Documentário de Melania Trump escancara a mercantilização da Casa Branca
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O lançamento do documentário Melania expôs de forma cristalina como a Presidência dos Estados Unidos passou a ser tratada como plataforma comercial no segundo mandato de Donald Trump. Com orçamento estimado em US$ 75 milhões, o filme além de fracassar como obra cinematográfica, ainda simboliza a fusão explícita entre poder político, vaidade pessoal e interesses corporativos.
A produção acompanha os cerca de 20 dias que antecederam a posse presidencial de janeiro de 2025 e estreou no John F. Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. O local, tradicionalmente associado à cultura e à memória institucional dos Estados Unidos, serviu de palco para a transformação de um espaço público em vitrine de um projeto privado ligado diretamente à família presidencial.
Financiado pela Amazon MGM Studios, o documentário recebeu tratamento típico de um blockbuster. Comerciais em transmissões da NFL, outdoors em grandes cidades, ações promocionais em Las Vegas e até anúncios em Londres evidenciaram uma campanha agressiva e desproporcional para um filme de interesse restrito. Segundo informações divulgadas pelo The Guardian, a Amazon pagou cerca de US$ 40 milhões pelos direitos de exibição do filme e de uma série associada, além de outros US$ 35 milhões em marketing e distribuição.
O dado mais explosivo, porém, é o valor que Melania Trump deverá receber pessoalmente: cerca de US$ 28 milhões. A cifra provocou indignação entre analistas políticos e especialistas em ética pública, especialmente porque o fundador da Amazon, Jeff Bezos, também contribuiu para o fundo da posse presidencial. Embora a empresa negue qualquer troca de favores, a coincidência reforçou a percepção de que grandes corporações enxergam a Casa Branca como um ambiente de negócios aberto.
O conteúdo do filme pouco ajuda a justificar o investimento. Ainda, segundo publicação do The Guardian, a ausência de revelações relevantes, a superficialidade do retrato e a insistência em uma estética luxuosa que mascara a falta de substância. Melania Trump, conhecida por sua postura distante e por evitar envolvimento público consistente, surge mais como uma figura encenada do que como protagonista de uma narrativa política ou humana significativa.
Especialistas do setor audiovisual projetam uma bilheteria modesta, estimada em até US$ 5 milhões no fim de semana de estreia — um desempenho pífio diante do custo total do projeto. Para documentaristas experientes, o filme exemplifica a dificuldade de construir uma obra relevante sobre alguém que deliberadamente evita exposição, debate e posicionamento público.

Do ponto de vista histórico, o caso rompe com uma tradição observada por administrações anteriores. Primeiras-damas como Hillary Clinton, Michelle Obama e Jill Biden evitaram empreendimentos comerciais de grande porte durante o exercício do mandato presidencial, justamente para não misturar função pública com lucro pessoal. A decisão de Melania Trump segue o caminho oposto e normaliza a exploração financeira direta do cargo.
O documentário se encaixa em um padrão mais amplo do segundo mandato de Donald Trump, marcado pela monetização sistemática da imagem presidencial. Relógios, perfumes, joias, itens colecionáveis digitais e agora um filme de alto orçamento compõem um portfólio que transforma a Presidência em uma marca privada.
A autora Mary Jordan, biógrafa de Melania Trump, resumiu de forma contundente as motivações do projeto ao apontar o dinheiro como fator central, acompanhado do desejo de controle narrativo. Para ela, o filme não revela quem Melania realmente é, mas reforça a tentativa de impor uma versão cuidadosamente editada de sua imagem ao público.
Mesmo iniciativas políticas destacadas no documentário — como ações voltadas ao bem-estar infantil, segurança online e educação — são tratadas de maneira superficial, mais como elementos decorativos do que como políticas substantivas. No fim, Melania não entra para a história como um marco cinematográfico nem como um retrato relevante da vida pública americana. O filme se consolida, antes, como símbolo de uma presidência em que os limites entre Estado, família e mercado se dissolvem deliberadamente — e em que a Casa Branca passa a operar, sem disfarces, como um empreendimento altamente lucrativo.







































