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  • Al-Quds, uma jornada pela história sangrenta em Jerusalém

    Deixamos a Turquia com vontade de ficar mais, mas era hora de ir; sabendo qual seria nosso próximo destino, nem olhamos para trás. Esta é a segunda vez que tentamos entrar na Palestina. Na tentativa anterior, o plano era adentrar na Faixa de Gaza pela turbulenta passagem de Rafah, fronteira com o Egito; contudo, assim que chegamos à península do Sinai, as condições políticas no momento nos desencorajaram e nem tentamos. Pousamos no aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv às 20h de sexta-feira. Não havia ônibus ou trem para Jerusalém haja vista que na sexta-feira após o pôr-do-sol começa o Shabat, dia de descanso para os judeus. Após uma negociação sobre os valores da viagem com um motorista que faz o translado, seguimos para Al-Quds, que talvez você conheça pelo nome de Jerusalém. Chegamos na cidade de Al-Quds por volta das 22h. Ficamos em um hostel bem perto do portão de Jaffa, uma das entradas para a Cidade Velha. Sem demora, mesmo que já estivesse tarde, largamos as malas e saímos para conhecer a capital da Palestina. Não foi preciso mapa para entrar na Cidade Velha; só de olhar para as muralhas e seus mais de cinco mil anos de história você já se localiza fácil. Jerusalém é uma cidade mítica, mística e com séculos de histórias reais, nem todas boas. A cidade já foi ocupada, destruída, sitiada, atacada e capturada muitas vezes por diferentes povos; entre eles, egípcios, babilônios, romanos, cruzados e sionistas[1], todos interessados na cidade que, repetindo, é a capital da Palestina. Muitos devem estar se perguntando: Mas Jerusalém não fica em Israel? Não! Jerusalém é o centro de uma disputa territorial desde 1948 e se agrava diariamente diante dos olhos da comunidade internacional. Vamos nos referir a Jerusalém como Al-Quds, por ser o nome árabe para a capital da Palestina, mas antes disso vou explicar por quê? Houve uma época que judeus, cristãos e muçulmanos viviam em harmonia na Palestina. Basicamente a sociedade era composta em 85% de muçulmanos, 10% de cristãos e 5% de judeus. Na mesma época, em 1890, ou seja, antes de Adolf Hitler, os judeus eram perseguidos pela Europa, nos chamados pogroms[2]. Assim surgiu entre euro-judeus a ideia de se proteger dos ataques e “fundar” um país onde pudessem viver “em paz”. O movimento mais proeminente foi o sionismo. Os sionistas cogitaram a criação do Estado Judeu na Argentina, Marrocos, Uganda, Madagascar e até lhes foi cedido um território em uma região na Rússia, mas no fim decidiram ir para Palestina. Iniciou-se a imigração judaica ilegal para Palestina, durante o Mandato Britânico para Palestina[3]. Os ingleses tentaram limitar a imigração, mas por baixo dos panos davam pleno apoio para o crescimento da ocupação e do movimento sionista. Em 1947, com o aumento exponencial da imigração judaica – aí sim com efeitos da perseguição nazista – e o abandono do Mandato Britânico para Palestina; a recém fundada Organização das Nações Unidas, sugeriu dividir o território em duas partes (Resolução 181). Sobre a Resolução 181. Os imigrantes judeus (32,95% à época) ficariam com 57% do território, já os árabes-palestinos receberiam apenas 43% do próprio país. Para a cidade de Jerusalém seria instituído o regime de “corpus separatum”, o qual ficaria sob administração internacional por um período de dez anos até que um plebiscito decidisse qual nacionalidade administraria a cidade. Observando os aspectos religiosos da cidade, dos lugares sagrados, santuários e edifícios religiosos, é dito neste documento que respeite e garanta a liberdade de culto, acesso, visitas e trânsito dos residentes e dos cidadãos de outros estados sem distinção de nacionalidade. Os Palestinos rejeitaram a proposta, já que obviamente beneficiava somente os imigrantes europeus. Com o argumento da partilha, milícias judaicas organizadas sob liderança do Haganah[4] (atualmente Forças de Ocupação Israelense, conhecida pela sigla IOF)[5] começaram a atacar, matar e expulsar os palestinos de suas próprias casas. As vilas conquistadas pelos euro-judeus foram destruídas para que não houvesse casas para os palestinos voltarem. Ao final desse episódio, 774 cidades e povoados palestinos foram ocupados, 531 foram totalmente destruídos. Houve 70 massacres com mais de 15 mil mortos e milhares de feridos e mutilados. Aproximadamente 800 mil palestinos foram expulsos; os que resistiram a sair foram empurrados para as extremidades, ficando com apenas 22% de seu próprio território – dividido e separado – que ficaram conhecidos como Cisjordânia e Faixa de Gaza, para que os sionistas pudessem chamar os outros 78% de “Eretz Israel”. O massacre foi chamado pelos euro-judeus de Independência, para os palestinos é chamado de Nakba, uma palavra em árabe que quer dizer catástrofe. Então, quando se argumenta que o que acontece atualmente na Palestina se trata de uma guerra religiosa, comete-se dois perigosos enganos que beneficiam somente ao estado de ocupação: o primeiro é que não há nada de “religioso” nessa história, isso é uma ocupação territorial, uma colonização violenta e assassina, na qual a religião é apenas um argumento de “legitimação” a causa sionista; segundo, isso não é uma guerra, pois, para ser tratado como guerra deveria ambos os lados estarem armados; aqui os soldados sionistas humilham, prendem, torturam e matam civis, sejam mulheres, crianças ou idosos; na ocupação, de um lado tem-se um dos maiores e mais modernos e tecnológicos exércitos do planeta, do outro, palestinos com paus e pedras. Existem várias nomenclaturas que podemos usar para definir o que acontece na Palestina atualmente, algumas que podem ser usadas são: limpeza étnica, apartheid[6], racismo[7], colonialismo e genocídio. Dado esse panorama superficial de uma catástrofe muito mais profunda, agora vamos falar em especial da cidade de Al-Quds (Jerusalém) e sua a importância religiosa para as três religiões monoteístas. Para cristãos, a cidade é cenário dos últimos dias de Cristo. Aqui fica a Via Dolorosa – caminho que Jesus percorreu para a crucificação. Jesus também tem uma história com o Templo; de acordo com a Bíblia foi no segundo Templo de Salomão que o profeta expulsou os vendilhões e cambistas. Outro local sacro é a Gólgota, a colina onde Jesus foi crucificado. João afirma em seu Evangelho que o calvário estava situado nos arredores de Jerusalém, mas evidências arqueológicas recentes sugerem que o Gólgota fica a uma curta distância dos muros da Cidade Velha, justamente na área da Basílica do Santo Sepulcro, local de peregrinação cristã pelos últimos dois mil anos. Para os muçulmanos que consideram a cidade como a terceira mais sagrada de sua fé, a maior importância se dá pela Mesquita de Al-Aqsa. Conforme o Islã, por volta do ano 621 d.C., o anjo Jibril (Gabriel) guiou o Profeta Muhammad por uma viagem noturna por via de um Buraq[8]. O primeiro destino foi o Monte Sinai – onde Allah revelou a Torá a Moisés. A segunda parada se fez em Bethlehem (Belém), cidade palestina do nascimento de Jesus. Na sequência, o profeta foi guiado ao local onde Moisés foi sepultado – hoje, na Esplanada das Mesquitas. Por fim, Muhammad foi conduzido pelo anjo até o local onde profetas antes dele – como Abraão, Enoque, Moisés, José, João Batista, Jesus – o aguardavam para iniciar uma oração. Após a prece os profetas ascenderam juntos ao céu e lá Muhammad recebeu a instrução de repassar aos muçulmanos o culto das cinco orações diárias. No local do encontro e partida dos profetas foi erguida a mesquita Al-Aqsa. Para os judeus o maior argumento de sacralidade é o Muro das Lamentações. Segundo a tradição judaica, na cidade de Jerusalém foi erguido o Templo de Salomão, cujo Muro das Lamentações – conforme certas interpretações – é vestígio do santuário antigo, a ser restaurado com a vinda do Messias, e somente com a vinda – conforme o judaísmo – será autorizada a volta dos judeus para Jerusalém. No entanto, o muro das lamentações reivindicado é na verdade o Al-Buraq, muro ocidental que guarda a mesquita Al-Aqsa. O muro não tinha nenhuma importância, somente no século XVI é que os judeus que habitavam a Palestina começaram a orar ali. Durante a ocupação britânica, os judeus tentaram controlar a área do muro, mas os palestinos recusaram. Em 1929 houve a chamada Revolução de Al-Buraq. Uma comissão internacional foi montada para avaliar a situação; a conclusão enviada para Liga das Nações (antecessora da ONU) foi: “O Buraq ‘Muro das Lamentações’ é parte integral da Mesquita de Al-Aqsa e al-Haram al-Sharif (nome em árabe para Esplanada das Mesquitas). Nenhuma pedra sequer remonta os tempos do Templo de Salomão. A passagem da frente do Muro não é uma passagem pública, mas ela foi construída para uso dos habitantes do bairro de Mughrabi e outros muçulmanos, deixando os judeus sem nenhum direito sobre o assunto.” Durante a Guerra de 1967, as Forças de Ocupação Israelense (IOF) tomaram e ocuparam outras partes do Território da Palestina, bem como a cidade de Al-Quds. Com isso tomaram o controle de toda cidade, do Muro, destruíram o bairro de Mughrabi e distorceram toda história a favor da narrativa sionista. – Ficou confuso com a história? Não se espante, como se ela já não fosse confusa o suficiente, ainda assim o quer o sionismo. Chegamos a Jerusalém em pleno shabat que começa com o pôr do sol da sexta-feira e termina ao anoitecer do sábado. É o sétimo dia da semana judaica e é dedicado ao descanso. No shabat você não trabalha, não dirige, não cozinha e não compra; é um dia dedicado à oração e à desconexão total. Deixamos as malas no hostel e corremos para cidade antiga. Foi impactante, estava vazio, já que Jerusalém é uma das cidades mais visitadas da terra. Por conta do horário e do shabat, havia poucas pessoas na rua, o que nos deixou ainda mais animados. Nunca ouvimos falar de um tour noturno por Jerusalém, mas uma coisa podemos afirmar: à noite, a cidade é absolutamente outra. Apesar de câmeras que parecem te olhar o tempo todo, a cidade velha não é nem um pouco segura, pelo menos não se você for ou se parecer com um palestino. Em 2014 Mohammed Abu Khdair, um jovem palestino de 16 anos foi sequestrado, espancado e assassinado por judeus ortodoxos. Segundo a autópsia, o jovem foi queimado vivo. Segue abaixo trechos do depoimento dos assassinos: “Estávamos de cabeça quente e com raiva e decidimos queimar algo dos árabes.” [...] “Decidimos pegar alguém, sequestrá-lo, espancá-lo e expulsá-lo.” [...] “Eu disse a Yud para pressionar com força e acabar com ele porque essas pessoas têm sete vidas. Não deixe que ele se levante.” [...] “Peguei um isqueiro e coloquei fogo no cara… e tudo pegou fogo.” [...] “Eu disse a eles: ‘Vou falar a verdade, nós tínhamos um propósito, mas isso não é para nós. Nós estávamos errados. Somos judeus misericordiosos. Somos seres humanos’”. The Times of Israel Andando pela Cidade Velha percebemos muitos jovens ortodoxos, sempre com olhares desconfiados. Queríamos encontrar o Al-Buraq (Muro das Lamentações), mas o Google Maps não funcionava, então perguntamos para dois jovens como chegar. Não é difícil encontrar “israelenses” que falam outros idiomas, na verdade é bem comum, visto que muitos desses jovens não nasceram no Estado de Israel. Logo depois da Nakba (1948), que Israel chama de Independência, era preciso firmar maioridade populacional dentro da Palestina, para isso, em 1950 Israel criou a Lei de Retorno (5710-1950). Essa lei, ainda válida, garante a qualquer judeu de qualquer parte do mundo, “retornar” para Israel. – Aí te pergunto como é possível que estrangeiros que nunca estiveram aqui, “retornem”? – E pior, como não é permitido que os palestinos que nasceram aqui, que tem seus pais, avós, bisavós e além, e foram expulsos de suas casas, não possam retornar? – Para piorar a situação, em 1970 o Estado de Israel acrescentou a Emenda (5730), ampliando o “direito de retorno” para filhos e netos de judeus bem como seus cônjuges e os cônjuges de seus filhos e netos. Ou seja, qualquer um que se declara descendente de judeu, tem direito de cidadania israelense. – E com base em quê o Estado de Israel comete essa atrocidade? – Alegando o “direito divino” dessas pessoas ao “retorno” à Terra Prometida. Por isso não é difícil encontrar um judeu ortodoxo falando russo, inglês, espanhol ou mesmo um português carregado de um sotaque forçado. Chegando ao Muro, a Di foi para área destinada às mulheres. Achei melhor observar de longe e ficar de olho. Sei que muitas pessoas enxergam o Muro das Lamentações como algo sacro, mas eu não conseguia olhar dessa maneira, para ser bem sincero estava louco para sair logo dali. Enquanto estava pensando nas histórias que permeiam esse muro e de longe olhando para Di, um francês judeu que decidiu morar em Jerusalém se aproximou de mim e puxou conversa. Ele também falava bem espanhol, o que facilitou compreendê-lo. Ele me disse que decidiu morar em Jerusalém pela “paz espiritual” que emana da cidade; fiquei pensando: “esse filho da puta só pode estar de sacanagem”, mas fiquei quieto. Ele me convidou a me aproximar do muro, embora eu não quisesse, acabei indo. Percebi que muitos jovens estrangeiros – ao qual percebesse pela dificuldade em ler e pronunciar o hebraico – faziam um tipo de “catequese”. Dei uma volta rápida e caminhei para o meu ponto de vigia, dando as costas para o muro; foi quando percebi, que outros israelenses pelos quais eu passei na entrada sem perceber, estavam fortemente armados. Pela aparência de mais velhos, deduzi que não eram soldados, deviam ser civis que montavam guarda para os que estavam orando. O que mais me chamou a atenção foi que aqueles caras armados, cantavam enquanto liam trechos da Torah[9]. Eu sei que meu ateísmo me impede de ver certas coisas, mas talvez esse mesmo ateísmo me possibilite ver outras. Fiquei pensando: “se eu acreditasse em Deus com essa mesma efervescência, se confiasse tanto na vontade de um ser superior e aceitasse seus planos divinos, me recusaria carregar um fuzil”, mas esse sou eu. Assim que saí dali fiquei buscando a Di com os olhos, mas ela me achou primeiro. Perguntei se tinha sentido algo e ela disse que não, pois o clima era muito tenso. Não esticamos a conversa e saímos logo. Caminhamos pela Via Dolorosa – percurso da crucificação de Jesus –, passamos pela Igreja do Santo Sepulcro, conhecemos o mercado, mesmo que fechado, e lá pelas três da madrugada o cansaço bateu e voltamos ao hostel para descansar um pouco e nos prepararmos para o dia seguinte. Era muita experiência de Terra Santa para um único dia. [1] Fundado pelo Theodore Herzl, jornalista austro-húngaro, o sionismo surgiu como um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano, sobretudo, na Palestina. [2] Pogrom é uma palavra russa que significa “causar estragos, destruir violentamente”. Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população, principalmente contra judeus, tanto no império russo como em outros sob domínio do Czar. [3] O Mandato Britânico da Palestina foi uma entidade geopolítica sob administração britânica que foi criada com a Partilha do Império Otomano após o final da Primeira Guerra Mundial. A administração civil britânica na Palestina operou de 1920 a 1948. [4] No livro “Haganah”, o autor Munia Mardor, ex-oficial da força escreve, “Um dos principais objetivos da Haganah, tal como movimento sionista em geral, era abrir caminho aos imigrantes que desejavam entrar na Palestina”. (MARDOR, 1980). [5] Após a autoproclamação de independência, o Haganah foi dissolvido e se tornou o exército israelense. Oficialmente o exército se chama, Israel Defense Forces (IDF), ao qual palestinos e organizações de direitos humanos preferem chamar de Israel Occupying Forces (IOF). [6] Em 2021 a Anistia Internacional publicou um relatório especificando que o sionismo é um regime de Apartheid (outras Organizações já haviam feito anteriormente). Em 2022, durante a segunda Cúpula da Missão Palestina em Pretória, o governo da África do Sul pediu para que a comunidade internacional reconheça o Estado de Israel como regime de apartheid. [7] Em 1975, a ONU adotou a Resolução 3379, considerando que o sionismo equivale a racismo. Esse status só foi revogado em 1991, após o discurso de Yasser Arafat, que tornou a OLP membro Observador Permanente da ONU. [8] Buraq “relâmpago” ou geralmente traduzido do persa como “brilhante”; é interpretado na tradição islâmica como um animal alado [9] A Torá ou Bíblia Hebraica corresponde aos cinco primeiros livros do Pentateuco – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, e constitui também a primeira grande parte da Bíblia Cristã, ou Antigo Testamento. (USP Online)

  • Ayasofya: a herança bizantina de história, cultura e fé em Istambul

    Decidimos ser os primeiros a entrar na Ayasofya. Tentamos outras vezes visitar o monumento, mas a fila na praça externa estava tão grande que decidimos ir outro dia e no primeiro horário. Mais uma vez, cruzamos por entre os pescadores da Ponte de Gálata e em pouco menos de uma hora de caminhada matinal lá estávamos nós, entre os primeiros da fila para conhecer a mesquita que é o símbolo de Istambul. A Ayasofya ou “Santa Sofia” é um dos monumentos mais visitados na Turquia. Construída entre 532 e 537 por ordem do Imperador Justiniano, permaneceu como a maior catedral do mundo por quase mil anos. A etimologia do nome Ayasofya causa confusão para os turistas ocidentais que adotam o nome Santa Sofia, acreditando que seja uma homenagem à santa cristã, Sofia. Deveras, o nome completo da Catedral é (Ναός της Αγίας του Θεού Σοφίας), sendo: Ναός της (Templo) Αγίας (Agia, palavra para Santo) Θεού (Deus) Σοφίας (Sofia). Sofia é um nome grego que significa “sabedoria”, portanto, a tradução literal em português é “Templo da Santa Sabedoria de Deus”. Não somente o nome causa confusão, mas também a qual religião esse templo pertence. Atualmente, Ayasofya é uma Mesquita, porém, no passado já foi Catedral Bizantina (537 – 1054), Catedral Ortodoxa Grega (1054 – 1204), Catedral Romana (1204 – 1261), novamente Catedral Ortodoxa Grega (1261 – 1463), Mesquita (1463 – 1931), Museu (1935 – 2020) e agora, com muita controvérsia e rejeição, novamente Mesquita. Confesso que nós mesmos ficamos com dúvidas quanto a que nome adotar neste diário e se deveríamos chamar de Catedral, Museu ou Mesquita. Optamos por Mesquita Ayasofya, haja vista que atualmente ela é uma mesquita e que se encontra em território turco. Ayasofya está profundamente vinculada à história da Turquia. Servindo como palco para o florescer e desfalecer dos grandes impérios que passaram por aqui. Depois de uma hora esperando na fila, finalmente os portões se abriram e entramos para conhecer a Mesquita Ayasofya. Imponente e majestosa, a arquitetura externa de estilo bizantino não difere de outras mesquitas da cidade. Durante 500 anos Ayasofya serviu como modelo para tantas outras mesquitas de todo o Império Otomano, incluindo a Sultanahmet (Mesquita azul) localizada bem em frente. Retirando os sapatos, caminhamos cada um por um lado para poder entrar no local sagrado. Ao entrar na Mesquita, a visão que tínhamos de simplicidade foi tomada pela sensação de se estar numa caixa de joias islâmicas. Os lustres baixos iluminam um ambiente amplo e de tetos que se erguem às alturas, sustentados por enormes pilastras laterais. No centro, um lustre de arabescos islâmicos ilumina à meia-luz; o contraste entre o ferro da armação e a delicadeza dos finos vidros que prendem as luzes amareladas exterioriza os dogmas da fé islâmica: firme, porém abundante em ternura. No teto abobadado, caligrafias do nome de Deus partilham o espaço com imagens cristãs cobertas. É comum que cristãos se indignem com a cobertura das imagens, no entanto, elas não estão cobertas somente pelo fato de serem representação cristã, mas somente pelo fato de serem representações. No Islã, é proibido a idolatria de imagens, principalmente as que dizem respeito aos profetas, Abraão, Noé, Moisés, Jesus ou Mohammad. Segundo a religião, os profetas iluminados por Allah devem ter importância na imaginação das pessoas e não ter o sagrado personificado em imagens. Assim, a forma de representar Deus é na caligrafia de seu nome. Em forma de respeito à tradição cristã, os muçulmanos preservaram suas imagens e, em forma de respeito à tradição islâmica, elas permanecem cobertas. “Ele é Allah, o Criador, o Originador, o Criador de imagens. A Ele pertencem os melhores nomes.” (Alcorão 59:24) Passamos horas admirando a mesquita, vimos muitos turistas entrando e saindo, mas nós não conseguimos sair. Apesar de ser ateu, ou como prefiro dizer, “alguém que ainda não encontrou Deus”, tenho imensa admiração por templos religiosos, ainda mais se esses templos guardam tantas histórias como Ayasofya. Seja mesquita, catedral, sinagoga ou templos hindus, budistas ou de religiões de matriz africana, eu realmente gosto de toda herança cultural guardada dentro dessas paredes. Quanto à Di, além de gostar tanto quanto do contexto histórico e cultural, ela ainda se deixa emocionar pelas manifestações de fé. – Algo que admito invejar! Escolhemos fazer esta viagem à procura da Terra Santa, na qual encontramos até o momento diversas manifestações e expressões da fé praticadas de formas diferentes. Na Ayasofya, provavelmente por guardar segredos de religiões diferentes, mesmo com a disputas pelo status religioso, conseguimos encontrar um pouco da Terra Santa que temos procurado. Hoje é nosso último dia de passeio pela Turquia, podemos dizer que sim, encontramos aqui uma terra santa. Santificada por um povo maravilhoso que não mede esforços para ajudar, seja na acolhida de pessoas em situação de refúgio ou na simples ajuda a dois turistas perdidos. Santificada por tentar lidar com a diversidade tentando corrigir erros anteriores. Mas, principalmente, santificada por entender que a religião é importante para o ser humano, tanto quanto a laicidade e a secularidade são importantes para uma sociedade. A Turquia realmente conquistou nossos corações. Toda despedida dói, mas essa vai doer um pouco mais, pois saímos com a mais verdadeira vontade de ficar. O tempo que convivemos com os turcos não demorou, mas aprendemos a pronunciar "teşekkürler", que significa obrigado; não foi fácil, mas aprendemos. Então para Turquia, para todo seu povo, para toda sua cultura e para Ayasofya; só podemos dizer "teşekkürler" por ser tão boa para nós!

  • Taksim, após o atentado terrorista

    Em novembro do ano passado, um ataque a bomba ceifou a vida de seis pessoas e deixou mais de oitenta feridos em uma das ruas mais movimentadas de Istambul. Poucos meses após o atentado, lá estávamos nós, caminhando pela praça Taksim e pela tumultuada rua Istiklal. Estamos hospedados no bairro de Karaköy, local com a maior concentração de turistas em Istambul. A rua Istiklal liga nosso bairro à praça Taksim, no bairro de Beyoglu. Devo admitir que esperava encontrar o lugar vazio devido ao ataque; ao contrário, estava lotado de turcos e turistas estrangeiros. Lamentavelmente, não foi a primeira vez que um ataque como esse aconteceu por aqui. Em 2010, um terrorista suicida do grupo Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK) explodiu-se ao lado de um ônibus da polícia, ferindo 15 policiais e 17 civis. Outro atentado ocorreu em março de 2016; um homem-bomba matou diversos turistas na mesma rua – ataque então reivindicado pelo grupo fundamentalista Estado Islâmico (ISIS ou Daesh). É complicado entender ou falar sobre terrorismo de maneira tão superficial, visto que existe muito preconceito e desinformação sobre o assunto. Vale ressaltar que Estado Islâmico é uma organização terrorista que não representa os muçulmanos, sejam eles do Oriente Médio ou de qualquer outra parte do mundo. O grupo apenas se apropriou do termo “islâmico” como pretexto, exatamente como terroristas bolsonaristas se autoproclamam “patriotas” para atacar a democracia brasileira. Terrorismo e islamismo não são sinônimos, muito pelo contrário. Os turcos, majoritariamente muçulmanos, se orgulham e insistem em manter e cobrar que o regime seja laico e secular, bem como Atatürk, o “Pai dos turcos”, prometeu desde a independência, afirmando que: “A religião é uma instituição importante. Uma nação sem religião não pode sobreviver. No entanto, também é muito importante observar que a religião é um elo entre Allah e o crente individual.” Kemal Atatürk Tão é o senso de laicidade turca que cito um exemplo: logo ao chegarmos na praça, fomos conhecer a Mesquita Taksim. Inaugurada em 2021 em cerimônia que contou com a presença do presidente Recep Tayyip Erdoğan. O plano de construção do complexo religioso foi pauta de discussão desde a década de 1950. Várias vezes o projeto foi abandonado. Os turcos, mesmo muçulmanos, se opuseram à construção devido ao fato de a praça Taksim ser ligada à história de republicanismo e secularismo na Turquia. No entanto, o Conselho de Preservação de Monumentos Culturais eventualmente venceu a disputa; em 2017, a obra teve início. A Mesquita Taksim não foi a única construção que a vontade popular tentou barrar. A Mesquita de Çamlica, no lado asiático da cidade, teve uma história parecida, concluída apenas em 2019 para então se tornar a maior mesquita do país. Voltando aos atentados terroristas, uma onda de ataques abalou as metrópoles turcas entre 2015 e 2017, causando mais de 500 mortes. Em 2015, um carro-bomba explodiu nas ruas da capital Ancara; em 2016, foi a vez do aeroporto internacional de Istambul. Na mesma cidade, durante uma festa no réveillon de 2017, uma bomba explodiu em uma discoteca. Esperávamos que o ataque de novembro tivesse espantado os turistas ou, no mínimo, incitado maior controle da polícia em áreas não islâmicas, como a Igreja de Santo Antônio, que visitamos mais tarde. Contudo, a vida segue como se nada tivesse acontecido. Havia, de fato, certo contingente policial, mas nada que espantasse dois brasileiros. Dias após o atentado no fim do ano anterior, as autoridades turcas prenderam uma mulher e outros suspeitos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – designado “terrorista” pelo regime turco. Autoridades proibiram a publicação de imagens e artigos sobre o assunto e limitaram a banda das redes sociais para “impedir a propagação de imagens chocantes e de informação falsa”. Erdoğan prometeu “punir os responsáveis”. Não obstante, Istiklal e Taksim contam com vasto aparato de vigilância e força policial 24 horas, o que facilitou encontrar os suspeitos. Andar pela área me fez pensar na maneira com que o governo brasileiro tem tratado terroristas bolsonaristas. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Evidentemente, o que aconteceu em Brasília não tem nada a ver com “liberdade de expressão e reunião pacífica”; aquilo foi terrorismo. Antes de viajar à Turquia, lembro de ter visto o atual Ministro da Justiça Flávio Dino afirmar em entrevista que defende o direito à manifestação de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que ataques contra a democracia seriam tratados com seriedade. Na Turquia, porém, não existe essa distinção; manifestantes pacíficos são tratados como terroristas e vice-versa. A força policial instalada na praça Taksim não serve apenas para prevenir o terrorismo, como insiste em dizer; serve para dissuadir qualquer tipo de manifestação popular. Erdoğan e seu gabinete foram criticados várias vezes pelo uso excessivo da força e violência contra manifestantes pacíficos – quem dirá aqueles que cometem atentados terroristas. No primeiro dia de viagem, escrevi sobre como nós ocidentais olhamos para incidentes no Oriente Médio enquanto minimizamos a periculosidade de nossos próprios terroristas. Olhando para a maneira com que o governo turco atua no combate ao terrorismo e como o governo brasileiro tem atuado – e como ambos reagem às manifestações populares –, podemos dizer que, neste quesito, o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seu ministro Flávio Dino e outras autoridades brasileiras em questão dão exemplo de aplicação da lei e da ordem sem ferir os direitos humanos – mesmos daqueles que apoiam a ditadura, exaltam a tortura e outras barbáries. Se os presos da Papuda e Colmeia soubessem um pouco sobre a diferença entre terrorismo e direito de associação pacífica e como é distinta a abordagem do Brasil e da Turquia, em seus respectivos cenários, estariam todos gratos por estarem detidos sob um governo democrata de esquerda que respeita os direitos humanos.

  • Descobertas inesperadas em Istambul: atravessando o Bósforo e encontrando Kadiköy

    Nos dias que passamos em Istambul vasculhamos cada centímetro da região europeia. Hoje foi o dia de atravessar o Bósforo e conhecer o lado asiático da cidade. Não tínhamos nenhum plano específico, somente perambular pelas calçadas e observar a vida em seu mais pleno funcionamento, quem sabe encontrar as diferenças e semelhanças entre um lado e o outro. Embarcamos em um ferry boat ali mesmo no Pera; o barco cruzou para o outro lado da margem, depois passando por baixo da Ponte de Gálata em direção ao Üsküdar, local onde um turco chegou voando após se jogar da Torre de Gálata. Foi o dia mais frio de todos e, não estava para brincadeira; durante a travessia do Estreito do Bósforo o barco balançou bastante, o Lucas pareceu não se importar nem com o frio, muito menos com o balanço do mar. Fiquei pensando “como pode ele ter medo de avião e não ter medo do mar mesmo sem saber nadar direito?” Caminhamos pela rua, mas parecia que não chegaríamos a lugar nenhum. Tentamos tomar um ônibus para a mesquita Çamlıca em Istambul, construída no pico mais alto da cidade, mas não deu certo. Hoje o Lucas estava com a cabeça na lua e não conseguia de jeito nenhum se organizar como navegador. Acho que é pelo fato de estar chegando a hora de ir para Palestina. Ele disse, até treinamos algumas vezes, respostas prontas para dar para o policial da fronteira israelense. Geralmente os policiais fazem muitas perguntas: se você conhece algum palestino; se você vai para Palestina; se você já ouviu falar de Palestina e por aí vai. Claro que o Lucas não pode dizer que é jornalista, muito menos para o jornal que escreve. Pior ainda é sobre o que escreve. – Pensando bem, é melhor não falar nada! A opção que escolhemos foi dizer que somos ambos tatuadores. Engraçado seria alguém pedir para que ele desenhasse, aí acabaria toda farsa. – Eu acho que é isso que anda rodeando a cabeça desse homem hoje! Como não conseguimos pegar ônibus, tentamos embarcar no metrô. Aprendemos cedo a comprar o cartão nos totens eletrônicos, na vigésima ou trigésima tentativa já estávamos craques. O Lucas foi na máquina e voltou com um cartão. Em Istambul você pode optar por comprar um cartão com três passagens que te dá acesso a todos os meios de transporte, obter um desconto comprando um com mais passagens. Fizemos o cálculo e optamos por comprar o de três unidades, já usamos tanto esse que agora não compensava mais. Vindo com o cartão, passei pela catraca, e quando o Lu foi passar ela começou a apitar. Um guarda tentou nos ajudar, mas disse que aquela passagem era diferente e nós teríamos que comprar outra, e depois descer em outro lugar e embarcar em outro ônibus, barco, disco voador, sei lá. Acabamos desistindo, o Lucas ficou “putasso”, não que ele seja um cara tipo tranquilo, mas em viagem é difícil vê-lo assim estressado; mas hoje ele está, e para não brigarmos é melhor nem ficar perguntando. Ficamos andando na rua sem rumo, adoramos fazer isso, mas no bairro onde estávamos não tinha nada de diferente, era um bairro típico de cidade grande, com eletrônicos, meias e os típicos coletes salva-vidas pendurados; sem contar as ruas movimentadas com pessoas, carros, ônibus e metro por todos os lados. Nosso primeiro dia chato! Eu estava começando a me irritar também. – Pô, estou de férias, vamos perder um dia de passeio por causa desse chato! Ficamos andando igual duas baratas tontas. Do nada, ao atravessar uma avenida o Lucas olhou para uma placa e disse: – Vamos? Respondi: – Bora. Eu não sabia para onde estávamos indo, ele disse que nem ele, já que não fala turco, mas completou dizendo que geralmente aquelas placas marrons indicam pontos turísticos. Conversando e caminhando passaram-se uns quinze minutos e chegamos. – Não acredito, gritei! No primeiro dia de viagem, tentamos chegar ao mercado de Kadiköy, não conseguimos. Esse mercado tem dia certo, só funciona nas quartas-feiras e, nem acredito, hoje é quarta-feira; eu já nem tinha mais esperança de encontrar esse paraíso das compras, agora do nada, aqui estamos nós. Perguntei se o Lucas sabia o que era aquilo que estávamos vendo, ele disse que não. Desconfiei, mas percebi que ele realmente não fazia ideia de que por acaso encontramos o bendito Kadiköy. Aprendi que viajando tudo conta, não só o destino final, mas muitas vezes, ou todas elas, o caminho para um lugar é tão emocionante quanto chegar nele, mesmo quando passamos por certas frustrações ou acabamos o dia irritados. No fim das contas o que fica são boas histórias para contar. Eu até contaria um pouco mais sobre o mercado de pulgas de Kadiköy, mas andamos tanto e fiz tantas compras hoje que vou deixar por conta da imaginação de cada um e vou dormir um pouco.

  • As cores do Balat e as histórias ocultas de Istambul

    Balat é um bairro despretensioso, com ruas estreitas e casas coloridas, onde cafés populares e galerias se misturam harmonicamente com mercearias tradicionais de bairro. Território livre para a criatividade de qualquer artista enlouquecer de tanta inspiração. Edifícios antigos, sinagogas e as igrejas bizantinas confirmam o passado cosmopolita de centro de comunidades judaicas, gregas e armênias. Ponto alto do passeio é se perder em suas ruelas cheias de história e romantismo. Encantada, moraria aqui fácil, fácil! Caminhamos ao amanhecer cruzando a ponte entre os pescadores da Ponte de Gálata. Hoje foi dia de ver as cores de Balat, o bairro mais colorido de toda Istambul. Em Balat o triste se alegra, a destruição ganha vida e o feio se transforma no incrível. Após uma hora de caminhada encontramos as primeiras konaks otomanas de fachadas coloridas. As flores nas janelas eram cada vez mais constantes, até que o sol resolveu aparecer – embora tímido – para esquentar um pouco o dia. Antes de chegarmos às ruas almejadas pelos fotógrafos, passamos pela Mesquita Yavuz Sultan Selim Camil, um complexo otomano do século XVI localizado em uma das sete colinas de Istambul. Assim que entramos percebemos que era o momento de oração e a mesquita estava lotada. Por isso escolhemos apreciar a construção somente pelo lado de fora. Não que houvesse alguma restrição à nossa presença; na verdade foi uma senhora muçulmana que nos indicou cortar caminho pelo pátio da mesquita em direção ao Balat, mas não achamos respeitoso abusar da hospitalidade e incomodar a prece. Passando pela mesquita foi possível enxergar o Corno de Ouro e o imponente edifício da escola grega que se destaca entre construções menores. A Fener Rum Kız Lisesi é uma escola ortodoxa grega ainda mais antiga que a mesquita de Sultan Selim, datada do século XV. A escola foi construída para os habitantes gregos da época. Atualmente permanece ativa e segue como uma das instituições educacionais mais prestigiadas da cidade. Ao lado do colégio, está a Igreja Ortodoxa de Santa Maria dos Mongóis, a igreja mais antiga de Istambul. Em Balat também se encontra a sinagoga mais antiga da cidade, a Ahrida. No século XV o sultão Bayezid II ofereceu cidadania a uma grande população de judeus perseguidos pelos cristãos na Espanha e no Norte da África. Vale destacar, a perseguição aos judeus não começou com Adolf Hitler – assunto que vamos abordar nos próximos dias. O sultão doou terras aos refugiados judeus no bairro de Balat, que ali se estabeleceram e suas famílias se multiplicaram. Atualmente há poucos judeus no bairro; desde 1950 começaram a emigrar de Balat para outros bairros e alguns foram se assentar no recém autoproclamado Estado de Israel – assunto que também tem data e hora marcada para falarmos. Como dissemos em nossa introdução: “Em Balat o triste se alegra, a destruição ganha vida e o feio se transforma no incrível.” – Não sem motivo. As coloridas ruas do bairro mais alegre de Istambul passaram por diversos episódios de violência, morte e massacres. No início da decadência do Império Otomano, em 1810, os judeus do bairro investiram contra tropas de janízaros a serviço do sultão. O estado decidiu prender e executar alguns dos responsáveis para servirem de exemplo. Posteriormente, no contexto da Primeira Guerra Mundial, ocorreu ainda o genocídio armênio. A comunidade armênia ocupava então uma posição de destaque na sociedade otomana. Com as sucessivas perdas militares na Grande Guerra, os governantes otomanos passaram a temer uma rebelião e uma subsequente insurreição por independência; assim, decidiram pela deportação em massa. Estima-se que 800 mil a 1,2 milhão de armênios foram enviados ao deserto sírio, privados de comida e água. A derrota na Primeira Guerra Mundial levou à queda do Império Otomano e à ascensão do movimento nacionalista turco, liderado por Atatürk. Durante a guerra os turcos promoveram um processo de limpeza étnica também contra cristãos sírios e ortodoxos gregos, uma tentativa de tornar a Turquia uma etnocracia. O governo turco nega até hoje o processo de limpeza étnica promovido contra os armênios, sírios e gregos, ao alegar que a deportação em massa foi um processo legítimo. No entanto, no último ano, trinta e três países reconheceram o episódio como genocídio. A Turquia, assim como qualquer país, tem um passado e episódios difíceis de serem lembrados – porém, ainda mais difíceis de serem esquecidos. Em Balat muitas lágrimas e sangue foram derramados. Contudo, ainda hoje, os habitantes do bairro insistem em colorir e decorar as ruas com a esperança de criar memórias melhores para a próxima geração. Um exemplo disso é o trabalho do Mink Kalpler Çucuk Iyilik Ve Asevi, uma casa onde mais de 60 crianças são atendidas sem distinção de etnia, cor ou religião. Crianças de diferentes idades tomam café da manhã, almoçam e têm aulas de reforço escolar e outras disciplinas variadas, com a ajuda de voluntários de todos os cantos da Turquia e de outros países, que vêm até Balat para conhecer este trabalho. Kalpler Çucuk é uma escola de tempo integral onde as crianças aprendem e socializam enquanto os pais trabalham. Neste mundo não há lugar perfeito ou história imaculada. Todos temos um passado, alguns, um tanto mais sombrio que outros. Todavia, o que nos ensina o bairro de Balat é que dar cores à vida é uma excelente forma de recomeçar.

  • Desvendando Istambul: da Torre de Gálata ao Bazar Egípcio, um passeio pela cidade das tradições

    Chegamos a Istambul antes do sol nascer. Como nosso hotel fica próximo à Torre de Gálata, deixamos as mochilas e fomos tomar café observando um dos cartões postais mais icônicos da cidade. A origem da torre ainda é motivo de estudos e pesquisas; atualmente a mais difundida é que foi construída a mando do Imperador Justiniano, O Grande (527–565), porém, inicialmente de madeira, a torre foi destruída durante a Quarta Cruzada em 1204. Em 1267, uma colônia genovesa foi estabelecida em Constantinopla e uma nova torre foi construída, mas também não era essa. Somente após uma expansão da colônia genovesa, em 1348, a Torre de Gálata foi construída servindo como farol para os navegadores, mas também como parte do muro de defesa da retaguarda da colônia. Após a conquista otomana, os genoveses foram expulsos, mas a torre foi autorizada a ficar, porém, como presídio. A história da Torre de Gálata é realmente confusa, principalmente considerando os turbulentos períodos de guerras entre os bizantinos, genoveses e otomanos. Entre fatos e discrepâncias históricas sobre a Torre de Gálata, é curioso que a mais famosa, aquela que sobrevive já há alguns séculos, é justamente a lenda do turco Ahmed Celebi. A lenda diz que em 1638, inspirado pelos desenhos de Leonardo da Vinci, o turco se lançou da torre amarrado em asas de madeira que ele mesmo projetou. Segundo conta a tradição oral, no primeiro voo intercontinental da história, Celebi voou de Gálata na parte europeia atravessando o canal do Bósforo e pousando em Üsküdar, no lado asiático da cidade. Vendo com os próprios olhos a distância entre um ponto e outro e, sabendo que a origem dessa estória parte de um único mochileiro otomano do século XVII, acho difícil de acreditar. A Torre de Gálata foi convertida em um museu, se tornando um dos pontos turísticos mais frequentados da cidade, o qual oferece vista para Ayasofya, Palácio de Topkapı, Sultanahmet e, claro, do Corno de Ouro e do Estreito de Bósforo, bem no coração de Istambul. Após tomar alguns chás com vista para Torre de Gálata seguimos em direção ao estuário do Corno de Ouro. Já era umas 9h da manhã quando o sol resolveu aparecer no horizonte. Estávamos bem embaixo da Ponte de Gálata; a cena das silhuetas dos pescadores acima de nós era uma poesia pronta para ser fotografada. Qualquer hora, seja dia ou noite, os pescadores de Istambul disputam os espaços na ponte, dando identidade única para o local. Caminhando entre os pescadores seguimos na direção das mesquitas do outro lado da margem. A primeira que se pode ver é a Mesquita Yeni, encomendada em 1597 pela mãe do Sultão Mehmed III. Seguimos até o Bazar Egípcio, um mercado construído em 1660, que leva esse nome por ter sido construído com plantas similares às dos mercados do Egito. Atualmente um total de 85 lojas vendem especiarias, joias, lembranças, frutas secas, nozes e o tradicional turkish delight. Caminhamos de Gálata até a Ayasophya, mas estava tão lotado que resolvemos não entrar. Ficamos sentados na praça em frente observando os monumentos ao redor e os turistas que compunham o cenário. Tem dias como hoje que caminhamos sem olhar nos mapas e sem um destino certo ou atração para conhecer, e Istambul é um dos lugares que proporciona esse tipo de passeio, pois tudo aqui, até mesmo as coisas mais simples e rotineiras, são um mundo novo para nossos olhos. Andamos o dia todo, observamos as pessoas, seus costumes e o cotidiano da vida em Istambul. Juro, amamos tanto essa cidade, cada centímetro, que estamos pensando em quando sair amanhã, distribuir alguns currículos.

  • Fragmentos de Izmir: Memórias de uma cidade da Turquia de outros tempos

    Um pouco mais cedo, enquanto andávamos o mais lentamente possível por entre as estátuas, bustos e outros artefatos do período helenístico (330 – 30 a.C.) e romano (30 a.C. – 395 d.C.) do Museu de Arqueologia e Etnografia, encontramos a impressionante estátua de mármore de Androklos, na verdade, fragmentos dela. Os pedaços da estátua de Androklos descrevem a Turquia de outros tempos. Antes de fugir da Grécia, Androklos consultou o oráculo de Delfos, que profetizou ao guerreiro que este deveria navegar até que um peixe e um javali mostrassem o local onde parar e se estabelecer. Androklos navegou com seus guerreiros. Chegando a Anatólia, enquanto pescadores preparavam o almoço, um peixe em chamas saiu do fogo e incendiou alguns arbustos; assustado pelo fogo um javali surgiu das chamas. Considerando cumprida a profecia, Androklos estabeleceu-se ali e fundou a cidade de Éfeso. Assim como os fragmentos de uma estátua preservam a história e estórias de uma cidade que já não existe mais, os fragmentos de lembranças que mantivermos de Izmir nos ajudarão a lembrar de coisas que não poderemos mais viver quando voltarmos para casa; sendo assim, vale preservar o máximo possível.

  • Atatürk, o pai dos turcos

    Os eventos que marcam a Turquia contemporânea não pertencem somente a ela. Pertencem a todo o Oriente Médio e principalmente à subjugação de seu povo pelas mãos de forças coloniais europeias. Para compreender melhor essa perspectiva, fomos conhecer um pouco da história da república e de seu fundador, Mustafá Kemal Atatürk, ou o “Pai dos turcos”. “Meu povo vai aprender os princípios da democracia, os ditames da verdade e os ensinamentos da ciência.” Kemal Atatürk Estava ansioso para conhecer o museu de Atatürk. O museu não estava muito longe; fomos andando pela orla e assistindo um pouco da melancolia dos músicos de rua. Não demorou muito para chegarmos ao museu que um dia foi usado como o quartel-general turco durante a Guerra de Libertação. Um prédio de aparência simples, porém, que guarda em seu interior o maior tesouro da Turquia, sua história. Vamos retroceder um pouco no tempo e explicar quem foi Atatürk. Nascido na cidade otomana de Salonica em 1881, se formou no Colégio Militar Otomano em 1915, mas foi preso por atividades antimonarquistas logo após a formatura. Liberto, o jovem militar foi mandado para lutar em diversas regiões do Império Otomano. Em Damasco, na Síria, se juntou a uma pequena sociedade revolucionária secreta de oficiais reformistas. Atatürk se tornou uma lenda entre os militares durante a Primeira Guerra Mundial. Enfraquecido por movimentos nacionalistas, o Sultão se juntou ao lado das Potências Centrais com intuito de preservar a posição de Império. No segundo ano da Grande Guerra, Atatürk defendeu o estreito de Dardanelos contra as forças britânicas. Na batalha de Galípoli (1915), prevendo onde australianos e neozelandeses a serviço britânico atacariam, gritou suas ordens ao 57º Regimento de Infantaria: “Homens, não estou ordenando que ataquem. Estou ordenando que vocês morram.” Manteve a posição até a recuada dos aliados; mesmo com a vitória, muitas vidas foram perdidas, incluindo as dos soldados australianos e neozelandeses, os quais o militar fez questão de mencionar: “Os heróis que derramaram seu sangue e perderam suas vidas no solo deste país! Você está no solo de um país amigo agora. Portanto, descanse em paz.” Em 1918 Mehmed VI se tornou o novo sultão otomano. Convocou o herói de Galípoli para Constantinopla e em seguida o enviou para Palestina. Atatürk enfrentou os britânicos em diversos terrenos entre Aleppo (Síria) e Nablus (Palestina). Segundo o biógrafo escocês John Patrick Douglas Balfour, Kemal Atatürk foi o único general turco na guerra que nunca sofreu uma derrota. No entanto, as conquistas militares otomanas não foram suficientes para garantir a vitória contra as potências aliadas. Derrotado, o Império Otomano entrou em colapso. Mesmo antes do fim da guerra, em uma reunião secreta em 16 de maio de 1916, os governos do Reino Unido, França e do Império Russo decidiram, secretamente, partilhar os territórios otomanos, hoje correspondentes à Jordânia, Iraque, Síria e Líbano. A Palestina, reclamada por todas as três potências, ficaria sob administração internacional até que fosse decidido quem arrendaria o território. O acordo entre britânicos, franceses e russos se tornou público quando os comunistas depuseram o Czar e tomaram o poder na revolução de outubro de 1917. A nova União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S), além de tornar público o acordo de partilha do território otomano, ainda invalidou a reivindicação do Czar sobre a Palestina. Atatürk liderou o Movimento Nacional Turco a fim de impedir que a Turquia também se tornasse uma colônia britânica ou francesa, como se tornaram outras partes do território otomano. Os aliados enviaram exércitos para conter os nacionalistas, mas Atatürk saiu novamente vitorioso. A crescente popularidade do líder militar levou o apoio popular que permitiu a abolição do Império Otomano e a Proclamação da República da Turquia. Uma nova era se iniciava para o povo turco, não mais a do império, mas sim um rigoroso programa de reformas políticas, econômicas e culturais com o objetivo final de construir um Estado-nação moderno, progressista e secular. Como primeiro presidente, Mustafá Kemal Atatürk promoveu reformas políticas significativas para o país. Umas das primeiras medidas de seu governo foi construir milhares de escolas e tornar o ensino primário gratuito e obrigatório. O presidente considerava: “São os professores, somente eles, que libertam os povos e transformam as coletividades em verdadeiras nações.” Foi também em seu governo que as mulheres puderam participar das decisões do país. Em discurso, o presidente afirmou que: “Tudo o que vemos no mundo é o trabalho criativo das mulheres.”, e completou dizendo: “A humanidade é composta de dois sexos, mulheres e homens. É possível que a humanidade cresça melhorando apenas uma parte enquanto a outra parte é ignorada?” Com essa frase, pela primeira vez, as mulheres turcas foram às urnas. O novo governo da Turquia também ficou marcado pela secularidade do Estado, mesmo considerando que a maioria da população era, e ainda é, muçulmana. “Aqueles que usam a religião para seu próprio benefício são detestáveis.” Atatürk Mustafá Kemal Atatürk, ou “Pai dos turcos”, morreu em Istambul em 10 de novembro de 1938. Em 1981, em comemoração ao centenário de seu nascimento, foi homenageado pela ONU e UNESCO, que o descreveram como “o líder da primeira luta travada contra colonialismo e imperialismo” e um “notável promotor do sentido de entendimento entre os povos e de uma paz duradoura entre as nações do mundo e trabalhou toda a sua vida para o desenvolvimento da harmonia e cooperação entre os povos sem distinção”. Enquanto visitávamos o museu e passávamos pelas salas de reuniões, escritórios e gabinetes que ajudaram a decidir o futuro da Turquia, fiquei pensando em como a história do mundo se conecta por fios; tão perceptíveis para alguns, enquanto, invisíveis para outros. Como me referi no início deste texto, a vitória de Atatürk mudou o destino do povo turco, porém a queda do império otomano e o assalto dos territórios árabes levou à instabilidade política e à decadência econômica de territórios explorados pelos britânicos e franceses. As consequências do período neocolonial levaram a Jordânia e o Líbano a passarem por inúmeras revoltas civis; o Iraque, rico em petróleo, foi saqueado e invadido; desde 2011 a Síria enfrenta uma guerra sangrenta que já vitimou milhares e fez 6,8 milhões de refugiados; e a Palestina, essa nunca se tornou um país independente e, pior, ainda vive sob regime de ocupação de europeus que se denominaram israelenses. Tudo para que potências que se dizem em prol da liberdade pudessem desfrutar “democraticamente” das riquezas saqueadas no Oriente Médio. Se há algo que podemos aprender com o passeio de hoje é que os turcos lutaram e resistiram com bravura às forças invasoras; as mesmas que se declaravam a favor da liberdade e direitos civis; as mesmas que hoje se declaram democráticas, por mais que promovam genocídios e massacres no mundo árabe. Ps: Finalmente consegui comprar botas novas!

  • Éfeso, um jardim para todas as mulheres na Turquia

    A mãe de Jesus é a mulher mais venerada da história da humanidade, e não só para o cristianismo. Assim como os cristãos, os muçulmanos também acreditam em Jesus; e claro, em sua mãe Maria, principalmente considerando que o Alcorão fala mais sobre Maria do que a Bíblia cristã. No Alcorão, a posição elevada de Maria se deve ao fato de ter sido a única pessoa que recebeu a revelação do anjo Jibril (Gabriel) sem ter sido profeta. Tanto o livro sagrado do Islamismo, quanto o próprio profeta Muhammad ensinam que a mãe de Jesus foi um exemplo de vida e é digna do respeito e da admiração de todos os muçulmanos. Sendo cristãos ou muçulmanos, muito sabemos sobre a história de Maria, mas você já parou para pensar o que aconteceu com ela depois da crucificação de seu filho? Você sabia que em Éfeso, aqui na Turquia, está a casa onde acompanhada do apóstolo João, ela – segundo a versão de alguns historiadores e teólogos – passou os seus últimos dias e que aqui foi fundada uma igreja em seu nome? “Ó Maria, Allah te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os próximos de Allah.” (Alcorão 3:45) “Ó Maria, Allah te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade!” (Alcorão 3:42) Antes das 8 horas da manhã já estávamos na estação de trem em Basmane – próximo ao Konak Saray Hotel – para embarcar para Selçuk; de lá, caminharíamos até Éfeso, uma das cidades mais importantes da antiguidade. Éfeso, tem uma história muito extensa. Estudos levam a crer que a cidade foi construída há 12 mil anos, prosperando durante a era grega clássica (século V à IV a.C.) tornando-se potência durante o período romano (entre 27 a.C. e 395 d.C.). É impossível resumir a história e a importância dessa cidade. Portanto, decidimos nos concentrar em duas personalidades centrais. A cidade de Éfeso começou a ficar famosa por conta do templo dedicado à deusa Ártemis, construído por volta de 550 a.C., deusa da caça, da fertilidade, dos animais, da lua e da maternidade, conhecida pelos romanos como Diana – coincidência? Segundo a mitologia grega, Ártemis, gêmea de Apolo, nasceu primeiro e ajudou sua mãe com o parto do irmão. Seu culto se tornou tão popular que em certos lugares passou a ser mais importante do que outros deuses olímpicos. Na Ilíada, a guerra de Tróia narrada pelo poeta Homero, a deusa é retratada como defensora da cidade. Embora Tróia seja considerada mitológica, a arqueologia apontou diversos indícios de sua existência no território contemporâneo da Turquia. Em Éfeso o culto à deusa Ártemis ajudou a cidade a prosperar economicamente. Ártemis – ou Diana – é uma deusa também ligada à pureza e autonomia, pois pediu a seu pai Zeus que a mantivesse eternamente virgem. Neste contexto a castidade representa o empoderamento feminino e a insubmissão ao sexo masculino; tanto que quando um caçador tentou abusar de sua pureza, ela o transformou em cervo para que pudesse ser caçado por seus amigos. Outra personalidade que marcou a história de Éfeso é, como eu disse antes, Maria. A mãe de Jesus viveu a nove quilômetros do principal templo dedicado a Ártemis. Estávamos muito ansiosos para ver a Casa de Maria com nossos próprios olhos. Segundo o cristianismo oriental, após a crucificação de Jesus, Maria veio morar em Éfeso. A casa que João construiu para a mãe de Jesus se tornou uma lenda, até que no início do século XIX a freira agostiniana alemã Ana Catarina Emmerich, alegou ter visões e epifanias sobre a história de Jesus e sua mãe. Em 1881 o abade francês Julien Gouyet descobriu um pequeno edifício em uma montanha com vista para o mar Egeu e para as ruínas de Éfeso. Gouyet acreditava ser a casa descrita pela irmã Emmerich. O Vaticano nunca se pronunciou sobre a autenticidade da Casa de Maria; todavia, o Papa Leão XIII, em 1896, fez uma primeira peregrinação ao local, seguido pelo Papa Pio XII que elevou a casa ao status de local sagrado. Ao longo dos anos, outros papas visitaram a Casa de Maria, dentre eles, João Paulo II em 1979 e Bento XVI em 2006. Infelizmente, devido à distância entre um ponto e outro, e ao tamanho do complexo de Éfeso, não conseguimos chegar até a Casa de Maria a tempo; tivemos que nos contentar com a visita ao Meryem Kilisesi, uma igreja do século II d.C. construída para servir aos concílios – célebres reuniões decisórias do alto clero cristão. No Concílio de Éfeso duzentos abades discutiram a respeito da natureza divina de Jesus e a castidade de Maria. Ao final da reunião foi afirmado que Jesus era filho de Deus e a Virgem Maria receberia o título de Teótoco, isto é, mãe de Deus. O concílio de Éfeso nomeou Maria como “Mãe de Deus”, mas, o islã preservou uma narrativa um pouco diferente. Conta-se que quando a mãe de Jesus começou a sentir as dores do parto, se retirou para um lugar isolado, se agarrando em uma tamareira ela orou para que Deus a aliviasse da dor. Allah a consolou, colocando um riacho sobre seus pés e fazendo cair tâmaras frescas para que ela pudesse beber e comer. Quando voltou ao povoado, já com o bebê nos braços, foi questionada sobre o pai da criança. Maria respondeu que eles deveriam perguntar ao bebê. Foi então que o primeiro milagre de Jesus foi protagonizado e Deus permitiu que ele falasse: “Ele lhes disse: Sou o servo de Allah, o qual me concedeu o Livro e me designou como profeta.” (Alcorão 19:30) Quanto à assunção de Maria não existe nenhuma fonte islâmica que ateste ou refute a crença popular cristã, tampouco há descrição sobre sua morte. No entanto a Igreja do Sepulcro de Santa Maria, administrada pela Igreja Ortodoxa Grega, em Jerusalém, possui um local para que os peregrinos muçulmanos possam fazer as suas orações. A viagem até Éfeso foi completamente diferente do que tínhamos planejado, mas como não existe bússola em nossas viagens, deixamos o vento nos guiar. Sem ver o templo de Ártemis – o qual atualmente se resume a uma única pilastra de pé – nem a Casa de Maria, passamos o dia com a sensação de perder dois locais símbolos das raízes do feminismo. No entanto, assim que chegamos em Izmir, descemos para jantar com os amigos sírios, mencionados em “Democracia, um colete salva-vidas”. Percebi uma linda mulher vindo com seu filho, olhei para ela meio de canto para não a constranger, para minha surpresa, ela me olhava também. Ela sorriu e disfarçou, sorri de volta. O marido que a acompanhava puxou assunto com o Lucas que conversava com nossos amigos sírios. Mais à vontade, a mulher me perguntou sobre minha tatuagem de Allah. Quando percebi, outro casal – com outro lindo menino – se juntou a nós; por coincidência, palestinos de Gaza que têm amigos em comum com Lucas. A bagunça idiomática que fizemos conversando fez a rua parar e sorrir por alguns instantes. Entre inglês, português, turco, árabe, tudo muito precário e acompanhado de boas mímicas e jogos de adivinhação, acabamos nos entendendo. Aquela sensação de perder um pouco de Ártemis e Maria logo se calou, pois acabamos conhecendo duas mulheres, mães assim como eu, uma de cada extremo do planeta. No fim, seguimos nossos caminhos com a certeza de que a vida é um mistério glorioso; em momentos de sintonia como esses, tenho a certeza de que o universo feminino transcende o idioma, as fronteiras e o tempo. Maria e Ártemis certamente estavam entre nós; o passeio estava completo.

  • Explorando Karsiyaka sob chuva e negociando botas nos mercados da Turquia

    Minhas botas estavam em um estado lastimável. Ontem parecia que estava andando descalço pelas ruas congelantes de Izmir. Hoje, para piorar a situação, chove. Preciso comprar botas novas, isso é fato, mas comprar nem é o pior dos problemas; o pior é sugerir para Di uma visita a outro mercado de pulgas na Turquia. Baixei o mapa no celular e lá fomos nós. Pedimos informação para uma senhora do restaurante que almoçamos ontem. A cena pode parecer algum tipo de comédia, mas para nós, era só mais uma demonstração da gentileza turca. A senhora que não falava inglês – assim como nós – fazia mímicas, caras e bocas para explicar como chegar ao distrito de Karsiyaka, onde fica o Bostanli Bazar; ela chegou até a pedir para outra pessoa no restaurante nos explicar em inglês, mas não rolou. Foi então que resolveu desenhar um mapa. Ah, agora sim! Seguindo pelo mapa da senhora, atravessamos pela passarela e caminhamos pela orla do Egeu. Começou a chover novamente e, para completar, uma ventania só. Menos de 10 minutos de caminhada e lá estava eu com o pé molhado e gelado. Pegamos o ferry boat público, que por sinal, de fazer inveja para nós que sempre atravessamos o canal do porto entre Santos e Guarujá, e em 30 minutos já estávamos do outro lado e caminhando na direção do Bostanli Bazaar. Esse mercado, uma espécie de Brás turco, só abre às quartas-feiras. Em um piscar de olhos, o enorme galpão vazio é preenchido até transbordar de barracas de frutas, verduras, legumes, nozes, utensílios domésticos, brinquedos, perfumes, bolsas, tapetes, porcelanas e, claro, roupas, montanhas delas. Alguns vendedores sobem em cima de suas mercadorias com sacos gigantescos de roupas novas e usadas e ficam gritando para atrair os clientes. Minha querida Diana Emidio, como perita em compras que é, me disse que as melhores barracas e os melhores preços são as que estão sendo disputadas pelas senhoras mais velhas. Ela me disse que chega a dar brigas entre as mulheres na disputa, mesmo que não tenhamos visto, acredito mesmo que isso aconteça. Gostaria que não estivesse chovendo para que pudéssemos conhecer um pouco mais a região de Karsiyaka, local onde se encontra o mercado. Karsiyaka é um distrito de Izmir profundamente associado ao comércio, entende-se por quê! Porém, o mais charmoso deste bairro são as konaks otomanas, incluindo a casa onde a mãe de Atatürk passou seus últimos dias e que está enterrada. “Povo de Karsiyaka de Izmir ... saúdo–vos com profundo afeto ... Amo todos os residentes de Izmir. Tenho certeza de que as pessoas de coração puro da bela Izmir também me amam. Uma mera coincidência me conectou ainda mais a Karsiyaka. Povo de Karsiyaka, minha mãe está em seu peito, em sua terra. Povo de Karsiyaka, no dia em que vi İzmir, vi pela primeira vez Karsiyaka e o túmulo de minha mãe, que estava deitado em seu solo turco.” Kemal Atatürk Com certeza, vale muito a pena dar um passeio pela região de Karsiyaka, quanto ao Bostanli Bazaar, essa já é outra história, pois precisa verdadeiramente estar com muita vontade de fazer compra para enfrentar as marés de compradoras e vendedores enlouquecidos. De qualquer maneira, esse passeio não deixa de ser uma imersão cultural no estilo de vida turco. Subimos e descemos várias vezes por entre as barracas e tudo era realmente barato, principalmente as roupas. Infelizmente, a única coisa que não encontrei barato foi a bota que tanto precisava. Como chegamos tarde e cansados ao bairro de Konak, vou deixar para esquentar os pés amanhã.

  • O sonho de Osman e o início do poderoso império otomano

    Quando jovem, Osman Ghazi sonhou com uma árvore tão grande que suas raízes se estendiam por três continentes para beber da água de quatro rios diferentes. A majestosa árvore era tão vasta que seus ramos faziam sombra em quatro cadeias de montanhas orientais. Ontem, a chegada em Izmir foi literalmente um sonho. Assim como Osman, eu sonhava com uma grande árvore, mas minha árvore era minha avó. Sonhei até que o Lucas me acordou e disse “chegamos”. Acordar em uma cidade como Izmir, descer ainda zonza e ser recebida como fomos, não tem como não se apaixonar. Assim que entramos no hotel fomos abraçados pela cordialidade e hospitalidade do povo turco. Os senhores na recepção do hotel Konak Saray, literalmente nos receberam de braços abertos. Mesmo chegando horas antes do check-in eles nos entregaram as chaves do quarto e nos convidaram a tomar um café. Depois de passar uma noite desconfortável em um ônibus da Capadócia a Izmir (catorze horas de viagem), tomamos um maravilhoso café da manhã, com muitos tipos de queijos e azeitonas, oferecido por nossos anfitriões do Konak. Izmir chegou tomando toda licença poética. Hoje, ao acordarmos, conferi que a previsão do tempo era para um dia chuvoso. Decidimos ficar por perto do hotel e passear pela região. No primeiro passeio Izmir conquistou nossos corações; ruas limpas movimentadas e uma atmosfera gostosa. Nosso primeiro passeio foi pela Ágora da cidade, a poucos metros do hotel. As ágoras eram grandes áreas públicas nas antigas cidades gregas onde se concentrava a arte e aconteciam todos os tipos de eventos sociais, políticos, religiosos e comerciais. As construções que abarcavam todos os prédios públicos se tornaram precursoras dos fóruns romanos. A Ágora de Izmir é uma das mais antigas e bem preservadas do mundo, devido ao excelente trabalho arqueológico realizado em parceria com a Diretoria do Museu de Izmir e a Sociedade Histórica, iniciado em 1933. Construída por Alexandre, o Grande, no século IV a.C., e posteriormente reconstruída pelo imperador romano Marco Aurélio, após um terremoto. No período otomano a Ágora de Izmir foi usada como cemitério e sala de orações. Durante as primeiras escavações, foi descoberto que a forma retangular com longas colunas que arqueiam os corredores paralelos e as galerias pluviais, guardavam um altar de veneração a Zeus. Diversas outras estátuas em referência a Hermes, Dionísio, Eros, Hércules, a Vesta, além de muitas outras referências masculinas, femininas, de animais, relevos, estatuetas, artefatos de mármore, osso, vidro, metal e terracota foram encontradas no local e transferidas para o museu de arqueologia de Izmir. Um passeio feito por turistas normais não levaria mais de trinta minutos, mas não tínhamos pressa e o local estava vazio, portanto, nos perdemos nas horas. A parte aberta à visitação é impressionante, com peças e galerias bem cuidadas e restauradas. No entanto, o mais fantástico é saber que as escavações não pararam e que ainda tem muito a ser descoberto, já que no local existem algumas áreas restritas, nas quais só podemos observar sem fotografar. Não que soubéssemos de tudo isso antes de viajar; na verdade nem sabíamos da existência dessa joia de Izmir, por sorte nos hospedamos na rua de acesso ao sítio arqueológico. Antes de todas as viagens costumamos abaixar os níveis de ansiedade estudando a cultura local, mas as coisas geralmente são bem diferentes quando chegamos. Quando escolhemos a Turquia como destino sabíamos que encontraríamos muitas heranças de tempos e impérios diferentes; gregos, romanos, bizantinos, turcos; só não imaginávamos que estariam tão bem preservados e tão perto de nós. Nosso dia não estava nem na metade, então resolvemos nos afastar um pouco. Descendo pelo mercado da cidade velha, por entre roupas, verduras, legumes e frutas gigantes, demos de cara com um carrinho do qual exalava um cheiro adocicado. Olhei para o Lucas, mas ele nem se ligou o que era. Entrei na fila e fui explicando algo que eu já tinha visto em vídeos de outros mochileiros na Turquia. Aqui, quando um membro da família morre, os familiares costumam oferecer alguns bolinhos – parecidos com nossos famosos bolinhos de chuva – em homenagem ao falecido. Não sei dizer se apenas esses bolinhos são oferecidos, mas os carrinhos ficam nas ruas exibindo as fotos do ente querido que partiu enquanto filas de estranhos se formam para comer os bolinhos. Chegando à praça do relógio, cruzamos algumas vezes com esses carrinhos. Lucas não conseguiu entrar na fila – achei melhor não perguntar –, mas eu entrei e ele acompanhou do lado e depois até comeu alguns. Entendo que cada cultura tem uma maneira diferente de lidar com o luto, no entanto, a maneira turca foi a mais bela que já vi – e vimos muitas maneiras diferentes por aí. Os bolinhos são muito simbólicos. Algumas pessoas – como eu – entram na fila como uma experiência de compartilhar do costume local e isso acaba se tornando um momento para pensar em alguém que faleceu, mesmo sem o conhecermos. Por outro lado, como existem muitas pessoas em situação de refúgio no bairro de Konak, aqueles bolinhos são uma refeição grátis. Eu achei a maneira turca, a mais extraordinária que se pode fazer em memória de alguém querido que partiu: alimentando desconhecidos! Depois de passear pela Ágora e comer os bolinhos na praça do relógio andamos novamente por todas as vielas do mercado local de Konak, onde cada mercadoria simboliza um pedacinho da cultura otomana e do sonho de Osman e sua gigantesca árvore. Hoje não existe mais um Império Otomano, grande parte do seu território foi repartido entre potências europeias – por exemplo, a Palestina, Síria, Líbano e outros. No entanto, desde o nascer até o pôr do sol, tudo, hábitos, cultura, religião, decoração, culinária e arquitetura derivam da imponente árvore que Osman sonhou quando jovem, incluindo a gentileza e simpatia dos recepcionistas do hotel Konak. A árvore de Osman pode até ter sido derrubada e dividida entre colonizadores; suas raízes, porém, continuam vivas no coração desse país maravilhoso chamado Turquia.

  • Alaçati, Democracia e um colete salva-vidas

    Gostaríamos de abordar outro assunto, porém, desde que chegamos em Izmir, não conseguimos nos concentrar em outra coisa senão o ataque terrorista contra a democracia brasileira. Assim que chegamos no hotel Konak Saray, o recepcionista nos disse que estavam sem internet, mas era um problema em toda a região e que mais tarde voltaria ao normal. Sem problemas; pensamos. Guardamos as malas e fomos trocar de roupa para sair. Como não havia internet, a Di pela primeira vez em uma viagem, ligou a televisão para fazer um pouco de barulho. Foi quando vimos uma emissora de notícias turca exibindo imagens ao vivo do Brasil. Cenas de nosso país sendo vandalizado e violentado. Não entendemos nada, pois estava tudo em turco. Quando o Presidente Lula e o Ministro Flávio Dino apareceram na tela, um narrador traduzia para turco o que estavam falando e tirava o áudio original. Repetindo; não tínhamos internet e não havia como saber o que estava acontecendo. Encontrar um canal em inglês não foi problema, pois todos os canais reproduziam imagens do Brasil. A legenda na TV dizia “tentativa de golpe contra a democracia no Brasil”, ou algo desse tipo. Como não havia uma forma de ter mais detalhes sobre o que estava acontecendo, decidimos ir até a cidade de Alaçati e, quem sabe lá encontrar internet e nos orientar melhor. Estar em Izmir e ouvir falar em golpe contra democracia brasileira é, no mínimo, deprimente. Não sei se é de conhecimento dos terroristas brasileiros, ou se eles apenas não se importam de depredar nossas instituições democráticas, ao passo que mais de cem milhões de pessoas fugiram de suas casas para encontrar somente um pouco do que temos. Assim que começamos a descer pela rua Konak, a primeira coisa que vi foi uma loja com coletes salva-vidas. Nós sabíamos o motivo para tantos coletes pendurados em destaque em diversos estabelecimentos. A crise dos refugiados, a maior da história, está evidenciada em Izmir pelos coletes salva-vidas expostos nas vitrines, ao lado de equipamentos eletrônicos. Quando chegamos em Alaçati, paramos em uma lanchonete e conseguimos saber o que estava acontecendo no Brasil. Tomamos uns mil chás enquanto revirávamos as notícias das últimas 24 horas. A todo momento eu pensava como era possível isso acontecer em um país como o Brasil! Temos nossos defeitos e falhas, mas ainda assim temos uma democracia. Em Alaçati, cidade anterior à Çesme, fiquei pensando como é fácil, barato e seguro para qualquer turista chegar à Europa Ocidental. Do bairro Konak saem ônibus com translado em balsas que levam direto para ilha de Lesbos, na Grécia; ainda mais perto é possível pegar um ônibus no Otogar (rodoviária) ao lado do Istinye Park – como fizemos para chegar até aqui – e seguir para cidade de Çesme por 70 liras turcas (cerca de R$ 20,00). Çesme fica a somente 18 quilômetros da ilha grega de Chios. No entanto, isso é apenas para os turistas. Para os refugiados ou migrantes, a travessia da Turquia rumo às ilhas gregas é feita clandestinamente, com alto índice de mortalidade e risco de ser devolvido ou abandonado pelas autoridades gregas à deriva. Por este motivo tornou-se lucrativo vender coletes salva-vidas próximos aos aparelhos eletrônicos. Poucos dias antes de chegarmos aqui, em dezembro de 2022, a guarda costeira turca resgatou mais de 200 refugiados no mar Egeu. Uma operação em Izmir encontrou 61 imigrantes à deriva, rejeitados pela Grécia. A cidade de Izmir, para alguns tornou-se uma passagem obrigatória; para outros, abrigo temporário. Infelizmente, no entanto, para tantos outros, Izmir se tornou o ponto final. No último artigo que publiquei antes de viajar: “Neste Natal, mais de cem milhões de pessoas formam o maior presépio vivo da história”, escrevi que mais de 103 milhões de seres humanos fugiram ou foram expulsos de suas casas. O que eu não sabia é que grande parte dessa população passou ou se estabeleceu em Izmir. Segundo o último relatório de Tendências Globais do Alto–comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), a Turquia recebeu sozinha 3,7 milhões de refugiados, o país no mundo que mais acolheu pessoas em condições de vulnerabilidade. Izmir se tornou um dos principais pontos de trânsito dos refugiados que visam entrar na Europa via mar Egeu. Em 2014 o bairro de Basmane – a metros de onde estamos hospedados – tornou-se centro de tráfico de pessoas. Os contrabandistas além de realizarem o translado ilegal, fornecem transferências bancárias, chip de celular e, naturalmente, coletes salva-vidas. Porém, muitas pessoas impossibilitadas de pagar os altos custos do contrabando, acabaram se estabelecendo na cidade, dando prioridade aos bairros de Basmane e Konak por ficarem próximos a rotas de metrô, ônibus e barco. Os impactos causados pela onda migratória, agravada pela guerra civil na Síria – e seus 6,8 milhões de pessoas em situação de refúgio –, atingiu praticamente todos os setores de Izmir. Nos bairros de Basmane e Konak a presença de refugiados se tornou tão sólida que até mesmo a comida de rua se adaptou. Atravessando a rua, bem em frente ao hotel, comemos um delicioso shawarma em uma lanchonete de sírios originários de Aleppo e Damasco. Nas ruas é visível o grande fluxo de migrantes; além de sírios, encontra-se também pessoas de outros países do Oriente Médio e dos mais diversos países africanos. Diferente do que vimos no primeiro dia em Istambul, aqui em Izmir encontramos pessoas em situação de vulnerabilidade pelas ruas, mesmo que não exista muitos obstáculos formais para emprego ou estudo. Há ainda, para essa população, acesso aos mesmos serviços de saúde fornecidos aos turcos, bem como outras assistências específicas de instituições e ONGs internacionais. A Turquia não é um paraíso para os refugiados. Na verdade, o grande fluxo se deve às fronteiras com Síria, Iraque e Irã, dos quais derivam um vasto número de refugiados ou migrantes. Quando citei, na introdução deste texto, que “estar em Izmir e ouvir falar em golpe contra democracia brasileira é no mínimo deprimente”, estava pensando nos 3,7 milhões de pessoas refugiadas na Turquia e nos outros 99 milhões pelo mundo que fugiram de seus países de origem por medo, perseguição ou outros fatores de risco às suas vidas. Todas essas pessoas fugiram de países onde a democracia faleceu antes mesmo de nascer, dando lugar ao fascismo e regimes totalitários. No Brasil, mesmo que imperfeita, ainda temos uma democracia almejada por todas essas pessoas. Quando passei pelos coletes salva-vidas pendurados, tive um triste sentimento de que falhamos como humanidade, ao ponto de permitir que mais de cem milhões de outros seres humanos dependam de ajuda humanitária para sobreviver. Por outro lado, após uma reflexão mais detalhada, lembrei que esses coletes ajudaram centenas, talvez milhares de sobreviventes, somente no mar Egeu. Lembrei que para milhares de pessoas, esses coletes servem como última gota de esperança em um gigantesco oceano. Para nós, brasileiros, a democracia é nosso colete salva-vidas – cabe a nós, agarrar ou nos jogar à deriva.

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