

15 de mar. de 2026
EUA tentam retomar acesso a minerais do Sahel após expulsão militar
MODO DE NAVEGAÇÃO
Países do Sahel africano vivem um processo de reconfiguração política e geopolítica após a ruptura com a arquitetura de segurança dominada por França e Estados Unidos, processo que vem sendo descrito por analistas e movimentos sociais como uma “segunda independência”. Mali, Burkina Faso e Níger formaram em 2023 a Aliança dos Estados do Sahel (AES), pacto regional de defesa e cooperação que marca uma tentativa de consolidar soberania política, militar e econômica sobre uma região historicamente submetida à exploração colonial e neocolonial.
A transformação inclui políticas de nacionalização e maior controle estatal sobre recursos minerais estratégicos como ouro, urânio e lítio. Esses recursos são considerados essenciais para a indústria tecnológica global e para cadeias produtivas ligadas à transição energética. Segundo a pesquisadora Mikaela Nhondo Erskog, editora do Instituto Tricontinental e integrante da articulação Pan Africanism Today, os Estados Unidos procuram reaproximar-se da região após perderem presença militar direta. Em entrevista publicada em 15 de março de 2026, ela afirmou que Washington tenta reconstruir influência diplomática depois de ter sido forçado a retirar tropas e estruturas militares de países do Sahel. Um exemplo foi a retirada das forças estadunidenses do Níger, incluindo a base de drones construída em Agadez ao custo aproximado de 100 milhões de dólares, usada como centro operacional das chamadas operações antiterrorismo no Sahel e conectada a pelo menos 29 instalações militares permanentes em 15 países africanos.
A tentativa de reaproximação ocorreu no início de fevereiro de 2026, quando o responsável pelo Departamento de Estado para Assuntos Africanos visitou Bamako, capital do Mali, declarando que buscava “redefinir” as relações com os países da AES com base em “interesses econômicos e de segurança compartilhados”. O governo maliano respondeu de forma simbólica: no mesmo dia da visita diplomática, o Conselho de Ministros anunciou a criação da empresa estatal de mineração Sopamim S.A., controlada integralmente pelo Estado e baseada no Código de Mineração do Mali de 2023. O objetivo é aumentar o controle nacional sobre receitas provenientes da mineração e sobre participações do governo em projetos de exploração mineral.
Erskog afirmou que a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos divulgada em novembro de 2025 dedica apenas três parágrafos ao continente africano e trata a região principalmente como fonte de minerais e espaço de disputa geopolítica. “Isso não é uma parceria — é extração com uma nova roupagem”, afirmou. Ao mesmo tempo, os governos da AES têm diversificado suas alianças internacionais. China e Rússia ampliaram presença econômica e militar na região. O Níger assinou acordos com o Irã e também fechou um contrato de aproximadamente 400 milhões de dólares para venda de petróleo à companhia petrolífera estatal chinesa. No Mali, a mina de lítio de Goulamina, com investimento majoritário da empresa chinesa Ganfeng, prevê participação estatal de 20% e exigências de processamento local e transferência de tecnologia.
Segundo Erskog, a disputa geopolítica pelo Sahel ocorre em um território que concentra quase metade das mortes relacionadas ao terrorismo no mundo. Em 2023, cerca de quatro mil pessoas morreram em ataques armados na região. A pesquisadora lembra que a crise de segurança se intensificou após a intervenção da Otan na Líbia em 2011, que desestabilizou o norte da África e contribuiu para a disseminação de armas e grupos armados na região. Para os governos do Sahel, a questão central não é apenas quem extrai os minerais, mas se esses recursos poderão ser utilizados para desenvolvimento interno em vez de perpetuar ciclos históricos de dependência e exploração externa. Segundo Erskog, a construção de instituições estatais capazes de gerir esses recursos e resistir a pressões geopolíticas será um processo de longo prazo que poderá definir o futuro político e econômico da região.
apoie a ampliação do nosso trabalho
Valoriza o que estamos fazendo? Considere apoiar a ampliação do nosso trabalho com uma contribuição.
Frequência
1 vez
Mensal
Anual
Valor
R$ 10
R$ 20
R$ 30
R$ 40
R$ 50
R$ 100
R$ 200
Outro
/// Considere apoiar nosso trabalho com uma contribuição via PIX para a chave: jornalclandestino@icloud.com


































