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15 de mar. de 2026

Oito anos sem resposta: Marielle Franco e Anderson Gomes seguem como ferida aberta da democracia brasileira

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Oito anos após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, executados a tiros em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro, familiares, aliados políticos e movimentos sociais voltaram às ruas para lembrar o crime e denunciar as lacunas que ainda cercam o caso.

As homenagens ocorreram em 14 de março de 2026 e incluíram uma missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no centro da capital fluminense, abrindo a programação do “Março por Marielle e Anderson Gomes”, agenda de atividades que se estende ao longo do mês com debates, manifestações políticas e eventos culturais.

Entre as atividades estão a exposição “Mulher Raça, o legado de Marielle Franco”, organizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), e o Festival Justiça por Marielle e Anderson, programado para ocorrer no Circo Voador, com debates públicos, apresentações artísticas e atos políticos. Durante a cerimônia religiosa, Anielle Franco, irmã da vereadora e ministra da Igualdade Racial, destacou o impacto humano e político da morte de Marielle. “Onde quer que ela esteja hoje, está orgulhosa do amor, do carinho, da nossa luta. Se estivesse aqui, seria mais uma voz por todos nós”, declarou.

Marielle Franco foi eleita vereadora pelo PSOL em 2016 com 46.502 votos, tornando-se uma das vozes mais visíveis na denúncia da violência policial, do racismo estrutural e do controle territorial exercido por milícias na cidade do Rio de Janeiro. O assassinato ocorreu durante a intervenção federal na segurança pública do estado, decretada pelo governo federal naquele mesmo ano, contexto político que permanece central nas análises sobre o crime. Embora o Supremo Tribunal Federal tenha condenado os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão como mandantes do assassinato, parte significativa da narrativa oficial se sustenta na delação premiada de Ronnie Lessa, ex-policial militar apontado como executor do crime.

Segundo análise publicada pelo Jornal GGN, a investigação apresenta lacunas relevantes que levantam dúvidas sobre o alcance real da responsabilização judicial. Um dos episódios mais controversos envolve o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra, na zona oeste do Rio de Janeiro, que inicialmente afirmou que um dos acusados teria ligado para a residência do então deputado Jair Bolsonaro antes de entrar no condomínio no dia do crime. Posteriormente, o porteiro recuou da declaração após pressões e questionamentos, enquanto a Polícia Federal sob comando do então ministro Sergio Moro limitou sua atuação à investigação da testemunha por suposta falsa comunicação, sem aprofundar outras linhas investigativas relacionadas ao episódio.

Outro ponto controverso envolve o álibi apresentado por Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, que divulgou registros internos do condomínio indicando sua presença na residência às 17h53 do dia do crime — horário em que os executores se deslocavam para realizar o assassinato. A divulgação desses registros contradisse sua própria versão anterior de que estaria na Câmara Municipal naquele momento.

O contexto político também inclui a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro em 2018, comandada pelo general Walter Braga Netto. O silêncio das autoridades militares sobre possíveis conexões políticas ou operacionais com o ambiente de milícias da região reforçou suspeitas de que o assassinato possa ter ocorrido dentro de um tabuleiro político mais amplo do que a disputa por territórios dominados por grupos paramilitares. O caso também foi marcado pela morte de personagens relevantes da investigação e por perícias consideradas insuficientes por familiares das vítimas e organizações de direitos humanos.

Para críticos do processo judicial, o resultado consolidado após oito anos representa uma solução institucional de compromisso: a responsabilização de mandantes intermediários sem alcançar possíveis níveis superiores de articulação política e econômica envolvidos na execução do crime. Nesse cenário, Marielle Franco e Anderson Gomes permanecem como símbolos de uma democracia que ainda enfrenta limites estruturais na responsabilização de crimes políticos no Brasil. Para familiares e movimentos sociais, a memória das vítimas tornou-se também instrumento de pressão permanente para que a verdade completa sobre o caso seja finalmente esclarecida.

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