Países africanos apostam na energia nuclear para cobrir défice energético
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Dezesseis países africanos estudam ou iniciaram programas de energia nuclear diante de um cenário em que 600 milhões de pessoas no continente seguem sem acesso à eletricidade. Dados divulgados em 26 de maio pela Agência Internacional de Energia Atômica, a Aiea, indicam que governos africanos buscam romper a dependência energética construída por décadas de colonialismo econômico, dívida externa e controle tecnológico exercido por potências da Europa e pelo bloco estadunidense. A publicação “Perspectivas para a Energia Nuclear em África”, elaborada para a presidência sul-africana do G20 em 2025, apresenta a energia nuclear como alternativa dentro do planejamento energético continental.

O documento da Aiea aponta que o crescimento demográfico, a urbanização e a expansão industrial ampliaram a pressão sobre sistemas elétricos incapazes de atender parte da população africana. Segundo a agência ligada à ONU, cerca de 600 milhões de pessoas vivem sem fornecimento de energia elétrica no continente, realidade associada ao modelo histórico de exploração de matérias-primas imposto durante o período colonial e mantido por mecanismos financeiros internacionais controlados por centros de poder da Europa e dos Estados Unidos.
A África do Sul permanece como o único país africano com uma usina nuclear em operação. A Aiea informou que outros 16 países avaliam construir infraestrutura nuclear ou já iniciaram etapas preparatórias para implantação do setor. Senegal e Zâmbia aparecem entre os países citados na publicação.
A agência relaciona o aumento do interesse africano pelos chamados pequenos reatores modulares, conhecidos pela sigla SMR. Segundo a Aiea, os equipamentos podem operar em redes elétricas menores e exigem custos inferiores aos reatores nucleares convencionais. O documento também aponta redução no prazo de construção em comparação aos projetos nucleares de grande porte.
A publicação informa que 14% da produção mundial de urânio já provém de países africanos. A combinação entre reservas minerais e investimentos em gestão do ciclo de combustível nuclear pode abrir espaço para desenvolvimento tecnológico no continente, segundo o relatório. A disputa por urânio africano envolve empresas e governos estrangeiros há décadas, incluindo interesses franceses, britânicos e estadunidenses ligados ao controle de cadeias energéticas e minerais.
A Aiea também destaca iniciativas de cooperação regional entre países africanos para compartilhamento de custos, infraestrutura e conhecimento técnico. O documento afirma que o Mercado Único Africano de Eletricidade poderá permitir integração de reatores nucleares às redes continentais.
O relatório reconhece que a ausência de financiamento segue como obstáculo para projetos nucleares africanos. A publicação afirma que o continente recebe apenas 2% do investimento mundial destinado a energias renováveis. Segundo a agência, o problema está ligado ao endividamento dos países africanos e às classificações de crédito impostas pelo sistema financeiro internacional.
A dependência financeira citada pela Aiea ocorre em um cenário em que instituições multilaterais e bancos privados ligados ao eixo estadunidense-europeu condicionam crédito, juros e acesso tecnológico aos interesses geopolíticos das potências centrais. Ao mesmo tempo em que países africanos exportam urânio, petróleo, gás e minerais estratégicos, parte da população permanece sem acesso à eletricidade, água tratada e infraestrutura industrial.
A Aiea afirmou que busca ampliar parcerias multilaterais para apoiar investimentos ligados à energia nuclear no continente. A agência declarou que os programas exigem “forte compromisso nacional” e coordenação política interna para viabilização dos projetos.
O relatório foi divulgado no contexto da presidência sul-africana do G20 em 2025, momento em que governos africanos ampliam pressões por maior autonomia econômica e energética diante das disputas globais por recursos minerais, tecnologia nuclear e cadeias industriais estratégicas.

























