Milei privatiza principal hidrovia da Argentina sob denúncias de favorecimento e alertas sobre soberania e impactos ambientais
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- A era dos Pogroms, o massacre de judeus na Europa que proporcionou o surgimento do sionismo
No século XIX, a maioria da população judaica se concentrava no Império Russo. De acordo com o censo de 1897, aproximadamente 5,2 milhões de judeus residiam na região conhecida como Pale of Jewish Settlement, que abrangia partes da atual Letônia, Lituânia, Polônia, Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia. Apesar de constituírem uma minoria de 11,3% da população total, os judeus dominavam as profissões intermediárias do mercado, incluindo comércio, artesanato, indústria, transporte e agiotagem [1] , uma vez que eram proibidos de se estabelecer fora desses territórios e de se envolver na agricultura ou possuir terras aráveis. [2] Após o assassinato do Czar Alexandre II em 1881, o governo dos sucessores Alexandre III (de 1881 a 1894) e Nicolau II (de 1894 a 1917) enfrentaram ondas de piores safras de grãos da história e uma sucessão de derrotas militares. Nicolau II absorveu muitos dos pontos de vista extremistas de seu pai e de Konstantin Pobedonostsev, que foi seu tutor. Ele culpava os judeus, a quem chamava de "assassinos de Cristo", pela violência e agitação social na Rússia. O governo tentou impor o uso da língua russa em todas as escolas e eliminar traços de culturas estrangeiras. O czar procurava fazer com que as pessoas não russas adotassem a religião, língua e cultura dos "Grandes Russos", que eram a maioria étnica do país, mas em relação à população total do império. Esses esforços causaram ressentimento e resistência em áreas como a Polônia, Ucrânia e Cáucaso. [3] Com a fome e a miséria generalizada, eclodiram greves e revoltas populares por todo o império. Famintos e incapazes de comprar grãos dos comerciantes judeus e de pagar suas dívidas com os credores judeus, os camponeses passaram a culpar a comunidade judaica pelos problemas econômicos. Assim, iniciou-se a era dos pogroms, palavra em russo para "causar estragos, destruir violentamente". [4] Em abril de 1903, Kishinev um grave surto antijudaico resultou na morte de 47 judeus, com 92 gravemente e 500 levemente feridos. A violência causou enormes perdas materiais à comunidade judaica, incluindo a destruição de 700 casas e o saque de 600 lojas. O episódio, planejado previamente, foi instigado pelo editor moldavo Pavolachi Krushevan, que, ao longo de seis anos, disseminou falsas acusações e incitou ódio antissemita na população. [5] Incitados por líderes políticos, religiosos e até pelo próprio Czar, os episódios de violência contra os judeus rapidamente se espalharam por todo o território do império. As autoridades czaristas, quando não estavam envolvidas, fechavam os olhos para os ataques, que incluíam estupro e assassinato de vítimas judias, bem como o saque de suas propriedades. Segundo Colin Tatz, que foi diretor do Instituto Australiano de Estudos do Holocausto e Genocídio, entre 1881 e 1920, a Ucrânia testemunhou 1.326 pogroms, resultando na morte de 70.000 a 250.000 judeus civis e deixando meio milhão de desabrigados. A violência dos pogroms na Europa Oriental desencadeou uma migração judaica, totalizando cerca de 2,5 milhões de pessoas. [1] Os judeus constituíam 84% de todos os comerciantes de produtos agrícolas e não agrícolas, 92% de todos os comerciantes de grãos e, 45% no setor de artesanato e indústria, 30% nos serviços de transporte, e 37% de todos os agiotas. Essas profissões juntas absorviam 11% do emprego total de Pale. GROSFELD, I.; SAKALLI, S. O.; ZHURAVSKAYA. Middleman Minorities and Ethnic Violence: Anti-Jewish Pogroms in the Russian Empire. The Review of Economic Studies. London. 2017. [2] Essas restrições territoriais e ocupacionais duraram até a Revolução de Fevereiro de 1917. [3] NOVA CULTURA. Nicolau II. São Paulo. 1988. [4] UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Introduction to the Holocaust, Pogrom. Washington, DC. [5] ROSENTHAL, H.; ROSENTHAL. KISHINEF. Jewish Encyclopedia.
- A mídia brasileira pinga o sangue palestino
A mídia brasileira é escrota! Não mostram 5% do que acontece na Faixa de Gaza. Não abordam a falta de água, luz, comida e suprimentos médicos, nem dão a devida importância às famílias palestinas. Focam excessivamente no ataque do Hamas e minimizam criminosamente o papel de Israel, que é o terrorista mais sanguinário desta história. Não mencionam a colonização israelense que ocorre há 76 anos. Para entender o contexto geral, é necessário abordar como chegamos até aqui. Não divulgam quantos ataques Israel tem realizado ao longo de 76 anos. Fico feliz que existam pessoas questionando a conduta de vocês. Espero que nunca durmam em paz com esse apoio escancarado a Israel. Espero que as pessoas repensem o que assistem e onde dedicam sua audiência, desenvolvendo o senso crítico para não serem escravas dessa mídia porca e vendida.
- Israel está sob intensas críticas da comunidade internacional após o massacre de mais de cem palestinos que esperavam na fila por alimentos
França "Estou profundamente indignado com as imagens vindas de Gaza, onde civis foram alvejados por soldados israelenses." [,,,] "Expresso minha mais veemente condenação desses tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional." Emmanuel Macron na plataforma X. Turquia "Israel adicionou outro crime aos seus crimes contra a humanidade." [...] "O fato de Israel, que condenou os habitantes de Gaza à fome, desta vez ter como alvo civis inocentes em uma fila de ajuda humanitária, é uma prova de que (Israel) pretende, consciente e coletivamente, destruir o povo palestino." Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia Catar "A continuação dos crimes brutais da ocupação como parte de sua guerra brutal na Faixa de Gaza prova, dia após dia, a necessidade premente de uma ação internacional urgente para pôr fim imediatamente a esta agressão sem precedentes na história recente." Ministério das Relações Exteriores do Catar Alemanha "As pessoas estão arriscando suas vidas brigando por pacotes de alimentos que caem do ar porque não há caminhões suficientes chegando a Gaza. As crianças estão coletando ervas daninhas para dar algo para seus irmãos comerem. Os bebês estão morrendo de desidratação e desnutrição em hospitais que mal funcionam." Annalena Baerbock, Ministra das Relações Exteriores da Alemanha China A China condenou veementemente o assassinato de dezenas de palestinos durante a entrega de ajuda, expressando choque e pesar pelas vítimas. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Mao Ning, afirmou que a China condena veementemente o ataque israelense, apelando a uma rápida resolução para a agressão em curso.
- Jornalistas Palestinos Sob Ataque Permanente do Regime de Ocupação Israelense somam 124 martirizados
O regime de ocupação israelense persiste em atacar os jornalistas palestinos utilizando os meios e ferramentas mais cruéis, buscando infligir o máximo de mortes e terror possível. O sindicato, em comunicado emitido coincidindo com o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos (que ocorre hoje, segunda-feira, 26 de fevereiro), informou que, desde 7 de outubro passado, os mísseis e balas da ocupação resultaram na morte de 124 jornalistas e trabalhadores da mídia durante o genocídio na Faixa de Gaza. Isso inclui 16 jornalistas, enquanto o destino de dois colegas permanece desconhecido. O sindicato destacou que a ocupação continua seus ataques às residências dos jornalistas, causando destruição e morte a suas famílias. Esses ataques afetaram dezenas de residências ocupadas por famílias de jornalistas na Faixa de Gaza. Além disso, o sindicato afirmou que 1.500 jornalistas na Faixa de Gaza foram deslocados, muitos trabalhando em instalações temporárias, como hospitais e abrigos, sendo diretamente alvos da ocupação enquanto desempenham suas funções profissionais e humanitárias. O sindicato documentou a destruição de 73 instituições de comunicação social em Gaza, incluindo rádios locais, agências de notícias locais e internacionais, canais de satélite locais e internacionais, jornais locais, torres de transmissão e instituições de assessoria de imprensa. Sobre detenções, o sindicato relatou que aproximadamente 65 jornalistas foram presos desde 7 de outubro, alguns foram libertados, mas 36 continuam detidos, a maioria em "detenção administrativa", e outros 15 jornalistas permanecem em centros de detenção antes dessa data. Enquanto o genocídio israelense em Gaza se prolonga, casos de ataques diretos a jornalistas na Cisjordânia e em Jerusalém têm aumentado, numa tentativa de intimidar aqueles que cobrem a agressão israelense nessas regiões. O sindicato, à medida que se aproxima do quinto mês da guerra israelense, insta ações locais e internacionais, incluindo mídia e organizações de direitos humanos, a pressionarem pelo fim dos assassinatos de jornalistas palestinos, bem como o julgamento dos criminosos de guerra e assassinos de jornalistas. O apelo do sindicato inclui a participação maciça em atividades programadas para o Dia Internacional de Solidariedade com os Jornalistas Palestinos, em diversos locais, juntamente com vigílias organizadas por sindicatos árabes e internacionais sob a Federação Internacional de Jornalistas.
- Associações de Jornalistas Marcam o Dia Internacional em Apoio aos Jornalistas Palestinos
Associações de jornalistas em mais de 100 países estão marcando o Dia Internacional dos Jornalistas Palestinos nesta segunda-feira, 26 de fevereiro. Tanto a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) quanto a Federação de Jornalistas Árabes (FAJ) afirmam que estão dedicando o dia em solidariedade aos seus colegas na Palestina. As associações expressaram consternação diante do assassinato de mais 100 jornalistas nos últimos quatro meses desde o início do conflito, classificando-o como uma "tragédia terrível e injustificada". O sindicato de jornalistas australianos MEAA enfatizou nas redes sociais: "Os jornalistas palestinos representam os olhos do mundo em Gaza, e sem eles, a crise humanitária passaria despercebida".
- Que é História?
A reflexão sobre o que constitui a História, embora aparentemente simples inicialmente, revela uma complexidade que se desdobra à medida que aprofundamos nosso entendimento sobre o assunto. Não há uma resposta definitiva, e a percepção dessa questão pode variar de pessoa para pessoa. Para alguns, a História representa um passado distante, do qual apenas restam memórias ou registros históricos trancados em um museu. Contudo, para aqueles que testemunharam eventos que consideramos históricos, a pergunta assume uma dimensão diferente. Poderia um habitante de Jerusalém, por exemplo, ter presenciado Jesus pregando e pensando: "Esse homem deixará sua marca na história"? Da mesma maneira podemos pensar, será que estamos nesse exato momento vivendo um evento que será considerado histórico no futuro? Conforme aponta o historiador inglês Edward Carr[1] em "Que é História?"[2], nossa definição de História é moldada pela nossa perspectiva temporal individual, dessa maneira, podemos dizer que sim e que não, a depender do ponto no tempo em que o observador analisa os eventos. Os historiadores do século XIX percebiam a história como um estudo imparcial do passado, narrando seus eventos de forma cronológica. Contudo, o conceito de imparcialidade é tão intrincado quanto o significado da própria história. Na atualidade, compreendemos que a história abrange a observação, compreensão, interpretação e explicação do passado humano, buscando entender as transformações políticas, econômicas e culturais nas sociedades, culturas e civilizações. Isso envolve analisar como essas mudanças se desenrolaram e identificar os eventos cruciais que as impulsionaram ao longo do tempo. Diferentemente dos historiadores do século XIX, não sustentamos a visão de que a história se restringe à mera descrição cronológica dos eventos passados. Pelo contrário, acreditamos que estudar história é buscar compreender o presente, investigando as causas e consequências, bem como os contextos sociais que moldaram tais acontecimentos. Em relação à imparcialidade, como mencionado anteriormente, a percepção da história é subjetiva e depende dos olhos do observador. Cada observador interpreta os fatos de maneira única, influenciado por seus próprios valores culturais, sociais e perspectivas individuais. Isso reforça que a História é uma análise do presente, especialmente no modo como as pessoas do presente se relacionam com o passado na construção de suas identidades coletivas e individuais. Um historiador vai além da simples análise dos "fatos históricos"; ele também interpreta e gera ideias a partir dessa compreensão, exercendo, assim, uma influência crítica por meio de sua produção no tempo presente. [1] Edward Hallett Carr (1892-1982) foi um renomado historiador britânico e autor de destaque no século XX. Ele ficou conhecido principalmente por seu trabalho "Que é História?", no qual aborda questões fundamentais sobre a natureza da história e a influência do tempo na interpretação dos eventos. Carr também desempenhou um papel ativo na diplomacia britânica, servindo como diplomata e historiador na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Sua contribuição significativa para a teoria da história e a análise crítica dos eventos marcaram sua influência duradoura no campo historiográfico. [2] CARR, E. H. Que é história? Rio de Janeiro. 1961.
- A CÂMARA DOS DEPUTADOS DESISTIU DO PROJETO DE LEI DE COMBATE ÀS FAKE NEWS APÓS PRESSÃO DE PARLAMENTARES BOLSONARISTAS
A Câmara dos Deputados recuou na proposta do PL de Combate às Fake News devido à pressão de parlamentares bolsonaristas. Agora, a atenção está voltada para um projeto do senador bolsonarista Jorge Seif, que busca dificultar a remoção de perfis e proteger as plataformas nas redes sociais. Inspirado em uma medida provisória do governo Bolsonaro, que foi considerada inconstitucional pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o novo projeto visa criar obstáculos para a remoção de perfis e conteúdos nas redes sociais, além de abordar outros aspectos sensíveis ao marco regulatório atual. Por exemplo, isenta provedores de conexão à internet e redes sociais de responsabilidade criminal, editorial ou civil por danos causados pelo conteúdo, desde que medidas para identificação dos responsáveis sejam adotadas. O projeto também estabelece que a exclusão, cancelamento ou suspensão de contas e conteúdos só podem ocorrer com justa causa, incluindo falta de pagamento, contas falsas, e decisões judiciais. No entanto, o texto exclui a consideração de aplicativos de mensagens como redes sociais e suas versões comerciais, como Telegram e Whatsapp Business. O projeto, aprovado na Comissão de Comunicação e Direito Digital, aguarda análise na Comissão de Direitos Humanos, sob relatoria do líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues.
- O velho e o mar
Finca Vigia, Havana Há muito tempo, um homem do norte chegou nesta ilha. Ele não era mais o mesmo e não viveria as “Aventuras de um jovem” novamente. Não sentiria mais o sal das “Ilhas no Stream”, o calor do “Green Hills da África”, muito menos deixaria “As Neves do Kilimanjaro” tocar a sua face, mas estava pronto para outro tipo de jornada. Encantou-se tão profundamente com a ilha, que percebeu que suas raízes, antes soltas no ar, agora poderiam aterrar-se a este solo. Este homem era um dos escritores mais renomados de sua época, e grande parte de suas narrativas, contos e histórias foram digitadas em uma velha Olivetti Plomo, que ainda reside em uma sala vazia, olhando “Do outro lado do rio entre as árvores” através das janelas de vidro, esperando que seu velho companheiro volte para sentir o peso de seus dedos sobre suas teclas. Seus uniformes militares e suas botas ainda jazem em seu armário, pois encontrou a paz que tanto procurou em outras terras. “A quinta coluna e as primeiras quarenta e nove histórias” ficaram para trás, enfim, ele deu “Adeus às Armas” definitivamente; não havia mais serventia para elas. Agora, costuma passar pelas belas flores rosadas de seu “Jardim do Éden”, mesmo durante “As torrentes de primavera”, subindo a escadaria de um anexo para presenciar que “O Sol também Nasce” e escrever sobre aquilo que lhe era mais caro: a simplicidade da vida dos comuns. O escritor que há muito tempo partiu, encontrou em Cuba sua inspiração para escrever, em uma única tarde foram “Três histórias e dez poemas”. Nos cubanos, aquele “homem sem mulher” entendeu a verdade entre “ter e não ter”. Ao conviver com os pescadores, ele descobriu a cumplicidade entre um homem do mar e os peixes que leva para casa. Tal segredo tornou-se uma das histórias mais lidas e aclamadas do mundo. Foi pelas pessoas e, com elas, que o escritor dividia conversas e charutos. Entre um trago e outro em La Floridita ou em uma partida de xadrez com um jovem comandante, ele decidiu mais uma vez se apaixonar. Se apaixonou pelas pessoas que cruzava pelas curvas da estrada até San Miguel del Padrón, onde chamava de lar. Foi aqui também que esse escritor, que já conhecia a guerra de outras passagens, testemunhou a paixão e a ternura que sustentam o peso da revolução em uma linha tênue que separa a vida da morte. Paixão que motiva camponeses, pescadores, estudantes e todos os trabalhadores humildes a se levantarem contra a tirania. Seus olhos viram e seu coração sentiu a pulsão da revolução. Ele falou sobre ela, escreveu sobre ela, defendeu-a como sua. Mas a temporada dos furacões chega para todos, mesmo para aqueles que já não marejam mais ao balanço do mar. Em “O verão perigoso”, não foram os cubanos nem os revolucionários, mas o governo do país de onde ele havia vindo, os Estados Unidos da América. Em meio a uma guerra psicológica entre capitalistas e comunistas em todo o mundo, o escritor, que só havia nascido naquele território ao qual se sentia estranho, foi rotulado como traidor devido às suas estreitas relações com os líderes do governo revolucionário e com o povo cubano, do qual ele próprio se tornara parte. Após inúmeras ameaças, inclusive à sua própria vida, o escritor deixou a ilha, abandonando tudo o que um dia fora seu: seus milhares de livros, sua casa, anotações, o barco em que navegou e no qual escreveu parte de sua novela sobre o peixe, e a velha Olivetti Plomo que o ajudou a ser agraciado com o Prêmio Nobel. Ele partiu, deixando para Cuba tudo o que tinha e tudo o que já foi. Partiu, mas já não era ele. Pouco tempo depois de se estabelecer naquela que os outros diziam ser sua verdadeira pátria, ele percebeu que o sentimento não correspondia ao que pulsava em seu coração. Sentou-se em sua cama, em uma casa nova que comprou, mas que não sentia como sua, enquanto as visitas conversavam na sala. Então, passou as mãos sobre o metal frio, correu pela extensão da arma e retirou-a da parede. Num momento de sanidade, ele puxou o gatilho, mesmo sabendo que o “Vencedor não leva nada”. Explodindo nas paredes e no teto toda a fonte de onde brotaram aquelas belas palavras que o mundo leu. Seu nome estava estampado no dia seguinte nos obituários de todo o mundo. Aquela "Morte à Tarde" era agora, “Em nosso tempo”, uma lenda “Por quem os sinos dobram”. Seu nome era Ernest Hemingway.
- O fim da canção, mas não do amor em Santa Maria
Santa Maria, Havana Seis meses se passaram desde a última vez que um jovem casal estrangeiro esteve nesta praia. Hoje, ao retornar a esse cenário, o homem caminhava sozinho, o motivo do sorriso que antes adornava seu rosto não havia mais. A brisa que tocava seu rosto agora só fazia aumentar a saudade da mão que costumava acariciar sua pele. Suas mãos buscavam, em vão, o par que um dia selou o amor com uma aliança. Seus olhos penetravam o mar sereno e cristalino, como na última vez, mas ao seu lado não havia ninguém para compartilhar; apenas as flores lhe faziam companhia. A praia de Santa Maria foi o último destino antes que o coração do rapaz fosse tomado por um vazio insuperável. Ele não voltou para dançar, sorrir ou amar como naquela última vez. Ele voltou para se despedir. O mar, que testemunhara o início de tantos outros jovens amores, hoje estava incumbido de levar embora cada pétala de uma despedida melancólica. Sozinho, o rapaz caminhou em direção ao mar, sob os olhares atentos de seus familiares que esperavam na areia. A água tocou seus tornozelos, depois suas pernas, até abraçá-lo na altura do peito, onde segurava o buquê com carinho. As lágrimas, que salgavam ainda mais o imenso oceano, não podiam ser vistas à distância, mas estavam lá. O choro dos que assistiam era tão silencioso quanto o dos pássaros ou das poucas ondas que quebravam nas areias caribenhas. Todos compartilhavam a dor da perda e a beleza do amor que continuava a existir, mesmo em sua singularidade. O tempo parecia ter sua própria vontade naquele momento. Passava mais devagar, respeitando a necessidade do rapaz de se despedir. E, então, acelerou ao levar as flores para onde ele não pudesse mais alcançar. Ele disse o adeus que guardou nos últimos meses, confiante de que o amor deles transcenderia as águas profundas do tempo. Deixamos a praia de Santa Maria junto com o sol. Eu observava, sem palavras, no momento, os únicos sinais que meu corpo obedecia eram olhar para a mulher ao meu lado e segurar sua mão com firmeza, certo de que jamais a soltaria. Diferente daquele rapaz, a vida permitiu que eu fosse embora ao lado da pessoa amada. Como agradecimento, prometo sempre sorrir com seus sorrisos, dançar todas as canções que cantarolar, abraçar como se fosse a última vez e, por fim, amar muito e amar sempre, antes que o mar leve um de nós embora, pois ele sempre leva...
- Feliz Navidad. Passando o natal com papai noel, o menino Jesus e Fidel Castro
Havana, 25 de dezembro Acordamos cedo, enquanto a Di se arrumava para o primeiro dia completo de passeio, me acomodei na varanda da casa de Jamile para fumar um cigarro observando os habitantes de Havana cruzarem a rua três andares abaixo. Ao meu lado, um imenso Papai Noel inflável me fez lembrar de que hoje é natal. Lancei um segundo olhar para baixo e, um tanto desapontado, não testemunhei nenhum comunista com suas foice e martelo perseguindo um cristão que estivesse celebrando o nascimento de Jesus. Perguntei para Jamile se em Cuba não se comemorava o natal, ela olhou de volta e deu de ombros, como se eu estivesse falando algum absurdo. Após tomar um café, saímos às ruas para andar à toa, já que por ser feriado não havia nenhum lugar específico que pudéssemos ir. Não vimos decorações natalícias nem mesmo no Plaza de San Francisco de Asís, onde se encontra a igreja A Basílica Menor de São Francisco de Asís, inaugurada em 1575, cinquenta anos antes da inauguração da própria praça ao seu entorno. Ficamos nos perguntando se realmente os comunistas estavam perseguindo os cristãos como tantas vezes os pastores-deputados brasileiros disseram em campanha pró Bolsonaro, talvez não só os cristãos, pois a mesquita Abdallah a poucos metros da basílica também não tinha grande movimento. A perseguição a religião e aos religiosos acontece sim e acontece de maneira aberta e até mesmo amparado pela lei. No início do ano, alguns parlamentares[1] propuseram uma lei para proibir a evangelização, tornando ilegal qualquer esforço para compartilhar a mensagem de Jesus e seus ensinamentos. A proposta previa pena de até um ano de prisão para missionários ou qualquer outra pessoa que, tanto em conversas pessoais quanto através de correspondência ou vídeos online, tentasse converter alguém ao cristianismo. Embora a proposta não tenha sido aprovada, a legislação do país já continha uma lei "anti-missionária" que punia os cristãos que praticam o batismo e a conversão de novos fiéis. Não só isso, na principal cidade religiosa do país, tornou-se costume cuspir em padres e freiras. – Não acredita, né? Um jornalista também não acreditou, por isso ele mesmo se vestiu como um padre e saiu às ruas. “Humilhações, cuspes e espancamentos. Nos últimos seis meses, o cristianismo em Israel está sob ataque. Cada vez mais crimes de ódio contra o clero cristão e símbolos cristãos. Após um grande número desses casos, decidimos pedir um hábito de frade franciscano e saímos com frades do Vaticano para verificar as ruas da cidade velha”, escreveu Eli em sua conta no Twitter. “Os resultados foram surpreendentes. Alguns não pararam de cuspir em nós e nos menosprezar”. Yossi Eli [2] Ficaria surpreso se te disséssemos que isso aconteceu em Jerusalém? - Pois é, tudo isso acontece em Israel, bem longe dos comunistas cubanos. No "Estado Nação Judeu", a intolerância religiosa é a regra e não a exceção, não só contra muçulmanos, mas também contra cristãos. Quando estivemos por lá, em 2023, um israelense invadiu a Capela da Condenação do Senhor, local onde Jesus saiu carregando a cruz até o Monte das Oliveiras. O criminoso picou a principal imagem de Jesus Cristo a golpe de machados. Essa foi apenas uma sutil demonstração de tolerância inter-religiosa. Mas, deixemos Israel de lado e voltemos ao assunto principal, "a perseguição religiosa em Cuba". Meses antes de iniciarmos essa viagem, lemos juntos o livro “Fidel e a Religião”, uma séria de entrevistas que o comandante concedeu ao brasileiro frei Betto em 1985. Como frei dominicano, o autor também questionou ao entrevistado se realmente havia ou houve em algum momento perseguição no país. Para surpresa do leitor, o Comandante em Jefe confirmou que sim, mas como estamos falando de Fidel Castro, lógico que a resposta não foi curta nem superficial. “Em nome de Deus, os espanhóis e portugueses invadiram a América Latina e trucidaram milhões de indígenas. Em nome de Deus, multidões de escravizados foram trazidos da África para trabalhar em nossas terras. Em nome de Deus, estabeleceu-se o projeto de dominação burguesa no continente. Será que esse nome invocado por conquistadores, senhores de escravizados e opressores capitalistas, é o mesmo Deus dos pobres invocados por Jesus?” [3] O governo revolucionário ganhou a reputação de perseguidor ao declarar Cuba um Estado ateu e implementar políticas seculares que enfraqueceram o tradicional poder político e a influência da Igreja Católica na ilha. Essa decisão não foi motivada pela visão comunista de considerar o Natal como um símbolo do capitalismo. Ela se baseou no histórico papel desempenhado pela Igreja ao longo do século XX, atuando como defensora de ditaduras e golpes militares. A Igreja deu apoio incondicional a regimes autoritários no Chile, Brasil, Guatemala, El Salvador, Uruguai, Peru e Venezuela. Na Argentina, até mesmo o padre Jorge Mario Bergoglio foi acusado de "omissão" e de ser "cúmplice" da repressão durante a ditadura argentina. Em 2010, Bergoglio teve que testemunhar para esclarecer essas acusações. Hoje esse padre argentino é mais conhecido como Papa Francisco. Se o Papa é culpado ou não das acusações, sinceramente não posso afirmar, mas se você perguntar às mães da Praça de Maio, certamente terá uma resposta diferente. O que é inquestionável é que a igreja falhou ao apoiar ditaduras e ignorar as torturas e assassinatos por toda América Latina, inclusive de seus próprios membros como Frei Betto, que como tantos outros foi preso, torturado e por sorte não acabou assassinado como tantos outros. “O deus que vocês, marxistas-leninistas, negam, eu também nego: o deus do capital, o deus da exploração, o deus em cujo nome se promoveu a evangelização missionária da Espanha e de Portugal na América Latina, com o genocídio dos índios; o deus que justificou e sacralizou os vínculos da Igreja com o Estado burguês; o deus que hoje legitima ditaduras militares como a de Pinochet. Esse deus que vocês negam, e que Marx denunciou em sua época, nós também negamos. Esse não é o Deus da Bíblia, não é o Deus de Jesus.” Frei Betto Nas décadas seguintes, ocorreram mudanças graduais nas relações entre o governo cubano e a religião. Apesar de o país manter sua secularidade, a Constituição de 1992 revogou a classificação de Cuba como um Estado ateu. De acordo com um relatório sobre liberdade religiosa em Cuba, divulgado pela Embaixada dos Estados Unidos - sim, dados oficiais da embaixada americana -, mais de 60% da população cubana identifica-se como cristã hoje. Além do Catolicismo Romano, diversas outras denominações religiosas, como o protestantismo, o espiritismo e até seguidores da fé bahá'í, coexistem. É importante destacar também a presença de outras crenças, como budismo, judaísmo, islamismo, além de sincretismos originados das tradições religiosas trazidas pelos africanos escravizados, como a santeria, que apresenta semelhanças com a Umbanda brasileira. Mesmo ciente de todo esse contexto histórico e sabendo que a perseguição religiosa está mais evidente no Brasil do que em Cuba, o único Papai Noel que vimos por toda cidade estava na varanda de Jamile, e assim, minha pergunta ainda não tinha sido respondida. Ao chegarmos em casa, sugeri a Jamile se poderíamos preparar um macarrão para jantarmos juntos, mesmo que nenhum de nós celebre o natal. Ela concordou, mas Ryan foi quem mostrou mais interesse na ideia. Quando saímos para comprar os ingredientes, ele compartilhou que seu sonho era ser chef de cozinha, porém, em Cuba, isso era desafiador. Durante o jantar de Natal, Jamile explicou que, para Ryan, a dificuldade não estava em estudar, já que o governo proporciona educação gratuita para todos, mas sim em encontrar os ingredientes para pratos especiais. Com o bloqueio, nem todos os produtos estão sempre disponíveis nas prateleiras. Compreendi que a explicação de Jamile era a resposta para a pergunta que eu havia feito durante o dia todo. Decidi reformular a pergunta, indagando se esses eram os motivos para o Natal não ter tanta importância para os cubanos. Ela não demorou a responder que sim. Mesmo conhecendo todo esse processo histórico e sabendo que a perseguição religiosa está mais ativa no Brasil do que em Cuba, o único papai Noel que vi em toda cidade era o da varanda de Jamile, com isso, minha pergunta ainda não estava respondida. Então, sim, em todo o mundo hoje é Natal, desde a histórica Bethlehem, cidade onde nasceu Jesus e que hoje foi atacada por soldados israelenses, até as ruas vibrantes de Havana lá embaixo que, devido ao bloqueio, não há árvores decoradas com presentes e nem uma farta ceia da qual muitas coisas acabarão no lixo amanhã. Então, sim, é natal, mas a pergunta a ser feita é: – Natal para quem? – Talvez para aqueles que despejam suas bombas e embargos econômicos! “Se a Igreja exige: ‘não roubar’, também aplicamos com rigor este princípio. Uma das características de nossa Revolução é a erradicação do roubo, da malversação e da corrupção. Se a Igreja exige: ‘amar o próximo como a si mesmo’, é precisamente o que pregamos através do espírito de solidariedade humana que está na essência do socialismo e do comunismo; o espírito de fraternidade entre os homens, que é também um dos nossos objetivos mais apreciados.” Fidel Castro [1] Moshe Gafni e Yaakov Asher. [2] ELI, Y. O humilhante costume que se instalou em Jerusalém: judeus cuspindo em cristãos. Gaudium Press Logo, 2023. [3] (FREI BETTO, 1985)
- Chegada em Cuba após 20 anos de espera
Havana, 24 de dezembro No instante em que as rodas do avião tocaram o solo cubano, uma indagação floresceu em minha mente: "Estamos realmente aqui?" Ao contemplar o sorriso da camarada-esposa Diana Emidio, essa dúvida se desfez, e tive a certeza de que, sim, de fato, chegamos a Cuba. Desejaria que este momento tivesse se materializado de outra maneira e em outros tempos, já que nossos pensamentos permanecem presos com nossos irmãos e irmãs na Palestina, impedindo-nos de nos entregarmos a esta jornada da mesma forma como o fizemos em tantas outras. Dado que não temos o poder de determinar a forma ou o momento em que um sonho se concretiza, a única alternativa é vivê-lo, mesmo que esse sonho seja obrigado a coexistir junto a um pesadelo. Saímos do aeroporto com uma sensação contida, questionando se tínhamos o direito de viver aquele momento e se deveríamos ou não o desfrutar. Poucas palavras foram trocadas entre nós, exceto aquelas necessárias para localizar um meio de transporte público que nos levasse até Havana Velha. Éramos os únicos passageiros no ônibus, e o motorista percebeu nossa expressão estranha e a falta de entusiasmo para dois turistas que acabam de iniciar suas férias no Caribe. Com sensibilidade, ele iniciou uma conversa para dissipar a tensão evidente em nossos rostos. O início da conversa nos cativou, trazendo um breve alívio, pois o motorista não apenas nos guiava pelo trajeto, mas também nos conduzia por histórias que coloriam a paisagem que se desenrolava além das janelas. Nossa distração foi interrompida ao passarmos por uma grande quantidade de carros e postos de gasolina abandonados ao longo da estrada; abruptamente, a conversa tomou outro rumo, e o motorista começou a falar sobre as crises existentes no país e a atual situação do "bloqueio". Qualquer indivíduo minimamente cognitivo, mesmo que seus neurônios operem em turnos alternados, em algum momento já se deparou com a noção do termo "Embargo Econômico" dos Estados Unidos sobre Cuba. Nos últimos anos, uma asfixia econômica sem precedentes agravou a situação, tornando-a ainda mais desesperadora. Por isso, é mais apropriado designar essa condição como "bloqueio" econômico, em vez de simplesmente embargo, afinal, nada entra ou sai da ilha, a não ser pelos furos da peneira dessa política. Certamente, abordaremos o tema do bloqueio ao longo de todos os dias que estivermos aqui. Sendo assim, é apropriado explicar agora, pelo menos, o que ocorreu nos últimos anos, culminando nessa intensificação do cenário que o motorista nos mostrava pela janela. Há alguns anos, em uma visita mediada pelo Papa Francisco, o presidente estadunidense Barack Obama esteve na ilha, chegando a apertar a mão do então presidente Raul Castro. O espetáculo midiático preparado pela Casa Branca, no fim das contas, trouxe benefícios apenas para a popularidade da gestão Obama, que reabriu a embaixada americana que estava fechada há décadas. Após esse circo da gestão Obama, um novo palhaço entrou no picadeiro: Donald Trump. A administração Trump introduziu um conjunto de 68 novas medidas para endurecer ainda mais a já fragilizada economia cubana. Em resumo, o pouco de positivo que Obama trouxe para a ilha foi retirado por Trump, e o único vestígio restante foi a embaixada, que, na prática, não serve para além de elaborar relatórios depreciativos sobre Cuba, o governo cubano e o "comunismo". Se anteriormente a ilha já sofria com o embargo, as novas medidas de Trump agravaram ainda mais a situação, resultando no que hoje é denominado como um bloqueio geral. Uma dessas medidas impôs várias restrições aos americanos que desejam visitar Cuba, como aquela que exige que os viajantes preencham formulários junto ao Departamento do Tesouro, conforme mencionado anteriormente. Dado que o principal grupo de visitantes é composto por cubanos que emigraram para os EUA e Europa, essas restrições tiveram um impacto negativo na economia, uma vez que esses visitantes costumavam trazer consigo dólares e euros. Outra das medidas de Trump diz respeito à dificuldade de Cuba em importar petróleo, o que resultou em uma estrada repleta de carros abandonados. A escassez de gasolina dificulta toda a circulação de bens essenciais por todo o país, incluindo o setor turístico. Para compreender melhor a gravidade da crise no transporte, vale destacar que, durante o governo golpista de Michel Temer, uma greve de caminhoneiros por cinco dias quase levou o Brasil inteiro ao colapso. Agora, imagine essa situação prolongada por décadas e liderada por um capitão desgovernado e desumano chamado Trump. Com o término dos quatro anos catastróficos de Trump, chegou a vez de um dos presidentes americanos mais apáticos, Joe Biden. Embora pudesse reverter as medidas de Trump em relação a Cuba, como fez em outras políticas internacionais, Biden demonstrou mais interesse em financiar o genocídio, tanto no início do mandato no Afeganistão quanto agora na Palestina. Esse líder, mais focado em questões militares, parece indiferente às preocupações de comunidades não brancas, exceto por Kamala Harris, que serviu como uma estratégia publicitária eleitoral. Vale ressaltar que ela foi quem ergueu a mão para vetar à proposta brasileira de cessar-fogo na Palestina durante a reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Perguntei ao motorista se, apesar de toda a dificuldade do bloqueio e da atual situação em seu país, ele gostava de morar aqui. Ele não respondeu, mas a expressão em seu rosto transmitia um sentimento ambíguo, um misto de "sim" e "não". Olhando-me pelo retrovisor, ele compartilhou a seguinte história: "Este ano, enfrentei uma grave doença, um problema no fígado. Minha enfermidade coincidiu com a doença de meu pai, um guajiro[1], que precisou abandonar o trabalho na plantação para cuidar de sua saúde. Ficamos sem meios para cuidar da terra, quando um furacão desolador varreu o que restava. Sem dinheiro, sem trabalho, e sem os legumes e verduras que cultivávamos. Eu e meu pai passamos meses internados no hospital, período durante o qual não nos faltou absolutamente nada. Um médico de 25 anos foi o herói que salvou nossas vidas, e o governo providenciou tudo o que precisávamos, tanto em medicamentos quanto em alimentos, para garantir nossa sobrevivência. Não sei se encontraríamos esse nível de assistência pública em outro lugar." Refletindo sobre o Brasil, percebo que não enfrentamos um bloqueio que nos impeça de receber bens essenciais ou de comercializar nossos produtos globalmente. Apesar das vezes em que presidentes americanos tentam impor suas regras por aqui, agora temos novamente um líder que não se curva diante da bandeira americana. Cuba e o Brasil estão entre as raras exceções, em que um motorista pudesse contar com os planos de assistência médica gratuita fornecidos pelo estado. Considerando essa perspectiva, compartilhei com o motorista que, no Brasil, se eu enfrentasse uma situação semelhante, poderia contar com uma sorte parecida. No entanto, se vivêssemos nos EUA, Japão, Alemanha ou outro país que valoriza somente aqueles que podem gerar lucro, poderíamos nos deparar com o fardo dos custos, até mesmo os gastos com o enterro, que acabaria sobrando para algum familiar. Ele olhou novamente pelo retrovisor, e sua expressão sugeriu a resposta que eu antecipava: "sim". A voz do motorista foi se tornando mais melancólica, e seus olhos, que eu acompanhava pelo espelho retrovisor, ganharam um brilho especial enquanto compartilhava sua experiência. Ficava claro que a resposta para a pergunta que eu fizera pendia cada vez mais para o "sim" e menos para o "não". Não posso afirmar se foi pela influência de nossa conversa, mas em um determinado momento, o motorista estacionou em frente à Praça da Revolução e gentilmente sugeriu que, como éramos os únicos no ônibus, poderíamos descer rapidamente para tirar algumas fotos antes de continuarmos para Havana Vieja. Parecia que ele próprio necessitava daquele momento solo para reflexão. Nesse instante, na imponente Praça da Revolução, diante dos edifícios públicos adornados pelos bustos de Camilo Cienfuegos e Che Guevara, e com o monumento de José Martí às minhas costas, pensei sobre como esses líderes sacrificaram suas vidas acreditando que a verdadeira independência só se completa com a emancipação de todos os seres humanos, sejam eles guajiros, motoristas de ônibus ou jornalistas e que, para alcança-la a soberania política deve estar firmemente entrelaçada com sua independência econômica. Convenci-me de que, se verdadeiramente desejamos a libertação do povo palestino, a melhor contribuição que podemos oferecer estando aqui é enfrentar o monstro que oprime todos os trabalhadores do mundo. Devemos descrever, através de nossas próprias palavras, como é possível construir um mundo mais justo. Contudo, isso só será alcançado se, ao invés de permanecermos inertes, iniciarmos a jornada nessa direção, mesmo que o caminho possa parecer um horizonte inatingível. “Soberania nacional significa, em primeiro lugar, o direito que um país tem de que ninguém interfira na sua vida, o direito que um povo tem de se dotar do governo e do modo de vida que melhor lhe convém, que depende da sua vontade e apenas do povo. É o que pode determinar se um governo muda ou não. Mas todos estes conceitos de soberania política, de soberania nacional, são fictícios se a independência económica não estiver próxima deles.” Che. 20 de março de 1960[2] [1] "Guajiro" é uma palavra utilizada principalmente em Cuba para se referir a um camponês ou agricultor, muitas vezes associado a áreas rurais. O termo carrega uma conotação cultural e pode se referir a um modo de vida mais simples e tradicional, vinculado à vida no campo. O guajiro é frequentemente retratado como alguém que trabalha na agricultura, cultivando a terra e vivendo em comunidades rurais. [2] Primeira conferência de uma série, transmitida pela televisão cubana com o título “Universidade Popular” e da qual participaram os líderes da Revolução. (GUEVARA, 2017)
- Vai pra Cuba
Guarulhos, 23 de dezembro de 2023 “Vai pra Cuba” é uma das frases ao qual temos ouvido frequentemente ao longo de nossas vidas. Devemos lembrar que essa expressão não é exclusiva da nova geração de brasileiros patriotas, conservadores e muito menos daqueles sionistas cristãos que vimos nascer em 2023. As pessoas repetem esse bordão há quase 70 anos, como se soubessem tudo sobre o que acontece em Cuba, mas o fato é que muitas delas sequer sabem apontar no mapa onde a ilha está localizada. - "Ilha? Qual ilha?" Compreendemos que todas as pessoas possuem o direito de ter suas próprias opiniões. De fato, o direito de ter opinião e expressá-la livremente (art. 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) é o tema central do meu trabalho e o meu objetivo como ser humano. Porém, também é meu dever esclarecer que ter opinião e ter conhecimento são coisas completamente diferentes. Acreditamos que nossas opiniões são moldadas pelos nossos próprios valores éticos e morais, mas na realidade, muitas das opiniões e julgamentos que expressamos são fruto de um senso comum pré-moldado para que o oprimido possa defender seu próprio opressor. Por esses e outros motivos, decidimos que era hora de "obedecer" aos anseios dos capitalistas e partir para Cuba, mesmo que nenhum dos liberais capitalistas dos quais mandamos ir para os Estados Unidos tenha ido, afinal, o sonho americano é apenas para norte-americanos, heterossexuais e brancos. Antes de começar essa jornada, temos a obrigação de esclarecer uma coisa. Apesar de sermos comunistas, Cuba não é, nem nunca foi um país comunista. – Sim, você foi enganado todos esses anos. Parafraseando o amigo cubano Pedro Monzón[1], Cuba é um país em uma experiência socialista em direção a uma sociedade comunista. – Mas afinal, então o que é comunismo? – Segundo a definição de Friedrich Engels, um dos autores dessa filosofia, "O comunismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado"[2]. Se ainda assim ficou difícil, vou tentar simplificar, mas afirmo que esta é a camada mais superficial e que esta doutrina não pode ser avaliada por simples palavras, exigindo uma investigação mais profunda de seus valores e filosofia: O comunismo é uma sociedade, acima de tudo, de iguais, sem distinção de classes sociais, sem a exploração do mais rico sobre o mais pobre, onde todos possam desfrutar dos mesmos recursos e bens materiais produzidos pela sociedade. – Se o comunismo é algo tão bom, por que em todos os lugares onde essa filosofia é seguida só existe miséria e governos autoritários? Esse é o senso comum empregado como argumento pelo mundo capitalista para que você acredite nisso. Esses e outros discursos fazem parte de uma disputa narrativa que distorce toda a verdade para favorecer apenas ao imperialismo. A realidade é que em Cuba muita coisa deu certo, e muito do que não deu se deve a um bloqueio imposto por um carrasco chamado o governo dos Estados Unidos da América. Se pensa que estou utilizando de propaganda te darei um exemplo. Hoje, aqui no Aeroporto de Guarulhos, minutos antes do embarque, tivemos nossa primeira prova do alcance dos tentáculos de poder e influência estadunidense. Ainda na fila do check-in, tivemos que preencher o formulário "D´viajeros", um documento para informações referentes aos vistos de entrada no país. Por um acaso, acabamos entrando no site com o mesmo formulário destinado a cidadãos estadunidenses ou que residem nos EUA. Já no cabeçalho da página, há um banner de aviso que diz: "Viagens partindo ou passando pelos E.U.A. com destino a Cuba são restritas a determinadas pessoas e rigidamente regulamentadas pelo Departamento do Tesouro dos E.U.A. Viagens para atividades turísticas são estritamente proibidas." [3] A verdade é que teoria e prática são coisas muito diferentes, então decidimos que o mês que passaremos na ilha de Martí, Castro e tantos outros corajosos que entregaram suas vidas pela independência cubana. Durante esse tempo, aspiramos a transformar cada experiência em uma página viva, na busca do verdadeiro significado do comunismo na prática. Mas antes de iniciar essa jornada, preciso ressaltar que este não é um relato imparcial. Se a imprensa não é imparcial, se o sistema não é imparcial e se juízes combinam condenações com promotores através de mensagens no Telegram, por que deveríamos ser imparciais? Quando preenchemos nosso formulário D´viajeros, na seção destinada ao propósito de nossa viagem a Cuba, selamos nosso compromisso respondendo com a simplicidade da verdade: "visita de solidariedade". Assim, este diário não apenas ecoará nossas reflexões, nascidas das experiências traçadas ao longo do caminho, mas será também o testemunho íntimo de uma visita de solidariedade ao povo cubano. Nossa intenção nesta jornada transcende a simples exploração de terras e destinos turísticos. Almejamos entrelaçar nossas almas com as do povo cubano, entendendo suas batalhas e vitórias, explorando seus costumes e sabores, e mergulhando de cabeça em toda riqueza material e imaterial que transborda em cada pessoa rua, praça e melodia tocada neste país. Esta viagem e este diário são mais que uma peregrinação pelos pontos marcados nos mapas ou referências em páginas amareladas de velhos livros. São uma imersão nas entrelinhas da vida de um povo profundamente entrelaçado com a história, absorvendo a essência de cada palavra revolucionária que molda suas existências. Que este diário seja mais que uma crônica de viagem, seja capaz de transmitir e fazer justiça a beleza e a complexidade de Cuba, de seu povo, há muito tempo negligenciados pela história e falta de solidariedade de um mundo que caminha cada vez mais pelos caminhos traçados pelo individualismo e em direção ao abismo da ignorância. Que cada página seja uma carta de amor às paisagens, aos rostos e às histórias que tornam Cuba única. Próxima parada, Havana! [1] Cônsul-geral de Cuba no Brasil, em entrevista com autor para o canal Monitor do Oriente Médio (MEMO) em 2023. [2] ENGELS, F. Princípios Básicos do Comunismo. Moscovo: Avante, 1982. [3] UNITED. Informações importantes referentes a viagens para Cuba. Washington. 2022. Disponível em: https://www.united.com/ual/pt/pt/fly/travel/destination/international/cuba.











