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- A lei israelense que permite a prender crianças palestinas por lançarem pedras contra soldados israelenses
Em 2015, o Knesset promulgou a Emenda 120º do Código Penal israelense, estabelecendo penas mínimas obrigatórias de prisão para indivíduos condenados por atirar pedras ou realizar ações similares contra as Forças de Defesa de Israel (IOF). A legislação determina que as penas mínimas devem corresponder a um quinto da pena máxima, a qual pode variar de 10 a 20 anos, resultando em sentenças de dois a quatro anos de detenção. A interpretação desta emenda não permite a consideração das circunstâncias individuais, o que implica que os juízes não têm margem para avaliar a gravidade específica de cada situação. O princípio desta lei é aplicado aos palestinos que são cidadãos de Israel ou residentes de Jerusalém Oriental, e também é estendido a qualquer palestino na Cisjordânia ou Faixa de Gaza. Anteriormente, uma legislação correlata estabelecia uma pena máxima de 10 anos para indivíduos condenados por atirar pedras ou cometer ações semelhantes, sem a necessidade de comprovar a intenção de causar danos. A pena máxima anterior de 20 anos ainda se mantém quando os tribunais determinam que houve a intenção de causar danos. Esta lei não concede margem para que os juízes avaliem, de maneira razoável, a possibilidade de reabilitação para os envolvidos, os quais nem mesmo deveriam ser categorizados como "infratores". Tal situação pode ter repercussões substanciais, especialmente entre os jovens envolvidos em incidentes de arremesso de pedras.
- A perspectiva sobre a propaganda 'antiarabe' nos livros didáticos israelenses
A mensagem emitida por Janna Jihad serve como um alerta aos jovens israelenses, destacando um conjunto de sentimentos, crenças e normas que alimentam o ódio anti-árabe. Ela os identifica também como vítimas da ocupação. Argumento respaldado pela pesquisa realizada por Nurit Peled-Elhanan, filóloga e professora de literatura comparada da Universidade Hebraica de Jerusalém. Peled-Elhanan iniciou sua pesquisa após perder a filha em um atentado terrorista, trágica situação que a levou a tentar entender e determinar as origens do conflito entre israelenses e palestinos. Os resultados da pesquisa apontaram para a ideologia e a propaganda presentes nos livros didáticos israelenses como elementos contribuintes para o ódio aos palestinos. Peled-Elhanan examinou cuidadosamente o material didático fornecido pelo Estado e identificou uma ausência notável: ao longo de todos os anos escolares, as crianças israelenses não encontram uma única fotografia de uma pessoa palestina nos livros que estudam. Quando os palestinos são retratados, são representados por ilustrações infantis que remetem aos árabes do século XIX, criando a impressão de que todo palestino faz parte de uma comunidade árabe internacional que compartilha os mesmos hábitos e cultura. Essa visão de uma nação árabe imaginária e a visão estereotipada dos árabes nos livros didáticos concebem a ideia de que os palestinos poderiam viver em qualquer uma dessas nações, enquanto os judeus de todo o mundo não têm alternativa de destino a não ser o Estado de Israel. Peled-Elhanan também ressalta um aspecto notável nas disciplinas de geografia, onde áreas palestinas, como Hebron, Nablus e Jenin, na Cisjordânia, e toda a Faixa de Gaza, permanecem como espaços vazios, sem informações sobre seus habitantes ou do que existe nesses locais. Ela descreve essa representação como um "espaço em branco pronto para ser habitado". [105] Um dos focos da estratégia sionista nos livros escolares é a ênfase em trunfos e desastres históricos, como explicado por Stuart Hall anteriormente. Nos livros didáticos, eventos como o assassinato do Conde Folke Bernadotte e outros crimes de guerra são sistematicamente omitidos, uma vez que não se alinham com a narrativa sionista. Em contraste, os livros costumam realçar as figuras heroicas da Bíblia, como Moisés, Josué e Davi. Essas figuras são apresentadas não apenas como parte de uma narrativa religiosa, mas como verdadeiras personalidades que lutaram em prol do povo hebreu. Essas histórias, segundo Peled-Elhanan, alimentam o sentimento de heroísmo e inspiram os jovens a ingressarem no serviço militar em busca de seu próprio Golias. Quanto aos desastres, como a Guerra do Yom Kippur, eles tendem a instilar pânico e medo, contribuindo para o sentimento combativo contra os palestinos. Influenciando os novos cidadãos israelenses a acreditarem que precisam se proteger a todo custo de um inimigo implacável. Esse fenômeno social, denominado pelo pesquisador britânico Stan Cohen como pânico moral, desencadeia respostas violentas e autoritárias que tendem a favorecer regimes de exceção. Tais atitudes não surgem de um processo de análise crítica da situação real ou de uma reflexão baseada em evidências e processos históricos, em vez disso, têm origem em crenças religiosas e fictícias de líderes militares que se apresentam como salvadores da pátria. “Desumanizar os palestinos, deturpar as incursões de limpeza étnica e glorificar os heróis da causa sionista, são temas abordados nos livros didáticos que transformaram crianças israelenses em um exército de eleitores medrosos. Sendo assim, propensos a acreditar nos palestinos como ‘uma ameaça à própria existência do Estado’ e, em geral, sua expulsão e assassinato resolvem um enorme problema demográfico e nos salva israelenses de outro Auschwitz.” Peled-Elhanan [105]
- Manipulação midiática e desinformação: o Impacto na percepção global da ocupação na Palestina
Desde o momento do nosso nascimento, assumimos o papel de receptores. A infância representa um período singular de desenvolvimento, tanto físico quanto psicológico, que molda a pessoa que nos tornamos. Todas as variáveis que influenciam a saúde, o bem-estar físico, mental e emocional durante essa fase pode deixar marcas significativas na formação de um indivíduo. Nossas experiências nos tornam receptivos ao que nos é apresentado, com grande parte dessa influência adquirida em ambiente escolar e durante o processo de formação. O que é ainda mais preocupante é o impacto da manipulação midiática nesse processo. Adorno e Horkheimer afirmaram em seu trabalho que "quanto mais um Estado monopoliza os meios de comunicação de massa, mais ele pode controlar e disciplinar as massas consumidoras".[39] A pesquisadora Esther Medina Ribeiro aponta em sua pesquisa que “dada sua poderosa capacidade de persuasão, a mídia desempenha o papel de agente nivelador na sociedade, influenciando diretamente a forma como as pessoas enxergam, reconhecem e interpretam o mundo” [85]. Na óptica sionista, Israel está efetivamente formando um contingente de receptores predispostos a acreditar e defender inabalavelmente a narrativa que promove, mantendo um controle rigoroso sobre a mensagem, o emissor, o código, o canal e primordialmente os receptores da comunicação. Nesse contexto, a narrativa é moldada para retratar constantemente o palestino como o agressor, enquanto o israelense é consistentemente apresentado como a vítima. O discurso israelense é tão impactante que afeta diretamente os receptores fora do Oriente Médio. Para quantificar os danos, é necessário prestar atenção a certos padrões. A primeira consideração deve ser em relação aos critérios de noticiabilidade. Enquanto estava na Palestina, em janeiro de 2023, testemunhei soldados israelenses invadindo um campo de refugiados em Jenin, o mesmo local onde a jornalista Shireen foi executada. Nessa trágica investida israelense, nove pessoas foram mortas, incluindo uma idosa com mais de 60 anos. A situação se deteriorou a ponto de ser declarado um toque de recolher que durou três dias. No decorrer dos dias, ocorreram ataques de colonos israelenses contra palestinos em toda a Cisjordânia, incluindo o assentamento de Halamish, próximo onde estava hospedado. Por meio do canal de mídia Monitor do Oriente, no qual eu já estava agendado, participei de uma entrevista para discutir o ataque. Apesar do caos e de ter abordado o assunto ao vivo, não recebi nenhuma ligação ou mensagem de amigos ou familiares, indicando que nenhum deles estava ciente da situação antes da entrevista. Mesmo após a transmissão, não compreenderam a magnitude dos riscos. Isso se deve ao fato de que, com exceção do Monitor do Oriente e de outras poucas mídias independentes, os canais de grande mídia que compõem a indústria da desinformação não deram a devida importância ao acontecimento e sequer cobriram o atentado. – Novidade! Na noite seguinte ao ataque em Jenin, um palestino abriu fogo e matou nove israelenses em uma rua de Jerusalém. Nesse momento, as mensagens e ligações de amigos e familiares se multiplicaram, todos querendo saber se estávamos em segurança. O assassinato de cidadãos israelenses teve uma repercussão tão intensa, mesmo que o número de vítimas fatais tenha sido o mesmo de palestinos na noite anterior, que fui convidado por uma mídia brasileira para participar de outra transmissão ao vivo e discutirmos a situação em Jerusalém. Recusei o convite após ser informado de que o foco seria exclusivamente em Jerusalém, sem mencionar o ocorrido em Jenin do dia anterior. No Brasil e na maioria dos países ocidentais, a escolha das pautas e a maneira como as mensagens são emitidas favorecem o discurso narrativo da ocupação sionista e do Estado de Israel. [89] “Quando a resistência palestina contra a ocupação é chamada de terrorismo por Israel e isso é repetido no Brasil, isso é fakenews de Israel reproduzida aqui. É como se uma população nativa não tivesse direito de lutar contra o soldado e colonos invasores de suas terras e sua ação truculenta. Veja que no caso da Ucrânia, a mídia diz que o povo tem direito às armas. Mas os palestinos não podem se defender de um Estado de apartheid que devora suas terras, derruba suas casas, destrói suas plantações, sem falar da juventude presa e das vidas perdidas.” Ahmad Alzoubi [90] No Brasil, ao considerarmos o consumo de reportagens relacionadas à Palestina, somos frequentemente expostos a uma considerável interferência do sionismo, que muitas vezes sobrepõe informações e verdades claras com uma série de ruídos. Esses ruídos são originados pelo Estado de Israel antes, durante e após eventos, e os meios de comunicação, por falta de conhecimento e outras vezes por má-fé, replicam esses mesmos ruídos, impondo-nos uma narrativa distorcida. Essa desinformação representa uma tentativa de ocultar, proteger e distorcer a compreensão dos danos históricos infligidos à Palestina, desde a Nakba, quando a população originária foi expulsa à força de suas casas e vilas para dar lugar ao Estado de Israel. No século XIX, Karl Marx afirmou que "a função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúmes sua liberdade" [106]. No entanto, não estamos atuando como cães de guarda, denunciando os líderes ou assumindo uma postura de olho, ou boca onipresente. Pelo contrário, estamos repetindo e sendo coniventes com os crimes e violações perpetrados pelas autoridades de Israel. Com frequência, jornalistas contribuem para a disseminação da narrativa etno-teocrata criada por Israel, utilizando "conceitos simplistas e reducionistas na representação das populações árabes e muçulmanas" [85]. Em alguns casos, isso ocorre de forma deliberada, enquanto em outros, como receptores das notícias, veículos de mídia internacionais simplesmente replicam matérias e opiniões de outros meios de comunicação ocidentais, sem sequer comparar os fatos com fontes orientais.
- Desinformação: A batalha pela verdade na mídia palestina
Desde que aprendemos a nos comunicar, a mentira sempre esteve presente em nossas bocas, ainda mais em casos de disputas narrativas, territoriais ou de qualquer outra forma. Como se diz “durante os períodos de guerra, a primeira baixa sempre foi a verdade” [107]. Devido ao avanço das comunicações online nas últimas décadas, à medida que melhoramos nossos meios de comunicação, também aprimoramos as técnicas de disseminação de mentiras, revelando um desafio catastrófico de alcance global. Ao invés de informar a esfera pública sobre o que é de interesse, a desinformação, ou fake news tendem a provocar efeitos opostos. Se antes, o jornalismo esteve ligado à procura da verdade, a desinformação tem como pretensão obscurecer essa busca. A utilização do termo fake news suscita dificuldades na sua compreensão. Para nós, falantes do português, a tradução literal da expressão resulta em “notícia falsa”. Tal tradução tende, de certa forma, a relativizar o significado tanto da palavra “notícia”, que se refere a um fato de interesse público, quanto minimizar o uso da palavra “falso”, que simplesmente representa o que não é. Se uma informação é categorizada como “falsa”, então, por definição, ela não pode ser considerada uma notícia. Vamos adotar neste texto o termo “desinformação”, que é o que realmente significa. A desinformação busca unicamente confundir, manipular e iludir o público por meio de falsidades. – Espero, que os leitores adotem essa terminologia como forma usual, para que não mais notícia seja relativizada e falso minimizado. Conceituado a palavra "desinformação", avançamos agora para os efeitos colaterais causados por ela em nossa sociedade contemporânea. Em escala global, a desinformação tem desencadeado o caos, desestabilizado governos e manipulado a opinião pública em todos os cantos, muitas vezes visando influenciar o resultado de eleições democráticas ou sustentar golpes midiáticos; uma situação muito bem delineada pelo jornalista Andrey Korybko em seu livro "Guerras Híbridas” [108]. Basta observar os eventos ocorridos após a difusão em larga escala de desinformação referente ao "kit gay" e à "mamadeira de piroca", desinformações das mais absurdas, que abriram as portas para o período mais catastrófico da história da democracia brasileira, resultando no golpe batizado de impeachment da Presidenta Dilma, sucedida pelos governos golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A desinformação provoca danos em toda a sociedade, mas nenhum setor sofre mais com seus efeitos do que o jornalismo, especialmente aqueles comprometidos com ética profissional e a responsabilidade na apresentação de fatos em vez de fofocas. A inversão de valores foi tão significativa - e não me refiro apenas aos casos no Brasil e na Palestina - que os profissionais, após dedicarem longos anos ao estudo e aprimoramento de técnicas de comunicação, verificação de informações e métodos científicos, sem mencionar os estudos éticos, passaram a ser desacreditados pela sociedade. Seu compromisso com a verdade dos fatos foi substituído pelas páginas de redes sociais e grupos de WhatsApp, que priorizam apenas seus interesses em curtidas e compartilhamentos virtuais, em detrimento do comprometimento com a sociedade. Diante dessa nova realidade, o ambiente virtual se transformou em um palco onde se censura toda forma de luta social ao passo que autoriza e incentiva os verdadeiros discursos de ódio e promoção das mais bizarras pseudociências - alguém ainda duvida do formato da Terra? Para os jornalistas palestinos, os impactos têm sido ainda mais severos. Diante de tudo que discutimos até o momento, torna-se evidente que o Estado de Israel exerce um domínio significativo sobre o cenário midiático, utilizando sua influência para interferir na comunicação palestina. Esse controle se manifesta na distorção dos fatos noticiados, na alteração da narrativa e, acima de tudo, na influência sobre as redes sociais. O autor ilustrou, ao longo desse breve histórico, casos exemplares: desde a responsabilização de um jornalista por seu próprio assassinato até a morte de uma jornalista em um confronto de tiros unilateral; da confusão entre uma toalha branca e um coquetel molotov até a classificação de uma jovem jornalista como uma ameaça à segurança do poderoso Estado de Israel. Essa desinformação é disseminada por agências da indústria da desinformação e por perfis de redes sociais controlados e financiados pela ideologia sionista.
- Alfabetização midiática, uma ferramenta para libertação da Palestina
No âmbito do curso de jornalismo, aprendemos que os profissionais devem ser capazes de abordar os fatos com objetividade, transformando-os em notícias de maneira imparcial. Após discutirmos a falsa premissa da "imparcialidade", concentremo-nos agora no conceito de "objetividade". A objetividade refere-se à qualidade de manter-se imune a influências pessoais, preconceitos ou opiniões. No contexto do jornalismo, a objetividade representa uma norma ética que demanda a apresentação de múltiplos pontos de vista, a verificação minuciosa dos fatos e a clara distinção entre notícias e opiniões. Jornalistas devem evitar expressar opiniões pessoais ou tendenciosas em suas reportagens, fundamentando suas histórias em evidências verificáveis. Dessa forma, proporcionam aos leitores ou espectadores uma visão objetiva dos eventos, permitindo que formem suas próprias opiniões com base nos fatos apresentados. Teoricamente, se essa regra não fosse exceção, poderíamos, de fato, exigir e prestar mais atenção à objetividade. Entretanto, isso não é o que ocorre, pelo menos não desde o século XIX. Embora a objetividade seja um termo técnico de extrema importância, ele também pode ser usado de forma enganosa para difundir desinformação, como evidenciado durante o recente episódio de violência contra os palestinos na Faixa de Gaza e o avanço na colonização na Cisjordânia em 2023. A Indústria da Desinformação tem abordado os fatos com a “objetividade” de isolá-los. Desde o momento em que as Brigadas Al-Qassam cruzaram as fronteiras da ocupação e lançaram ataques contra Israel, a mídia tem negligenciado os 76 anos de ocupação colonial, genocídio contínuo, opressão e apartheid do povo palestino. Como se um grupo armado estivesse em um ataque terrorista por lazer e não em resposta aos 76 anos anteriores. O que está acontecendo atualmente é parte de um processo histórico em curso e não pode ser considerado um evento isolado. A desinformação, juntamente com uma noção distorcida de objetividade que rotula todos os palestinos, inclusive os jornalistas, como “terroristas”, transcenderam as barreiras geográficas de Israel e se espalhou pelos cabos de fibra ótica e redes de wi-fi em todo o mundo. No Brasil, é raro encontrar veículos de comunicação que tenham divergido da linha editorial favorável a Israel. Em geral, as mídias comprometidas com a verdade dos fatos e postura ética e objetiva em relação aos eventos em curso foram os canais independentes. Muitos jornalistas podem ter reproduzido esse tipo de conteúdo não necessariamente por compartilharem das políticas ou práticas sionistas que violam os direitos humanos, mas devido à necessidade de garantir que as contas estejam pagas no final de cada mês. É relevante também mencionar casos de negligência em relação à primeira regra que antecede a objetividade, que é a "checagem". Para verificar as informações, qualquer pessoa, mesmo sem ser jornalista, pode recorrer a diversas plataformas. É crucial destacar aquelas que conduzem análises de declarações feitas por políticos, tanto ao nível nacional quanto internacional. Exemplos desse tipo de serviço gratuito on-line incluem o Snopes, FactCheck, PolitiFact, International Fact-Checking Network e Reuters Fact Check, entre várias outras disponíveis. Devo ressaltar que nenhuma dessas ferramentas é infalível quando se trata de disputas narrativas complexas, como o conflito entre Palestina e Israel. Para além da checagem de informações, é fundamental que tanto jornalistas quanto o público em geral estejam atentos aos termos utilizados, evitando assim serem influenciados pelas armadilhas do senso comum. O senso comum refere-se às crenças, ideias e noções amplamente aceitas por uma sociedade ou grupo de pessoas, frequentemente sem uma base sólida em evidências científicas ou análises críticas. Essas noções são transmitidas de geração em geração e se tornam parte integrante da cultura de uma comunidade. Compreender o uso de terminologia pré-estabelecida, como "antissemitismo," "guerra santa," "judaísmo" e outras expressões é o primeiro passo para evitar cair nessas armadilhas; outra forma é prestar atenção à maneira generalizada e estereotipada como são empregados termos como "árabe," "muçulmano," "terrorista" e outros frequentemente utilizados para influenciar a opinião pública. Vivemos em uma era de rápida disseminação de informações, na qual as mídias sociais e as plataformas digitais desempenham um papel significativo na formação de opiniões e consciências. No entanto, a conectividade digital também trouxe um fenômeno preocupante, a desinformação. A causa palestina destaca-se como um exemplo de como a desinformação pode moldar a consciência coletiva e prejudicar a busca por uma solução justa e equitativa. Não há maneira de combater a nocividade da desinformação sem promover a alfabetização midiática e a formação de uma sociedade crítica. As pessoas precisam ser incentivadas a questionar informações, verificar fontes e considerar diferentes perspectivas. A importância de questionar, verificar e analisar criticamente as informações que encontramos não pode ser subestimada. No contexto da causa palestina, cada clique, like ou compartilhamento pode ter consequências profundas na vida e dignidade de milhões de pessoas. A desinformação pode ser tão destrutiva quanto uma bala disparada, especialmente quando contribui para perpetuar preconceitos e injustiças. Em uma era globalizada e digital, onde nossas ações virtuais têm impactos reais, a necessidade de alfabetização midiática e educação crítica é mais urgente do que nunca. Não apenas para evitar a disseminação de informações incorretas, mas também para garantir que estejamos trabalhando juntos na busca de soluções sensatas e duradouras para os conflitos globais. A busca pela verdade e pelo entendimento é uma responsabilidade compartilhada, e é por meio da educação e do pensamento crítico que podemos enfrentar o desafio da desinformação e construir um mundo mais justo e informado.
- Desinformação global e o chamado urgente pelo jornalismo e a regulamentação da Internet
A era da globalização se tornou também a era da desinformação. Nunca foi tão necessário o fortalecimento do jornalismo sério, responsável e comprometido com os princípios éticos para defesa da sociedade e de nossa própria civilidade, assim como nunca se fez tão urgente aderir à política de regulamentação da internet e mídias sociais. Atualmente, a UNESCO e diversos jornalistas, representantes de estado e outras organizações têm discutido uma regulamentação em âmbito global. No início do ano de 2023, em Paris, foi realizado a Primeira Conferência Global “Internet for Trust”, ou “Por uma Internet Confiável” para discutir um “conjunto de rascunhos de diretrizes globais para a regulamentação de plataformas digitais” no intuito de “melhorar a confiabilidade da informação e proteger a liberdade de expressão e os direitos humanos” [109]. O evento gerou controvérsia em todo mundo, alimentando a mesma desinformação, discurso de ódio e teorias da conspiração que a conferência buscava combater. Uma das questões centrais discutidas durante a conferência está relacionada ao direito à intimidade e privacidade na internet, conforme estabelecido no artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É inegável que milhões de dados pessoais de usuários da internet são coletados por empresas privadas e comercializados para quem oferecer o maior lance. A justificativa recorrente para essa prática de espionagem frequentemente gira em torno da segurança. Curiosamente, ainda há pessoas que se sentem seguras sob vigilância constante, apoiando o argumento clássico de “quem não deve não teme”. A realidade vai muito além do escopo da segurança e encontro de práticas que visam não apenas a identificação de “terroristas”, como evidenciado no Project Pegasus, mas também a vigilância de opositores políticos e jornalistas comprometidos com a responsabilidade e transparência – dessa vez, diferente do Project Pegasus. Guilherme Canela, chefe da área de Liberdade de Expressão e Segurança de Jornalistas da UNESCO, explicou à ONU News, em Paris, os objetivos do evento, a magnitude do desafio e as estratégias para enfrentá-lo. “Temos um desafio considerável: embora haja um certo consenso sobre o problema, ainda não existe consenso sobre como abordá-lo. Portanto, a UNESCO convocou este debate global com todos os interessados para apresentar um rascunho de proposta em desenvolvimento. Queremos receber contribuições sobre como podemos efetivamente lidar com a situação, desenvolvendo oportunidades, mitigando riscos e buscando justiça pelos danos causados, ao mesmo tempo em que protegemos a liberdade de expressão.” Guilherme Canela, 2023. [110] A expressão “regulamentação” já foi deturpada por agentes mal-intencionados que a conhecem bem. Muitos deles usaram suas redes sociais para criticar a possível regulamentação internacional da internet e das redes sociais, alegando que isso infringiria a liberdade de opinião e expressão dos usuários. A regulamentação da internet não é uma questão nova no Brasil. Em 2021, uma audiência pública foi realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para debater o tema. Deputados brasileiros, principalmente da direita, se manifestaram contra a possibilidade de o Ministério do Turismo editar um decreto regulamentando a moderação de conteúdo em plataformas digitais. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), conhecida por disseminar desinformação sobre o processo eleitoral brasileiro e medicamentos ineficazes contra a covid-19, foi uma das primeiras a se manifestar contra a regulamentação de postagens em mídias sociais. Segundo a deputada, 19 de seus vídeos foram retirados do Facebook, ela alegou que seus vídeos “não continham nenhum tipo de crime, eram apenas opiniões”. É compreensível que Carla Zambelli tema a regulamentação, uma vez que sua concepção de liberdade de opinião e expressão parece não considerar os direitos humanos de terceiros. Também, o que podemos esperar de alguém que compartilha nas redes sociais uma imagem retratando uma águia adornada com as bandeiras de Israel e dos EUA atacando um rato com um cinto de explosivos e a bandeira da Palestina? E isso ocorreu quando 9 mil palestinos já haviam sido assassinados por bombardeios israelenses no cerco a Gaza de 2023. Em seu discurso de abertura na conferência, Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO, observou que a linha divisória entre verdade e falsidade está cada vez mais tênue, com a negação de fatos científicos e a amplificação da desinformação e das teorias conspiratórias. Ela afirmou que, embora a desinformação não tenha começado nas redes sociais, a falta de regulamentação permitiu que ela ganhasse mais espaço do que a verdade. A conferência foi uma resposta a um apelo global de ação feito pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, para enfrentar a disseminação da desinformação e a negação de fatos científicos estabelecidos, que representam “um risco existencial para a humanidade” – como aqueles propagados pelo conhecido gabinete do ódio do clã Bolsonaro, Zambelli e outros apoiadores. Na França, onde ocorreu a primeira discussão internacional sobre a regulamentação da internet, o debate sobre a regulação dos meios de comunicação é antigo. Em 1982, o país estabeleceu sua regulação de comunicações com a criação da Alta Autoridade da Comunicação Audiovisual, posteriormente transformada na Comissão Nacional da Comunicação e das Liberdades (CNCL). O marco regulatório orienta as operações de emissoras públicas e privadas, visando garantir a proteção e promoção da cultura nacional, liberdade de expressão, direitos fundamentais, liberdade econômica e diversidade dos meios de comunicação. A legislação francesa limita o controle de veículos impressos diários a 30% por grupo de mídia, exigindo deles a exibição de programas educativos por meios de comunicação, tanto públicos quanto privados, aos quais foram concedidas licenças. Além disso, a França autoriza restrições à liberdade de expressão para evitar crimes, como a lei de combate ao racismo e à xenofobia, e possui leis que protegem direitos individuais, incluindo privacidade e restrições à pornografia. Em todo o mundo, a desinformação e o discurso de ódio se tornaram cada vez mais frequentes nos últimos anos. A jornalista filipino-americana Maria Ressa[1], que também participou da conferência em Paris, destacou que “as mentiras se espalham mais rapidamente do que os fatos” e que, quando combinadas com medo, raiva, ódio e tribalismo, se espalham como um incêndio em gravetos secos. O que Ressa advertiu é que não podemos mais tolerar algoritmos de mídias sociais que recompensam a disseminação de mentiras em troca de nossa liberdade. [1] Maria Angelita Ressa é uma jornalista e autora filipino-americana, mais conhecida por cofundar o website jornalístico Rappler, do qual é diretora executiva. Em 2021, ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
- Os dilemas da liberdade de expressão na Palestina e no mundo
A liberdade de expressão pode ser interpretada por algumas pessoas como o direito de propagar discursos racistas e preconceituosos, como é feito anualmente na marcha das bandeiras[1]. No caso do Estado de Israel, a implementação de barreiras em torno da população palestina, bem como ações de humilhação, prisão, tortura e assassinato, é vista como uma medida para garantir a liberdade e segurança dos cidadãos israelenses. Por outro lado, para os palestinos, a liberdade significa lutar por seus direitos básicos e resistir à ocupação. Mesmo que os conceitos sejam parecidos, quando ambos os lados o exercem, as respostas são bem diferentes. Isaiah Berlin, um influente filósofo político do século XX cujo principal trabalho é baseado nos conceitos de liberdade, entende que “é inegável que a verdade e a liberdade de expressão não podem florescer onde o dogma suprime todo o pensamento” [111]. – Mas o que quer dizer verdadeiramente a palavra liberdade? – Será que a mais pura liberdade também possui restrições? Berlin desenvolveu uma análise abrangente dos variados tipos de conceitos de liberdade em sua obra. Ele examinou as múltiplas facetas da liberdade em condições sociais e em culturas diversas, explorando os dilemas que surgem quando essas concepções entram em conflito uns com os outros ou com os estados que os governam. Dois dos concentos principais e universais delineados por este filósofo são a liberdade negativa e a liberdade positiva. A liberdade negativa, segundo Berlin, é a ausência de interferência externa, permitindo que as pessoas ajam e expressem suas opiniões sem serem coagidas. Um exemplo claro é quando as pessoas se reúnem para manifestar suas opiniões; sob essa visão, elas têm a capacidade de se expressar livremente, mesmo que possam enfrentar hostilidades. Por outro lado, a liberdade positiva refere-se à capacidade de um indivíduo alcançar seus objetivos, muitas vezes envolvendo a colaboração de outras pessoas ou instituições. Para ilustrar, imagine alguém sonhando em voar como um pássaro. Embora seja livre para tentar, a natureza humana impede a realização desse sonho. Transpondo para a realidade na Palestina, um palestino pode escolher o jornalismo, mas será que pode exercê-lo sem perseguição pelo estado ocupante? A resposta parece evidente. A questão da liberdade positiva ou negativa se manifestam seletivamente nos territórios ocupados palestinos. Dizer que um jornalista palestino é livre, é um eufemismo, já que as correntes que os aprisionam são tanto morais quanto físicas. O mesmo vale para todos os cidadãos palestinos na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia. Embora possam ter mobilidade limitada, sempre que se levantam para lutar por sua emancipação, são reprimidos. No Ocidente, principalmente por meio da indústria da desinformação, é comum afirmar que os palestinos são privados de sua liberdade devido a grupos de libertação nacional. Uma grande abstração da realidade para um povo que luta diariamente por aquela palavra que subestimamos muitas vezes o significado. Não cabe a nós, nem mesmo ao Estado de Israel, assim como nunca coube a Organização das Nações Unidas em 1948, definir os limites territoriais ou as restrições às liberdades dos palestinos. Isso é uma prerrogativa do povo palestino, e somente do povo palestino, que deve ter seu próprio estado independente e livre para poderem eles mesmo escolher seus governantes e cobrar de seu governo a sua própria concepção de liberdade. Para alcançar isso, não apenas os jornalistas, mas toda a Palestina deve ser imediatamente libertada. – E como? [1] A Marcha das Bandeiras é uma componente do Yom Yerushalayim, uma celebração anual na qual os israelenses buscam eternizar a conquista de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias. Essa marcha, organizada e financiada por colonos ultranacionalistas, frequentemente inclui manifestações públicas de hostilidade contra os palestinos. Os participantes costumam expressar palavras de ordem carregadas de ódio, como "morte aos árabes".
- A liberdade de opinião e expressão dos jornalistas palestinos não corresponde ao que está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos
Em 10 de dezembro de 1948, o Estado de Israel foi um dos países que durante a Assembleia Geral das Nações Unidas votaram a favor da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Na Resolução 217 A III, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi estabelecida com o objetivo de reconhecer, proteger e garantir os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais de todos os seres humanos, não importando sua classe social, nacionalidade, religião, cultura, gênero, orientação sexual ou qualquer outra forma de discriminação. Os direitos e liberdades estipulados por essa declaração são fundamentais para o estabelecimento da paz, o desenvolvimento humano e a democracia. Esses direitos tornaram-se parte essencial do direito internacional. Quando um Estado como Israel assina essa declaração, expressa publicamente sua vontade de promover esses direitos e torná-los vinculativos ao Estado. A liberdade de imprensa, não está especificada desta maneira nesse conjunto de leis, porém, é defendida pelo artigo 19, na qual se refere a liberdade de opinião e expressão. No campo do jornalismo, entende-se que esse artigo protege o direito e a liberdade de um indivíduo publicar e ter acesso à informação, geralmente por meio de comunicação de massa, sem interferências de terceiros, o que garante a proteção de todos os outros direitos humanos delineados pela declaração. Art.19 “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.” [33] Os tratados e pactos internacionais referentes aos direitos humanos, são reconhecidos e vinculados a constituição de maneiras diferentes pelos estados nacionais. Em alguns países “os tratados internacionais têm precedência sobre a lei nacional; em outros, uma lei específica pode ser exigida para dar a um tratado internacional já ratificado a força de uma lei nacional” [34]. No parlamento israelense, Knesset, a adoção automática de convenções é um tabu, muitos defendem que sem a participação do parlamento no processo de criação de leis domésticas vinculativas aos tratados internacionais podem causar situações em que “o poder executivo assume um compromisso internacional que não é cumprido devido à falta de legislação nacional relevante” [34]. O aparente compromisso com a defesa dos direitos humanos permitiu que, em 11 de maio de 1949, o Estado de Israel fosse, em resposta ao pedido de admissão, aceito como membro das Nações Unidas. Israel foi o único Estado a ser aceito na ONU sob termos condicionantes, principalmente em relação aos direitos humanos e retorno dos palestinos expulsos durante a Nakba. Nas décadas seguintes após a admissão na ONU, não só Israel não cumpriu com nenhuma das condicionantes como também continuou a expulsar palestinos de suas terras, violar todos os direitos humanos e perpetuar seu projeto de limpeza étnica. Em 16 de outubro de 1991, após décadas de violações, Israel reforçou o compromisso com os direitos humanos ratificando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ratificação é quando um estado se dispõe a ficar legalmente vinculado a um determinado tratado, convenção, declaração ou protocolo. As ratificações da DUDH impõem ao Estado de Israel novas obrigações internacionais, pelas quais ele pode ser responsabilizado em caso de violação. Mesmo como força ocupante, Israel se comprometeu em garantir, defender e proporcionar condições para os direitos humanos de todos os indivíduos sob sua jurisdição, incluindo os palestinos. O compromisso do Estado de Israel com os direitos humanos seria cômico se não fosse trágico. Ao que parece, assinaturas e ratificações não passam de fachadas democráticas, na realidade o país frequentemente age em contraposição a esses princípios. Essa discordância permite que crimes internacionais e violações contra tanto os profissionais de imprensa quanto a população civil palestina ocorram sem a devida responsabilização. Curiosamente, no próprio site do Knesset, é possível encontrar uma descrição de como o parlamento israelense compreende a obrigação de assinar e ratificar tratados internacionais. “Um tratado é um instrumento pelo qual os países concordam em impor limitações à sua soberania. Eles são frequentemente chamados de cartas, acordos, protocolos, memorandos, pactos, trocas de notas ou qualquer um dos mais de 25 outros títulos; vinculam os Estados com direitos e obrigações sob o direito internacional.” Knesset [34] Além de menosprezar a validação das leis internacionais de defesa dos direitos humanos, os parlamentares no Knesset as consideram limitações à sua soberania. Se o Estado de Israel, comete os crimes e violações que comete mesmo tendo assinado e ratificado leis de proteção aos direitos humanos, quais seriam os crimes que ele estaria disposto a cometer se não tivesse firmado esse compromisso?
- Permissões
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- Shukran Falestine
Saímos de casa há trinta e poucos dias à procura da Terra Santa. Porém, encontramos diversos conceitos para “Terra Santa”. Tantos que não há mochila ou mala grande o suficiente para colocar. Na Turquia aprendemos que o conceito de santidade está profundamente vinculado ao conceito de “liberdade”. Se nos perguntarem se encontramos a santidade na Turquia, podemos dizer que sim. Na Capadócia reviramos igrejas cristãs primitivas esculpidas em cavernas; em Istambul vislumbramos mesquitas tão antigas quanto o próprio Islã. Entretanto, Izmir nos ensinou que a verdadeira santidade repousa na diversidade religiosa e em sua liberdade de escolha individual. No passado, os turcos tiveram liberdade para escolher a própria religião, e assim o fizeram; mas também optaram por manter um estado secular livre da imposição religiosa. Fé e espiritualidade existem em cada indivíduo de maneira diferente, portanto, um estado tão plural como a Turquia não pode ser livre e democrático se impuser os dogmas de uma única religião. Encontramos a Terra Santa na Turquia exatamente pelo fato dos turcos poderem escolher por sua própria vontade o que consideram ou não santo. Para a Palestina. Ah, Palestina! Mãe de tantos mártires e heróis; essa carregamos em espaço cativo no coração. Se encontramos a Terra Santa aqui, sim! Em coisas completamente diferentes das quais pensávamos. Encontramos a santidade, não em igrejas, muros, mesquitas, tumbas, sinagogas ou estações da Via Crucis. A santidade palestina reside em seu povo. Santidade que descobrimos um pouco devido aos amigos que fizemos; outros tantos pelas histórias que ouvimos; pelas coisas que vimos; e claro, por todas as lágrimas que derramamos juntos. Agora, a caminho de casa, ou pelo menos da cidade onde nasci, relembro todos os momentos vividos nos últimos dias e aproveito para reler algumas notas escritas. Abro a primeira, qual já nem lembrava ter escrito; nota que escrevi ao começar esta viagem, justamente quando fazia o caminho oposto ao que faço agora. “Estou cruzando São José dos Campos. Olhando pela janela percebo como essa cidade mudou nos 13 anos em que já não vivo mais aqui. Observo as mudanças externas e reflito como eu também mudei nesses últimos 13 anos. Mas assim como São José, apesar das mudanças, ainda preserva muito do que a torna a cidade que é – seja para bem ou para mal – assim como eu – seja para bem ou para mal. Gosto de pensar que estou completamente desenraizado, principalmente quando deixo a cidade passar sem olhar para trás, mas como disse, ainda tenho minhas raízes conectadas nesta terra como um cordão umbilical, que não consigo ou não quero que seja cortado.” 1 de janeiro de 2023. Relendo essa pequena nota, entendo que saí para procurar o que sempre esteve diante de meus olhos; algo que os palestinos descobriram há muito tempo. Explico: passamos por checkpoints com os palestinos; vimos casas sendo demolidas pela ocupação; sentimos medo durante a noite; viajamos em transporte público; ficamos presos em estradas; fomos humilhados por soldados; choramos juntos por jovens assassinados no meio do dia. Por outro lado, rezamos juntos; jantamos no mesmo prato – como de costume; cuidamos da terra; podamos oliveiras; sorrimos, nos divertimos e, acima de tudo, amamos e nos sentimos amados. Dessa maneira entendi que a Terra Santa, para os palestinos é sua própria terra; onde eles vivem ou sonham em viver com todos aqueles que amam. É por essa terra que os palestinos morrem, para que um dia ela seja liberta e seus entes queridos possam retornar. O conceito de Terra Santa é diferente para turcos, israelenses e palestinos, tão quanto é para mim, para Di, ou para você caro “leitor”. No último mês procurei pela santidade em três países diferentes, encontrei vários conceitos, mas nenhum era o meu. Olhando para o lado vejo a minha própria Terra Santa, ela estava no mesmo lugar onde sempre esteve: sentada na poltrona ao lado olhando pela janela.
- De Ramallah a Jerusalém: o desafio diário dos checkpoints e zumbis de Israel
Jesus disse: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.” Lucas 21:20 Soldados circulam por todos os lados, meninos e meninas cheios de si, como se fossem os últimos defensores da pátria. Eles passam por nós desconfiados, se distanciam, mas os cães os trazem de volta, deve ser por causa dos pacotes de zatar[1] e sálvia[2] que estamos carregando, ou quem sabe nos acham parecidos com os palestinos. Enquanto aguardamos o horário de embarcar de volta para casa sentados aqui no aeroporto, escrevo sobre surreal dia que enfrentamos. É melhor escrever agora, deixar para depois minimizaria a raiva que estamos sentindo. Sendo nosso voo às 4h, saímos de Ramallah com 12 horas de antecedência. É doentio ter que sair todo esse tempo com antecedência para atravessar menos de 70 km. Para chegar ao aeroporto teríamos que ir para Ramallah e pegar um ônibus com destino a Jerusalém e de lá um trem para Tel Aviv. Passando pela capital administrativa palestina, compramos mais uma mala para colocar as encomendas do Jehad. Viajar no frio é bom, mas carregar 4 malas, uma bolsa e duas mochilas é um “saco”. Nossa família adotiva nos levou até o estacionamento das vans. Abu Khaled saiu perguntando sobre o transporte para Jerusalém; um dos motoristas disse que não teria mais carros e teríamos que ir até Qalandiya e atravessar pelo checkpoint até o lado israelense. Sem problemas, tínhamos tempo e estamos acostumados com essas mudanças de planos; só não estávamos a fim de ficar cara a cara com os soldados sionistas, mas tudo bem. Toda vez que nos despedimos de alguém que gostamos sabendo que não nos veremos mais, ao menos não tão cedo, é mesmo complicado. Nos últimos dias essa família nos acolheu e fez de tudo por nós, nos sentimos realmente como membros de um clã palestino, dificultando ainda mais o momento de dar tchau. Nos abraçamos, trocamos as últimas palavras. Ayman, gentil como sempre, me passou a última lição de português/árabe ali mesmo. Abu Khaled e Ruayda aproveitaram para fazer as últimas recomendações quanto ao trajeto e nos despedimos à maneira típica palestina, curto e grosso, porém transbordando carinho. Nunca, “nunca esqueceremos de tudo que fizeram por nós”, foram nossas últimas palavras antes de subir no táxi. Em Qalandiya o motorista nos apontou para o checkpoint, descarregamos as malas, iria começar o inferno. Pelo lado de fora, a barreira sionista parece com um abatedouro de gado, de fato é! Estava vazio, caminhamos pelos corredores externos. Sabe aquelas filas intermináveis de aeroporto que você fica andando em zig-zag por entre fitas? Usando sua imaginação, substitua as fitas por paredes de ferro com grade como cobertura. Ainda para ser mais cruel, aqueles intermináveis corredores que milhares de palestinos precisam passar ao menos duas vezes por dia, ficam do lado externo. A engenharia sionista é tão cruel que não bastava construir aquela monstruosidade, eles colocaram grades na parte do teto, assim, enquanto esperam nas filas do abate, os palestinos enfrentam o frio, a chuva, ou o intenso sol de verão do Oriente Médio. Ao tratar os palestinos como animais, os próprios sionistas se transformam na pior, mais cruel e selvagem de todas as espécies. Na parte interna passamos pela primeira verificação com os soldados. Fui colocando as malas no raio X enquanto a Di passava pelo detector de metais. Pi pi pi. Aquela merda apitou, foi então que a primeira besta selvagem começou a bater no vidro e gritar em hebraico. Se não falamos nem inglês, quem dirá hebraico. Começamos a responder em português. Uma observação: costumamos aprender pelo menos as palavras correspondentes à boa educação em cada país que visitamos; obrigado, com licença e por aí vai; mas como ali os soldados são tão estrangeiros como nós, não existia a necessidade de aprender nada. A soldada, uns vinte anos de puro ódio, ficou irritadíssima. Outro rapaz, também de uns vinte e poucos anos, apareceu para dar apoio para menina. Ele falava em inglês, mas como nós não falamos bem e não estávamos nem um pouco dispostos a sermos simpáticos, bati o passaporte no vidro e respondi um alto e claro “no speak english”. A fila foi se formando atrás de nós, a essa altura uns 5 palestinos tentavam nos ajudar com as malas pelo raio X e o inferno daquele detector de metais que não parava de apitar. Com muito custo, depois de umas trezentas tentativas, a Di conseguiu passar. Na minha vez eu já tinha tirado tudo dos bolsos, os casacos, a bota, a touca, tudo que podia; passei sem apitar. Em um corredor longo, chegamos às portas giratórias. Passamos por umas três. A Di ia à frente e uma a uma eu passava as malas e mochilas. Profundamente irritado, minha vontade era de largar aquele monte de mala ali mesmo. Essas portas não são como as dos bancos, elas são roletas de ferro do chão ao teto, e também muito espremidas. Soldados em outra guarita a frente se divertiam em nos ver passando pela última catraca, o que me irritava ainda mais. Quando íamos girar a última roleta entre nós e Jerusalém, outra israelense, ainda mais insana que a primeira começou a gritar com a Di. Estressada com a abordagem, a Di seguiu o plano de só falar português. A menina espumava pela boca enquanto socava o vidro. Por um buraco na cabine passamos os passaportes. Enquanto a menina gritava em hebraico como se o volume da voz fosse nos fazer compreender o idioma, a Di comentou que parecia o zumbi que tenta quebrar o vidro com a cabeça no filme “Eu sou a lenda”, realmente parecia. Como na guarita anterior, saiu outro soldado com um fuzil na mão, ele me perguntou em inglês o que estávamos fazendo em Qalandiya. Não vou nem comentar o que pensei em responder, disse em português “no Qalandiya, Jerusalém, Je–ru–sa–lém”. Enquanto a zumbi continuava a bater a cabeça no vidro, com outras amigas que se juntaram a ela para assistir o circo, o soldado fez perguntas, as quais algumas eu não entendi e outras ignorei, só respondia, e em português, “i´m Brazil, no speak english, you speak portuguese?” Ele insistiu e perguntou se conhecíamos alguém na Palestina. Eu queria muito responder que sim, conhecíamos pessoas, seres humanos maravilhosos, educados, amáveis, carinhosos e gentis, tudo que os israelenses não são, mas não podia. Se passássemos por uma revista, encontrariam em nossas malas muitas coisas árabes e turcas, e de alguma maneira poderiam chegar a Ruayda e Abu Khaled; se abrissem minha lista de contatos no whatsapp seria ainda pior; portanto, obviamente, neguei conhecer pessoas na Palestina! Com muita dificuldade passamos. Por estarmos na Palestina, aqueles jovens queriam tentar de alguma maneira nos atrasar, eles sabiam que se estávamos ali, naquele checkpoint é porque somos simpáticos a luta de emancipação palestina. Liberados pela roleta saímos sem olhar para trás, só ouvíamos ao longe os gritos dos zumbis. De certa forma os soldados são mesmo zumbis, e o sistema de educação israelense faz de tudo para que isso se torne possível. Nurit Peled-Elhanan, professora de língua e educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, após ter a filha assassinada em um atentado suicida, iniciou uma pesquisa científica sobre a ideologia e a propaganda usada nos livros didáticos israelenses. O resultado da pesquisa apontou que a educação e os materiais didáticos são ferramentas utilizadas para alienar os jovens que em poucos anos estarão fardados e com um fuzil apontado para os palestinos. Nas escolas israelenses as crianças passam por todos os anos escolares sem ver uma única fotografia de uma pessoa palestina nos livros que estudam. Geralmente quando retratados, os palestinos são representados por ilustrações infantis de árabes do século XIX, como se todo palestino fizesse parte de uma comunidade internacional árabe que compartilha dos mesmos hábitos e culturas; essa estratégia visa o argumento de que os palestinos podem se mudar para qualquer país árabe. Outras vezes, ao se falar dos Territórios Palestinos Ocupados, as áreas da Cisjordânia, como Hebron, permanecem vazias e sem informações sobre quem habita ou o que há no local, um “espaço em branco pronto para ser habitado”. Essas “categorias de discurso racista” tentam apagar a existência das pessoas nativas, transformando-as no “problema palestino”. Os livros didáticos israelenses objetivam desumanizar os palestinos, deturpar as incursões de limpeza étnica, glorificar os heróis da causa sionista e, acima de tudo, criar zumbis alienados e cheios de sede de sangue. Andando pelo último corredor, dessa vez muito escuro, mal iluminado, sem nenhuma sinalização e as moscas, chegamos a uma bifurcação. “Fudeu”! – e agora? Como não tinha um único palestino para seguir, escolhemos o caminho da direita. Caminhamos um pouco e quando vimos, estávamos na frente do matadouro novamente, agora pior, não tinha como voltar. Teríamos que fazer o trajeto da morte tudo de novo. No fundo eu sabia que a direita sempre é o caminho de merda que nos faz andar para trás. Com mais fúria, e agora com muito mais motivos, passamos novamente pelos percursos: labirinto externo de ferro; porta giratória; porta giratória; porta giratória; raio X; detector de metais; soldados furiosos; porta giratória; porta giratória; porta giratória; guarita dos zumbis. Quando a zumbi viu a Di novamente ali, ela ficou ensandecida – eu nem sabia que era possível um zumbi passar de nível, agora sei. A menina só faltava enfiar a cabeça pelo buraco da guarita para morder. Estávamos realmente muito irados, e tínhamos motivos para isso, era exatamente o que a menina queria ver. Falei para Di, vamos rir e mostrar que não temos medo, embora tivéssemos, afinal, eram jovens sem nenhum bom senso e com um fuzil enorme. Começamos a rir e passar as malas, como dois turistas burros ao estilo “Debi & Loide”. Passando do nível “hard”, a menina se levantou para bater no vidro e olhar para Di, ainda mais provocante, além de rir, a Di não olhou para ela uma única vez, como se ela não estivesse ali dando aquele show. O soldado novamente nos deixou passar, embora a menina discordasse, com os cabelos já bagunçados ela gritava e espumava com o soldado. Passamos, quando olhei para trás, “puta que pariu, esquecemos uma mala”. “Caralho, merda”, recitando todos os palavrões que conhecia, pensei “vou ter que dar a volta tudo de novo”, mais que “porra!”. A fim de se livrar logo de nós, e fazer aquela menina calar a boca e parar de gritar, o soldado saiu da guarita e foi buscar a última mala. Dessa vez, o ódio da zumbi se voltou para seu companheiro, ela tentou agarrar seu braço no intuito de impedi-lo de ir buscar a mala. Ela queria um motivo para nos dar um tiro, e uma mala para trás pode ser justificado como “sinal de bomba”, aí eles atiram mesmo, já fizeram antes, e se não fosse gringos, teriam feito novamente. O soldado pegou a mala, me entregou e apontou para a esquerda, por uma passarela escura. Agora falta pouco para chegar em casa, porém, como você mesmo “leitor” já se cansou de nos ver escrever aqui, andar pela Palestina demanda da vontade dos soldados israelenses, por isso saímos quase 12 horas antes, para atravessar um caminho de 60 km de puro ódio. Os soldados tentaram de todas as maneiras nos atrasar, embora uns ou outros tentassem nos morder eu espalhar nossos miolos pelo chão com um tiro. No fim das contas, cá estamos, já fizemos o check-in e agora aguardamos para voltar para casa. Mas parece que essa odisseia não acaba. Aqui mesmo no aeroporto, já respondemos mais algumas perguntas idiotas, como: foram vocês que arrumaram as próprias malas? Estão juntos? Quanto tempo vocês estão casados? Possuem algum explosivo? – Fico com a língua coçando com todas essas baboseiras. Agora é hora de voltar para nossas vidas e continuar lutando contra esse sistema que oprime por um lado e por outro cria zumbis e os alimenta com o mais puro ódio; o resultado disso, são massacres como o do campo de refugiados de Jenin. Naturalmente os soldados israelenses, assim como o jovem que cometeu o atentado em Jerusalém foram jogados para essa situação ocasionada por um regime de apartheid que propaga cada vez mais o racismo. Assim como nem todos os palestinos acreditam na luta por meio de armas, alguns soldados israelenses também não estão dispostos a agredir e violar os direitos palestinos. Em Israel alguns ex-soldados das forças de ocupação entenderam como e o que é o sionismo. Após o serviço militar obrigatório, arrependidos de suas próprias contribuições, os jovens fundaram a organização Breaking the Silence, a qual se dedica a palestrar nos territórios ocupados para outros jovens soldados, e também participam de manifestações a favor da Palestina. Como essa organização é israelense, judaica e de ex-militares, estava moldando a opinião pública e denunciando os crimes e violações, o Estado de Israel resolveu classificá-los também como organização terrorista. Claro, para qualquer regime autoritário, “se você não está conosco, está contra nós!” Apesar das tentativas de silenciamento e repressão por parte do Estado de Israel, organizações como a Breaking the Silence continuam a desafiar a narrativa oficial e a lutar pelos direitos humanos e pela justiça na Palestina. Esses veteranos, ao reconhecerem os horrores da ocupação e do sionismo, estão contribuindo significativamente para conscientizar outros jovens israelenses sobre a realidade da vida na Palestina e os abusos cometidos pelo Estado de Israel. A trajetória desses militares que se tornaram ativistas é um exemplo poderoso de como é possível questionar e desafiar sistemas de opressão, mesmo quando se faz parte deles. Suas vozes são essenciais na luta contra a desumanização dos palestinos e na promoção de uma paz verdadeira e duradoura na região. À medida que mais pessoas em Israel e ao redor do mundo se conscientizam sobre a situação na Palestina e se engajam em ações de solidariedade e defesa dos direitos humanos, há esperança de que um dia a injustiça e a opressão sejam superadas e que todas as pessoas na região possam viver em paz e dignidade. [1] Mistura de especiarias usada como condimento e originária do Oriente Médio, marcante na culinária levantina-árabe. [2] Nativa da região Mediterrânica e cultivada como erva aromática e medicinal ou como planta ornamental. Também utilizada para chá.
- A arte de expressar a dor e a força das mães fedayins palestinas
Cheguei na Palestina com uma imensa vontade de pintar, queria muito expressar tudo que estava sentindo. Pintar é a maneira que tenho para colocar todo sentimento para fora, mesmo os desenhos que fiz pelo caminho, não foram suficientes para suprir essa necessidade. Minha vontade era deixar aqui um pouco da minha arte, para mostrar como me importo com o que estava acontecendo. Mas, como nada é por acaso e um artista não escolhe o que sente ou quando sente, minhas ideias e meus sentimentos acabaram se transformando, tão rápido como mudam as dunas no deserto. Parte das mudanças aconteceram por conta da alteração em nosso roteiro, já outra parte por conta do que vivemos nos últimos dias. Para começar, ficaríamos na casa do Jehad, além dele não poder vir, sua família ainda teve alguns problemas pessoais enquanto estávamos na Turquia. Acontece que a hospedagem em Israel é muito cara, a mais cara que já pagamos na vida, sem contar que ficamos em um hotel racista, qual o dono tinha até uma bandeira do batalhão Azov[1]. Na Palestina o hotel é um pouco mais barato, mesmo assim você precisa estar atento aos acontecimentos e onde as IOF estão atacando. No fundo, eu sabia que os planos para a segunda parte da viagem daria tudo errado. Já tinha até desistido de pintar e resolvi vestir o manto do “seja o que Deus quiser”. Acabamos sendo acolhidos pela Ruayda, Mohammad e Ayman, o “errado” não poderia ter dado mais certo, o que ascendeu novamente minha vontade de pintar, porém, eu ainda tinha outro problema para resolver, meu emocional. Geralmente, gosto de pintar coisas bonitas que transmitam a felicidade ou “a cor da minha vida” como o Lucas costuma dizer, era isso que eu queria fazer na Palestina. Pintar essas mulheres lindas com seus hijabs, lenços e vestidos bordados, tão lindas quanto elas merecem. Quando vimos pela Al-Jazeera, a felicidade das mulheres – mãe, irmãs, sobrinhas, filha e avó – abraçando e recebendo calorosamente seu filho que voltava para casa depois de 15 anos de cativeiro sionista, pensei ser aquela felicidade que queria passar para tela. Aquele sentimento de “a dor foi superada”, não esquecida, mais superada. Eu não sabia, mas o sentimento que assistimos no jornal, na noite seguinte se transformou em outro completamente diferente. A alegria foi tomada pela tristeza e a dor das mães de Jenin que perderam seus filhos em mais um ataque israelense. Eu vi as cenas de mães em completo desespero velando seus filhos. Eu sou mãe, não consigo imaginar uma dor maior que carregar o caixão de um filho; geralmente são os filhos que carregam os caixões de suas mães, não o contrário, mas a ocupação consegue inverter até mesmo a ordem natural da vida; e só aqui essa desumanidade acontece com tanta frequência. Não há a menor possibilidade de qualquer mãe assistir à perda de outra sem se deixar abalar. Desde que chegamos aqui, eu tenho acompanhado e sentido o sofrimento dessas mães, esposas e filhas. Mulheres que lutam diariamente contra a ocupação com qualquer outro fedayin, e ainda por cima carregam o peso dos caixões dos próprios filhos. Quando estivemos em Hebron, conversei com a mãe do W., enquanto falávamos pelo tradutor, fiquei pensando no sofrimento que aquela mulher sentiu ao ver o filho ser espancado pelo exército colonizador. Eu tenho um filho da mesma idade que o W. Como mãe, me coloquei no lugar daquela mulher diante de mim, fiquei pensando em quantas orações aquela mulher já pediu para que Allah protegesse seu filho para não ser preso ou assassinado; ou mesmo quantas vezes agradeceu a Deus por trazer seu filho vivo para casa. Benção que as mães de Jenin não tiveram; benção que a mãe de Jerusalém que teve o filho queimado vivo não teve; benção que, outras incontáveis mães palestinas não tiveram. No tempo que estamos na aqui, pude assistir um pouco do sofrimento daquelas mulheres. Fiquei com a imagem de cada um de seus rostos em minha cabeça. Ainda pior era sentir a dor de cada uma delas, uma dor que só cresce em terras palestinas. A raiva de saber que o mundo se cala perante a dor dessas mães, me fez repensar, eu não me permitiria ficar só como telespectadora como o resto da comunidade internacional que vem aqui, tiram suas fotos e vão embora. Eu gritaria junto com as mães palestinas e colocaria através do que faço de melhor toda minha solidariedade, mesmo que isso custasse minha própria sanidade. A ideia de pintar lindas palestinas ainda existe, mas saber que tantas mães, irmãs, tias e avós sofrem diariamente com a ocupação da Palestina, não pode nem deve esperar, eu não esperaria mais. Essas mulheres precisam saber que não estão sozinhas, precisam saber que nos importamos e dividimos a sua dor! Quando disse que tudo de “errado” acabou dando certo, me referia a família que nos acolheu de última hora e sem nenhum plano específico. Com a Ruayda, vi que a mulher palestina é forjada em sofrimento, mas permanece de pé, não por conta desse sofrimento, mas apesar dele; assim como por conta do amor; seu amor pela vida, pela família, pela terra, e pela Palestina. Entendo que as mulheres são os pilares de qualquer sociedade, mas, na Palestina seu papel é de protagonista. Essas mulheres não se curvam a submissão, seja a imposta pela força de ocupação ou mesmo por sua própria sociedade. É certo que ainda existem muitos costumes patriarcais e outros que devem ser tratados na Palestina – como em todas as outras sociedades –, no entanto a emancipação com maior urgência aqui é, obviamente, a luta contra a ocupação israelense, é essa que prende, tortura e mata os filhos e filhas dessa terra. Como mulheres, enquanto suportamos ou mesmo superamos caladas as desigualdades que nos são impostas, sofreremos. Enquanto nos calarmos por tantas outras que sofrem os horrores mais inimagináveis, seremos coniventes. Eu sei que se um dia nos unirmos e lutarmos contra todas as injustiças cometidas contra outras mulheres, sem distinção de cor, nacionalidade ou religião, o mundo vai poder evoluir de verdade. Com ajuda de Mohammad e Ayman, consegui comprar um pouco de material de pintura e hoje estou aqui, com uma tela em branco e uma ideia: retratar as mães fedayins. Tentar mostrar através da arte que faço, um pouco da força daquelas que compõem metade das linhas de resistência, e que ao mesmo tempo, deram a vida a outra metade! [1] Os ucranianos passaram a considerar o batalhão Azov como heróis na guerra contra a Rússia. Fundado por Andriy Biletsky e outros paramilitares voluntários neonazistas. Em novembro de 2014, o Batalhão de Azov foi integrado como parte formal da Guarda Nacional da Ucrânia. Além da adoção de símbolos nazistas em bandeiras e uniformes oficiais do batalhão, após o cerco da Mariupol (2022) e a rendição das forças ucranianas, os soldados do batalhão foram filmados sem camisa para exposição das tatuagens em homenagem a Adolf Hitler, Mussolini e outros líderes nazifascistas.











