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  • Restrições e obstáculos impostos por Israel desde a autoproclamação do estado

    No caso dos jornalistas palestinos, a violação da liberdade de imprensa é uma prática disseminada em todas as esferas dos poderes executivo, legislativo e judiciário que compõem o gover­no israelense, resul­tando na institucionalização dessas violações dos direitos humanos. Essa não é uma situação recente, mas uma realidade que acompanha o governo desde a autoproclamação do Estado de Israel. A pesquisadora Cláudia Stephan argumenta que o reflexo do nas instituições, na legislação e nas relações entre o estado e a so­ciedade é uma consequência das desigualdades inerentes ao modo colonial de desenvolvimento político adotado pelo sionismo [12]. A afirmação da pesquisadora nos faz compreender que um Estado, como Israel, que nasce violando os direitos humanos, precisa continuar violando-os para se manter no poder. Para aprofundar este diálogo, é preciso voltar no tempo e entender o processo de formação do Estado israelense e sua perpetuação. Em 1947, em meio a um cenário de instabilidade e crescente tensão entre palestinos e judeus europeus recém-imigrados para a Palestina[1], o governo britânico, debilitado pela devastação econômica pós-Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), optou por renunciar ao Mandato Britânico sobre a Palestina[2]. Essa decisão transferiu para a recém-fundada Organização das Nações Unidas, sucessora da Liga das Nações, a responsabilidade de determinar o destino, tanto em termos de vida quanto territorial, dos palestinos e dos imigran­tes de fé judaica provenientes da Europa. Presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) realizou uma reunião em 29 de novembro de 1947, na qual propôs a partilha do território palestino após a retirada do Mandato Britânico. Através da Resolução 181, a proposta delineava a alocação de 57% do território para os imigrantes euro-judeus, que representavam na época 32,95% da população, enquanto os árabes-palestinos, compreendendo 67,5% da população, ficariam com apenas 43% do seu próprio país. Quanto à cidade de Jerusalém, ela seria designada como corpus separatum, um terri­tório internacional administrado por um perí­odo de dez anos, até que um plebiscito determinasse a soberania da administração da cidade. [13] [14] Obviamente os palestinos rejeitaram a proposta de partilha, enquanto os líderes sionistas, que até então pouco tinham de um território lega­lizado, aceitaram os termos propostos. Esse aconte­cimento marcou o início de um processo conhecido como limpeza étnica na Palestina. Com o término do Mandato Britânico, os sionistas intensifica­ram seus esforços para invadir e tomar terras palestinas além do que era sugerido na Resolução 181. David Ben-Gurion[3], líder da Agência Sionista e da Haganah[4], deu início ao processo de genocídio conhecido como Plano Dalet [15], que con­sistia em uma série de ataques contra as populações das cidades palestinas. Um dos ataques mais brutais ocorreu próximo a Jerusalém, enquanto os britânicos ainda estavam presentes, nos dias 9 e 10 de abril. [1] A imigração de euro-judeus para Palestina iniciou após o Primeiro Congresso Sionista, realizado em Basiléia, na Suíça, em 1897; na qual foi aprovada a fundação de um lar judaico na Palestina. O Congresso foi organizado e presidido pelo jornalista austro-húngaro Theodor Herzl. [2] Em 1916, os governos do Reino Unido, França e Império Russo partilharam secretamente as províncias árabes dos otomanos. O acordo (Sykes-Picot) assinado pelos diplomatas Mark Sykes (britânico) e Georges-Picot (francês) dava ao Reino Unido, autoridade colonial sobre a Transjordânia (atual Jordânia) e a Mesopotâmia (Iraque de hoje), enquanto a França deteria poder colonial sobre a Síria e Líbano. Ao mesmo tempo, o Império Russo assumiria poder sobre as regiões do Cáucaso. A Palestina foi reclamada por todas as três potências. Ficou decidido que esta região ficaria sob administração internacional até que seu futuro fosse acordado entre as requerentes. Em 1923, foi ratificado pela Liga das Nações o Tratado de Lausanne concedendo ao Reino Unido a administração do território. Formalizado o domínio britânico nos territórios árabes, o Reino Unido subdividiu-o em duas áreas administrativas: Palestina e Transjordânia. [3] David Ben-Gurion nasceu na Polônia. Imigrou para a Palestina em 1906. Se tornou um dos líderes do Sionismo Trabalhista, onde afirmaria em uma das reuniões “Se eu soubesse que seria possível salvar todas as crianças da Alemanha ao trazê-las para a Inglaterra ou apenas metade ao transportá-las para à Terra de Israel, então eu optaria pela segunda alternativa. Pois temos que tomar em consideração não apenas as vidas destas crianças, mas também a história do povo de Israel.” (1948). [4] Após a autoproclamação de independência, o Haganah foi dissolvido e se tornou o exército israelense. Oficialmente o exército se chama, Israel Defense Forces (IDF), ao qual palestinos e organizações de direitos humanos preferem chamar de Israel Occupying Forces (IOFS). No livro “Haganah”, o autor Munia Mardor, ex-oficial da força escreve, “Um dos principais objetivos da Haganah, tal como movimento sionista em geral, era abrir caminho aos imigrantes que desejavam entrar na Palestina”.

  • A brutalidade do plano dalet, o massacre de Deir Yassin e a catástrofe Palestina

    No decorrer do Plano Dalet, milícias do Irgun Zvai Leumi e Stern Gang[1] – consideradas organizações terroristas pelos britâni­cos devido a ataques contra civis, como o atentado ao Hotel King David que resultou na morte de 91 pessoas – invadiram a aldeia de Deir Yassin. Os 400 habitantes da aldeia acordaram com explosões de granadas sendo lançadas em suas casas. Com o apoio da Haganah, os parami­litares começaram a disparar contra os moradores desarmados. Mais tarde, soldados da Haganah tes­temu­nhariam afirmando que membros do Irgun e do Stern cometeram estupro e mutilação contra as vítimas, além de queimar os corpos e saquear as casas. Ao final do massacre, 250 pessoas haviam sido assassinadas. [16] Os sobreviventes do extermínio foram forçados a marchar por bairros judeus em Jerusalém antes de serem executados [17]. No livro “Comandos Palestinos”, o autor Jacques Mansour Verges, comenta que durante esse episódio, Menachem Begin[2] como líder do Irgun, com o objetivo de espalhar o pânico entre os palesti­nos, convocou a imprensa para exibir os cadáveres como troféu. [18] As milícias sionistas continuaram atacando as cidades palesti­nas, expulsando, mutilando e matando palestinos. Em abril já haviam capturado Haifa, uma das maiores cidades. Os árabes que per­maneceram no país foram cada vez mais empurrados para os limites do território. Em junho, já com grande parte do Plano Dalet executado, Ben-Gurion, respondendo a alguns dos dirigen­tes da Agência Judaica que ousavam questionar as dimensões e bru­talidade em curso, gritou para os dirigentes na sala: “Eu sou pela transferência compulsória, não vejo nada imoral nela”.David Ben-Gurion. [14] . Oficialmente, a presença britânica na Palestina terminou em 14 de maio de 1948. Logo após a retirada dos britânicos, Ben-Gurion declarou a independência do Estado de Israel, ocorrendo esse evento entre os escombros e os corpos de palestinos, um momento amplamente identificado como Nakba, que significa “catástrofe” em árabe. Evento que marcou o início do êxodo palestino provocado por Israel. No artigo “Os 71 anos da Nakba e a limpeza étnica sionista”, disponível nos arquivos digitais da Federação Árabe Palestina (FEPAL), Raul Carrion, baseado nas extensas pesquisas de Norman Finkelstein e Ilan Pappé e sua própria, afirma que um total de 774 cidades e vilas pales­tinas foram ocupadas, das quais 531 foram comple­tamente destruídas. Foram registrados 70 massa­cres, resultando em mais de 15 mil mortes, além de milhares de feridos e mutilados. Aproximadamente 800 mil palestinos foram expulsos de suas terras, enquanto aqueles que resistiram à expulsão foram forçados a se refugiar em áreas periféricas, ficando apenas com 22% de seu território original, o que é menor do que o sugerido pela Resolução 181 da ONU. Essas áreas são conhecidas como Cisjordânia e Faixa de Gaza, enquanto os restantes 78% se tornaram o Estado de Israel, conforme conhecemos hoje. [17] [1]   Stern “LEHI”. Foi considerada a organização mais fanática e perigosa durante o Mandato Britânico. Em janeiro de 1941, o Stern enviou uma carta ao embaixador da Alemanha nazista sugerindo união dos esforços entre judeus e nazistas contra os ingleses. Yitzhak Shamir, líder do Stern, que tinha conhecimento desta carta, seria eleito Primeiro-ministro de Israel em 1983. Em 1993, Yasser Arafat teve conhecimento desta carta, o líder palestino se recusou a usá-la. Esta carta está guardada nos arquivos do Ministério de Relações Exteriores em Berlim, e nos arquivos do Yad Vashem (Memorial do genocídio), em Jerusalém, sob a cota E 234151-8. [2]   Menachem Begin, nasceu em Belarus durante o Império Russo. Ficou conhecido após o ataque ao Hotel King David, fazendo 91 mortos. Tornou-se líder do Irgun em 1947. No ano seguinte, por traficar armas, o Irgun entrou em conflito com o exército israelense, o combate levou ao naufrágio de um navio (Altalena) carregado com armas e munição. Como um dos líderes responsáveis pela coalizão que fundou o Likud, tornou-se Primeiro-ministro de Israel de 1977 – 1983. Em 1981 ordenou o atentado ao reator nuclear Osiraq/Tammuz, no Iraque. O ataque foi condenado internacionalmente, incluindo o presidente americano Ronald Reagen. Em 1982, autorizou a invasão ao Líbano e sucessivamente o ataque aos campos de refugiados de Sabra e Chatila. Em 1977, negociou os Acordos de Camp David com o presidente do Egito, Muhammad Anwar al-Sadat, pelo qual, ambos receberam o Prêmio Nobel da Paz de 1978.

  • Violações de direitos humanos e a supressão da liberdade de imprensa na ocupação israelense

    Para cumprir as promessas feitas durante as campanhas, que incluem a oferta de anexação de mais território para colônias isra­elenses e a reivindicação de soberania sobre o estado palestino, em alguns casos, até mesmo a expulsão dos remanescentes palestinos, é necessário manter um contínuo ciclo de violações. Com o intuito de evitar as repercussões internacionais decorrentes dessas transgressões, a estratégia preferível é impedir que jornalistas tenham acesso e divulguem os crimes da ocupação. Em 2019, os moradores da vila de Humsa Al-Fawqa, no norte do Vale do Jordão, acordaram com a presença de soldados e máquinas pesadas para mais um despejo ilegal. A ordem era que 15 famílias, totalizando 98 membros, deixassem suas casas para dar lugar a mais uma zona militar israelense. As chamadas “zonas militares fechadas” são áreas no território palestino designadas pelo Estado de Israel para o treina­mento de seus soldados, utilizando munição real. Na verdade, essas áreas são usadas para restringir a liberdade de movimento e ocupar ainda mais território palestino, uma vez que o acesso é estrita­mente controlado pelas forças militares. Segundo o relatório da Comissão Palestina de Colonização e Resistência ao Muro, apenas em 2020, 737 palestinos foram forçados a abandonar suas casas sob o pretexto de estarem localizadas em áreas declaradas por Israel como “zonas militares fechadas”. Essas áreas, utiliza­das como postos avançados de ocupação, expul­sam palestinos de suas terras para futuro avanço de assentamentos israelenses e impossibilitam a cobertura jornalís­tica nessas regiões. [22] Vários profissionais de diferentes veículos de imprensa se dirigiram ao local para cobrir o des­pejo. Khaled Bdair (Al Ghad TV), Shadi Yaser Jarar'a (freelancer), Mahmoud Fawzi Abdul Ghani (freelancer), Hazem Emad Naser (Al Najah), Shaza Abdul Rahman Hammad (freelancer), Ranin Rateb Sawafta (Ajyal Radio Network) e Hisham Abu Shakra (Anadolu) foram presos e tiveram suas credenci­ais de imprensa apreendidas. Os jornalistas só foram liberados depois que o despejo já havia ocorrido. [9] A liberdade de movimento, muitas vezes referida como o direito de ir e vir, é um direito fundamental consagrado no Artigo.13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A declaração estipula que todas as pessoas têm o direito de se deslo­car, residir e circular livremente dentro das fronteiras de um país. No entanto, a realidade difere consideravelmente, quando se trata de jornalistas que tentam documentar tais violações de direitos. Monthir Mohammed Al-Khatib, da Al Ghad TV e membro executivo do PJS foi detido por tentar registrar a violação do direito de ir e vir de civis no Checkpoint de Qalandia. Apesar de sua liber­tação posterior, Al-Khatib foi ameaçado de ter seu equipamento quebrado caso tentasse docu­mentar novamente o checkpoint. [9] Enquanto realizava pesquisa de campo para este projeto, minha esposa e eu atravessamos o mesmo checkpoint – em janeiro de 2023 – e nos deparamos com uma situação semelhante. Logo na primeira das várias inspeções de segurança às quais fomos submetidos, os soldados identificaram as câmeras fotográficas na minha mochila. O subsequente interrogatório foi longo e repetitivo, com os soldados fazendo inúmeros questionamentos sobre minha identidade, minha profissão e com qual propósito estávamos na Palestina. Na ocasião, sofremos com agressões verbais, enquanto os soldados mantinham seus fuzis apontados em nossa direção, o que intensificou a tensão do momento. Após superarmos muitas dificuldades, finalmente conseguimos passar pelo checkpoint e seguir em direção a Jerusalém. Não cabe aqui descrever com mais detalhes a experiência de ficar cara a cara com os jovens soldados de Israel, já que descrições as ficaram documentadas no livro “À procura da Terra Santa”, diário escrito junto com Diana Emidio. Posteriormente, Musa Alshaer, diretor do PJS, me disse que se eu fosse um jornalista palestino, o tratamento teria sido completa­mente diferente, e provavelmente não teria conseguido atravessar o checkpoint sem enfrentar graves consequências. Conhecendo o histórico de comportamento agressivo por parte dos soldados israelenses, mesmo com estrangeiros e ainda mais com jornalistas e ativistas estrangeiros, tenho plena consciência de que a afirmação de Musa não foi feita de forma leviana. A política do Estado de Israel é impedir o movimento palestino a todo custo, mesmo que seja para fora do território. Omar Nazzal, também membro da Secretaria Geral do PJS, foi proibido de atravessar o checkpoint que dá acesso à fronteira com a Jordânia. Nazzal representaria o sindicato palestino em uma conferência da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) na Tunísia. Apesar de se tratar de dois territórios árabes, as fronteiras internacionais com Jordânia e Egito são controladas pelos soldados israelenses desde a anexação em 1967. Desta maneira, a restrição arbitrária do estado israelense proíbe os palestinos de saírem de seu próprio país. Na Faixa de Gaza, as restrições de movimento são completa­mente diferentes. Como parte das negociações do primeiro acordo de Oslo, mediado pelos noruegue­ses e assinado por Yasser Arafat e Yitzhak Rabin em 1993, ficou estabelecido que o Estado de Israel se comprometeria a retirar o exército de Gaza e Jericó, transferindo a responsabilidade adminis­trativa dessas áreas para a Autoridade Nacional Palestina (ANP) [2] [3]. Devido ao assassinato de Rabin (1995) por um extremista israelense contrário à paz, a reti­rada dos assentamentos só iniciou em 2005, cerca de doze anos após o compro­misso ter sido firmado. O plano, iniciado por Ariel Sharon como uma tentativa de pôr fim à Segunda Intifada, resultou na evacuação de 8.000 colonos, que foram realocados em outras áreas palestinas contestadas internacionalmente. Desde então, como não há assentamentos na região da Faixa de Gaza, o Ministério da Defesa estrategicamente reposicionou as tropas na “fronteira” do terri­tório, incluindo a passagem de Rafah, única saída internacional para o Egito, e nunca mais saiu, transformando Gaza em um campo de exter­mínio onde a indústria bélica de Israel testa suas armas em uma população cativa para depois vendê-las para outros estados.

  • Ministro da defesa e o poder executivo israelense

    Como parte do poder executivo, o Ministro da Defesa ocupa o segundo cargo de maior poder no governo israelense. É de sua responsabilidade supervisionar as forças policiais, as Forças de Defesa Israelenses (IDF), a Israel Military Industries (IMI) [1] e a Israel Aerospace Indus­tries (IAI), que projeta, desenvolve, produz e mantém aeronaves civis, drones, caças, mísseis e sistemas baseados no espaço. Baseada na alegação de “segurança nacional” respaldado por leis de segurança estabelecidas pelo Knesset, o Ministério da Defesa impõe limitações e restrições em todas as “fronteiras” de Israel e também na Palestina, com destaque para a Linha verde, que eles próprios delimitaram. Essas restrições se estendem até mesmo à passagem de Rafah, que representa a fronteira internaci­onal entre a Palestina e o Egito. [1] A Israel Military Industries é uma empresa israelense de armamentos conheci­da por fabricar diversas armas utilizadas em diferentes contextos, incluindo a ocupação da Palestina e outras regiões do mundo. Seu portfólio abrange desde pistolas até metralhadoras, além da produção de bombas, mísseis, tanques e granadas.

  • Forças de defesa (IDF) ou ocupação (IOF) israelense?

    As IDF, ou o exército de Israel, foi formado por paramilitares da Haganah e outras milícias consideradas terroristas pelos britânicos [23] [24] [19]. As IDF respondem ao Ministro da Defesa e ao governo de Israel. Os combatentes são ensinados em suas primeiras semanas de serviço que as IDF, desde o soldado raso até o Chefe do Estado-Maior, servem ao povo e a seus oficiais “democratica­mente” eleitos – conceito que abordaremos mais adiante – e estão firmemente sob sua autoridade. O Governo nomeia o Chefe do Estado-Maior a cada quatro anos, conforme a recomendação do Ministro da Defesa. O Chefe do Estado-Maior nomeia seus próprios oficiais superiores e assim por diante na cadeia de comando. [25] Por ordens do Ministro da Defesa, as Forças de Defesa Israelenses impedem a entrada de jornalistas, acadêmicos, pesqui­sadores estrangei­ros, organizações de ajuda humanitária e universidades internacionais no território de Gaza. Da mesma forma, proíbem que jornalistas palestinos deixem o território, mesmo em situações humanitárias envolvendo jornalistas feridos pelas próprias forças de segurança de Israel. Vários exemplos disso ocorreram durante a Grande Marcha do Retorno (2018-2019) na Faixa de Gaza. Havendo confusão na nomenclatura entre Forças de Defesa e Força de Ocupação, optei, por me referir a esse exército como IDF quando mencionado como defesa e IOF quando mencionado como uma força de ocupação.

  • A Grande Marcha do Retorno: a resistência palestina diante da repressão israelense

    A Grande Marcha do Retorno, foi uma manifestação popular programada para ocorrer todas às sextas-feiras, de 30 de março até o dia 15 de maio. Organizada por acadêmicos da Universidade de Gaza, as manifestações iniciavam uma nova tendência, adotada tanto pela sociedade civil como pelos grupos armados de resistência. A estratégia seguia as mesmas características de desobediên­cia civil e não violência da Marcha do Sal na Índia (1930), e combatia o mesmo sistema de Apartheid que sul-africanos defrontaram no Levante de Soweto (1976). Mesmo adotando a estratégia de manifestação pacífica e desobediência-civil, o Estado de Israel respondeu com tática de sempre. Declarando a fronteira como zona militar fechada, o Primeiro-ministro e o Ministro da Defesa enviaram soldados de infantaria, franco-atiradores, blindados, helicópteros e tanques de guerra para revogar a liberdade de expressão dos pales­tinos e a licitude de sua manifestação. O uso de munição letal e não-letal contra manifestantes do outro lado da Linha verde, alcançou níveis alarmantes já na primeira semana, resultando em 15 vítimas fatais, inclu­indo dois homens atingidos por um disparo de tanque. Naquela primeira sexta-feira, mais de 1.400 pessoas ficaram feridas, sendo que 800 delas foram atingidas por disparos de munição letal. A resposta conjunta do Executivo, Legislativo e Judiciário de Israel foi extremamente brutal ao longo do curso de cada dia de manifestação, resultando em mais mortos e feridos.

  • Israel usa munição expansiva, proibida pela Convenção de Genebra

    O exame balístico, conduzido por patologistas forenses, analisou as fotografias das lesões causadas pelas IOF durante as manifestações da GMR. Baseado na distância aproximada dos disparos e nas dimensões das feridas examinadas, os casos exibiram as características típicas de ferimentos causados por munição expan­siva, também conhecida como ponta oca. Esse tipo de munição possui uma cavidade na extremi­dade que captura ar comprimido durante o trajeto, fazendo com que o projétil se expanda ao atingir o alvo, resultando em feridas mais amplas e destrutivas, associadas a altas taxas de letalidade. Não é possível identificar a munição específica ou a arma utilizada, dado que milhares estavam apontadas para os palestinos na Linha verde. Contudo, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirmou que muitas das feridas tratadas por seus voluntários apresentavam as mesmas características observadas em ferimentos causados por munição expansiva. Em alguns casos, as feridas internas dos pacientes eram do tamanho de um punho cerrado. A equipe médica relatou na época que essas lesões frequentemente resultavam em amputações de membros e outras sequelas que acompanhariam as vítimas por toda a vida. Marie Elisabeth Ingres, chefe de missão da MSF na Palestina, declarou que “mais da metade dos 500 pacientes que atendemos em nossas clínicas tinham feridas em que a bala pulverizou literalmente o tecido ao destroçar o osso.” Essa descrição é semelhante ao ferimento sofrido por Adham, quando a munição atingiu sua perna, causando sérios danos ao dilacerar músculos e romper tendões e ligamentos. [29] Cada munição é projetada para uma finalidade específica. Os fabricantes consideram o design da jaqueta, o revestimento, a den­sidade seccional e a velocidade para maximizar a ferida na entrada, no trajeto ou na saída do projétil. Inicialmente desenvolvidas para abater animais de grande porte com um único disparo, visando reduzir o “sofrimento desnecessário” dos animais, as balas expan­sivas acabaram se tornando comuns em conflitos armados devido ao poder destrutivo que exercem. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha denunciou os britânicos pelo uso de munição expansiva, argumentando que ela infligia ferimentos inumanos e devastadores. Na Primeira Conferência de Paz, realizada em 1899 em Haia, o uso de munições expansivas foi proibido. A declaração estabelece que, em tempos de guerra, as partes devem se abster de utilizar “balas que se ex­pandem ou mudam de forma facilmente dentro do corpo humano”. Isso abrange as balas de ponta mole, com revestimento de metal parcial e ponta exposta, e as balas de ponta cruzada, com incisão em cruz na ponta, conhecidas como “Dum Dums”. Embora o uso da munição expansiva tenha sido proibido mesmo em tempos de guerra, a fabricação e o uso dessas munições nunca foram interrompidos. O acordo foi ratificado por todas as grandes potências, exceto pelos Estados Unidos, que alegaram que “o sofrimento pode ser justificado pela necessidade militar”. Defensores do porte e uso de armas de fogo, como a estadunidense National Rifle Association (NRA), sustentam o direito e promovem o uso de munição expansiva, argumentando que esse tipo de munição extremamente letal está “menos propenso a atravessar o alvo, causar ferimentos por ricochete e, ocasional­mente, assumindo que algumas balas expansivas são mais precisas”. É impossível confirmar o uso de balas expansivas em Gaza, embora isso explique os altos índices de ferimentos graves, ampu­tações e mortes naquele período, como o caso de Yasser Murtaja, o primeiro jornalista morto na GMR, que teve os órgãos internos dilacerados mesmo usando colete à prova de balas. Considerando que a maioria dos manifestantes foi atingida a uma média de 150 metros dos atiradores de elite, a proximidade dos disparos provenientes desses rifles, contra alvos tão próximos, resultou em ferimentos mais graves devido à velocidade e potência aumentada das balas. Isso sugere que o uso de rifles de precisão pelas Forças de Ocupação de Israel (IOF), em conjunto com munição expansiva projetada para ser ainda mais letal, denota uma violência excessiva por parte do Estado, como se um tiro de munição letal já não fosse suficiente. O governo israelense negou as acusações de uso de munição expansivas, alegando que sua munição padrão é a “Full Metal Jacket,” e que as IOF só abriram fogo contra os palestinos como último recurso, agindo de acordo com os procedimentos operacio­nais padrão. Mesmo que não seja de uso padrão das IOF, qualquer soldado poderia adquirir munição expansiva em lojas online, pois ela está disponível em diversos calibres, desde pequenas pistolas até os M-16 utilizados pelo exército, e pode ser comprada por um preço médio de 3 dólares por unidade. Três dólares foram o preço para tirar a vida de Murtaja, ferir a perna de Adham Al-Hajjar e afetar milhares de outros palestinos.

  • Adham Al Hajjar: a repressão contínua contra jornalistas na Faixa de Gaza

    No dia 6 de abril de 2018, durante as manifestações na Faixa de Gaza, Adham Al-Hajjar foi para o trabalho carregando o capacete e o colete à prova de balas, como se estivesse se preparando para o campo de batalha. Adham não era um soldado, mas sim um jornalista. Chegando ao local onde os manifestantes se reuniam, Adham testemunhou uma cena que chamou sua atenção. Um palestino com deficiência avançou em direção a um dos portões do checkpoint agarrando as grades e puxando com a determinação de quem parecia capaz de arrancá-lo com as mãos. O olhar perspicaz do fotógrafo capturou o simbolismo inerente à cena, que como toda comunicação não-verbal, representava um pedaço da luta de cada palestino ali presente. Esse seria o momento para seu primeiro clique, mas antes que ele pudesse agir, outro clique foi dispa­rado. Adham foi atingido na perna. Seu corpo se contorceu, levando o jornalista ao chão antes mesmo de conseguir retirar sua câmera da bolsa. A dor e o impacto foram tão avassaladores que ele desmaiou. Quando recobrou a consciência, estava dentro de uma ambulância, ainda em estado de choque. “A dor e o impacto foram tão fortes que pensei que tinha perdido a perna. A bala entrou entre os ossos e rompeu todos os tendões e a musculatura. Desmaiei de dor, só acordei na ambulância, a todo momento eu perguntava aos paramédicos onde estava minha perna, perguntava se eles pegaram a minha perna, ficava pensando o que seria da minha vida, da minha profissão?” Adham al-Hajjar, 2022. [26] O período de manifestações semanais na Faixa de Gaza, entre o início de 2018 e meados de 2019, ficou marcado como um dos eventos mais catastróficos na história recente da Palestina. Centenas de vidas perdi­das e outras ainda afetadas por mutilações, ferimentos e pessoas novamente desabrigadas, sem mencionar os danos à infraestrutura e aos serviços básicos de distribuição de energia e água que deixaram cicatrizes profundas na popu­lação prisioneira em Gaza. Para Adham, uma única bala redefiniu o curso de sua vida e anulou todos os planos que havia feito para o futuro. As medidas tomadas por Israel, praticados pelas IOF e autori­zados pelo Ministério da Defesa, geraram repulsa na comuni­dade internacional. O principal representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, exortou Israel a garantir que suas forças de segurança não recorressem ao uso excessivo de força durante as manifestações em andamento. Mais uma vez, Israel rejeitou todas as acusações e saiu novamente impune dos crimes de lesa-humanidade. “A perda de vidas é deplorável, e o número impressionante de ferimentos causados por munição real apenas confirma a sensação de que força excessiva foi usada contra os manifestantes, não uma, nem duas, mas repetidamente.” Zeid Ra'ad Al Hussein, 2018. [27] Em seu pronunciamento, Zeid alertou que caso não houvesse investigações para responsabilizar e processar os culpados pelo crescente número de mortos e feridos, a situação se agravaria e estenderia com incontáveis outros casos de violações aos direitos humanos. – O Alto Comissário não poderia estar mais certo. Os soldados israelenses estavam atirando desenfreadamente em manifestantes palestinos que não representavam risco a segurança de Israel. Mesmo com a queima de pneus e o arremesso de pedras ou coquetéis molotoves, segundo Zeid, lançados de uma distância significativa contra forças de segurança altamente protegidas em posições defensivas, não poderiam constituir uma ameaça que justificasse o uso de munição real contra os manifestantes. “O fracasso de Israel em processar consistentemente as violações cometidas por membros de suas forças de segurança os encoraja a usar força letal contra seus semelhantes, seres humanos desarmados, mesmo quando não representam ameaça.” Zeid Ra'ad Al Hussein, 2018. [27] As preocupações emitidas pela ONU fizeram soar o alarme, mas nem todos da comunidade internacional concordavam com as denúncias. No Parlamento do Reino Unido, a Iniciativa de Amigos de Israel (Friends os Israel Initiative - FOLL) organizou um evento para apoiar o uso de munição real contra palestinos desarmados. A manifestação de natureza hedionda da FOLL, contra os “comba­tentes palestinos” não foi nenhuma surpresa se considerada que, mesmo estando no Oriente Médio, a organização tem motivações baseadas “na firme convicção de que Israel faz parte do mundo ocidental” – como se isso soasse como um alvará para cometer crimes de guerra contra os povos bárbaros do oriente. [28] No Parlamento, o grupo, que se autodeclara “preocupado com o avanço do islamismo radical”, afirmou que é um direito do Estado israelense se “defender” usando munição real contra os “alvos legítimos”, no caso, palestinos desarmados. Outras alegações, tão ou mais absurdas do que já haviam sido proferidas, ecoaram pelos corredores do Parlamento Britânico. Na contramão de todos os relatórios internacionais, Richard Kemp, coronel aposentado do exército britânico, expressou na Câmara dos Comuns sua convicção de que o exército israelense salvou milhares de vidas de civis inocentes na cerca de Gaza. – Não se sabe baseado em quê, nem de onde ele tirou essa falácia. Kemp já é uma figura conhecida por defender publicamente o direito ocidental de massacrarem outros povos. Em outra ocasião, criticou os esforços do exército britânico para promover maior diversidade étnica e de gênero. Em um artigo publicado pelo The Times, ele condenou o parlamentar por estigmatizar todos os jovens muçulmanos como “terroristas em potencial”. Em entrevista ao Belfast News Letter, Kemp expressou preocupação com as investigações de crimes históricos, afirmando que é “óbvio que alguns soldados cometem erros, é claro, mas há uma diferença muito clara entre eles e os terroristas. Os soldados se comprometem a cumprir a lei, enquanto os terroristas se dedicam a mutilar e assassinar. Eles devem ser tratados de forma diferente.” Em 2015, durante uma entrevista ao The Jewish Post, Kemp afirmou: “Não estou sugerindo que todos os muçulmanos sejam extremistas ou apoiem a violência e o terrorismo. Mas o que eu diria é que a esmagadora maioria dos muçulmanos se opõe a Israel e é antissemita. “Kemp e Foll foram apenas alguns que proferiram absurdos em público para defender a fantasia de um Estado que estava literal­mente disparando para matar uma população civil e desarmada. Disparar contra manifestantes desarmados, sob a alegação de legítima defesa por parte de soldados altamente protegidos atrás de barreiras de segurança, não apenas constitui uma grave violação dos direitos humanos, mas também configura crimes de guerra, dado o uso de munição proibida mesmo em cenários de conflitos armados entre exércitos. Como coronel aposentado de um exército que colonizou metade do planeta durante os séculos XIX e XX, Kemp deveria estar ciente desses crimes.

  • Saúde e bem-estar, um direito inerente que Israel insiste em violar

    Gravemente ferido, Adham Al-Hajjar foi levado às pressas para o hospital. Após a limpeza e o curativo da ferida, os médicos infor­maram que não possuíam os recursos necessários para tratá-lo devido à gravidade da situação. No setor de saúde, os impactos foram profundos. À medida que as semanas avançavam, os hospitais em Gaza enfrentaram o colapso de várias unidades de saúde, sobrecarregados pelos aten­di­mentos de urgência e emergência que inundavam suas portas a cada sexta-feira. Mais de 6.000 indivíduos foram atingidos por munição real, muitos deles necessitando de internação para amputações de membros, gerando questionamentos sobre o uso de munição ex­pansiva. Esse influxo massivo de feridos sobrecarregou todos os demais tratamentos eletivos, resultando naquilo que a organização Médicos Sem Fronteiras chamou de “emergência de assistência médica em câmera lenta”. Outra tática de crueldade empregada para agravar a crise no sistema de saúde foi o direcionamento de tiros contra socorristas. Musa Abu Hassainen, de 35 anos, vestia um colete paramédico com faixas refletivas quando foi atingido. Ele prestava assistência aos manifestantes feridos à 300 metros da linha verde. Socorrido por seus colegas, ele não resistiu ao ferimento e faleceu a caminho do hospital. Uma história semelhante ocorreu com Abed Abdullah Qotati, de 22 anos, também paramédico, que estava carregando uma maleta de primeiros socorros quando foi fatalmente atingido por munição real. O ataque deliberado contra socorristas foi confirmado por um relatório da ONU em 2019, uma vez que todas as vítimas estavam identificadas como socorristas e não como participantes das manifestações. Nas palavras do Comissário Zeid, “enquanto exerciam seu direito de protestar, eles se aproximaram de uma cerca ou de alguma forma chamaram a atenção”. Na Grande Marcha do Retorno, ao que tudo indica, os atiradores tinham como alvo os coletes azuis que identificavam os jornalistas e os vermelhos que indicavam os paramédicos. Para os jornalistas, o perigo estava em documentar os crimes ocorridos e divulgá-los ao mundo, enquanto para os socorristas, a ameaça residia na sua capacidade de salvar vidas que os soldados tentavam abater. “Eu sou jornalista, eu tinha o direito de estar lá e trabalhar. Todo jornalista está protegido por leis internacionais. A distância não importa, tanto nós jornalistas como os paramédicos que estavam lá e também foram baleados, estávamos trabalhando quando fomos atingidos. Quem impõe a fronteira na Palestina são os israelenses. Israel sempre encontra desculpas para justificar o porquê atira em jornalistas e paramédicos.”  Adham, 2022. [30] O sistema de saúde em Gaza, agonizava como os próprios pacientes. Adham foi deitado em uma maca, com a esperança de que uma equipe médica francesa chegasse em breve para tratar sua perna ferida. As 22 clínicas da UNRWA, responsáveis pelos servi­ços de saúde primária para cerca de 1,4 milhão de pessoas, tiveram que interromper os procedimentos eletivos para priorizar os primeiros socorros aos baleados durantes as manifestações. Essa decisão teve um impacto prolongado e prejudicial em todos os ser­viços de saúde e tratamentos médicos de outras pessoas, incluindo aquelas em tra­tamentos delicados, como câncer e hemodiálise. Incapacitadas, as clínicas não dispunham dos recursos necessá­rios para lidar com procedimentos cirúrgicos para lesões causadas por munição real, e a escassez de suprimentos médicos devido ao bloqueio israelense agravou ainda mais a situação. Após ser deitado na maca, o jornalista esperou por três longos dias até a chegada da equipe médica que lhe foi prometida. A primeira cirurgia foi uma verdadeira maratona, com duração de oito longas horas. O jornalista passou os três meses seguintes no hospital, com sua perna imobilizada em uma posição dobrada, uma medida necessária para permitir que seus ossos colassem. Os médicos que realizaram a cirurgia, reconheceram suas limitações, observando que nenhum hospital em Gaza dispunha dos recursos terapêuticos adequados. Após três meses, uma nova equipe assumiu o caso, argumentando que a imobilização da perna estava equivocada e que uma nova intervenção seria necessária. Nos 45 dias seguintes, Adham permaneceu confinado à cama, com sua perna sendo gradualmente esticada por pesos suspensos para fora da maca. Essa foi uma situação angustiante e extrema­mente dolorosa. Cada indivíduo possui o direito inalienável a um padrão de vida que assegure a saúde e o bem-estar, tanto para si quanto para sua família, direito sistematicamente violado devido ao bloqueio imposto por Israel. Além dos ataques diretos à população palestina, que levaram o já precário sistema de saúde ao colapso, Israel fre­quentemente interrompe o fornecimento de energia na região, forçando hospitais e outras infraestruturas a dependerem de gera­dores movidos a diesel importado, cuja entrada também depende da vontade do estado israelense. Como resultado das restrições à energia e ao combustível, procedimentos cirúrgicos tiveram que ser realizados literalmente no escuro, com apagões que duravam até 12 horas por dia, impactando na capacidade dos hospitais de proporcionar cuidados de saúde adequados e essenciais. Os inúmeros procedimentos dolorosos poderiam ter sido evitados ou ao menos aliviados se o governo israelense tivesse permitido a saída para tratamento fora do território da Faixa de Gaza de um jornalista que eles mesmos feriram. A assistência médica é um direito humanitá­rio que a força ocupante deve garantir, algo que, não ocorreu. Em uma estratégia de punição coletiva, além de prejudicar o sistema de saúde, atacar socorristas, cortar o fornecimento de energia dos hospitais e embargar o combustível necessário para os geradores, Israel estava também impedindo que os feridos buscassem trata­mento médico em qualquer lugar que não estivesse sob seu controle. Adham foi um entre os milhares de palestinos cujas vidas foram drasticamente alteradas pelas balas israelenses. Um caso adicional é o do fotógrafo e estudante de jornalismo Yousef Al-Kronz (19 anos), baleado nas duas pernas enquanto cobria a manifestação em 30 de março. Surpreendentemente, mesmo após o primeiro disparo que o derrubou, alguém decidiu atirar na outra perna. Yousef estava claramente identificado como um profissio­nal de imprensa, usando capacete e colete à prova de balas azul. As organizações Adalah e Al Mezan apresentaram pedidos ao Ministério da Defesa de Israel, buscando autorização para trans­ferir Yousef para tratamento na Cisjordânia. O pedido foi negado. Após várias solicitações, a demora nas deliberações do Ministério de Israel e a piora do estado de saúde de Yousef levaram à amputação de uma de suas pernas. Somente após pressão de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, dois meses após a amputação, três juízes da Suprema Corte decidiram que o jornalista deveria ser autorizado a deixar Gaza para tratar sua outra perna na Cisjordânia. Yousef foi transferido para um hospital em Ramallah, onde passou por uma cirurgia que permitiu preservar sua outra perna. “Eu represento apenas um caso de uma pessoa  ferida em Gaza. Ainda há muitos feridos e doentes em Gaza que necessitam de atenção médica urgente. Eu tive a sorte de sair, mas outros ainda estão lutando para chegar a hospitais que poderiam salvar suas vidas. Peço a todas as pessoas de consciência que não fiquem caladas diante do que está acontecendo em Gaza.” Yousef al-Kronz acrescentou: “Este não é apenas o meu sofrimento, é o sofrimento de todos os habitantes de Gaza que estão sendo negados seus direitos humanos básicos viver com dignidade.” Yousef al-Kronz, 2018. Após vários meses de incansáveis esforços de organizações humanitárias e do Sindicato de Jornalistas para assegurar a transfe­rência para um tratamento médico fora de Gaza, Adham finalmente recebeu a autorização israelense. O jornalista passou por mais um pro­cedimento cirúrgico no Egito, com o plano de continuar o acompa­nhamento na Alemanha. Uma ONG internacional assumiu os custos hospitalares e os honorários, enquanto o jornalista e sua família arcaram com as despesas pessoais. No Cairo, os ortopedistas retiraram uma parte do fêmur e o enxertaram com platina abaixo do joelho. Ao longo dos 18 meses de tratamento médico, a vítima buscou assistência financeira para o tratamento na Europa. A embaixada alemã no Egito condicionou a concessão do visto à comprovação de recursos para a estadia. Ferido e impossibilitado de trabalhar para angariar os euros neces­sários, o jornalista regressou à Faixa de Gaza sem perspectivas. Para agravar a situação, dores surgiram nas áreas da perna submetidas às intervenções. A Autoridade Palestina, em colaboração com o Sindicato de Jornalistas, conseguiu autorização para um novo tratamento na Jordânia. No entanto, nessa fase, a movimentação de sua perna estava severamente restringida, e os esforços incansáveis de trata­mento provocaram uma deterioração óssea. A fragilidade de seus ossos chegou ao ponto de mal conseguirem sustentar seu próprio peso. Mesmo após diversas intervenções médicas, nenhuma terapia conseguiu restaurar a funcionalidade da perna ou aliviar suas dores. Em Gaza, Adham encontrou com um jornalista britânico do The Times que compartilhara a mesma cobertura das manifestações da GMR do dia 6 de abril. O britânico questionou como um jornalista palestino poderia ter sido atacado enquanto os jornalistas estran­geiros saíram ilesos. Adham não precisou pensar muito para responder ao britânico, “você tem um governo que protege seus direitos como ser humano e como profissional de imprensa, enquanto nós sequer temos um governo para garantir nossos direitos mais básicos.” O jornalista fora atingido dentro das fronteiras definidas por Israel, enquanto documentava manifesta­ções legítimas do povo palestino. Ele não representava ameaça a nenhum israelense, a não ser por registrar e transmitir as violações de seus próprios direitos. Qualquer jornalista ferido durante execução do trabalho, especialmente quando identificado, estaria protegido por leis internacionais, infelizmente, por ser um palestino, Adham Al-Hajjar não teve essa proteção. “Minha vida é Gaza. É quando eu pego minha xícara de café e me sento para olhar o mar. Esse é o único momento em que a dor diminui um pouco. Durante o tempo que passei fora, me senti como uma cobaia em experiências médicas. Cheguei a discutir com os médicos, dizendo várias vezes: 'Se vocês não podem me ajudar, pelo menos me deixem voltar para casa.’”Adham, 2022. [30] Estamos agora em 2023, e a agonia da espera persiste. Independentemente da sua origem palestina, religião ou qualquer outra característica, Adham é, acima de tudo, um ser humano dotado de direitos inalienáveis e indivisíveis. Consequentemente, é merecedor do respeito e proteção desses direitos, sem a necessidade de suplicar por eles, inclusive no que diz respeito ao acesso a serviços sociais essenciais. Ao impedir a divulgação das mensagens registradas por esse jornalista, o governo sionista transgrediu vários dos seus direitos mais fundamentais. Essa violação persiste toda vez que lhe é negado o direito à saúde, uma prerrogativa mínima que o Estado de Israel, como força ocupante, deve assegurar aos palestinos em Gaza para garantir um padrão de vida digno. O sofrimento de Adham é emblemático da contínua negação de direitos básicos a toda uma comunidade, perpetuando uma realidade dolorosa e injusta que perdura no tempo. “Nós, palestinos, lutamos pelo mínimo dos nossos direitos. Sabemos que é impossível conquistar todos, então lutamos pelo mínimo possível.” Adham, 2022. [30]

  • Attiya Darwish, mais um jornalista que israel arrancou o olho

    Novembro de 2018 Um caso semelhante ao de Adham ocorreu no mesmo período. Attiya Darwish documentava as manifestações nas proximidades da linha verde quando foi atingido por um disparo de borracha em seu antebraço. Ciente dos métodos empregados pelo exército para o controle de multidões, o jornalista se retirou para uma distância que julgou segura, persistindo em seu trabalho. Trezentos metros de distância não foi o suficiente, após já ter sido atingido pelo primeiro tiro, Attiya foi surpreendido por um segundo disparo. Os Princípios Básicos da ONU garantem que as forças policiais disponham de uma gama diversificada de recursos para a aplicação da lei, e considera-se abuso o uso de armas de fogo em manifesta­ções que apresentem risco de causar ferimentos ou morte a pessoas inocentes. A utilização de força letal é considerada legal apenas quando aplicada de maneira específica, em resposta a uma ameaça iminente de morte ou lesão grave, e exclusivamente após a exaustão de outros meios disponíveis. Este conjunto de princípios enfatiza, ademais, que o uso de força letal não deve ser a primeira ou principal opção.

  • EUA, cúmplice e aliado de todos os crimes e violações de Israel

    As violações cometidas pelo Estado de Israel contra os civis palestinos não seriam possíveis sem o apoio de fortes aliados, es­pecialmente quando um desses aliados possui poder de veto nas votações das Nações Unidas. Conforme o calendário original, as manifestações da Grande Marcha do Retorno encerrariam em 15 de maio, mas o presidente Donald Trump decidiu que era o momento certo para jogar gasolina na fogueira e incendiar ainda mais a situação. Na segunda-feira, dia 14 de maio, uma embaixada provisória dos EUA foi estabelecida dentro do consulado americano em Jerusalém. A irresponsabili­dade da “diplomacia americana” resultou na antecipação da última manifestação palestina para aquele mesmo dia. Enquanto a filha e o genro de Trump participavam da inaugu­ra­ção da nova embaixada, as forças de ocupação disparavam contra os manifestantes. Nesse dia, 58 vidas foram ceifadas por balas de três dólares cada, um montante que não seria suficiente para cobrir o custo de um simples canapé ou de uma taça de champanhe utilizada no brinde de Netanyahu e dos membros da família Trump. Para encobrir o fracasso diplomático de Trump e Netanyahu e legitimar o uso de munição real contra civis desarmados, ambos os governos invocaram o argumento do direito de Israel de preservar sua segurança dentro de suas fronteiras contra o que classificam como terroristas do Hamas. Para uma manifestação ser considerada fora do âmbito do di­reito à reunião pacífica, é necessário haver evidências substanciais de violência ou incitação à violência por parte de um número significativo dos manifestantes. No caso das dezenas de milhares de pessoas reunidas a cada sexta-feira, me pergunto quantas delas seriam necessárias para caracterizar um número significativo de manifestantes violentos. Seria realista pensar que milhares de militantes do Hamas estavam reunidos naquele dia e estariam dispostos a enfrentar um dos maiores exércitos do mundo, com suas armas de fogo, tanques e helicópteros? Mesmo se aceitarmos a hipótese descrita pelos governos israelense e americano, não se pode atribuir atos esporá­dicos de violência cometidos por alguns manifestantes aos demais, e muito menos justificar punições coletivas com o objetivo de silenciá-los. Alinhada ao aparato de propaganda sionista, a imprensa homogênea internacional optou por destacar imagens de palestinos queimando pneus ao longo da linha verde para justificar o uso da força empreendida pelo exército israelense. É questionável como o ato de queimar pneus em seu próprio território pode ser conside­rado um ato de violência, e de que maneira essa ação poderia ameaçar a segurança do Estado de Israel. Foram justamente essas as imagens que ganharam destaque na mídia em 14 de maio; exatamente aquelas que mostravam palestinos segurando paus e pedras ou queimando pneus e não aquelas de jornalistas e paramédicos baleados. Essas imagens foram usadas para deslegitimar uma manifestação palestina legítima, que incluía pessoas como Wisal Khalil, Izzedine Al-Samak, Disse Al-Kheir, Ahmad Al-Sha'ar, Talal Matar, Saadi Abu Salah e Ibrahim Zarqa, todos eles, crianças assassinadas pelos disparos de munição real do exército de ocupação. – Será que eles também eram militantes do Hamas? Organizações de direitos humanos que atuam nos Territórios Palestinos Ocupados e em Israel denunciaram o massacre em andamento. Funcionários das Nações Unidas uniram suas vozes para condenar a agressão desenfreada de Israel. O Kuwait também expressou sua preocupação com as violações dos direitos humanos cometidas pelas forças israelenses e propôs duas resoluções ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, sugerindo uma inves­tigação inde­pendente e transparente sobre os assassinatos de manifestan­tes. – Advinha! Ambas as propostas foram vetadas pelo bom e velho aliado americano. As manifestações prosseguiram até o final daquele ano, sem perspectivas de cessar. Chegando em dezembro, Attiya Darwish, que acabara de ser atingido por um tiro de borracha, temia que pu­desse se tornar mais uma estatística daquele massacre. Após se afastar da multidão, Attiya apoiou sua câmera em seu pescoço para atender a uma chamada no celular que vibrava em seu bolso. Antes que pudesse dizer “alô,” uma bomba explodiu em seu rosto.

  • Israel usa bombas de gás para disparar diretamente em palestinos

    Uma bomba de gás lacrimogêneo atingiu diretamente o jorna­lista no lado esquerdo do rosto. Essa arma é clas­sificada como “não letal” e são comumente usadas para controle de multidões, embora não esteja isenta de causar danos, como a mortes ou ferimentos graves. Quando essas bombas são lançadas, explodem liberando um gás que causa irritação nos nervos ópticos, na pele e nas vias respiratórias. A combinação química presente nesses dispositivos é pouco conhecida, uma vez que não existem regulamentações que obriguem os fa­bricantes a divulgar os ingredientes utilizados. Normalmente, essas bombas são lançadas como granadas de mão, mas também podem ser dispara­das por armas que aumentam o alcance para mais de 300 metros, exatamente a distância em que o jorna­lista se encontrava. As orientações para o uso desse tipo de dispositivo sugerem um ângulo de disparo de 45º, para que a bomba exploda no ar e não atinja diretamente um alvo, uma vez que esses cartuchos se tornam projéteis e o impacto pode resultar em traumas graves. Mesmo o jornalista usando um colete à prova de balas e um capacete emprestados de um amigo, o impacto da bomba causou sérios danos. Após ser socorrido e levado para um hospital, os médicos identificaram várias fraturas nos ossos da mandíbula superior e inferior, além de hemorragia na cavidade ocular e no aparelho auditivo. Devido à gravidade de seu estado de saúde, ficou claro que ele não poderia receber tratamento adequado e deveria solicitar autorização de tratamento fora dos territórios ocupados.

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