com os maiores índices de feminicídio do mundo; recentemente, vimos as notícias de um médico que estuprou uma mulher durante o parto[1], e não para por aí; o mesmo vale para a violência contra os LGBT´s, sem falar que massacres e genocídios acontecem todos os dias com pretos e pobres em nossas periferias ou os povos indígenas sendo assassinados, quando não por garimpeiros, por negligência do próprio governo. Ou seja, nossos índices de violência são ainda mais alarmantes do que países em guerra, o que não quer dizer que estejamos minimizando os problemas alheios, este é só um comparativo para mostrar o tamanho do nosso preconceito ao falar da cultura alheia sem antes “olhar para o próprio rabo”. Vale destacar que com a ascensão do bolsonarismo e a radicalização de seus apoiadores diante do retorno de Lula, até mesmo tentativas de assassinato e atentados a bomba no aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek se tornaram comuns[2]. Sendo assim, estamos indo à procura da Terra Santa e, quem sabe, trazer de volta nossas próprias bombas! [1] O ex-médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra, preso em 2022 por estuprar uma mulher grávida durante o parto em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, consta na lista de aprovados. Seu nome foi incluído, mesmo após ser filmado durante o estupro a uma paciente durante o parto dela. [2] O TJDFT condenou em 2ª instância os dois acusados de armar uma bomba no Aeroporto de Brasília em 24 de dezembro de 2022. George Washington de Oliveira Sousa e Alan Diego dos Santos Rodrigues, receberam sentença para cumprir em regime fechado, e as armas de George Washington serão entregues à União. A dupla, que participava de manifestações pró-Bolsonaro, foi considerada culpada por planejar o atentado.
- Política de Entrega
1. Prazos de Entrega I Nosso prazo estimado para entrega é de até 7 dias úteis, contados a partir da confirmação do pagamento. Esse prazo pode variar de acordo com a localidade do destinatário e a modalidade de entrega selecionada. 2. Modalidades de Entrega I Oferecemos envio para todo o território nacional, realizado através de transportadoras parceiras ou Correios, conforme a opção escolhida no momento da compra. 3. Rastreamento de Pedidos I Após o envio, o cliente receberá um código de rastreamento para acompanhar o status da entrega em tempo real. Esse código será enviado por e-mail ou SMS, conforme os dados de contato fornecidos. 4. Tentativas de Entrega I Serão feitas até três tentativas de entrega no endereço indicado. Caso não seja possível realizar a entrega após essas tentativas, o produto poderá ser devolvido ao nosso centro de distribuição. Em tais casos, entraremos em contato para definir uma nova tentativa de envio ou a possibilidade de retirada em um ponto específico. 5. Entregas em Áreas com Restrição I Em algumas regiões com restrição de entrega, o pedido poderá ser encaminhado para retirada em uma agência próxima. Informaremos o cliente em caso de qualquer alteração no processo de entrega. 6. Problemas com a Entrega I Se houver qualquer problema com a entrega, como avarias, produto incorreto ou extravio, pedimos que entre em contato conosco imediatamente pelo e-mail jornalclandestino@icloud.com ou telefone (13) 99741-2650 para que possamos tomar as devidas providências.
- Declaração de Cookies
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- Política de Troca, Devolução e Reembolso
1. Condições para Troca e Devolução I Nosso objetivo é garantir a sua satisfação com os produtos adquiridos. Para solicitar uma troca ou devolução, o cliente deve entrar em contato conosco em até 7 dias corridos a partir da data de recebimento do produto. É necessário que o item esteja em perfeitas condições, sem indícios de uso, e com sua embalagem original. 2. Processo de Troca I Caso o produto apresente defeitos de fabricação ou divergências em relação ao que foi solicitado, faremos a troca sem custos adicionais. Entre em contato pelo e-mail jornalclandestino@icloud.com ou pelo telefone (13) 99741-2650. 3. Processo de Devolução I Para devoluções, siga o mesmo procedimento descrito acima, informando o motivo e anexando imagens do produto (caso aplicável). Assim que o produto for recebido e verificado, o valor será reembolsado em até 10 dias úteis, conforme o método de pagamento original. 4. Prazo para Reembolso I Os reembolsos serão processados em até 10 dias úteis após a confirmação da devolução, dependendo do meio de pagamento escolhido. 5. Produtos que Não se Qualificam para Troca ou Devolução I Produtos personalizados, digitais ou de edições limitadas não são elegíveis para troca ou devolução, exceto em caso de defeitos de fabricação. Em caso de dúvidas, estamos à disposição para esclarecer e auxiliar pelo e-mail jornalclandestino@icloud.com ou pelo telefone (13) 99741-2650.
- Métodos de Pagamento do Clandestino
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- Operação “Mel de Abelha”
Um homem observava as vitrines de Leicester Square, em Londres, quando foi abordado por uma mulher. Mordechai Vanunu era um sujeito reservado e solitário, mas apreciava a companhia de uma mulher atraente como Cindy. Inspirando fundo e buscando as palavras certas, ele perguntou: “Você também é turista?” A jovem respondeu que sim, era uma judia-americana. Os dois seguiram juntos para um café. Com o passar dos dias, a relação se estreitou e tornaram-se íntimos. Em certo momento, Cindy o convidou para passar alguns dias em Roma, no apartamento de sua irmã. Vanunu aceitou o convite, e os dois voaram para a capital italiana. No entanto, assim que chegaram ao local, foram surpreendidos por três agentes do Mossad. Os agentes atacaram Vanunu e injetaram uma substância paralisante em suas veias. Mais tarde, naquela noite, uma van estacionou em uma rua deserta. Amarrado a uma maca, Vanunu foi colocado dentro do veículo, que circulou por algum tempo até chegar ao porto de La Spezia. Lá, ele foi embarcado em um navio, trancado em uma cabine junto aos agentes israelenses que o interrogavam durante a viagem rumo à costa de Israel. Em 9 de novembro de 1986, após semanas de especulações sobre seu paradeiro, o governo israelense admitiu ter orquestrado o sequestro de Vanunu e confirmou que ele estava sob custódia. Mordechai Vanunu foi libertado apenas em 21 de abril de 2004, após cumprir 18 anos de prisão — sendo 12 deles em confinamento solitário. Poucos dias antes de sua libertação, uma gravação de um de seus interrogatórios foi exibida na televisão israelense, marcando a primeira vez em 18 anos que sua voz era ouvida além das grades. No vídeo de 20 minutos, Vanunu fez declarações contundentes: “Não sou traidor nem espião. Só queria que o mundo soubesse o que estava acontecendo.” O motivo pelo qual Vanunu ficou tanto tempo preso pelo governo de israelense e sem contato com qualquer pessoa? – Vanunu foi o homem que revelou ao mundo o arcenal de bombas nucleares de Israel. Negev Nuclear Um amigo indicou a Mordechai Vanunu uma vaga de trabalho em um centro de pesquisa do governo localizado no deserto. Em 1977, ele foi contratado como técnico na Usina Nuclear de Negev, situada na próxima à cidade de Dimona. Com o tempo, Vanunu passou a expressar posições críticas em relação às políticas do Estado de Israel. Durante a Guerra do Líbano, foi convocado para servir na reserva do corpo de engenharia, mas recusou a função, sendo designado para tarefas na cozinha. Paralelamente, engajou-se em campanhas pela igualdade de direitos para os árabes israelenses, tornando-se cada vez mais ativo politicamente. Em março de 1984, fundou um pequeno grupo de esquerda chamado Campus , composto por cinco estudantes árabes e quatro judeus. Nesse ambiente, passou a conviver com jovens militantes, incluindo apoiadores da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Também se envolveu com o Movimento para o Avanço da Paz , alinhando-se a diferentes iniciativas pacifistas e antissionistas. Vanunu desenvolveu um forte ressentimento contra o que percebia como a dominação da sociedade israelense pelos judeus Ashkenazitas — de origem europeia —, em detrimento dos judeus sefarditas e mizrahi, oriundos do Oriente Médio e do Norte da África, frequentemente alvo de discriminação. Seu histórico político chamou a atenção da segurança interna. Em seu arquivo pessoal no Centro de Pesquisa Nuclear de Negev, constava que Vanunu manifestava "crenças esquerdistas e pró-árabes". Em maio de 1984, ele foi interrogado pelo chefe de segurança da instalação e advertido severamente sobre a proibição de divulgar informações confidenciais. No mês seguinte, foi novamente interrogado. Pouco depois, viajou à França por duas semanas com um grupo de estudantes para participar de encontros com jovens judeus franceses em Paris. Ao retornar, foi interrogado pela terceira vez. Mais tarde, Vanunu revelou ter mantido uma amizade muito próxima com um árabe israelense, apenas para descobrir, um ano depois, que o amigo era um informante pago para espioná-lo. No início de 1985, Vanunu conseguiu introduzir uma câmera na usina nuclear e, de forma secreta, registrou 57 imagens que mais tarde se tornariam parte de uma das maiores denúncias contra o programa nuclear israelense. Ele deixou seu cargo na usina em 27 de outubro de 1985. Dimona Em 15 de abril de 2015, o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington tornou públicos documentos que corroboram as revelações feitas por Mordechai Vanunu sobre o Centro de Pesquisa Nuclear de Dimona, no deserto de Negev. Os arquivos detalham as fraudes nucleares cometidas por Israel, os debates em torno da falta de transparência do país e os esforços internacionais para pressionar o governo israelense a responder questões cruciais sobre suas instalações nucleares. Refugiado em Londres, Vanunu conseguiu entrar em contato com um jornalista do Sunday Times . Em uma série de entrevistas, o ex-técnico relatou tudo o que sabia sobre o programa secreto de armamentos nucleares de Israel. O jornal, no entanto, decidiu verificar cuidadosamente a veracidade de suas alegações, consultando especialistas renomados em armamento nuclear, como Theodore Taylor, ex-projetista de bombas nucleares nos Estados Unidos, e Frank Barnaby, ex-engenheiro da Autoridade de Armas Atômicas britânica (AWE). Ambos confirmaram que o relato de Vanunu era tecnicamente sólido e compatível com os conhecimentos disponíveis sobre produção de armas nucleares. Para reforçar a apuração, o repórter Max Prangnell foi enviado a Israel. Lá, entrevistou professores da Universidade Ben-Gurion, que identificaram Vanunu por meio de uma fotografia, além de vizinhos e conhecidos que confirmaram seu trabalho na usina nuclear de Dimona. Nas entrevistas, Vanunu forneceu descrições detalhadas sobre os processos de separação de lítio-6, substância essencial para a produção de trítio — elemento necessário em bombas de fissão impulsionadas por fusão. Embora os especialistas reconhecessem a possibilidade de Israel estar fabricando esse tipo de arma de estágio único, Vanunu, cuja experiência era limitada à manipulação de materiais, não apresentou provas concretas de que o país estivesse produzindo bombas termonucleares de dois estágios, como as bombas de nêutrons. Ele descreveu, ainda, o processo de reprocessamento do plutônio e estimou que a produção anual era de cerca de 30 kg, sendo utilizados aproximadamente 4 kg para cada ogiva. Com base nesses dados, os especialistas calcularam que Israel possuía plutônio suficiente para fabricar aproximadamente 150 armas nucleares. À medida que a publicação da reportagem se aproximava, em setembro daquele ano, o Sunday Times procurou a Embaixada de Israel no Reino Unido para apresentar as alegações e oferecer ao governo a oportunidade de se manifestar. O adido de imprensa, Eviatar Manor, foi visitado por jornalistas em duas ocasiões. Na segunda visita, entregaram algumas das fotografias tiradas secretamente por Vanunu dentro das instalações nucleares. O material foi enviado com urgência a Israel para avaliação. A resposta oficial negava todas as acusações, alegando que Vanunu era apenas um técnico subalterno com acesso limitado e conhecimento superficial das operações no reator de Dimona. Perseguição Vanunu foi libertado da prisão em 21 de abril de 2004. Cercado por dezenas de jornalistas e acompanhado por dois de seus irmãos, ele concedeu uma coletiva de imprensa improvisada, na qual se recusou a responder perguntas em hebraico — um protesto simbólico contra os abusos que afirmou ter sofrido por parte do Estado de Israel. Ele acusou a agência de inteligência Mossad e o serviço de segurança interna Shin Bet de tentarem destruí-lo psicologicamente durante os 18 anos de prisão, 11 dos quais em regime de confinamento solitário. “Vocês não conseguiram me quebrar, não conseguiram me enlouquecer”, declarou. Vanunu também aproveitou a ocasião para pedir o desarmamento nuclear de Israel e o fim do Estado judeu. Cerca de 200 apoiadores e um número menor de opositores participaram do evento. Ele expressou o desejo de se desvincular completamente de Israel, inicialmente recusando-se a falar em hebraico e manifestando a intenção de se mudar para a Europa ou os Estados Unidos, tão logo obtivesse autorização governamental. Pouco antes de sua libertação, durante um último interrogatório conduzido pelo Shin Bet, Vanunu manteve-se firme em suas convicções. Gravações da entrevista, divulgadas posteriormente, mostram-no afirmando: “Não sou traidor nem espião. Só queria que o mundo soubesse o que estava acontecendo.” Em outro momento, disse: “Não precisamos de um Estado judeu. É necessário um Estado palestino. Os judeus podem — e viveram — em qualquer lugar. Um Estado judeu não é necessário.” O jornal Haaretz , em 2008, descreveu Vanunu como “uma pessoa difícil e complexa, que permanece teimosa e admiravelmente fiel a seus princípios, disposta a pagar o preço por isso”. Após a libertação, Vanunu mudou-se inicialmente para um apartamento em Jaffa. No entanto, após grande exposição na mídia, decidiu viver na Catedral de São Jorge, em Jerusalém. Desde então, tem recebido visitas regulares de simpatizantes e desafiado repetidamente as restrições impostas a sua liberdade, concedendo entrevistas a jornalistas estrangeiros. Entre as severas restrições que continuam em vigor desde sua libertação, estão: Proibição de deixar o território de Israel; Proibição de se comunicar com estrangeiros sem autorização prévia do Shin Bet; Proibição de se aproximar a menos de 500 metros de fronteiras ou aeroportos; Proibição de se aproximar a menos de 90 metros de embaixadas estrangeiras; Monitoramento constante do uso de telefone e internet; Obrigatoriedade de informar as autoridades sobre qualquer mudança de residência ou contatos sociais. No dia seguinte à sua libertação, em 22 de abril de 2004, Vanunu solicitou asilo político e um passaporte à Noruega, alegando razões humanitárias. Ele também enviou pedidos semelhantes a outros países, afirmando que aceitaria asilo em qualquer lugar, temendo por sua vida. O ex-primeiro-ministro norueguês Kåre Willoch chegou a pedir publicamente ao governo que concedesse o asilo, e a Universidade de Tromsø ofereceu-lhe um emprego. Contudo, o pedido foi rejeitado. Em 2008, revelou-se que a então Ministra do Governo Local da Noruega, Erna Solberg, decidiu negar o asilo alegando que a solicitação, feita do exterior, contrariava a política do país. Documentos oficiais indicam que o governo temia comprometer seu papel como interlocutor tradicionalmente neutro no Oriente Médio e aliado de Israel. Solberg defendeu sua decisão diante das críticas. A Suécia também rejeitou o pedido de asilo, citando a mesma regra que impede a concessão a solicitantes fora do território sueco. A Irlanda recusou alegando que Vanunu precisaria, antes, de autorização para deixar Israel. Ele não buscou asilo em seu país natal, o Marrocos. Em 2006, Kate Allen, então diretora da Anistia Internacional no Reino Unido, denunciou que a Microsoft entregou às autoridades israelenses os dados da conta de e-mail do Hotmail de Vanunu sem ordem judicial, durante uma investigação sobre possíveis contatos com jornalistas estrangeiros. Apelos internacionais por sua liberdade de movimento e de expressão, feitos por diversas organizações, foram sistematicamente ignorados por Israel. Em 15 de maio de 2008, um grupo de 24 advogados lançou a “Petição do Advogado Norueguês para Vanunu”, exigindo que o governo da Noruega implementasse um plano de ação para garantir sua entrada, residência e direito ao trabalho no país. Em 11 de outubro de 2010, a Suprema Corte de Israel negou o pedido de Vanunu para anular as restrições impostas a ele.
- Financiamento público
Uma forma eficaz de romper com o ciclo corporativo da informação é conceder à sociedade o direito de ser a financiadora de projetos de comunicação, em vez de permitir que empresas imponham suas linhas editoriais de acordo com suas demandas e agendas políticas. Quando a mídia é financiada por grandes corporações, os interesses dos anunciantes muitas vezes prevalecem sobre os interesses do público, resultando em uma cobertura jornalística tendenciosa e alinhada aos objetivos dessas empresas. Ao permitir que o público seja o principal financiador, criamos um modelo de comunicação mais transparente e responsável. Nesse sistema, os jornalistas são incentivados a produzir conteúdo que realmente interesse e beneficie a sociedade, ao invés de focarem em temas que atendam às prioridades dos anunciantes. Essa abordagem não só democratiza a informação, mas também fortalece a confiança entre o público e os meios de comunicação. Imagine um cenário onde os jornalistas são diretamente remunerados pelo público. Isso significa que eles se dedicarão a investigar, reportar e escrever sobre questões que realmente importam para a comunidade, proporcionando uma cobertura mais honesta, diversificada e alinhada com os interesses reais da sociedade. O público, por sua vez, tem o poder de apoiar financeiramente os jornalistas e projetos que julgam ser de maior relevância e qualidade, criando um ciclo virtuoso de valorização da informação verdadeira e significativa. Esse modelo de financiamento público também promove a independência editorial. Sem a pressão de agradar a grandes anunciantes, os jornalistas podem trabalhar com maior liberdade, explorando temas muitas vezes negligenciados ou evitados pelos meios tradicionais. Temas como direitos humanos, justiça social, meio ambiente, entre outros, podem receber a atenção merecida, contribuindo para uma sociedade mais informada e consciente. Portanto, ao redefinir quem financia a informação, passamos a dar voz ao verdadeiro interesse público e rompemos com a lógica corporativa que muitas vezes distorce e manipula a realidade. A sociedade, ao se tornar a principal financiadora, assume um papel ativo na construção de uma comunicação mais ética, plural e democrática. Como funciona o nosso financiamento público? Nosso modelo de financiamento público é projetado para garantir transparência, responsabilidade e equidade tanto para os jornalistas e colaboradores quanto para os financiadores. As contribuições são feitas por meio de um canal externo, acessível a todos os envolvidos em tempo real. Aqui está como funciona: Plataforma de Financiamento: Utilizamos uma plataforma de financiamento externa e segura, onde todos os detalhes das contribuições são registrados e disponibilizados em tempo real. Isso significa que qualquer pessoa – seja jornalista, colaborador ou financiador – pode acompanhar o fluxo de recursos de forma transparente. Acesso em Tempo Real: Todos os envolvidos têm acesso imediato às informações sobre as contribuições. Isso inclui o montante arrecadado, a origem dos fundos e a distribuição dos recursos. A transparência total é fundamental para garantir que todos saibam exatamente como os recursos estão sendo utilizados. Distribuição dos Recursos: Os valores arrecadados são distribuídos entre os colaboradores com base na visibilidade e impacto de suas publicações. Cada colaborador recebe uma porcentagem dos fundos proporcional às visualizações de suas matérias. Isso incentiva a produção de conteúdo de alta qualidade que realmente ressoe com o público. Transparência e Equidade: Ao utilizar uma plataforma externa e aberta, eliminamos qualquer possibilidade de manipulação ou favoritismo. Todos os colaboradores têm as mesmas oportunidades de receber financiamento, baseando-se exclusivamente na aceitação e relevância de seu trabalho pelo público. Engajamento do Público: Ao financiar diretamente os jornalistas e colaboradores, o público tem um papel ativo na determinação dos temas e questões que são cobertos. Isso cria uma comunicação mais alinhada com os interesses e necessidades reais da sociedade, fortalecendo a conexão entre os produtores de conteúdo e seus consumidores. Relatórios e Feedback: Regularmente, disponibilizamos relatórios detalhados sobre a arrecadação e distribuição de fundos. Também incentivamos o feedback dos financiadores para melhorar continuamente nosso sistema e garantir que ele atenda às expectativas de todos os envolvidos.






