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  • Descobertas inesperadas em Istambul: atravessando o Bósforo e encontrando Kadiköy

    Nos dias que passamos em Istambul vasculhamos cada centímetro da região europeia. Hoje foi o dia de atravessar o Bósforo e conhecer o lado asiático da cidade. Não tínhamos nenhum plano específico, somente perambular pelas calçadas e observar a vida em seu mais pleno funcionamento, quem sabe encontrar as diferenças e semelhanças entre um lado e o outro. Embarcamos em um ferry boat ali mesmo no Pera; o barco cruzou para o outro lado da margem, depois passando por baixo da Ponte de Gálata em direção ao Üsküdar, local onde um turco chegou voando após se jogar da Torre de Gálata. Foi o dia mais frio de todos e, não estava para brincadeira; durante a travessia do Estreito do Bósforo o barco balançou bastante, o Lucas pareceu não se importar nem com o frio, muito menos com o balanço do mar. Fiquei pensando “como pode ele ter medo de avião e não ter medo do mar mesmo sem saber nadar direito?” Caminhamos pela rua, mas parecia que não chegaríamos a lugar nenhum. Tentamos tomar um ônibus para a mesquita Çamlıca em Istambul, construída no pico mais alto da cidade, mas não deu certo. Hoje o Lucas estava com a cabeça na lua e não conseguia de jeito nenhum se organizar como navegador. Acho que é pelo fato de estar chegando a hora de ir para Palestina. Ele disse, até treinamos algumas vezes, respostas prontas para dar para o policial da fronteira israelense. Geralmente os policiais fazem muitas perguntas: se você conhece algum palestino; se você vai para Palestina; se você já ouviu falar de Palestina e por aí vai. Claro que o Lucas não pode dizer que é jornalista, muito menos para o jornal que escreve. Pior ainda é sobre o que escreve. – Pensando bem, é melhor não falar nada! A opção que escolhemos foi dizer que somos ambos tatuadores. Engraçado seria alguém pedir para que ele desenhasse, aí acabaria toda farsa. – Eu acho que é isso que anda rodeando a cabeça desse homem hoje! Como não conseguimos pegar ônibus, tentamos embarcar no metrô. Aprendemos cedo a comprar o cartão nos totens eletrônicos, na vigésima ou trigésima tentativa já estávamos craques. O Lucas foi na máquina e voltou com um cartão. Em Istambul você pode optar por comprar um cartão com três passagens que te dá acesso a todos os meios de transporte, obter um desconto comprando um com mais passagens. Fizemos o cálculo e optamos por comprar o de três unidades, já usamos tanto esse que agora não compensava mais. Vindo com o cartão, passei pela catraca, e quando o Lu foi passar ela começou a apitar. Um guarda tentou nos ajudar, mas disse que aquela passagem era diferente e nós teríamos que comprar outra, e depois descer em outro lugar e embarcar em outro ônibus, barco, disco voador, sei lá. Acabamos desistindo, o Lucas ficou “putasso”, não que ele seja um cara tipo tranquilo, mas em viagem é difícil vê-lo assim estressado; mas hoje ele está, e para não brigarmos é melhor nem ficar perguntando. Ficamos andando na rua sem rumo, adoramos fazer isso, mas no bairro onde estávamos não tinha nada de diferente, era um bairro típico de cidade grande, com eletrônicos, meias e os típicos coletes salva-vidas pendurados; sem contar as ruas movimentadas com pessoas, carros, ônibus e metro por todos os lados. Nosso primeiro dia chato! Eu estava começando a me irritar também. – Pô, estou de férias, vamos perder um dia de passeio por causa desse chato! Ficamos andando igual duas baratas tontas. Do nada, ao atravessar uma avenida o Lucas olhou para uma placa e disse: – Vamos? Respondi: – Bora. Eu não sabia para onde estávamos indo, ele disse que nem ele, já que não fala turco, mas completou dizendo que geralmente aquelas placas marrons indicam pontos turísticos. Conversando e caminhando passaram-se uns quinze minutos e chegamos. – Não acredito, gritei! No primeiro dia de viagem, tentamos chegar ao mercado de Kadiköy, não conseguimos. Esse mercado tem dia certo, só funciona nas quartas-feiras e, nem acredito, hoje é quarta-feira; eu já nem tinha mais esperança de encontrar esse paraíso das compras, agora do nada, aqui estamos nós. Perguntei se o Lucas sabia o que era aquilo que estávamos vendo, ele disse que não. Desconfiei, mas percebi que ele realmente não fazia ideia de que por acaso encontramos o bendito Kadiköy. Aprendi que viajando tudo conta, não só o destino final, mas muitas vezes, ou todas elas, o caminho para um lugar é tão emocionante quanto chegar nele, mesmo quando passamos por certas frustrações ou acabamos o dia irritados. No fim das contas o que fica são boas histórias para contar. Eu até contaria um pouco mais sobre o mercado de pulgas de Kadiköy, mas andamos tanto e fiz tantas compras hoje que vou deixar por conta da imaginação de cada um e vou dormir um pouco.

  • As cores do Balat e as histórias ocultas de Istambul

    Balat é um bairro despretensioso, com ruas estreitas e casas coloridas, onde cafés populares e galerias se misturam harmonicamente com mercearias tradicionais de bairro. Território livre para a criatividade de qualquer artista enlouquecer de tanta inspiração. Edifícios antigos, sinagogas e as igrejas bizantinas confirmam o passado cosmopolita de centro de comunidades judaicas, gregas e armênias. Ponto alto do passeio é se perder em suas ruelas cheias de história e romantismo. Encantada, moraria aqui fácil, fácil! Caminhamos ao amanhecer cruzando a ponte entre os pescadores da Ponte de Gálata. Hoje foi dia de ver as cores de Balat, o bairro mais colorido de toda Istambul. Em Balat o triste se alegra, a destruição ganha vida e o feio se transforma no incrível. Após uma hora de caminhada encontramos as primeiras konaks otomanas de fachadas coloridas. As flores nas janelas eram cada vez mais constantes, até que o sol resolveu aparecer – embora tímido – para esquentar um pouco o dia. Antes de chegarmos às ruas almejadas pelos fotógrafos, passamos pela Mesquita Yavuz Sultan Selim Camil, um complexo otomano do século XVI localizado em uma das sete colinas de Istambul. Assim que entramos percebemos que era o momento de oração e a mesquita estava lotada. Por isso escolhemos apreciar a construção somente pelo lado de fora. Não que houvesse alguma restrição à nossa presença; na verdade foi uma senhora muçulmana que nos indicou cortar caminho pelo pátio da mesquita em direção ao Balat, mas não achamos respeitoso abusar da hospitalidade e incomodar a prece. Passando pela mesquita foi possível enxergar o Corno de Ouro e o imponente edifício da escola grega que se destaca entre construções menores. A Fener Rum Kız Lisesi é uma escola ortodoxa grega ainda mais antiga que a mesquita de Sultan Selim, datada do século XV. A escola foi construída para os habitantes gregos da época. Atualmente permanece ativa e segue como uma das instituições educacionais mais prestigiadas da cidade. Ao lado do colégio, está a Igreja Ortodoxa de Santa Maria dos Mongóis, a igreja mais antiga de Istambul. Em Balat também se encontra a sinagoga mais antiga da cidade, a Ahrida. No século XV o sultão Bayezid II ofereceu cidadania a uma grande população de judeus perseguidos pelos cristãos na Espanha e no Norte da África. Vale destacar, a perseguição aos judeus não começou com Adolf Hitler – assunto que vamos abordar nos próximos dias. O sultão doou terras aos refugiados judeus no bairro de Balat, que ali se estabeleceram e suas famílias se multiplicaram. Atualmente há poucos judeus no bairro; desde 1950 começaram a emigrar de Balat para outros bairros e alguns foram se assentar no recém autoproclamado Estado de Israel – assunto que também tem data e hora marcada para falarmos. Como dissemos em nossa introdução: “Em Balat o triste se alegra, a destruição ganha vida e o feio se transforma no incrível.” – Não sem motivo. As coloridas ruas do bairro mais alegre de Istambul passaram por diversos episódios de violência, morte e massacres. No início da decadência do Império Otomano, em 1810, os judeus do bairro investiram contra tropas de janízaros a serviço do sultão. O estado decidiu prender e executar alguns dos responsáveis para servirem de exemplo. Posteriormente, no contexto da Primeira Guerra Mundial, ocorreu ainda o genocídio armênio. A comunidade armênia ocupava então uma posição de destaque na sociedade otomana. Com as sucessivas perdas militares na Grande Guerra, os governantes otomanos passaram a temer uma rebelião e uma subsequente insurreição por independência; assim, decidiram pela deportação em massa. Estima-se que 800 mil a 1,2 milhão de armênios foram enviados ao deserto sírio, privados de comida e água. A derrota na Primeira Guerra Mundial levou à queda do Império Otomano e à ascensão do movimento nacionalista turco, liderado por Atatürk. Durante a guerra os turcos promoveram um processo de limpeza étnica também contra cristãos sírios e ortodoxos gregos, uma tentativa de tornar a Turquia uma etnocracia. O governo turco nega até hoje o processo de limpeza étnica promovido contra os armênios, sírios e gregos, ao alegar que a deportação em massa foi um processo legítimo. No entanto, no último ano, trinta e três países reconheceram o episódio como genocídio. A Turquia, assim como qualquer país, tem um passado e episódios difíceis de serem lembrados – porém, ainda mais difíceis de serem esquecidos. Em Balat muitas lágrimas e sangue foram derramados. Contudo, ainda hoje, os habitantes do bairro insistem em colorir e decorar as ruas com a esperança de criar memórias melhores para a próxima geração. Um exemplo disso é o trabalho do Mink Kalpler Çucuk Iyilik Ve Asevi, uma casa onde mais de 60 crianças são atendidas sem distinção de etnia, cor ou religião. Crianças de diferentes idades tomam café da manhã, almoçam e têm aulas de reforço escolar e outras disciplinas variadas, com a ajuda de voluntários de todos os cantos da Turquia e de outros países, que vêm até Balat para conhecer este trabalho. Kalpler Çucuk é uma escola de tempo integral onde as crianças aprendem e socializam enquanto os pais trabalham. Neste mundo não há lugar perfeito ou história imaculada. Todos temos um passado, alguns, um tanto mais sombrio que outros. Todavia, o que nos ensina o bairro de Balat é que dar cores à vida é uma excelente forma de recomeçar.

  • Desvendando Istambul: da Torre de Gálata ao Bazar Egípcio, um passeio pela cidade das tradições

    Chegamos a Istambul antes do sol nascer. Como nosso hotel fica próximo à Torre de Gálata, deixamos as mochilas e fomos tomar café observando um dos cartões postais mais icônicos da cidade. A origem da torre ainda é motivo de estudos e pesquisas; atualmente a mais difundida é que foi construída a mando do Imperador Justiniano, O Grande (527–565), porém, inicialmente de madeira, a torre foi destruída durante a Quarta Cruzada em 1204. Em 1267, uma colônia genovesa foi estabelecida em Constantinopla e uma nova torre foi construída, mas também não era essa. Somente após uma expansão da colônia genovesa, em 1348, a Torre de Gálata foi construída servindo como farol para os navegadores, mas também como parte do muro de defesa da retaguarda da colônia. Após a conquista otomana, os genoveses foram expulsos, mas a torre foi autorizada a ficar, porém, como presídio. A história da Torre de Gálata é realmente confusa, principalmente considerando os turbulentos períodos de guerras entre os bizantinos, genoveses e otomanos. Entre fatos e discrepâncias históricas sobre a Torre de Gálata, é curioso que a mais famosa, aquela que sobrevive já há alguns séculos, é justamente a lenda do turco Ahmed Celebi. A lenda diz que em 1638, inspirado pelos desenhos de Leonardo da Vinci, o turco se lançou da torre amarrado em asas de madeira que ele mesmo projetou. Segundo conta a tradição oral, no primeiro voo intercontinental da história, Celebi voou de Gálata na parte europeia atravessando o canal do Bósforo e pousando em Üsküdar, no lado asiático da cidade. Vendo com os próprios olhos a distância entre um ponto e outro e, sabendo que a origem dessa estória parte de um único mochileiro otomano do século XVII, acho difícil de acreditar. A Torre de Gálata foi convertida em um museu, se tornando um dos pontos turísticos mais frequentados da cidade, o qual oferece vista para Ayasofya, Palácio de Topkapı, Sultanahmet e, claro, do Corno de Ouro e do Estreito de Bósforo, bem no coração de Istambul. Após tomar alguns chás com vista para Torre de Gálata seguimos em direção ao estuário do Corno de Ouro. Já era umas 9h da manhã quando o sol resolveu aparecer no horizonte. Estávamos bem embaixo da Ponte de Gálata; a cena das silhuetas dos pescadores acima de nós era uma poesia pronta para ser fotografada. Qualquer hora, seja dia ou noite, os pescadores de Istambul disputam os espaços na ponte, dando identidade única para o local. Caminhando entre os pescadores seguimos na direção das mesquitas do outro lado da margem. A primeira que se pode ver é a Mesquita Yeni, encomendada em 1597 pela mãe do Sultão Mehmed III. Seguimos até o Bazar Egípcio, um mercado construído em 1660, que leva esse nome por ter sido construído com plantas similares às dos mercados do Egito. Atualmente um total de 85 lojas vendem especiarias, joias, lembranças, frutas secas, nozes e o tradicional turkish delight. Caminhamos de Gálata até a Ayasophya, mas estava tão lotado que resolvemos não entrar. Ficamos sentados na praça em frente observando os monumentos ao redor e os turistas que compunham o cenário. Tem dias como hoje que caminhamos sem olhar nos mapas e sem um destino certo ou atração para conhecer, e Istambul é um dos lugares que proporciona esse tipo de passeio, pois tudo aqui, até mesmo as coisas mais simples e rotineiras, são um mundo novo para nossos olhos. Andamos o dia todo, observamos as pessoas, seus costumes e o cotidiano da vida em Istambul. Juro, amamos tanto essa cidade, cada centímetro, que estamos pensando em quando sair amanhã, distribuir alguns currículos.

  • Fragmentos de Izmir: Memórias de uma cidade da Turquia de outros tempos

    Um pouco mais cedo, enquanto andávamos o mais lentamente possível por entre as estátuas, bustos e outros artefatos do período helenístico (330 – 30 a.C.) e romano (30 a.C. – 395 d.C.) do Museu de Arqueologia e Etnografia, encontramos a impressionante estátua de mármore de Androklos, na verdade, fragmentos dela. Os pedaços da estátua de Androklos descrevem a Turquia de outros tempos. Antes de fugir da Grécia, Androklos consultou o oráculo de Delfos, que profetizou ao guerreiro que este deveria navegar até que um peixe e um javali mostrassem o local onde parar e se estabelecer. Androklos navegou com seus guerreiros. Chegando a Anatólia, enquanto pescadores preparavam o almoço, um peixe em chamas saiu do fogo e incendiou alguns arbustos; assustado pelo fogo um javali surgiu das chamas. Considerando cumprida a profecia, Androklos estabeleceu-se ali e fundou a cidade de Éfeso. Assim como os fragmentos de uma estátua preservam a história e estórias de uma cidade que já não existe mais, os fragmentos de lembranças que mantivermos de Izmir nos ajudarão a lembrar de coisas que não poderemos mais viver quando voltarmos para casa; sendo assim, vale preservar o máximo possível.

  • Atatürk, o pai dos turcos

    Os eventos que marcam a Turquia contemporânea não pertencem somente a ela. Pertencem a todo o Oriente Médio e principalmente à subjugação de seu povo pelas mãos de forças coloniais europeias. Para compreender melhor essa perspectiva, fomos conhecer um pouco da história da república e de seu fundador, Mustafá Kemal Atatürk, ou o “Pai dos turcos”. “Meu povo vai aprender os princípios da democracia, os ditames da verdade e os ensinamentos da ciência.” Kemal Atatürk Estava ansioso para conhecer o museu de Atatürk. O museu não estava muito longe; fomos andando pela orla e assistindo um pouco da melancolia dos músicos de rua. Não demorou muito para chegarmos ao museu que um dia foi usado como o quartel-general turco durante a Guerra de Libertação. Um prédio de aparência simples, porém, que guarda em seu interior o maior tesouro da Turquia, sua história. Vamos retroceder um pouco no tempo e explicar quem foi Atatürk. Nascido na cidade otomana de Salonica em 1881, se formou no Colégio Militar Otomano em 1915, mas foi preso por atividades antimonarquistas logo após a formatura. Liberto, o jovem militar foi mandado para lutar em diversas regiões do Império Otomano. Em Damasco, na Síria, se juntou a uma pequena sociedade revolucionária secreta de oficiais reformistas. Atatürk se tornou uma lenda entre os militares durante a Primeira Guerra Mundial. Enfraquecido por movimentos nacionalistas, o Sultão se juntou ao lado das Potências Centrais com intuito de preservar a posição de Império. No segundo ano da Grande Guerra, Atatürk defendeu o estreito de Dardanelos contra as forças britânicas. Na batalha de Galípoli (1915), prevendo onde australianos e neozelandeses a serviço britânico atacariam, gritou suas ordens ao 57º Regimento de Infantaria: “Homens, não estou ordenando que ataquem. Estou ordenando que vocês morram.” Manteve a posição até a recuada dos aliados; mesmo com a vitória, muitas vidas foram perdidas, incluindo as dos soldados australianos e neozelandeses, os quais o militar fez questão de mencionar: “Os heróis que derramaram seu sangue e perderam suas vidas no solo deste país! Você está no solo de um país amigo agora. Portanto, descanse em paz.” Em 1918 Mehmed VI se tornou o novo sultão otomano. Convocou o herói de Galípoli para Constantinopla e em seguida o enviou para Palestina. Atatürk enfrentou os britânicos em diversos terrenos entre Aleppo (Síria) e Nablus (Palestina). Segundo o biógrafo escocês John Patrick Douglas Balfour, Kemal Atatürk foi o único general turco na guerra que nunca sofreu uma derrota. No entanto, as conquistas militares otomanas não foram suficientes para garantir a vitória contra as potências aliadas. Derrotado, o Império Otomano entrou em colapso. Mesmo antes do fim da guerra, em uma reunião secreta em 16 de maio de 1916, os governos do Reino Unido, França e do Império Russo decidiram, secretamente, partilhar os territórios otomanos, hoje correspondentes à Jordânia, Iraque, Síria e Líbano. A Palestina, reclamada por todas as três potências, ficaria sob administração internacional até que fosse decidido quem arrendaria o território. O acordo entre britânicos, franceses e russos se tornou público quando os comunistas depuseram o Czar e tomaram o poder na revolução de outubro de 1917. A nova União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S), além de tornar público o acordo de partilha do território otomano, ainda invalidou a reivindicação do Czar sobre a Palestina. Atatürk liderou o Movimento Nacional Turco a fim de impedir que a Turquia também se tornasse uma colônia britânica ou francesa, como se tornaram outras partes do território otomano. Os aliados enviaram exércitos para conter os nacionalistas, mas Atatürk saiu novamente vitorioso. A crescente popularidade do líder militar levou o apoio popular que permitiu a abolição do Império Otomano e a Proclamação da República da Turquia. Uma nova era se iniciava para o povo turco, não mais a do império, mas sim um rigoroso programa de reformas políticas, econômicas e culturais com o objetivo final de construir um Estado-nação moderno, progressista e secular. Como primeiro presidente, Mustafá Kemal Atatürk promoveu reformas políticas significativas para o país. Umas das primeiras medidas de seu governo foi construir milhares de escolas e tornar o ensino primário gratuito e obrigatório. O presidente considerava: “São os professores, somente eles, que libertam os povos e transformam as coletividades em verdadeiras nações.” Foi também em seu governo que as mulheres puderam participar das decisões do país. Em discurso, o presidente afirmou que: “Tudo o que vemos no mundo é o trabalho criativo das mulheres.”, e completou dizendo: “A humanidade é composta de dois sexos, mulheres e homens. É possível que a humanidade cresça melhorando apenas uma parte enquanto a outra parte é ignorada?” Com essa frase, pela primeira vez, as mulheres turcas foram às urnas. O novo governo da Turquia também ficou marcado pela secularidade do Estado, mesmo considerando que a maioria da população era, e ainda é, muçulmana. “Aqueles que usam a religião para seu próprio benefício são detestáveis.” Atatürk Mustafá Kemal Atatürk, ou “Pai dos turcos”, morreu em Istambul em 10 de novembro de 1938. Em 1981, em comemoração ao centenário de seu nascimento, foi homenageado pela ONU e UNESCO, que o descreveram como “o líder da primeira luta travada contra colonialismo e imperialismo” e um “notável promotor do sentido de entendimento entre os povos e de uma paz duradoura entre as nações do mundo e trabalhou toda a sua vida para o desenvolvimento da harmonia e cooperação entre os povos sem distinção”. Enquanto visitávamos o museu e passávamos pelas salas de reuniões, escritórios e gabinetes que ajudaram a decidir o futuro da Turquia, fiquei pensando em como a história do mundo se conecta por fios; tão perceptíveis para alguns, enquanto, invisíveis para outros. Como me referi no início deste texto, a vitória de Atatürk mudou o destino do povo turco, porém a queda do império otomano e o assalto dos territórios árabes levou à instabilidade política e à decadência econômica de territórios explorados pelos britânicos e franceses. As consequências do período neocolonial levaram a Jordânia e o Líbano a passarem por inúmeras revoltas civis; o Iraque, rico em petróleo, foi saqueado e invadido; desde 2011 a Síria enfrenta uma guerra sangrenta que já vitimou milhares e fez 6,8 milhões de refugiados; e a Palestina, essa nunca se tornou um país independente e, pior, ainda vive sob regime de ocupação de europeus que se denominaram israelenses. Tudo para que potências que se dizem em prol da liberdade pudessem desfrutar “democraticamente” das riquezas saqueadas no Oriente Médio. Se há algo que podemos aprender com o passeio de hoje é que os turcos lutaram e resistiram com bravura às forças invasoras; as mesmas que se declaravam a favor da liberdade e direitos civis; as mesmas que hoje se declaram democráticas, por mais que promovam genocídios e massacres no mundo árabe. Ps: Finalmente consegui comprar botas novas!

  • Éfeso, um jardim para todas as mulheres na Turquia

    A mãe de Jesus é a mulher mais venerada da história da humanidade, e não só para o cristianismo. Assim como os cristãos, os muçulmanos também acreditam em Jesus; e claro, em sua mãe Maria, principalmente considerando que o Alcorão fala mais sobre Maria do que a Bíblia cristã. No Alcorão, a posição elevada de Maria se deve ao fato de ter sido a única pessoa que recebeu a revelação do anjo Jibril (Gabriel) sem ter sido profeta. Tanto o livro sagrado do Islamismo, quanto o próprio profeta Muhammad ensinam que a mãe de Jesus foi um exemplo de vida e é digna do respeito e da admiração de todos os muçulmanos. Sendo cristãos ou muçulmanos, muito sabemos sobre a história de Maria, mas você já parou para pensar o que aconteceu com ela depois da crucificação de seu filho? Você sabia que em Éfeso, aqui na Turquia, está a casa onde acompanhada do apóstolo João, ela – segundo a versão de alguns historiadores e teólogos – passou os seus últimos dias e que aqui foi fundada uma igreja em seu nome? “Ó Maria, Allah te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os próximos de Allah.” (Alcorão 3:45) “Ó Maria, Allah te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade!” (Alcorão 3:42) Antes das 8 horas da manhã já estávamos na estação de trem em Basmane – próximo ao Konak Saray Hotel – para embarcar para Selçuk; de lá, caminharíamos até Éfeso, uma das cidades mais importantes da antiguidade. Éfeso, tem uma história muito extensa. Estudos levam a crer que a cidade foi construída há 12 mil anos, prosperando durante a era grega clássica (século V à IV a.C.) tornando-se potência durante o período romano (entre 27 a.C. e 395 d.C.). É impossível resumir a história e a importância dessa cidade. Portanto, decidimos nos concentrar em duas personalidades centrais. A cidade de Éfeso começou a ficar famosa por conta do templo dedicado à deusa Ártemis, construído por volta de 550 a.C., deusa da caça, da fertilidade, dos animais, da lua e da maternidade, conhecida pelos romanos como Diana – coincidência? Segundo a mitologia grega, Ártemis, gêmea de Apolo, nasceu primeiro e ajudou sua mãe com o parto do irmão. Seu culto se tornou tão popular que em certos lugares passou a ser mais importante do que outros deuses olímpicos. Na Ilíada, a guerra de Tróia narrada pelo poeta Homero, a deusa é retratada como defensora da cidade. Embora Tróia seja considerada mitológica, a arqueologia apontou diversos indícios de sua existência no território contemporâneo da Turquia. Em Éfeso o culto à deusa Ártemis ajudou a cidade a prosperar economicamente. Ártemis – ou Diana – é uma deusa também ligada à pureza e autonomia, pois pediu a seu pai Zeus que a mantivesse eternamente virgem. Neste contexto a castidade representa o empoderamento feminino e a insubmissão ao sexo masculino; tanto que quando um caçador tentou abusar de sua pureza, ela o transformou em cervo para que pudesse ser caçado por seus amigos. Outra personalidade que marcou a história de Éfeso é, como eu disse antes, Maria. A mãe de Jesus viveu a nove quilômetros do principal templo dedicado a Ártemis. Estávamos muito ansiosos para ver a Casa de Maria com nossos próprios olhos. Segundo o cristianismo oriental, após a crucificação de Jesus, Maria veio morar em Éfeso. A casa que João construiu para a mãe de Jesus se tornou uma lenda, até que no início do século XIX a freira agostiniana alemã Ana Catarina Emmerich, alegou ter visões e epifanias sobre a história de Jesus e sua mãe. Em 1881 o abade francês Julien Gouyet descobriu um pequeno edifício em uma montanha com vista para o mar Egeu e para as ruínas de Éfeso. Gouyet acreditava ser a casa descrita pela irmã Emmerich. O Vaticano nunca se pronunciou sobre a autenticidade da Casa de Maria; todavia, o Papa Leão XIII, em 1896, fez uma primeira peregrinação ao local, seguido pelo Papa Pio XII que elevou a casa ao status de local sagrado. Ao longo dos anos, outros papas visitaram a Casa de Maria, dentre eles, João Paulo II em 1979 e Bento XVI em 2006. Infelizmente, devido à distância entre um ponto e outro, e ao tamanho do complexo de Éfeso, não conseguimos chegar até a Casa de Maria a tempo; tivemos que nos contentar com a visita ao Meryem Kilisesi, uma igreja do século II d.C. construída para servir aos concílios – célebres reuniões decisórias do alto clero cristão. No Concílio de Éfeso duzentos abades discutiram a respeito da natureza divina de Jesus e a castidade de Maria. Ao final da reunião foi afirmado que Jesus era filho de Deus e a Virgem Maria receberia o título de Teótoco, isto é, mãe de Deus. O concílio de Éfeso nomeou Maria como “Mãe de Deus”, mas, o islã preservou uma narrativa um pouco diferente. Conta-se que quando a mãe de Jesus começou a sentir as dores do parto, se retirou para um lugar isolado, se agarrando em uma tamareira ela orou para que Deus a aliviasse da dor. Allah a consolou, colocando um riacho sobre seus pés e fazendo cair tâmaras frescas para que ela pudesse beber e comer. Quando voltou ao povoado, já com o bebê nos braços, foi questionada sobre o pai da criança. Maria respondeu que eles deveriam perguntar ao bebê. Foi então que o primeiro milagre de Jesus foi protagonizado e Deus permitiu que ele falasse: “Ele lhes disse: Sou o servo de Allah, o qual me concedeu o Livro e me designou como profeta.” (Alcorão 19:30) Quanto à assunção de Maria não existe nenhuma fonte islâmica que ateste ou refute a crença popular cristã, tampouco há descrição sobre sua morte. No entanto a Igreja do Sepulcro de Santa Maria, administrada pela Igreja Ortodoxa Grega, em Jerusalém, possui um local para que os peregrinos muçulmanos possam fazer as suas orações. A viagem até Éfeso foi completamente diferente do que tínhamos planejado, mas como não existe bússola em nossas viagens, deixamos o vento nos guiar. Sem ver o templo de Ártemis – o qual atualmente se resume a uma única pilastra de pé – nem a Casa de Maria, passamos o dia com a sensação de perder dois locais símbolos das raízes do feminismo. No entanto, assim que chegamos em Izmir, descemos para jantar com os amigos sírios, mencionados em “Democracia, um colete salva-vidas”. Percebi uma linda mulher vindo com seu filho, olhei para ela meio de canto para não a constranger, para minha surpresa, ela me olhava também. Ela sorriu e disfarçou, sorri de volta. O marido que a acompanhava puxou assunto com o Lucas que conversava com nossos amigos sírios. Mais à vontade, a mulher me perguntou sobre minha tatuagem de Allah. Quando percebi, outro casal – com outro lindo menino – se juntou a nós; por coincidência, palestinos de Gaza que têm amigos em comum com Lucas. A bagunça idiomática que fizemos conversando fez a rua parar e sorrir por alguns instantes. Entre inglês, português, turco, árabe, tudo muito precário e acompanhado de boas mímicas e jogos de adivinhação, acabamos nos entendendo. Aquela sensação de perder um pouco de Ártemis e Maria logo se calou, pois acabamos conhecendo duas mulheres, mães assim como eu, uma de cada extremo do planeta. No fim, seguimos nossos caminhos com a certeza de que a vida é um mistério glorioso; em momentos de sintonia como esses, tenho a certeza de que o universo feminino transcende o idioma, as fronteiras e o tempo. Maria e Ártemis certamente estavam entre nós; o passeio estava completo.

  • Explorando Karsiyaka sob chuva e negociando botas nos mercados da Turquia

    Minhas botas estavam em um estado lastimável. Ontem parecia que estava andando descalço pelas ruas congelantes de Izmir. Hoje, para piorar a situação, chove. Preciso comprar botas novas, isso é fato, mas comprar nem é o pior dos problemas; o pior é sugerir para Di uma visita a outro mercado de pulgas na Turquia. Baixei o mapa no celular e lá fomos nós. Pedimos informação para uma senhora do restaurante que almoçamos ontem. A cena pode parecer algum tipo de comédia, mas para nós, era só mais uma demonstração da gentileza turca. A senhora que não falava inglês – assim como nós – fazia mímicas, caras e bocas para explicar como chegar ao distrito de Karsiyaka, onde fica o Bostanli Bazar; ela chegou até a pedir para outra pessoa no restaurante nos explicar em inglês, mas não rolou. Foi então que resolveu desenhar um mapa. Ah, agora sim! Seguindo pelo mapa da senhora, atravessamos pela passarela e caminhamos pela orla do Egeu. Começou a chover novamente e, para completar, uma ventania só. Menos de 10 minutos de caminhada e lá estava eu com o pé molhado e gelado. Pegamos o ferry boat público, que por sinal, de fazer inveja para nós que sempre atravessamos o canal do porto entre Santos e Guarujá, e em 30 minutos já estávamos do outro lado e caminhando na direção do Bostanli Bazaar. Esse mercado, uma espécie de Brás turco, só abre às quartas-feiras. Em um piscar de olhos, o enorme galpão vazio é preenchido até transbordar de barracas de frutas, verduras, legumes, nozes, utensílios domésticos, brinquedos, perfumes, bolsas, tapetes, porcelanas e, claro, roupas, montanhas delas. Alguns vendedores sobem em cima de suas mercadorias com sacos gigantescos de roupas novas e usadas e ficam gritando para atrair os clientes. Minha querida Diana Emidio, como perita em compras que é, me disse que as melhores barracas e os melhores preços são as que estão sendo disputadas pelas senhoras mais velhas. Ela me disse que chega a dar brigas entre as mulheres na disputa, mesmo que não tenhamos visto, acredito mesmo que isso aconteça. Gostaria que não estivesse chovendo para que pudéssemos conhecer um pouco mais a região de Karsiyaka, local onde se encontra o mercado. Karsiyaka é um distrito de Izmir profundamente associado ao comércio, entende-se por quê! Porém, o mais charmoso deste bairro são as konaks otomanas, incluindo a casa onde a mãe de Atatürk passou seus últimos dias e que está enterrada. “Povo de Karsiyaka de Izmir ... saúdo–vos com profundo afeto ... Amo todos os residentes de Izmir. Tenho certeza de que as pessoas de coração puro da bela Izmir também me amam. Uma mera coincidência me conectou ainda mais a Karsiyaka. Povo de Karsiyaka, minha mãe está em seu peito, em sua terra. Povo de Karsiyaka, no dia em que vi İzmir, vi pela primeira vez Karsiyaka e o túmulo de minha mãe, que estava deitado em seu solo turco.” Kemal Atatürk Com certeza, vale muito a pena dar um passeio pela região de Karsiyaka, quanto ao Bostanli Bazaar, essa já é outra história, pois precisa verdadeiramente estar com muita vontade de fazer compra para enfrentar as marés de compradoras e vendedores enlouquecidos. De qualquer maneira, esse passeio não deixa de ser uma imersão cultural no estilo de vida turco. Subimos e descemos várias vezes por entre as barracas e tudo era realmente barato, principalmente as roupas. Infelizmente, a única coisa que não encontrei barato foi a bota que tanto precisava. Como chegamos tarde e cansados ao bairro de Konak, vou deixar para esquentar os pés amanhã.

  • O sonho de Osman e o início do poderoso império otomano

    Quando jovem, Osman Ghazi sonhou com uma árvore tão grande que suas raízes se estendiam por três continentes para beber da água de quatro rios diferentes. A majestosa árvore era tão vasta que seus ramos faziam sombra em quatro cadeias de montanhas orientais. Ontem, a chegada em Izmir foi literalmente um sonho. Assim como Osman, eu sonhava com uma grande árvore, mas minha árvore era minha avó. Sonhei até que o Lucas me acordou e disse “chegamos”. Acordar em uma cidade como Izmir, descer ainda zonza e ser recebida como fomos, não tem como não se apaixonar. Assim que entramos no hotel fomos abraçados pela cordialidade e hospitalidade do povo turco. Os senhores na recepção do hotel Konak Saray, literalmente nos receberam de braços abertos. Mesmo chegando horas antes do check-in eles nos entregaram as chaves do quarto e nos convidaram a tomar um café. Depois de passar uma noite desconfortável em um ônibus da Capadócia a Izmir (catorze horas de viagem), tomamos um maravilhoso café da manhã, com muitos tipos de queijos e azeitonas, oferecido por nossos anfitriões do Konak. Izmir chegou tomando toda licença poética. Hoje, ao acordarmos, conferi que a previsão do tempo era para um dia chuvoso. Decidimos ficar por perto do hotel e passear pela região. No primeiro passeio Izmir conquistou nossos corações; ruas limpas movimentadas e uma atmosfera gostosa. Nosso primeiro passeio foi pela Ágora da cidade, a poucos metros do hotel. As ágoras eram grandes áreas públicas nas antigas cidades gregas onde se concentrava a arte e aconteciam todos os tipos de eventos sociais, políticos, religiosos e comerciais. As construções que abarcavam todos os prédios públicos se tornaram precursoras dos fóruns romanos. A Ágora de Izmir é uma das mais antigas e bem preservadas do mundo, devido ao excelente trabalho arqueológico realizado em parceria com a Diretoria do Museu de Izmir e a Sociedade Histórica, iniciado em 1933. Construída por Alexandre, o Grande, no século IV a.C., e posteriormente reconstruída pelo imperador romano Marco Aurélio, após um terremoto. No período otomano a Ágora de Izmir foi usada como cemitério e sala de orações. Durante as primeiras escavações, foi descoberto que a forma retangular com longas colunas que arqueiam os corredores paralelos e as galerias pluviais, guardavam um altar de veneração a Zeus. Diversas outras estátuas em referência a Hermes, Dionísio, Eros, Hércules, a Vesta, além de muitas outras referências masculinas, femininas, de animais, relevos, estatuetas, artefatos de mármore, osso, vidro, metal e terracota foram encontradas no local e transferidas para o museu de arqueologia de Izmir. Um passeio feito por turistas normais não levaria mais de trinta minutos, mas não tínhamos pressa e o local estava vazio, portanto, nos perdemos nas horas. A parte aberta à visitação é impressionante, com peças e galerias bem cuidadas e restauradas. No entanto, o mais fantástico é saber que as escavações não pararam e que ainda tem muito a ser descoberto, já que no local existem algumas áreas restritas, nas quais só podemos observar sem fotografar. Não que soubéssemos de tudo isso antes de viajar; na verdade nem sabíamos da existência dessa joia de Izmir, por sorte nos hospedamos na rua de acesso ao sítio arqueológico. Antes de todas as viagens costumamos abaixar os níveis de ansiedade estudando a cultura local, mas as coisas geralmente são bem diferentes quando chegamos. Quando escolhemos a Turquia como destino sabíamos que encontraríamos muitas heranças de tempos e impérios diferentes; gregos, romanos, bizantinos, turcos; só não imaginávamos que estariam tão bem preservados e tão perto de nós. Nosso dia não estava nem na metade, então resolvemos nos afastar um pouco. Descendo pelo mercado da cidade velha, por entre roupas, verduras, legumes e frutas gigantes, demos de cara com um carrinho do qual exalava um cheiro adocicado. Olhei para o Lucas, mas ele nem se ligou o que era. Entrei na fila e fui explicando algo que eu já tinha visto em vídeos de outros mochileiros na Turquia. Aqui, quando um membro da família morre, os familiares costumam oferecer alguns bolinhos – parecidos com nossos famosos bolinhos de chuva – em homenagem ao falecido. Não sei dizer se apenas esses bolinhos são oferecidos, mas os carrinhos ficam nas ruas exibindo as fotos do ente querido que partiu enquanto filas de estranhos se formam para comer os bolinhos. Chegando à praça do relógio, cruzamos algumas vezes com esses carrinhos. Lucas não conseguiu entrar na fila – achei melhor não perguntar –, mas eu entrei e ele acompanhou do lado e depois até comeu alguns. Entendo que cada cultura tem uma maneira diferente de lidar com o luto, no entanto, a maneira turca foi a mais bela que já vi – e vimos muitas maneiras diferentes por aí. Os bolinhos são muito simbólicos. Algumas pessoas – como eu – entram na fila como uma experiência de compartilhar do costume local e isso acaba se tornando um momento para pensar em alguém que faleceu, mesmo sem o conhecermos. Por outro lado, como existem muitas pessoas em situação de refúgio no bairro de Konak, aqueles bolinhos são uma refeição grátis. Eu achei a maneira turca, a mais extraordinária que se pode fazer em memória de alguém querido que partiu: alimentando desconhecidos! Depois de passear pela Ágora e comer os bolinhos na praça do relógio andamos novamente por todas as vielas do mercado local de Konak, onde cada mercadoria simboliza um pedacinho da cultura otomana e do sonho de Osman e sua gigantesca árvore. Hoje não existe mais um Império Otomano, grande parte do seu território foi repartido entre potências europeias – por exemplo, a Palestina, Síria, Líbano e outros. No entanto, desde o nascer até o pôr do sol, tudo, hábitos, cultura, religião, decoração, culinária e arquitetura derivam da imponente árvore que Osman sonhou quando jovem, incluindo a gentileza e simpatia dos recepcionistas do hotel Konak. A árvore de Osman pode até ter sido derrubada e dividida entre colonizadores; suas raízes, porém, continuam vivas no coração desse país maravilhoso chamado Turquia.

  • Alaçati, Democracia e um colete salva-vidas

    Gostaríamos de abordar outro assunto, porém, desde que chegamos em Izmir, não conseguimos nos concentrar em outra coisa senão o ataque terrorista contra a democracia brasileira. Assim que chegamos no hotel Konak Saray, o recepcionista nos disse que estavam sem internet, mas era um problema em toda a região e que mais tarde voltaria ao normal. Sem problemas; pensamos. Guardamos as malas e fomos trocar de roupa para sair. Como não havia internet, a Di pela primeira vez em uma viagem, ligou a televisão para fazer um pouco de barulho. Foi quando vimos uma emissora de notícias turca exibindo imagens ao vivo do Brasil. Cenas de nosso país sendo vandalizado e violentado. Não entendemos nada, pois estava tudo em turco. Quando o Presidente Lula e o Ministro Flávio Dino apareceram na tela, um narrador traduzia para turco o que estavam falando e tirava o áudio original. Repetindo; não tínhamos internet e não havia como saber o que estava acontecendo. Encontrar um canal em inglês não foi problema, pois todos os canais reproduziam imagens do Brasil. A legenda na TV dizia “tentativa de golpe contra a democracia no Brasil”, ou algo desse tipo. Como não havia uma forma de ter mais detalhes sobre o que estava acontecendo, decidimos ir até a cidade de Alaçati e, quem sabe lá encontrar internet e nos orientar melhor. Estar em Izmir e ouvir falar em golpe contra democracia brasileira é, no mínimo, deprimente. Não sei se é de conhecimento dos terroristas brasileiros, ou se eles apenas não se importam de depredar nossas instituições democráticas, ao passo que mais de cem milhões de pessoas fugiram de suas casas para encontrar somente um pouco do que temos. Assim que começamos a descer pela rua Konak, a primeira coisa que vi foi uma loja com coletes salva-vidas. Nós sabíamos o motivo para tantos coletes pendurados em destaque em diversos estabelecimentos. A crise dos refugiados, a maior da história, está evidenciada em Izmir pelos coletes salva-vidas expostos nas vitrines, ao lado de equipamentos eletrônicos. Quando chegamos em Alaçati, paramos em uma lanchonete e conseguimos saber o que estava acontecendo no Brasil. Tomamos uns mil chás enquanto revirávamos as notícias das últimas 24 horas. A todo momento eu pensava como era possível isso acontecer em um país como o Brasil! Temos nossos defeitos e falhas, mas ainda assim temos uma democracia. Em Alaçati, cidade anterior à Çesme, fiquei pensando como é fácil, barato e seguro para qualquer turista chegar à Europa Ocidental. Do bairro Konak saem ônibus com translado em balsas que levam direto para ilha de Lesbos, na Grécia; ainda mais perto é possível pegar um ônibus no Otogar (rodoviária) ao lado do Istinye Park – como fizemos para chegar até aqui – e seguir para cidade de Çesme por 70 liras turcas (cerca de R$ 20,00). Çesme fica a somente 18 quilômetros da ilha grega de Chios. No entanto, isso é apenas para os turistas. Para os refugiados ou migrantes, a travessia da Turquia rumo às ilhas gregas é feita clandestinamente, com alto índice de mortalidade e risco de ser devolvido ou abandonado pelas autoridades gregas à deriva. Por este motivo tornou-se lucrativo vender coletes salva-vidas próximos aos aparelhos eletrônicos. Poucos dias antes de chegarmos aqui, em dezembro de 2022, a guarda costeira turca resgatou mais de 200 refugiados no mar Egeu. Uma operação em Izmir encontrou 61 imigrantes à deriva, rejeitados pela Grécia. A cidade de Izmir, para alguns tornou-se uma passagem obrigatória; para outros, abrigo temporário. Infelizmente, no entanto, para tantos outros, Izmir se tornou o ponto final. No último artigo que publiquei antes de viajar: “Neste Natal, mais de cem milhões de pessoas formam o maior presépio vivo da história”, escrevi que mais de 103 milhões de seres humanos fugiram ou foram expulsos de suas casas. O que eu não sabia é que grande parte dessa população passou ou se estabeleceu em Izmir. Segundo o último relatório de Tendências Globais do Alto–comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), a Turquia recebeu sozinha 3,7 milhões de refugiados, o país no mundo que mais acolheu pessoas em condições de vulnerabilidade. Izmir se tornou um dos principais pontos de trânsito dos refugiados que visam entrar na Europa via mar Egeu. Em 2014 o bairro de Basmane – a metros de onde estamos hospedados – tornou-se centro de tráfico de pessoas. Os contrabandistas além de realizarem o translado ilegal, fornecem transferências bancárias, chip de celular e, naturalmente, coletes salva-vidas. Porém, muitas pessoas impossibilitadas de pagar os altos custos do contrabando, acabaram se estabelecendo na cidade, dando prioridade aos bairros de Basmane e Konak por ficarem próximos a rotas de metrô, ônibus e barco. Os impactos causados pela onda migratória, agravada pela guerra civil na Síria – e seus 6,8 milhões de pessoas em situação de refúgio –, atingiu praticamente todos os setores de Izmir. Nos bairros de Basmane e Konak a presença de refugiados se tornou tão sólida que até mesmo a comida de rua se adaptou. Atravessando a rua, bem em frente ao hotel, comemos um delicioso shawarma em uma lanchonete de sírios originários de Aleppo e Damasco. Nas ruas é visível o grande fluxo de migrantes; além de sírios, encontra-se também pessoas de outros países do Oriente Médio e dos mais diversos países africanos. Diferente do que vimos no primeiro dia em Istambul, aqui em Izmir encontramos pessoas em situação de vulnerabilidade pelas ruas, mesmo que não exista muitos obstáculos formais para emprego ou estudo. Há ainda, para essa população, acesso aos mesmos serviços de saúde fornecidos aos turcos, bem como outras assistências específicas de instituições e ONGs internacionais. A Turquia não é um paraíso para os refugiados. Na verdade, o grande fluxo se deve às fronteiras com Síria, Iraque e Irã, dos quais derivam um vasto número de refugiados ou migrantes. Quando citei, na introdução deste texto, que “estar em Izmir e ouvir falar em golpe contra democracia brasileira é no mínimo deprimente”, estava pensando nos 3,7 milhões de pessoas refugiadas na Turquia e nos outros 99 milhões pelo mundo que fugiram de seus países de origem por medo, perseguição ou outros fatores de risco às suas vidas. Todas essas pessoas fugiram de países onde a democracia faleceu antes mesmo de nascer, dando lugar ao fascismo e regimes totalitários. No Brasil, mesmo que imperfeita, ainda temos uma democracia almejada por todas essas pessoas. Quando passei pelos coletes salva-vidas pendurados, tive um triste sentimento de que falhamos como humanidade, ao ponto de permitir que mais de cem milhões de outros seres humanos dependam de ajuda humanitária para sobreviver. Por outro lado, após uma reflexão mais detalhada, lembrei que esses coletes ajudaram centenas, talvez milhares de sobreviventes, somente no mar Egeu. Lembrei que para milhares de pessoas, esses coletes servem como última gota de esperança em um gigantesco oceano. Para nós, brasileiros, a democracia é nosso colete salva-vidas – cabe a nós, agarrar ou nos jogar à deriva.

  • Capadócia até à próxima

    Hoje é dia de partir. Os dias que estivemos na região da Capadócia foram incríveis e nos ensinaram muito sobre o povo turco, sua cultura, gastronomia e principalmente sua história. Ontem relatei que houve uma mudança de planos e, que ao invés de irmos para Istambul, decidimos ir direto para Izmir; isso passaria despercebido se no final não tivesse acontecido o que aconteceu. Quando fomos comprar a passagem, percebemos que o valor estava desproporcional ao valor para outras regiões. Na prática, o valor era o mesmo de quando viemos para cá, mas para outros lugares era muito mais barato que ir para Istambul. Como de qualquer maneira iríamos de Istambul para Izmir, resolvemos adiantar o roteiro. Compramos a passagem de um senhor bem simpático que nos fez tomar uns 20 chás. Até aí tudo bem. Passamos o dia inteiro bem preguiçosos, só apreciando a paisagem de Göreme; se não fosse pelo frio e uma bota rasgada que deixava o pé congelando, estaria melhor. Uma hora antes do embarque já estávamos lá na porta do senhor que vendeu a passagem e, claro, tivemos que tomar mais chá. Dez minutos antes do programado, o senhor começou a falar no telefone com o viva-voz ligado. Pensamos que não era nada demais, até que vi a cara que o casal que também esperava para o mesmo embarque fez. Falei pra Di: “deu merda”. O senhor começou a gritar com a pessoa do outro lado da linha. A Di estava de costas para o casal e ficava me perguntando como estava a cara deles; eu dizia que estavam com cara de que “deu merda”. Tinha dado merda! Meia hora se passou da hora programada para o embarque e nada de ônibus. Estava muito frio, não tinha como passar sequer uma noite sem um aquecedor. Se não embarcássemos para Izmir naquele dia, teríamos de pagar outra noite de hotel em Göreme, o que não é barato, além de perder uma noite em Izmir que já estava paga. A cena do senhor gritando no telefone se repetiu algumas vezes; percebemos que não haveria ônibus de Göreme para Izmir. De repente parou um táxi na porta da salinha onde o senhor havia nos vendido a passagem. Ele disse algo em turco para o casal, e eles saíram. Olhou para nós e disse “let's go”. Comecei a rir, olhei para Di e disse: “let's go” então! Empilhamos nossas mochilas sobre a do casal turco e nos apertamos no banco de trás, na frente o senhor e o motorista de táxi conversavam. Pensei que iríamos para algum lugar perto para encontrar o ônibus que abandonou nós quatro; mas nada. Depois de uns 20 minutos apertados, percebi que o valor no taxímetro já ultrapassava o valor das duas passagens para Izmir. Comentei com a Di e ela disse: – Coitado, será que ele vai ter que pagar isso? – Sei lá, respondi. Na estrada, o senhor fez algumas ligações. Tentávamos interpretar a cara de todos, a fim de entender por que estávamos em um táxi turco, sabe-se lá onde e indo sabe-se lá para onde. Quando o valor no taxímetro chegou próximo ao de três passagens, estacionamos atrás de um ônibus parado no meio da estrada com o pisca-alerta ligado. Ali entendemos o que havia acontecido. O ônibus realmente resolveu não entrar em Göreme para buscar apenas quatro passageiros, mas de algum jeito, aquele senhor fez com que o motorista parasse na estrada para nos esperar. Embora eu tivesse percebido que o casal do lado não tinha pago nada pelo táxi, fiquei pensando se aquele senhor não arcaria com um prejuízo do qual não tinha culpa, ainda mais se ele tivesse que pagar o táxi para voltar. Mesmo que nós também não tivéssemos culpa daquilo tudo, perguntei: “How much”? Ele sorriu e disse: “It's ok”! “Ok então”, pensei. Naquela noite percebemos outra qualidade dos turcos, além de honestos, eles nunca te deixam na mão. Então, se enquanto estiver na Turquia te enfiarem dentro de um táxi, vá sem a preocupação de ser esquartejado ou ter seus órgãos vendidos no Ebay, afinal, os turcos sabem como realmente cuidar bem de seus hóspedes.

  • Capadócia, a terra dos belos cavalos

    Ontem choveu, sabíamos que hoje estaria tudo branquinho de gelo. Os planos para o dia eram fazer o câmbio de moeda, comprar a passagem de volta para Istambul e depois subir novamente ao Sunset Point para aproveitar e fotografar o vale nevado. Mudança de planos! De última hora, nosso roteiro se retorceu no avesso. Ao invés de comprar a passagem para Istambul, compramos para Izmir; como o ônibus parte amanhã às 18h30 – antes do que nos programamos – mudamos também o tour do dia e antecipamos a visita ao Museu ao Ar Livre de Göreme. No caminho até o museu, entre Göreme e Ürgüp, passamos pelo Museum Ranch, uma espécie de haras de onde saem passeios a cavalo pelos vales ao redor. Enquanto caminhávamos pelo local, observei os belos animais e pudemos entender por que toda essa região se chama Capadócia. No século V a.C., os reis persas Dário e Xerxes, – aquele interpretado por Rodrigo Santoro no filme 300 – receberam cavalos desta região como tributos. Os persas então batizaram a região de Katpatuka, a qual quer dizer “Terra de Belos Cavalos”. Existem também outras fontes que contradizem a origem do nome, afirmando que deriva de Katpadukya, do vocabulário hitita que quer dizer o mesmo. De quem o nome Capadócia derivou de verdade, eu não sei; só sei que ambos estavam certos e essa realmente é uma região com os mais belos cavalos. Caminhando mais um pouco, chegamos ao famoso Museu ao Ar Livre da “Terra dos Belos Cavalos”. A área do museu foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1985, o que tornou o local como destino mais procurado pelos turistas. E por qual motivo? Porque aqui simplesmente se encontram as igrejas e monastérios dos séculos X e XI mais bem preservados da Turquia. Nos tempos romanos pré-cristãos, o vale de Göreme, especificamente a região do Museu ao Ar Livre, se popularizou por conta dos fiéis que peregrinavam até os templos e cemitérios esculpidos nas rochas. “O Museu a Céu Aberto de Göreme abriga diversas igrejas escavadas na rocha e uma arquitetura incrível, com pinturas que ainda mantêm um pouco das cores originais. São mais de 10 mosteiros, cada um associado a uma igreja, como a de Santa Bárbara da Cobra (onde está um afresco com São Jorge em seu cavalo), infelizmente é proibido fotografar na maioria das igrejas. É um passeio imperdível para quem visita à Capadócia.” Diana Emidio Os monges eremitas encontraram no Vale de Göreme um local de paz e tranquilidade para praticar a espiritualidade da vida monástica, principalmente por santos de outras épocas serem enterrados nessas mesmas cavernas. Tokali Kilise, uma igreja construída e reformada algumas vezes na antiguidade, é a peça mais preciosa do complexo, com as mais belas pinturas e afrescos que narram a vida de Jesus. Infelizmente, ou felizmente, fotografar ou gravar vídeo dentro da igreja de Tokali é proibido, sendo assim, fica somente as fotos da área externa. Caso tenha curiosidade, garanto que vale a pena saber mais sobre essa igreja e ver suas pinturas disponíveis no site oficial da Capadócia histórica, principalmente porque dentro de alguns dos locais que visitamos, é estritamente proibido fotografar e, aprendemos isso da pior maneira. Logo que entrei na primeira igreja, comecei a fotografar; foi então que surgiu o primeiro turco desprovido de educação. Ele começou a gritar, nós não entendemos nada do que ele falou; como disse antes, não falo turco e nem sei qual é o som de um “Ğ” ou um “Ş”. Respondi também em português “eu não falo turco”. Sei que ele não entendeu, mas disse “no photo”. Respondi “ok!” – Belos cavalos que nada, os daqui sabem mesmo é dar coices. Só para justificar, não costumamos desrespeitar nenhum local onde fotos são proibidas, mesmo que outros estejam fazendo, mas naquele monumento não tinha nenhuma placa dizendo “ei turista, é proibido tirar foto aqui”, se tinha estava escrito em turco. A visita a monastérios, igrejas e sepulturas foi incrível, em especial pelo sol que fazia e ajudava a esquentar. Ficamos algumas horas passeando por ali. No caminho de volta para Göreme, encontramos dois vendedores de lembrancinhas. Percebi que um deles usava um börk[1] dos cavaleiros otomanos. Nos devaneios desconexos que circulam meus pensamentos, imaginei aquele senhor um pouco mais jovem e montado em um daqueles belos animais que vimos no começo do passeio – não aquele que chegou gritando. Ele percebeu que eu estava admirando-o, então, para quebrar o clima, apontei para seu chapéu e disse que ele se parecia com Osman – fundador do Emirado Otomano, cujos descendentes transformaram em Império. Aquele gentil senhor riu e agradeceu, talvez por ter se surpreendido com um gringo que conhecia um pouco de sua história e cultura. Pedi para fotografá-los, o que concordaram sem pestanejar. Ao fazer o retrato, os senhores ficaram ainda mais surpresos e até felizes quando viram que a Di tem uma tatuagem escrito Allah em árabe. Eles compreenderam que aquela tatuagem simbolizava toda admiração da Di sobre sua cultura e religião. Fotografei–os, compramos algumas lembrancinhas de balões e nos despedimos; eles se despediram pronunciando o clássico Salaam Aleikum, que significa “A paz de Deus esteja com você”, nós, devolvemos a saudação também com a resposta em árabe – mesmo que não sejamos muçulmanos – com Aleikum Essalam, que significa “Esteja ela (a paz de Deus) com você também”. Não sei por que, e nem sei se o chapéu tinha algo a ver, mas fiquei muito impressionado com aqueles senhores. Toda raiva que eu tinha passado e a má impressão que tive durante o dia foram deixadas de lado após o encontro com aqueles senhores gentis que cruzamos no fim do dia. Amanhã é dia de dar tchau para a Capadócia, levaremos na mala as lembranças que compramos dos senhores, porém, as melhores lembranças que levaremos para casa são aquelas que não têm preço e não ocupam espaço físico. No futuro, toda vez que lembrar deste lugar, me virá à mente a imagem do senhor “Osman”, um turco muçulmano usando o seu börk de couro otomano e montado – mesmo que embora não estivesse – em seu mais “belo cavalo”. [1] O chapéu otomano "Börk" era uma parte do traje militar dos Janízaros, o corpo de elite do exército otomano. Esse chapéu característico era uma peça de cabeça alta, muitas vezes em formato cônico, decorado com plumas ou pompons, e era usado como distintivo de sua posição dentro do exército otomano.

  • Kaymakly, cidades acima e abaixo de nós na Capadócia

    Acordamos bem cedo, olhamos pelas janelas do quarto, abrimos a porta, olhamos para o céu e, nada! Não vimos os balões. Já faz alguns dias que estamos aqui e não vimos o espetáculo que atrai milhares de turistas todos os anos. Fomos tomar café com esperança de ainda ser cedo demais. Diferente dos dias anteriores, hoje o céu estava limpo e não ventava, tudo estava propício para o famoso voo dos balões; mas, nada! Enquanto subíamos a ladeira para o restaurante do Henna Hotel, vasculhávamos o céu em busca de um único “balãozinho”; estava acabando nosso tempo na Capadócia e precisávamos ver os balões. Um dos funcionários do hotel percebeu que estávamos eufóricos; ele sabia o que queríamos. Apontando para o terraço, ele pronunciou a palavra que estávamos esperando desde que chegamos: balloons! Subimos correndo. Por todos os lados lá estavam eles, balões enormes colorindo o céu da Capadócia. Os balões surgem por todos os lugares, subindo lentamente com os primeiros raios de sol. Eles aparecem de trás das montanhas do Sunset Point, das chaminés de fadas, no horizonte, por todos os lugares, até sobre nossas cabeças havia alguns. Os balões foram os primeiros veículos aéreos da humanidade. O primeiro relato histórico de um balão de ar quente surge na China, durante a Era dos Três Reinos (220 – 280 d.C.). No entanto, eram menores, não tripulados e tinham por intuito emitir sinais militares. Existem também especulações de que balões tenham sido usados pelos povos pré-incas no Peru, como auxílio para formação das famosas linhas do deserto de Nazca. Balões tripulados, como os que hoje decoraram a manhã em Göreme, foram confeccionados pela primeira vez pelos irmãos franceses Montgolfier, em 1783. No entanto, os primeiros tripulantes vivos a voar de balão foram um carneiro, um pato e um galo. Os balões se popularizaram em Göreme na década de 1990, ajudando a mudar o cenário da economia local. A cidade que hoje é a capital turística da região da Capadócia era um vilarejo agrícola e desconhecido até poucas décadas, mesmo possuindo tantas relíquias naturais, culturais e históricas para se ver. Os baloeiros ajudaram a transformar a paisagem e atrair cada vez mais turistas mudando o padrão de vida dos aldeões, que na grande maioria passaram a morar em cidades vizinhas maiores e transformaram suas antigas casas esculpidas nas cavernas em hotéis e outros comércios voltados para o turismo. Ficamos quase uma hora observando o espetáculo colorido, ali mesmo do terraço do Henna Hotel. Não tem muito do que possamos falar sobre os balões da Capadócia, nada de moral, nada de quebra de mitos, nada de nada; só posso dizer que é um espetáculo imperdível, principalmente para aqueles que, diferente de mim, não têm pavor de altura. Mesmo com os pés fincados como âncoras no chão, o espetáculo foi único, uma cena que nem Júlio Verne seria capaz de descrever com precisão. “Não consigo tirar os olhos do céu ao meu redor. As palavras estão presas e tudo está confuso. Só um desajustado preso à Terra, eu.” Learning To Fly, Pink Floyd. Após o show dos balões em Göreme, pegamos um ônibus até Nevşehir e de lá para a cidade subterrânea de Kaymakli. Conforme o Ministério de Cultura e Turismo da Turquia, Kaymakli foi construída durante o período de expansão do cristianismo, entre os séculos IX e X. No entanto, a arqueologia alega que as primeiras escavações dessas cavernas foram feitas por povos indo-europeus nos séculos VIII a VII a.C. Na região da Capadócia existem 36 cidades subterrâneas, sendo Kaymakli a maior. Começamos a descer e parecia não ter fim. São 8 andares; por sorte, só quatro estavam abertos para o público. Nos perdemos naqueles labirintos, imaginando um mundo desconhecido. Chegamos cedo para evitar aglomerações, mas logo começou a “chover” turistas, aqueles típicos com seus chapéus e câmeras a tiracolo, e seus guias animados contando a história daquele lugar. Eu e Lucas não somos nada típicos, enquanto eles passavam rápido pelas galerias, nós nos sentávamos, deitávamos e rolávamos naquele espaço cheio de mistérios. A cidade subterrânea é realmente grande, isso considerando que mais da metade estava fechada. A estimativa é que em seu auge a cidade abrigava mais de 3.500 pessoas, por isso aquele grande contingente de turistas nem chegou a incomodar. Saindo da cidade subterrânea de Kaymakli, o que mais precisávamos era esticar um pouco as pernas. Resolvemos fazer algo que é um costume frequente em nossas viagens: caminhar e conversar. Ao invés de pegar o ônibus de volta para Nevşehir, resolvemos seguir andando pela estrada. Caminhamos cerca de nove quilômetros pelo acostamento sem nos preocupar com o tempo. Nosso assunto principal foi as relações internacionais que nosso país perdeu com a Turquia e com o resto do mundo, principalmente com os últimos quatro anos do falecido governo Bolsonaro. Vou tentar explicar, não como analista, mas como alguém que conhece um pouquinho do mundo. O Brasil sempre foi um país pacifista e com boas relações com o Oriente Médio. Em 2002 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou a proposta do estadunidense George W. Bush para participar de mais uma invasão ao Iraque; um episódio que lembra mais uma revanche americana pela Guerra do Golfo. “Em 2002, fui visitar o Bush e ele veio com uma preleção de 40 minutos me mostrando o quão importante era acabar com o terrorismo. Isso fazendo um apelo para que o Brasil participasse do que ele chamou de luta extraordinária para acabar com o terrorismo, invadindo o Iraque. Eu simplesmente disse para ele: eu não conheço Saddam Hussein. […] Eu tive outra guerra: a fome. No meu país, a fome atingia 54 milhões de pessoas. E essa guerra eu ia fazer e ia ganhar.” Presidente Lula, 2022. Lula, apesar de negar participar de uma guerra contra o Iraque, não perdeu as relações que tinha com os Estados Unidos, não foi cúmplice do assassinato de milhares de inocentes e de mais uma invasão do Ocidente ao Oriente. Essa atitude estreitou ainda mais os laços comerciais do Brasil com países orientais. – Por que tivemos essa conversa e principalmente por que decidimos reproduzi-la aqui? – Porque a política externa do governo brasileiro, nos últimos anos, no lado oposto ao pacifismo que todos nós seres humanos, principalmente todos os que vivem no Oriente Médio, precisamos de paz. O Governo Bolsonaro se aproximou muito de Donald Trump (presidente americano) e Benjamin Netanyahu (Primeiro-ministro israelense), e não foi o único. Os últimos governadores João Dória (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro) fizeram o mesmo. Levando a Câmara dos Deputados a aprovar o Decreto Legislativo 228/2021, versão continuada da MSC 371/2019, que autoriza o convênio militar e policial entre Brasil e Israel. Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, comemorou em sua rede social com a frase “vitória de Israel”. Obviamente este acordo nunca visou nenhum tipo de favorecimento ao Brasil; se fosse, acho que a postagem seria “vitória do Brasil”. Ainda pior, esse decreto que só favorece a indústria armamentista israelense deixou o Brasil em uma situação de rejeição com os países do bloco oriental. Piorando ainda mais, o decreto ajudou a financiar a entidade sionista no plano de limpeza étnica contra o povo palestino. Sei que não faz muito sentido, um diário de viagem falar tanto sobre a política brasileira, ainda mais nos primeiros dias, mas é importante sim, já que a política brasileira reflete no curso que o mundo toma e vice-versa. Caminhando por uma estrada na região da Capadócia chegamos à conclusão de que precisamos novamente retornar nossos vínculos de amizade com esse bloco tão injustiçado. Hoje, quando vi os balões em Göreme, senti uma sensação de paz, apesar de todas as injustiças que nosso planeta enfrenta. Sinto que chegou o momento de o Brasil voltar ao que foi nos governos anteriores e valorizar mais as pessoas que sobem balões do que apoiar aqueles que despejam suas bombas.

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