

25 de mar. de 2026
Meninas palestinas seguem treinando boxe em meio à destruição e à fome na Faixa de Gaza
©THE NEW ARAB 2026
MODO DE NAVEGAÇÃO
Jovens palestinas seguem treinando boxe em meio à destruição e à fome na Faixa de Gaza, transformando o esporte em ferramenta de sobrevivência e resistência. O grupo Gaza Boxing Women reúne cerca de 40 meninas e mulheres entre 5 e 25 anos que treinam em condições precárias após a destruição de sua academia em 2024. Sem equipamentos adequados e sob bloqueio imposto por forças de ocupação, elas improvisam treinos em campos de refugiados no sul do território.
Fundado por Rima Abu Rahma, hoje com 27 anos, o grupo começou em 2020 como uma iniciativa informal após ela convencer o treinador Oussama Ayub a aceitá-la como aluna. “O boxe libertou uma parte de mim. Me fez sentir que eu tinha domínio sobre o meu corpo”, declarou Rima ao The New Arab. À época, o esporte era visto como inadequado para mulheres em Gaza, e o treinador inicialmente recusou o pedido. “Você sabe como a sociedade é e como as pessoas veem essas coisas”, afirmou Oussama, que acabou cedendo sob a condição de que os treinos fossem coletivos.
O projeto cresceu rapidamente, chegando a 45 integrantes e conquistando um espaço próprio na Cidade de Gaza com apoio de financiamento local e doações. No entanto, a iniciativa enfrentou ameaças diretas após imagens das atletas circularem nas redes sociais. “Eles estavam nos xingando e nos ameaçando. Disseram que iam incendiar o local ou nos agredir”, relatou Rima. A resposta veio com organização comunitária e diálogo, em um esforço para normalizar a presença feminina no esporte em um território submetido a décadas de cerco e fragmentação social.
Esse avanço foi abruptamente interrompido em 2024, quando a academia foi destruída por forças de ocupação israelenses. “Estava completamente destruído, como se tivesse virado cinzas”, disse Rima após ver imagens do local. Com o início do genocídio em outubro de 2023, a situação se agravou drasticamente. Segundo Rima, membros do grupo foram mortos nas primeiras semanas: “Perdemos três integrantes do clube — dois foram baleados em casa com o pai — além de um dos nossos treinadores”.
Deslocado para Rafah, no sul de Gaza, Oussama retomou os treinos ao ser procurado por antigas alunas. “Algumas das meninas me conheciam e perguntaram se eu poderia treiná-las novamente — eu concordei imediatamente”, disse ao The New Arab. Sem infraestrutura, os treinos passaram a ocorrer em espaços improvisados, com travesseiros substituindo sacos de pancada. No primeiro dia, 50 meninas compareceram.
Atualmente, cerca de 40 participantes dividem um único saco de pancadas e dez pares de luvas. As sessões acontecem três vezes por semana, com duração de duas horas, em um ringue desenhado na areia entre barracas de refugiados. A entrada de equipamentos esportivos segue bloqueada pelas forças de ocupação. “As pessoas me enviaram equipamentos, mas os ocupantes os devolveram na travessia”, relatou Oussama.
Além do treino físico, o grupo atua como rede de apoio em meio ao colapso humanitário. Quando a ONU declarou estado de fome em Gaza, os próprios integrantes organizaram arrecadações para garantir ao menos uma refeição diária. “Uma das meninas não estava conseguindo socar direito — ela não comia há três dias”, contou Rima. A alimentação consistia, em muitos casos, apenas de arroz, lentilhas ou macarrão.
As histórias individuais refletem o impacto direto do genocídio sobre a juventude palestina. “O amor pelo treino nos manteve firmes”, disse Rahaf Oda, de 16 anos, ao The New Arab. Já Remas Ayoub, de 15 anos, afirmou: “Eu costumava ser tímida e retraída. Me sinto mais forte agora”. Outra integrante, Remas Oda, de 14 anos, resumiu o vínculo criado: “As meninas são como minhas irmãs. Nós nos apoiamos e estamos juntas”.
Sem academia, sem equipamentos e cercadas por ruínas, essas jovens seguem treinando. Em Gaza, onde o cotidiano é marcado pela morte e pelo deslocamento forçado, o simples ato de levantar os punhos tornou-se uma afirmação radical de existência.
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