Mulheres quéchuas interromperam décadas de extermínio de felinos selvagens nos Andes peruanos
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Nos Andes peruanos, a mais de 4.000 metros de altitude, uma comunidade quéchua interrompeu décadas de extermínio de felinos selvagens e transformou conflito em conservação ativa. Pumas, gatos-do-campo e o raro gato-andino, historicamente mortos em retaliação por ataques ao gado, passaram a ser protegidos por um projeto liderado por mulheres desde 2023. A iniciativa combina ciência comunitária, reflorestamento e geração de renda local para reduzir a predação e preservar o ecossistema de alta montanha. O documentário produzido pela Mongabay acompanha a trajetória de Ida Isabel Auris Arango e da bióloga Merinia Mendoza na virada cultural que freou a caça. O resultado concreto é a queda drástica dos conflitos e o fim das mortes retaliatórias de pumas na região.
Por gerações, em Ccarhuacc Licapa, a criação de alpacas — principal base econômica local — sustentou uma lógica de confronto: “Por muitas décadas, os homens organizaram caçadas de pumas. As peles desses animais ‘problemáticos’ eram penduradas nas paredes como troféus”, registra a transcrição do documentário da Mongabay. A mudança começou quando Merinia Mendoza introduziu armadilhas fotográficas como ferramenta pedagógica e científica. “As armadilhas fotográficas ajudam porque as pessoas, mães, seus filhos e familiares ficam entusiasmados ao verem os felinos selvagens. Eles se apaixonam e dizem: ‘Nossa, preciso respeitar e cuidar da minha casa’”, relata Mendoza no filme.
Ccarhuacc Licapa abriga três felinos andinos — o gato-andino, o gato-dos-pampas e a puma — predadores essenciais ao equilíbrio ecológico. “Como são carnívoros, mantêm o equilíbrio do ecossistema”, afirma a bióloga. O conflito, porém, sempre foi maior com as pumas, que se aproximam do gado e predam alpacas. Ida Isabel Auris Arango descreve o trauma que moldou a cultura do medo: “A puma já estava me observando. Ela desceu de entre as pedras e me hipnotizou. Eu não conseguia ficar de pé… Vi-a derrubar minha alpaca e arrastá-la pelas patas”.
A resposta do projeto, lançado em 2023 com 30 mulheres quéchuas, foi estrutural e mensurável. A associação passou a proteger 700 hectares de florestas de Polylepis, ecossistema crítico cuja perda empurra felinos para áreas humanas. Pastagens melhoradas e resistentes ao frio foram implantadas para manter o gado longe da floresta, reduzindo encontros com predadores e evitando a transmissão de doenças à fauna silvestre. “Essas gramíneas são perenes… não precisamos mais subir a montanha”, explica uma das participantes no documentário.
Medidas adicionais incluíram abrigos-piloto à prova de predadores para alpacas e a melhoria de galinheiros, reduzindo perdas para pequenos felinos. O efeito foi direto: “Desde o início do projeto, os conflitos com gatos selvagens diminuíram drasticamente e, pela primeira vez, pumas não estão mais sendo mortos em retaliação”, registra a Mongabay. A conservação também ganhou lastro econômico com uma cooperativa têxtil de lã de alpaca, inspirada nos próprios felinos protegidos, que sustenta famílias e fortalece a liderança feminina local.
A virada cultural sela o processo. “Eles agora estão se acostumando a não ver a puma como inimiga… conservar os gatos não significa não tocá-los, mas cuidar de seu habitat e não queimar ou cortar árvores”, diz uma integrante. Ida resume o novo pacto comunitário: “Podemos cuidar desses felinos andinos assim como cuidamos de nossos animais… Eu diria aos meus filhos: ‘Agora somos amigos. Somos compadres’”. Fonte: Mongabay, documentário e transcrição.









































