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Ciência pública brasileira devolve movimento a tetraplégicos enquanto mercado aguarda lucro sobre a cura

A descoberta da polilaminina pela cientista brasileira Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, abriu uma possibilidade concreta de recuperação de movimentos para pessoas com lesão medular. O estudo foi conduzido no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da universidade e ganhou projeção nacional a partir de setembro, quando resultados clínicos começaram a circular. Segundo a pesquisadora, a proteína extraída da placenta estimula neurônios a se reconectar e formar novos axônios, revertendo quadros antes considerados irreversíveis. Dados do Ministério da Saúde indicam cerca de 8,4 mil casos anuais de trauma raquimedular no Brasil, em sua maioria homens de cerca de 30 anos vítimas de acidentes automobilísticos. O tratamento, ainda em fase de autorização regulatória, depende de investimento estimado em R$ 28 milhões para chegar aos hospitais.


Tatiana Lobo Coelho de Sampaio é uma bióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Tatiana Lobo Coelho de Sampaio é uma bióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

A mudança na rotina da pesquisadora ocorreu após a repercussão pública dos resultados iniciais. “Antes eu quase não via celular. Agora eu preciso estar atenta porque sempre tem pessoas me mandando mensagem”, afirmou Sampaio. A substância central da pesquisa, a polilaminina, é uma versão polimerizada da laminina — proteína conhecida há décadas por sua relação com regeneração celular —, agora aplicada à reconstrução de conexões nervosas.


O caso clínico mais divulgado é o do bancário Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que ficou tetraplégico após um acidente de carro em 2018. “Quando percebi que não sentia nada do pescoço para baixo, eu fiquei muito triste, só queria dormir”, relatou. A recuperação começou com um movimento mínimo: “Até um dia que acordei e vi que um dedão estava mexendo… Foi o que mudou minha vida”, disse o paciente, que hoje recuperou todos os movimentos. Dos oito voluntários iniciais, seis apresentaram melhora motora significativa.


A tecnologia possui vantagens clínicas relevantes: por ser proteína, não organismo vivo, reduz risco de rejeição e dispensa imunossupressores. Além disso, pode ser armazenada em freezer e aplicada rapidamente em cirurgias emergenciais. “A ideia é que seja aplicada o mais rápido possível depois da fratura, na hora da operação”, explicou a pesquisadora.


Apesar do avanço, o acesso ao tratamento ainda depende da autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de estudos adicionais de fase 1, previstos para incluir mais cinco pacientes no Hospital das Clínicas do Rio de Janeiro e na Santa Casa. O cronograma mínimo estimado para essa etapa é de três anos.


O desenvolvimento científico ocorre em parceria com o laboratório Cristália, responsável pela patente e pela produção do medicamento, evidenciando a tensão estrutural entre pesquisa pública e apropriação privada de tecnologias de saúde. A possibilidade de uma terapia de regeneração neurológica emergir de uma universidade pública brasileira expõe, por um lado, a potência do investimento estatal em ciência e, por outro, a dependência do modelo farmacêutico de alto custo para sua difusão.


O impacto da descoberta repercutiu na comunidade científica. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Vanderbilt, escreveu que a pesquisadora “teima que deve haver um jeito de contornar esse impedimento local dentro da medula… Quando aparece uma cientista obstinada, a história muda”.


A polilaminina ainda precisa cumprir etapas regulatórias, mas já simboliza uma ruptura científica relevante: uma solução de regeneração neural desenvolvida fora dos grandes centros corporativos globais, nascida de ciência pública latino-americana. Em um cenário mundial em que tecnologias biomédicas frequentemente se tornam mercadorias restritas, a experiência brasileira recoloca a pergunta central: quem terá acesso à cura quando ela finalmente chegar ao mercado.

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